Acerca da eternidade do Führer

Fotografia de Rasa Kasparaviciene

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Sempre que pode, Sven Vogel atravessa a pé velhas províncias da Europa à cata de lugares arruinados. Investe pelo interior de túneis e de caminhos ferroviários abandonados, invade o segredo de florestas, devassa o silêncio de portões enferrujados, e aí, no lugar onde as teias de aranha amortalham e os grandes silvados escondem, Vogel fotografa.

Fascinam-no especialmente os castelos, os antigos sanatórios, os edifícios estatais reduzidos a escombros, os teatros mal seguros nos pilares, os hotéis maravilhosos da Belle Époque caídos numa decadência luxuosa e sem piedade. A objetiva das suas câmaras alimenta-se deste entulho, deste silêncio podre, do pó, da oxidação dos ferros e dos vitrais ultrajados, da coisa humana comida já pela morte.

Recentemente, numa das suas deslocações à Baixa Baviera, Vogel descobriu o que resta de uma antiga escola primária.

Na mesa que outrora pertenceu ao professor, dentro de uma pesada gaveta que precisou de arrombar, ao lado de obsoletas canetas de tinteiro e de sujíssimos frascos de vidro fosco, os seus dedos tocaram um caderno pequeno, de contornos arredondados, em cuja capa (sobre a águia e a suástica), o tempo lavrou um líquen peculiar em forma de caranguejo.

No papel amarelecido, entre cálculos e exercícios de gramática, no meio de frases da propaganda nazi e de pequenos improvisos pueris, podia ler-se o seguinte:

Meu querido Franz,

Enobreces a tua escrita com a paixão de um poeta e a lucidez de um filósofo. Graças à nossa escola e a alunos como tu, a sagrada pátria alemã permanecerá para sempre viva e pujante. A tua composição é um hino ao Führer. Ele, expoente da força e da superioridade, há de guiar-nos através da eternidade.

Vogel olhou em volta. O estuque derruído, as janelas estilhaçadas, as fezes dos pombos, e a intensa impregnação devida à urina dos ratos estrafegavam a sombra, mal permitindo respirar.

Debaixo do carimbo desbotado da suástica, assinava o panegírico Karl Oberheim. A data, completamente tomada pelo bolor, não a conseguiu o fotógrafo decifrar.

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O leproso

Fotografia de Yash Banerjee
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Era um penhasco, no cimo do qual antigos ermitões haviam edificado pedra a pedra uma pequena igreja. Olhada de longe, mal se distinguia da massa granítica. De perto, assemelhava-se a um abrigo de animais, com uma cruz empoleirada no topo.

Soeiro Ramires, falcoeiro, ou talvez ourives, ou alfaiate, ou peleiro real, conforme a versão do relato que até nós chegou, era portador da terrível hanseníase e encontrou no tosco e santo amontoado de calhaus o seu esconderijo. Não apenas para morrer, mas porque fugia da justiça. O seu crime, o ter mantido com outro homem relações contranaturais. A lepra e a culpa perseguiam-no implacavelmente.

Foi no tempo dos primeiros reis de Portugal. Também Afonso, filho de Sanches, neto de Afonso, morria como um gafo. Outros monarcas da cristandade haviam padecido e de padecer de igual enfermidade. Ele, Soeiro Ramires, fora tomado por um só pensamento: subir, subir o mais que pudesse, antes que demasiado tarde, a um lugar solitário onde a misericórdia do nosso Salvador mais depressa o descobrisse que o mísero discernimento humano, e esperar, senão a cura da pele, a absolvição da alma.

No alto do penhasco, lá, onde os pinhais se ocultam no nevoeiro, desceu da montada e instalou-se como pôde. Fazia lume e cobria-se com uma manta grossa, comia pão e orava.

«O amor escolhe-nos», pensava. «Com este grande pecado de amar ofendi o Criador, que assim conspurcou a minha face, as minhas mãos, os meus braços e todo o meu corpo».

O frio punha a sua veste branca a toda a volta. Grandes nevões mergulhavam do céu e faziam rebrilhar as montanhas beirãs do sopé aos ossos agudos dos seus cumes. Tremendo, este infeliz colhia alguma lenha e punha-a a arder.

Certa noite, uma grande estrela riscou o horizonte de lés a lés, caindo em cinza luminosa sobre a sua cabeça. Soeiro Ramires admirou-se muito. Não só as tremuras e o prurido da carne deixaram de o torturar, como uma grande paz, uma impressão de renascimento e de leveza inexplicável o reerguiam da vileza do mundo.

Conta-se que a doença o deixou, tão misteriosamente como chegara. Ramires entregou-se à vida religiosa, tornando-se um dos primeiros franciscanos a professar no reino. Um templo, de consideráveis dimensões, foi construído no lugar do primitivo, a Igreja de São Francisco, de São Sebastião e da Natividade.

Hoje, pouco frequentado, quase ao abandono, é onde se dirigem ainda os crentes desesperados, em busca de um milagre e de redenção.

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Um mendigo

Fotografia de Mark Williams

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Certas frases soam ao brilho frio das igrejas, pensou Ricardo Navajo, enquanto acariciava, cheio de esquecimento de si mesmo, o pequeno cão a seu lado.

Neste canto da cidade, as esmolas são, de certo modo, menos avarentas, mas bastante mais barulhosas. Um homem colado ao chão ouve de tudo, inclusive palavras articuladas com mecânica sabedoria.

«Devemos sentir-nos gratos pelo que Ele nos reservou e reconhecer que é tão importante o bocado de pão, como a beleza da saxífraga.»

Quem o afirmou fê-lo com certeza tranquila, que era ao mesmo tempo a expressão exterior de uma frenética procura da alma. Depois, voltado para os seus ouvintes, numa espécie de prédica improvisada, também disse:

«Vede: há todo um fundo para onde nos pesa o corpo e todo um céu para onde devemos elevar a alma. Abaixo de nós a terra para nos cobrir, acima de nós as galáxias que nos hão de guiar para todo o sempre o espírito».

Ricardo Navajo coçou o queixo com os dedos enregelados e as unhas grandes. Depois, coçou o ventre maldisposto pela fome. A seguir, pôs-se a massajar a nuca do rafeirito de companhia, deslembrado da tigela de plástico onde dormiam alguns cêntimos em paz.

Nesta esquina da cidade, caminha-se quase sempre com pressa e quase nunca com piedade. As conversas que se atiram ao ar lembram muito os fogos de artifício: são lumes-fogachos que rutilam sem aquecer.

O orador acabou de entrar no Seminário com os discípulos; os automóveis buzinam com regular ferocidade; os semáforos abrem e fecham numa indiferença de deuses ancestrais.

Navajo possui o hábito de cismar no que os outros deixam, à sua passagem, em suspenso. O pensamento humano, se mais algum existe, organiza-se numa estrutura de andaimes. Cada homem vê o mundo da maneira que lhe convém, supondo-o único e universal do alto, ou do baixo da sua visão.

Que existem belas flores e estrelas à nossa volta, o mendigo não duvidava. Mas uma côdea de pão e dinheiro para a terra nos receber dignamente os ossos é outro campeonato.

Navajo recebeu agora mesmo o estampido firme que faz a moeda de um euro. A quadra do Natal é uma boa safra, responderia, se alguém lhe quisesse saber como anda a vida. Agradece-a com uma vénia estudada, enquanto a palma da mão lhe corre pelo lombo de Riquinho. Assim se chama o melhor amigo.

Era o que diria, se alguém lho perguntasse.

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Torben Bjørnsen

Fotografia de Clem Onojeghuo

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Houve uma época na vida de Torben Bjørnsen em que as ações fluíam e os aplausos chegavam de toda a parte. O sucesso parecia ilimitado e ele impunha-o nos gestos e nas palavras, porque era um escritor excelente e mais exímio orador ainda. As iniciais TB reluziam em letreiros livrescos e nas publicações universitárias, mas sobretudo nos panfletos e placares que punham à entrada dos esgotadíssimos anfiteatros onde ele amiudamente comparecia.

Mas isso foi noutro tempo.

Sem explicação que possamos dar a quem nos lê, Torben Bjørnsen lançou-se num voo cruel de autoapagamento: recusou entrevistas, repeliu convites, esqueceu mecenas e admiradores, calafetou-se num mutismo e numa solidão perturbadores, como se de súbito tivesse precisado de transformar a pele empática da sua pessoa num couraçado de escamas e de puas. Desde há quase duas décadas que lhe não conhecemos novos escritos, nem sequer os breves poemas em prosa de que gostávamos tanto.

À celebridade seguiram-se o ressentimento e a vendeta.

Uma espécie de ódio ao homem tem-se instalado na Dinamarca, país que como todos os outros acumula nobres e podres criadores de opinião pública. Há quem assegure que Torben fugiu apressadamente à justiça, por culpa de um qualquer crime do espetro das aberrações sociais. Há quem justifique o seu silêncio com uma conversão religiosa profunda, daquelas que não se esperam em dias tão desossados de espiritualidade, como são os nossos. Há, igualmente, quem legitime esta mudança com uma simples palavra: cansaço.

Ida Kjær, uma amiga comum, contou-nos recentemente que o reencontra uma vez por ano.

Torben não vive na Gronelândia, nas Ilhas Faroé, nem sequer numa dessas ilhotas a caminho da Suécia. Vive onde sempre viveu, com o seu gato, com a sua coleção de presépios, com os seus cadernos intermináveis onde rabisca emendas e símbolos rúnicos. «Apenas mais velho, muito mais velho, cheio desse brilho infantil que nos leva, neste Dia de Santa Lúcia, em multidão para os canais iluminados. Torben estará lá, anónimo e feliz, partilhando e recebendo lussebullar. Verás!»

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Dedicado a um avô

Fotografia de Carter Yocham

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O autor do presente conto rende homenagem a Johan Poortvliet, avô neerlandês, cuja perícia e dedicação salvaram do lixo um São Nicolau de corda do pequeno Wil Poortvliet.

Não foi fácil.

O brinquedo, feito de chapa e cerâmica, mergulhou a pique de um parapeito desguarnecido no terceiro andar da Nieuwe Keizersgracht na esquina com o rio Amstel e desfez-se em pedaços pungentes, que Wil Poortvliet aceitou mal. Correram-lhe pelo rosto lágrimas gordas. Um pranto.

Wil conhece já a vida. O gato doente dos vizinhos Huygen está por um fio. No seu pueril entender, assim que os olhos benévolos de Sinterklaas vissem o animal cansado de sofrer descobrir-lhe-iam uma solução contra a morte certa. Nenhum amigo das crianças, ainda que girando por ação de uma mola de aço e de rodas dentadas, pode ignorar um tal cuidado, ou deixar de esbanjar a sua bondade com um animal à beira do abate. Wil pensa que não.

Infelizmente as coisas passaram-se, como sempre se passam, de outro modo.

Encavalitado num móvel, o pequeno ia-se esgueirando em direção à fresta da janela à sua frente, onde Meneer Whiskers (um persa azul) o mirava fascinado. Soou dentro de casa um berro de alarme. O pequeno assustou-se. São Nicolau voou numa direção, ele noutra, o felino numa terceira.

Seguiu-se o estrondo. Na rua foi um horror de cacos e vísceras metálicas disparados do santo-brinquedo. Alguns transeuntes ajudaram a recolhê-los, cheios de pena.

Com paciência, com a paciência de um relojoeiro, Johan Poortvliet juntou tudo, colou tudo, consertou tudo. Conseguiu que Sinterklaas fizesse de novo o movimento de acenar, embora um pouco mais perro. Com a paciência de um avô, Johan Poortvliet conseguiu até que o boneco voltasse a acender os olhos e a repetir o gesto de tirar do saco um presente para o oferecer. Era um brinquedo combalido, remendado, mas bem-disposto.

O autor destas palavras apresenta o desfecho:

Meneer Whiskers (que traduzimos como «Senhor Bigodes») continua vivo. Apurou-se tal facto diretamente da boca comovida dos Huygen. Apesar das maleitas da idade, continua a dormitar ao sol do lado de lá do vidro e do tempo.

Ao que parece, do lado de é onde os milagres são corriqueiros.

No canto preferido do telhado Meneer Whiskers tem uma vista magnífica para o Amstel. Descendo para a caleira e avançando vinte passos de gato descobre uma vista privilegiada para o quarto do velho Poortvliet, cujos desvelos não passam despercebidos às suas longas e retorcidas vibrissas: um avô a brincar ao lado de um neto é coisa que entretém verdadeiramente um felino.

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Cacos

Fotografia de Himanshu Pandey

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A classicista Hilda Ruthgenstein acorda todos os dias cansada. Ergue-se, senta-se na beira da cama, espevita os olhos no escuro, esforça-se por recordar algo com que sonhou e só depois abre a janela do quarto. A abundância de luz e, sobretudo, o ar limpo das manhãs de outubro devolvem-lhe parte da antiga alegria.

Neste momento, todo o seu ser equivale a uma pilha de cacos de uma ânfora que se quebrou. Subsiste em si a ideia de perfeição, mas nenhuma inteireza ou capacidade de albergar premissas labirínticas ou a velha excelência em que foi educada.

Porquê?

Oh, essa é uma excelente questão. Hilda caminha pela casa e vai abrindo uma após outra todas as persianas, uma após outra todas as vidraças. Vencer a paralisia dos gestos é um empenho sério, porque as primeiras conquistas animam as segundas e encadear o sucesso constitui um modo de superar-se.

O seu escritório é a imagem da sua existência: folhas avulsas, não numeradas, de formatos e texturas distintas, livros abertos e sobrepostos, objetos fora do lugar, o computador com marcas de sujidade na tampa e no visor, uma gaveta expulsa do carreto, o busto de Homero tombado sobre papéis de jornais sem cor, eis o que aos nossos olhos se mostra como um exemplo de caos facilmente corrigível.

Todavia, a professora Ruthgenstein não tem vontade de emendar nada.

A doença, a impressão de derrota, a asfixia insuportável que medra no reino dos triunfadores, e, sobretudo, um cansaço imenso, uma fadiga de todas as fadigas, uma fraqueza de se não tolerar fraca e malsucedida corroem-na dos ossos à caverna monstruosa da alma. Hilda Ruthgenstein odeia-se, odeia a sociedade, odeia a cabeça abstrata de um deus que lhe cobra a todo o instante juros sobre sonhos irrealizados, odeia o futuro inalcançável, odeia o presente prenhe de migalhas e armadilhas. Apenas a rememoração de uma pequena parte da infância atenua tudo.

De rosto fito nalgum pormenor da casa em silêncio, extrai um pouco do outrora grande orgulho. Falamos de um klismos onde os seus dedos poisam sem peso. Falamos de quadros com ilustrações da Atenas de Péricles e da Roma de Cícero. Falamos das pequenas estátuas de mármore que figuram Hermes Trismegisto, Júpiter Capitolino ou Minerva. Falamos de uma curiosa ampulheta, vinda de Creta, com grânulos muito finos e luminosos, capazes de erguer uma pequena nuvem de ouro cada vez que Hilda os faz escoar pelo fino gargalo afunilado.

Dentro destas presenças vivem pessoas, baloiçam falas, subsiste uma aura.

Mas a académica não se comove. Nunca se comove. As lágrimas esqueceram o caminho de vir. Sente, isso sim, uma pontada recrudescer, um fulgor ainda não totalmente extinto. É como se dentro do seu ser pugnassem dois exércitos sem misericórdia, dois verbos que a quisessem ora noite ora dia, ora morte ora nascimento, ora a sua pessoa ora ela mesma na verdadeira aceção.

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Nausícaa

Fotografia de Annie Spratt

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No final das férias, a alegria extinguiu-se já no semblante de muitos turistas. À medida que a praia vai ficando deserta, com os detritos infelizes que nela abandonaram milhares e milhares de forasteiros descuidados e egoístas, o rosto de Nausícaa parece acender-se. Chegou a sua vez, o seu tempo, a sua paz.

As manhãs de setembro revelam um longo areal branco voltado para um mar cor de chumbo, um e outro a necessitarem de si, da sua fala mansa e desapressada, dos seus olhos benévolos que tudo observam, das suas mãos diligentes e sensíveis correndo sobre a crista escorregadia dos rochedos. Aí deixaram restos de plástico e restos de alumínio e pedaços de vidro e de cartão e de ráfia e redes e tecidos esgarçados e tiras de borracha e mais plástico e mais despojos de alumínio e mais esquírolas ameaçadoras de vidro.

Nausícaa extrai das poças, da linha da salsugem, do manto das areias, dos altos e baixos da maravilhosa duna sem fim todo esse lixo detestável. E cuida das anémonas feridas, das aves pelágicas, das madeiras quebradas nos passadiços, dos canteiros selvagens onde o funcho-do-mar e os rabos-de-lebre e as camarinheiras e a amófila sobrevivem ao vento, ao sal e às incursões malignas dessa gente faminta de fotografias e de admiração.

– Pobres criaturas, como estais tão ressequidas, tão cansadas, tão moribundas!

Em setembro as manhãs orvalham, o frio resvala pela corola, pelas folhas espinhentas, pelo caule antipático dos cardos. O nevoeiro avança e recua, abrindo e tapando no horizonte a linha lisa das águas.

A bondade não deve ser confundida com indulgência, nem esta com a cobardia.

No mundo dos homens há uma paleta tão vasta de comportamentos que pode um poeta pintar quadros repletos de verdade e de justiça, equilibrando-os entre o bem e o mal absolutos.

Nausícaa não pensa nisso. Se alguém a observa, vê-a neste preciso instante a recolher com todo o cuidado formas pontiagudas de vidro e carcaças amolgadas de metal, agarradas como bisso, como sórdidos intrusos, como presenças infames, às rochas nuas, indefesas, subjugadas da sua pequena ilha.

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Uma pilha de livros

Fotografia de Delphine Devos, old books
Fotografia de Delphine Devos

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para a Salomé

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Numa das ruinhas da vila, à esquina com a marginal, mal se dá conta de uma casa pequena de paredes caiadas e rebordos de granito. Deve ter sido noutro tempo o lar segundo de alguma família de bem, como o testemunham o jardim com jacarandás e uma estrutura em forma de estufa, de que sobram hoje troncos e partes metálicas retorcidas: percebe-se facilmente ter sido esse espaço amplo outrora e hoje muito mutilado por força dos edifícios espalhafatosos que cresceram no lugar dos canteiros e das latadas.

Os veraneantes atravessam uma avenida e depois arruamentos mais estreitos e por fim esta esquina silenciosa, abrindo para o mar. Nenhuma alma há de ter posto a sua força contra a cancela enferrujada nos últimos dez anos, de tal modo o óxido tingiu a primeira laje do passeio e se disseminou por todo o corpo desta vivendazinha.

Um escritor, que nesta localidade faz a sua vilegiatura, observou já o curioso limoeiro bravio que na parte mais esconsa do quintal oferece ainda, fordo, o seu fruto avantajado e solar.

Numa das janelas sobranceiras ao lancil, que o destino ou os antigos donos não puderam ocultar, surpreendeu o ocioso forasteiro, sombreada por uma velha cortina de ponto aberto, uma pilha colorida de livros com encadernações de pele e letras de ouro: D. Quixote em dois tomos, O Vermelho e o Negro, Assim Falava Zaratustra, Werther, Otelo, Quo Vadis, Viagens na Minha Terra, O Tartatufo seguido de O Doente Imaginário, O Príncipe e o Pobre, Eugénia Grandet. Outros estariam sobrepostos, mas já a piedosa curiosidade alheia os não atingia por culpa do plástico sórdido da persiana.

O escritor, que manteremos no anonimato, sentiu como um golpe de punhal este abandono particular.

Que uma geração esqueça todo o investimento das gerações precedentes é algo a que obriga a lei absoluta da modernidade. Ainda assim, com que falta de amor. E de escrúpulos!

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Apúlia, 11.08.2025

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«Sou feminista»

Fotografia de Kelly Sikkema

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«Sou feminista» principia deste modo todas as suas palestras, conferências e leituras poéticas Măgira Rumanesca, ficcionista romena, jovem, lésbica, feminista.

Por conta de um misterioso talento comunitário venceu todos os prémios literários do país na última década, tendo atraído a si um grau de conspicuidade raramente ao alcance de escritoras tão novas e audaciosas.

Da cátedra de Estudos Femininos na Universidade de Bucareste ao Prémio da União dos Escritores da Roménia, o seu nome corre em todas as antologias, revistas, Histórias da Literatura Moderna, encontros temáticos, jornadas de luta de escritoras emancipadas, sendo-lhe notória a aversão a homens, heterossexuais e colegas de fala apaziguadora. Escapam as figurinhas masculinas queer dos escassos alunos a quem leciona, levemente aparentadas com o timbre passivo a que deseja votar os filhos de Adão.

«Sou feminista» diz Tatiana Acaresti, vencedora este ano do prémio Femina, também ela professora, romena, lésbica, feminista.

Măgira Rumanesca teceu-lhe veementíssimos encómios públicos, legendados por expressões de militância ruidosa que em nada contribuem para escutarmos a voz peculiar daquela autora, a mais jovem de sempre a receber o galardão da revista francesa.

«Acaresti supera o vazio testicular de séculos de ostentação sementícia machista, negadora do âmago criador da mulher» anotou para o jornal Le Monde Măgira Rumanesca. O ódio das palavras que se seguiram não admitiu uma só vez, em sete parágrafos, o nome da laureada.

O que reputamos como estranho. E, bastante a medo, como desagradável outrossim.

Nota: A fim de se evitar futuras extrapolações, o autor desta narrativa declara-se antecipadamente desideologizado, apolítico, apartidário, não misógino. Inimputável.

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Um quadro

Paul Delvaux, A Solidão, 1956

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Quando a noite se parece uma lâmpada acesa, até os lugares feios da cidade se tornam estranhamente acolhedores. Era um pensamento como os outros.

A moça caminhava devagar pelo empedrado. Esse último sacrifício doía-lhe mais do que o corpo que se magoava também de si mesmo. Os homens gostam de ver cumpridas exigências que as mulheres abominam. Ninguém sabe porque lhes pertence a eles o mundo e não a elas. Isto era outro pensamento.

À distância de três ou quatro passos, a porta pareceu-lhe um sumidouro de alegria. A noite é um vidro instável. Umas vezes assusta de tão desprendida, outras exige-nos tudo, quer-nos parte do seu caminho marginal. O doce perfume havia-se já estendido pelo beco, onde somente o fedor do creosoto e o suor do indivíduo dominavam.

A moça considerou o grande relógio no frontão do edifício principal do outro lado da plataforma ferroviária. Faltavam cinco minutos para as onze. Havia tempo ainda. Hesitou. Ele, o tipo imundo, pagava bem. Ela precisava do dinheiro. A lua plena de eletricidade fazia erguer tufos de funcho e de cerefólio no meio das travessas.

Admitamos que a vida é a vida. Quando a noite se parece uma lâmpada acesa, até os lugares mais esquálidos possuem a sua beleza.

A moça bateu com o punho cerrado, mas sem força. Nem era preciso. A porta entreabriu-se em silêncio. Ela entrou.

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