Nullis amor est medicabilis herbis

Fotografia de Ignacio Hernandez

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Bruno de Valois renunciou em determinado passo da sua existência ao nome palaciano da família e pôs-se muito plebeiamente a calcorrear as estradas de França, envergando roupas escutas de lã, um pequeno bornal a tiracolo e umas sandálias de couro.

Encontramo-lo nas praias do Rossilhão em março de 1346, lugar onde embarcou e se extinguiu, quase completamente, neste mundo.

Voltamos a dele ter notícia pela pena de Petrus Aragonensis, discípulo de Jean Froissart, que no segundo tomo das suas Crónicas das Espanhas o apresenta deste modo:

«Nos dias que se seguiram à grande pestilência, comungavam os homens e as mulheres da Hispânia do mesmo temor que acabrunhava os demais homens e mulheres da Cristandade. Orientado por um nobre de sangue real francês, começou a juntar-se em certo vale de Urbião um número crescente de filhos e filhas de Deus, dispostos a tudo largar pelo resgate da alma e, antes dele, como fuga fervorosa a um novo contágio desta praga universal.

Das pedreiras extraíram as pedras com que em escassos anos puseram de pé as paredes do seu refúgio e da sua fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Da igreja original dedicada ao santo de Núrsia emergiu um convento, onde homens de uma banda e mulheres da outra viviam em regime de austero afastamento, coisa que era digna da maior admiração, pois, pese a sua disciplina estrita, estes irmãos e irmãs acolhiam calorosamente os forasteiros e de ordinário auxiliavam os doentes, as mulheres perdidas e todas as criaturas transviadas nos caminhos da serra e das torpezas humanas. A eles tanto lhes ofereciam um pão e uma tigela de sopa, como chás, unguentos e emplastros, como palavras soteriológicas e o benditíssimo perdão.

A fama do abade correu todos os caminhos para cá e para lá dos Pirenéus.

Contudo, se afirmam e o afirmaram uns como santo e virtuoso, outras o apodam (e não poucas o fazem e fizeram – não devendo nem podendo nós, por isso, fechar os olhos e os ouvidos) como autor de atos censuráveis, merecedores do maior repúdio, por atentarem contra a castidade dos servos de Deus e contra a natural inclinação dos homens.

À guisa de exemplo, lembraremos aquela cidade de Sodoma, cujos males provocou a ira do Senhor…».

Petrus Aragonensis não se alonga na narrativa.

Informa que em 1385, aquando da batalhas de Juan de Castela em Portugal, vivia ainda este homem, que era sem dúvida Bruno de Valois, a quem chamavam Bento, o Delicado. Em Urbião foi sepultado, velhíssimo, sendo a sua obra continuada com zelo e piedade até aos dias em que as hordas de Napoleão chegaram e, vingativas, a desfizeram numa língua de fumo através das montanhas.

Além da máxima «Ora et labora», atribuía-se-lhe outra: «Nullis amor est medicabilis herbis» (que traduzimos livremente como «Não há erva medicinal que cure o mal do amor»).

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© João Ricardo Lopes (Soeima, agosto de 2026)
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Um peregrino

Fotografia de Markus Kammermann

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O homem chegou ao lugar santo seco como um poço.

Ao longo de vários dias deambulou pelos mesmos caminhos por onde outros inumeráveis peregrinos iam e vinham a rezar, a cantar ou a chorar. Fê-lo sem companhia, sem palavras, sem um pensamento definitivo acerca do que quer que fosse.

Incomodaram-no sobremaneira nesses dias as pedras tortuosas das calçadas, as edículas, oratórios e paredes sobreaquecidas de todos os labirintos daquele lugar. Perturbavam-no as grandes estátuas implorando os céus, o chão empoeirado e as fontes sem água ao longo da via sacra interminável.

Não compreendia o ofício extenuante do remorso, nem a compulsão para as lágrimas de que falavam às vezes em estranhas línguas, cujo idioma conhecia sem entender, porém, o sentido das frases.

Chamava-se Stanislaus Jakubiak. Era cientista. Declarava-se agnóstico.

Ao sétimo dia, numa das ruelas que saem da praça maior para a periferia do santuário, aturdido ainda pelo reverberar dos pesados sinos do carrilhão, avistou uma oliveira.

Era uma árvore muito antiga. Do tronco original restava somente uma parte retorcida e cambada, como se em algum momento um raio a tivesse rachado ao meio e apenas uma das duas metades tivesse aguentado o sacrifício de existir. Rodeava-a um murete de lâminas de xisto mal seguras, e entre elas, o tronco e as pequenas folhas verde-cinza, adensava-se uma camada espessa de pó.

Stanislaus assinaria por baixo uma declaração que a considerasse a melhor metáfora da fé cristã.

Detendo-se alguns instantes, viu que um pequeno pássaro de penas amarelas pulava ali e erguia o bico. E notou que das folhas desmaiadas dos ramos brotava uma flor imaculadamente branca, viva e resistente. E sentiu que do respirar harmonioso das pedras, da ave e da árvore crescia um silêncio igual ao que sentimos nas terras perdidas nos mapas.

O polaco deu-se conta de que aquele fóssil era uma casa. Formas de amor dependiam daquele escombro e provavam que nada neste mundo é tão definitivo e tão frágil que não possa surpreender-nos.

Recordou-se de um poema de Zbigniew Herbert que diz: “No pó nos enterraram a alma, / no vento nos descobrirão os ossos ainda conjuntados”.

Não tinha a certeza de que o poema pertencesse a Herbert. Nem que os versos dissessem exatamente aquilo.

Sentia-se apenas cansado. Limpava os olhos. Via as coisas.

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© João Ricardo Lopes (2026)

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