O CANTO DO CAFÉ

Foto: Natalia Ciobanu

Gostava daquele canto do café, em cujas janelas podia ver o encontro do mar e do rio. Gostava de sentar-se na mesma mesa, na mesma posição, com a chávena entre os dedos, à espera que ela chegasse. 

Vira-a uma vez havia quase um ano. Desde então sonhou todas as noites com a possibilidade de voltar a trocar o olhar com ela.

Esse dia não chegava. Por isso, para melhor se alimentar da esperança, sentava-se naquele sítio, espreitava o modo como a ondulação do rio se entregava ao mar, lia poemas, escutava conversas, tornou-se íntimo dos empregados e de alguns clientes.

Uma tarde, quando entrou, deu de caras com ela. Trajava de negro da cabeça aos pés. Reparou como tinha os olhos envelhecidos e como em volta deles o rosto murchara. Não era bonita já, nem sequer atraente. 

Sentiu-se atordoado. Aquele lugar pareceu-lhe demasiado pequeno, cheio de sombra, bolorento. Asfixiava. Levantou-se e saiu sem a olhar. Nunca mais ali voltou.

O TEATRO

Foto de Constantin Shestopalov

Na aldeia de San Romano criara-se um grupo de aficionados de teatro, que uma ou duas vezes por ano levava a palco uma nova peça, sempre muito aplaudida, fosse qual fosse a qualidade do texto, o rigor da encenação, a exuberância do guarda-roupa ou a beleza do cenário. Investira-se ultimamente numa estrutura amovível de madeira, com uma porta ao centro e duas saídas nas laterais, de forma a permitir a movimentação dos atores e impregnar a atmosfera de um certo sabor clássico, imitativo das tragédias e comédias antigas.

Em novembro, o novo encenador, um bem-intencionado professor de literatura, Carlo Ettori, sugeriu a representação de Bodas de Sangue. A peça deveria estrear em março do ano seguinte, funcionando como uma continuação de A Casa de Bernarda Alba e uma ponte desta para Yerma, que talvez representassem no ano a seguir. Era ambicioso, era curto e ignorante o elenco, escasso o tempo. Mas a magia do teatro, segundo Ettori, consistia em tornar possível o impossível, dar à luz o fruto da obscuridade, arrebatar do público a boa catarse que tudo compensa e nos enche de fascínio.

Ettori não perdeu tempo. Traduziu, à falta de uma boa edição italiana, a obra de Federico García Lorca, enchendo-a de glosas e de apontamentos, na mesma altura em que sondava vizinhos para enriquecerem o grupo. Precisava nada mais nada menos do que vinte e uma personagens, juntando a este número o contrarregra, técnicos de som e de luz, cenógrafos, costureiras, maquilhadoras, além de um ou outra alma caridosa, que pudesse assisti-los nos ensaios, abrindo armários, auxiliando na roupa, distribuindo e recolhendo guiões, trazendo água, varrendo o sobrado, desligando por fim as luzes, encerrando as portas. Seria imprescindível, mais tarde, acrescentar um ou dois miúdos versados em filmografia, entendidos em design, especialistas em tecnologia e comunicação social, tudo para produzir fotografias e vídeos, cartazes e notícias, publicidade e público.

O mais difícil de tudo, porém, era preparar cada um sete “quadros” em que se organiza o texto, alimentar do primeiro para o segundo atos e deste para o último a sensação de poético desconcerto e beleza simbólica com que Lorca nos recebe em cada uma das suas peças. Havia as negras paisagens da floresta noturna, onde os lenhadores esgrimiam supersticiosas frases em forma de lâmina e havia as doces imagens da boda, entre as quais se passeava o marialva Leonardo, arrogante, desafiador, desprezando a honesta mulher pela cobiça da outra, da noiva, da noiva a quem as raparigas solteiras tinham ornado a casta cabeça com flores de laranjeira e cujos olhos viam somente o noivo e depois o viram criminosamente a ele. Havia a lua cantando a sua litania sangrenta. Havia a estranha mendiga que ia aos poucos desvelando (como quem revolve nevoeiro) o bafo de morte. Misturavam-se nessa espantosa produção sonho e mistério, realidade e maravilhamento.

Ettori emocionava-se com os progressos, com as vozes que debaixo dos holofotes faziam vibrar as palavras, com os gestos cada vez mais harmoniosos e obedientes, com o rebuliço nos bastidores, com o entusiasmo com que lhe faziam chegar adereços, tecidos, mobília, objetos de antiquário capazes de fazer recriar o espírito andaluz. Tinha o grupo consigo e dentro de si. Mesmo as crianças sabiam já de cor as suas deixas. Mesma a personagem Morte, tão dura de ouvidos, débil no timbre vocálico e presa de movimentos, conseguia já dar o ar da sua graça, abarcando e engolindo com o seu xaile negro e os seus braços abertos a imensidão da sala, cada um dos pequenos estalidos, a própria respiração do encenador, cujo pescoço no final dos ensaios parecia estar empalado, de tão rígido e dorido que ficava.

Uma das grandes alegrias do teatro é justamente poder descomprimir depois do grande momento. Em palco cada ator é a personificação da vida. Cada fala que diz, cada gesto que faz e refaz, cada movimento que desenha entre poscénio e proscénio, cada olhar que deixa petrificado durante a sua atuação, o tom da sua voz, a dignidade do seu sofrimento, a liberdade do seu riso, o jogo de luzes e de sombras, o acerto do silêncio e das falas, a honestidade da representação, tudo isso era para Ettori a essência desta arte que se confundia no antanho com a própria religião.

Costumava proferir no fim dos ensaios uma breve palestra. E foi numa delas que pediu a Cinzia Pelegrino, a quem cabia o papel de esposa traída de Leonardo, mulher simples e de discreto fogo artístico, que preferisse uns sapatos rasos ou mesmo umas meias grossas. A razão não podia parecer-lhe mais evidente e inofensiva: evitar o sistemático e enervante estampido que os tacões da atriz produziam sobre o tablado. Carlo Ettori escandalizava-se que uma figura tão parcamente espetacular na peça pretendesse nos exercícios realizados duas noites por semana dar tanto nas vistas. Era cada vez mais indisfarçável, quase escandaloso, que Cinzia viesse vestida como uma rameira, abusando dos vestidos de couro, justos e decotados, calçando botas altas, de tacão, procurando destabilizar a harmonia reinante.

Ettori ouvia comentários, percebia os gracejos, media o ódio crescente de mulheres veteranas como Valeria Carbone ou Claudia Rizzo, entendia que no bastidor se compunha uma teia invisível. Cinzia provocava os homens, tinha sem dúvida algum na mira, desejava com toda a certeza desforrar-se do pouco protagonismo que Lorca e, ele próprio lhe destinavam. A Carlo Ettori só lhe faltava essa, que uma puta lhe estragasse os planos. Não foi simpático o diálogo que se seguiu. Cinzia não se conteve. De dedo em riste, fez saber que tinha “tudo no sítio”, tinha “uma boa cabecinha para pensar, olhos para ver e boca para falar”. Ser “divorciada” não tirava no seu entender nenhum um pedaço à condição de mulher digna, emancipada, moderna, bem pelo contrário. Disse-o diante de todos, atirou-o com uma malignidade feroz, cravando no encenador olhos felinos e ardentes.

Ettori, perplexo, atrapalhado, com um lápis e um exemplar de Bodas de Sangue nas mãos, demorou a responder. Tinha ali a sua personagem mais veemente, o Leonardo que lhe faltava. Se nos ensaios este lhe parecia frouxo (não havia meio de Mattia Fiore deixar de lhe parecer pusilânime e artificial no seu papel de protagonista), ela, a mulher traída, cuspia lume e revolucionava.

– Não faltava mais nada. Nem o meu ex-marido me ditava o que vestir. Eu visto-me como quero. Ninguém tem nada a ver com o que visto ou deixo de vestir!

– Senhora Pelegrino, não confundamos as coisas. Não me interessa a sua condição civil, as suas preferências indumentárias, a relação que possui com o passado. O meu papel aqui é de olhar pelo grupo, nada mais. Nada de pessoal, nada de particular. Nas minhas peças, os atores fazem o que eu peço. A partir daqui, fora daqui, a senhora vista-se e calce-se como quiser. É problema seu…

Havia uma grande ansiedade no rosto de todos. O anfiteatro pesava tremendamente sobre os ombros de todos. Acrisolava-se a disputa. Ettori desferiu a ameaça.

 – Pois muito bem. A senhora aqui veste-se como eu lhe digo. De outra forma, pode sair e não volte.

– Mais depressa sai o senhor. O grupo sabe organizar-se, não precisa de si para nada!

O encenador fez uma ronda com o olhar. Os atores e o pessoal baixavam instintivamente os olhos à passagem do seu rosto. Percebeu que a cobardia tomara posse daquele amontoado de amadores, habituados a literatura basculha e a teatro de revista da qualidade mais medíocre que se fabricava na província. Poisou o lápis e o guião e saiu em silêncio.

Ninguém o seguiu. Ninguém lhe rogou que regressasse.

Daí a semanas a peça estreou. No folheto não constava qualquer referência, alusão ou implicação do grupo de teatro de San Romano com o professor de literatura e tradutor. A própria fotografia do cartaz era uma mise-en-scène sua, apenas adulterada pela pose atrevida, ridícula, da mulher de Leonardo, que também aí surgia como um macho diminuído e não como o protagonista da tragédia.

Carlo Ettori sentiu-se enojado. Sempre amara a arte de Dioniso, mas aquele golpe teatral, aristofanesco, ardiloso, absurdo, fazia-lhe pensar numa peripécia de ópera bufa. Era uma punhalada nas costas. Lorca haveria de abominar aquilo. Mas quem se importava?

AINDA

Foto: Paulo Jorge Martins

Nos começos da primavera, Chelb, a “joia do ocidente”, cobre-se de um branco sem mácula, em cuja beleza e esplendor o próprio sol se demora, como que extático ou enternecido. É assim em toda a extensão de al-Gharbiyah, de Saqris a al-Qasruh. Assim é em toda a península do al-Andalus, louvado e proclamada seja o Profeta.

Dos terraços do reino os poetas cantam em cada muwashshaha, em cada zajal, a suave estação que desponta, as amendoeiras e laranjais em flor, as quietas tardes adormecidas sob o rumor sonolento das picotas e das enxadas, o voo das cegonhas e dos milhafres. Dizem que o murmurar das águas, o metálico tinir do ouro, o cicio da voz amada são o mais doce que podem os ouvidos humanos captar. Mas também a eles juntariam o estridular das cigarras, o chilreio dos pequenos pássaros saltitantes, o som do alfange desembainhado, o grito de guerra para justiça e glória eterna de Alá, O Todo Poderoso.

A poesia sempre deveu o génio ao sentido de oportunidade.

Vejamos o caso de Ibn ‘Ammâr, um dos discípulos diletos de al-Mu‘tamid. Desejoso de poder, não deixou de conspirar contra o amigo, mestre e monarca. Amou Buthayna, quis no íntimo da sua existência que a fortuna o favorecesse com dignidade bastante para que pudesse tomá-la por esposa. Foi perdoado e por fim condenado à morte. Buthayna, por seu turno, será feita prisioneira, vendida e tomada por um inimigo. Também al-Mu‘tamid conhecerá o cárcere, levado por aqueles que primeiro vieram ajudá-lo contra os cristãos e depois, descompadecidos, o destronaram e em extremo vilipendiaram, abandonando-o à fome e à sede, atado à morte por sórdidas grilhetas. A poesia dos três, de Ibn ‘Ammâr, de Buthayna e de al-Mu‘tamid canta e chora na penumbra a sorte instável, mãe do instante, filha do destino.

Por agora, Chelb (em breve lhe chamarão “Silves” os odiosos nazarenos do norte) é ainda um reino seguro, magnífico e luminoso. Os senhores tomam ainda o seu banho retemperador. Os bazares repletam-se de todas as mercês e riquezas que Alá multiplicou pelo mundo, vindas de todos os cantos da Terra pela mão dos mercadores e dos almocreves. Físicos, matemáticos e filósofos esquadrinham as profundezas do universo, curam os males do corpo, escrevem tratados insuperáveis. Poetas abundantes erguem o sopro rasteiro da vida à altura majestosa de cânticos. Ainda as hordas malignas da cruz não chegaram. Ainda a delicada poalha da tarde cai numa lentidão de sono sobre hortos e jardins, sobre torres e minaretes. Ainda os olhos vivos de Ibn ‘Ammâr cobiçam o mais alto voo dos falcões. Ainda as cigarras ziziam.

SONHOS

Foto: Jess Foami

Durante a noite sonhou outra vez com pessoas do seu passado. Primeiro com ex-colegas do trabalho, de quem se despedira havia anos. Depois com rostos antigos (que via agora, uma ou duas vezes por anos, em círculos ovais nas lápides musgosas do cemitério da aldeia), rostos que readquiriam a sua graciosidade e lhe faziam perguntas, rostos que tinham sido importantes e que ela quase por completo esquecera.

Acordou imersa numa impressão de tristeza infinita. Esforçou-se por recordar pormenores dos sonhos sucessivos que tivera, escavando dentro de si como se escava um sítio arqueológico. Vinham-lhe um ou outro detalhes, mas escapava-lhe a narrativa onírica, fugia-lhe a lógica das imagens e dos sons (até dos cheiros) que sabia terem-lhe passado pela cabeça. Sentia-se mole, prostrada, com uma nota de amargor na boca. Acontecia-lhe cada vez mais amiúde. Rosana reagia de modo imprevisível. Tomava um duche de água fria, ligava o aparelho de música, entregava-se ao sol com uma chávena de café nas mãos, saía para a rua com vontade de implicar com quantos transeuntes se cruzasse, lia a Bíblia, colocava os óculos escuros e tampões nos ouvidos e seguia para o trabalho no maior mutismo. 

Viver sobre sonhos, tê-los guardados dentro de si, no âmago imperscrutável da sua própria alma, sonhos destes, sem compreender bem porquê devastadores, sabendo que regressariam, que a dominariam, que a humilhariam, era igual a transportar barris de petróleo, era uma bomba-relógio. Rosana odiava sonhar, odiava nada poder fazer contra estes fantasmas que se acovilhavam na sua própria casa, que a assaltavam sem autorização e, pior ainda, com o seu próprio e vil consentimento.

Ocorreu-lhe, então, quase por acaso, de modo ténue, vaporoso, que num dos sonhos da última noite vira a avó a chorar. Era muito pequena, segurava ainda uma fralda de flanela, percebia nos lábios o sabor de uma chupeta rançosa. Estava na varanda da casa velha de granito, protegida por um gradeamento simples (duas barras de ferro carcomido). Sozinha, de pé, espreitava o quintal e o quinteiro em baixo. A avó no campo, de enxada em punho, erguia torvelinhos de pó. 

Rosana consegui paulatinamente desvendar o nevoeiro ao redor deste estranho cenário. A avó, dobrada sobre a terra, extraía batatas. A lâmina da enxada cortava um pouco adiante de cada tufo de folhas. Depois alavancava o torrão cortado, puxava-o para si e do emaranhado de raízes e terra sacudia os preciosos tubérculos pálidos e avermelhados que nessa manhã quente (provavelmente de julho) a prendia àquela parcela. A avó tinha uma cinta apertada, um pano escarlate segurando-lhe o ventre. Bem via a sua gravidez. 

Rosana surpreendeu-se com esta descoberta. Começava a duvidar que tivesse realmente sonhado com a velha avó grávida. No trajeto diário para o local do seu emprego, ou no regresso a casa, costumava rememorar partes da sua infância. Não era raro fixar-se em lugares perdidos, como um sótão onde brincara, uma cave, um quarto onde partículas de pó bailavam sob o efeito oblíquo da luz, uma mina, um caminho entre giestais e matos floridos, a sala de aulas da escola primária, o confessionário e o púlpito da igreja românica, a corte dos animais. Também lhe acorriam feições apagadas, risos, presilhas em volta de certos olhos, mulheres de lenço preto na cabeça, timbres de voz. Era como um imenso bastidor de teatro, um armazém de máscaras e de tipos humanos. Mas perturbava-a muitíssimo que esse legado misturasse factos, que a confundisse, que lhe trouxesse memórias de uma maneira avulsa e revolta. Como podia ele ter sonhado com a avó grávida? E porque chorava a avó?

Lentamente desceu a si mesma. Deixou que o esquecimento retornasse com o seu véu apaziguador. Era preciso estar viva e pronta para o seu dia de trabalho.

Haveria de sonhar dias depois com a mesma mulher, erguendo e baixado a enxada, guardando no seu ventre o fruto bendito de que Rosana não podia lembrar-se. Enquanto isso retirava da terra seca batatas grandes como punhos. Não saberia dizer se o rosto era o da avó, se o da sua mãe, se era o seu próprio rosto. Sentia nas mãos, ao mesmo tempo, o peso do cabo de madeira e o peso da fralda puída, pressentia no fundo do útero o aperto e a dor de um ser que era ela mesma e era outra pessoa. Nesse sonho alguém lhe dizia nas costas (de modo sonoro, mas ininteligível) «És bem como a tua avó, que Deus a tenha!».  Não sabia porque chorava, mas sentia sempre vontade de chorar, porque era uma menina só, numa varanda mal protegida, porque era velha sozinha, dobrada no campo a trabalhar.

JUST LIKE HEAVEN

Foto: João Almeida

Era como se em vez de pés e mãos o seu corpo deslocasse trajetórias invisíveis de ar. Mary viajava a partir do mesmo parque de estacionamento, ao longo das mesmas estradas, para as mesmas ruelas com aquela expressão que o tempo costuma ter no início de março, leve, frágil, veemente, adocicada pelo sol imenso, prometedor, talvez não duradouro, sem saber mais do que o agora, sem pedir mais do que viver assim.

Daí a um par de horas voltaria a vê-lo. E ele voltaria a segurá-la nos braços, voltaria a beijá-la, voltaria a olhá-la nos olhos com ternura desmesurada, voltariam a abraçar-se como se abraçam duas folhas de erva, voltariam a trocar doces palavras também elas sem peso, costurando essa cumplicidade que nos prende a uma razão maior de ser.

Na rádio escutava uma daquelas canções pop que preenchiam toda uma época. Achava-lhe piada, tinha ritmo, a letra não era má, a batida oferecia-lhe um pouco mais de amor. 

Why are you so far away, she said
Why won’t you ever know that I’m in love with you
That I’m in love with you

Em seu redor os prados reverdeciam, prolongavam-se até à linha de mar. Aquela ilha, tantas vezes carcereira, parecia-lhe agora um lugar portentoso: deslumbrava-a a sucessão monótona de campos e cercas, entontecia-a a mistura de perfumes campestres (que intermináveis meses de chuva tinham fabricado) com a brisa oceânica, os penhascos sinistros junto do farol de Skeling Michael produziam nela uma alegria imensa. Era como se o automóvel vogasse sobre nimbos, como se a sua existência simplória de empregada de caixa num qualquer supermercado de província tivesse merecido as honras de uma divindade.

You
Soft and only
You
Lost and lonely

Mary sentia-se cansada, feliz mas cansada, cansada mas feliz. A música na estação de rádio era vibrante, ela tinha pressa, acelerou. As curvas doíam, seguiam-se-lhe contracurvas perigosas. O sol declinava cada vez mais rápido, deixando no horizonte uma saudade terna, uma poalha luminosa que aqui e ali ofuscavam. Aquele tinha sido um sábado igual a tantos outros, com a diferença de que trabalhara mais horas. Mas valera a pena. Daí a um par de horas voltaria a sentir-se jovem, renascida, parte do mundo vivo e ótimo de que se alimentam as lendas.

Ninguém sabe como se passou. Talvez algures, numa nesga do caminho, o automóvel haja guindado depressa demais, deslizado sobre gravilha, sido encandeado pelo rútilo momentâneo de um raio acabado de desembaraçar-se de uma nuvem. 

You
Strange as angels
Dancing in the deepest oceans
Twisting in the water
You’re just like a dream
You’re just like a dream

Era como se vogasse sobre nimbos, como se a sua existência pudesse (caprichosa, surpreendente, reconciliada) ter descoberto um modo de permanecer para sempre, como num sonho, sim, como num sonho. Em Cork durante meses não se falou de outra coisa. 

PERDÃO DIVINO

Foto: Thierry Boitelle

No ano de 1317 morreram nos curtos dias do mês do fevereiro o abade de Saint-Michel e três dos seus frades. Sujeita ao luto, ao rigor das chuvas intermináveis do inverno, à fome prolongada, ao medo de alguma incontrolável fulminação divina, o mosteiro manteve-se numa penumbra obstinada até fins de março. Fecharam o scriptorium e a sala do capítulo e os monges permaneciam quase todo o tempo em oração, encerrados nas suas celas, meditando na calamidade imensa que se abatera sobre o mundo sem poupar os próprios servos do Senhor.

Mas uma manhã o sino, empurrado por uma brisa amena que juntava a respiração do mar e os perfumes das flores, das ervas e da terra seca, começou a tocar sozinho. Os frades saíram para o claustro e para os jardins, atravessaram os pátios iluminados pelo clarão das magnólias, voltaram a olhar para a luz benévola onde o canto dos pássaros parecia sussurrar a própria voz do Criador. Tinha passado a Quaresma, era o domingo da Ressurreição. Nunca até aí os meandrosos caminhos da Providência lhes haviam parecido tão bem explicados.

Abriram os pesados portões e as leves janelas de vitrais em forma de treliça. Deixaram que o ar morno se passeasse pelos corredores, lavasse as escadarias empoeiradas, erguesse um pouco as folhas de pergaminho coloridas, subisse aos altares e ao zimbório.

Nada existia na vida terrena como o sinal do perdão de Deus. E por isso todos choravam. 

O CENÓBIO

Foto: limagerie.com

Depois de ter viajado pelo mundo, pelas boas terras meridionais onde amou o sol e foi amado por belas mulheres, pelas frias paragens do ártico onde granjeou fama e respeito dos marinheiros que com ele atravessaram ilhas de gelos, Knut Peterson retirou-se aos quarenta e três anos para uma das ilhas Faroé, onde viveu anos sozinho. Mais tarde tornou-se monge regressou ao seu eremitério com cinco companheiros, fundando aí um cenóbio.

Rezavam, cantavam, aprendiam o latim e os antigos idiomas nórdicos uns com os outros, liam a Bíblia e as runas, escreviam crónicas e livros de botânica. A paz caía tão branca ali como a neve que ali caía uma boa parte do ano.

Mas uma manhã um barco deu à costa, desgovernado. Nele viajava uma formidável rapariga de cabelos ruivos e efélides, jovem ainda, tão assustada quanto cheia de fome, expressando-se numa língua aparentada com a sua, ainda assim bastante confusa.

Perceberam que tinha fugido, que viajava havia semanas, que ali aportara por força do vento e das marés que empurraram o botezinho, ou por vontade de Deus que sobre o vento e as marés manda.

Era uma boa moça. Depressa se dispôs a ajudar a apanhar lenha, a preparar o pão, a cozinhar sopa, a lavar as madeiras dos musgos e vermes, a aprender as estranhas línguas que ali se palravam. 

Um dos monges viu-a a banhar-se numa das lagoas da ilha, espantosamente branca e perfeita, como um anjo do Senhor, e o seu coração encheu-se de saudades da antiga vida continental. E a um a um (Knut resistiu o mais que pôde) cederam ao franco impulso de a possuírem como sua mulher, de amarem com o corpo o que apenas o corpo pode amar.

UM NOVO DIA

Foto: robillard laurent

Na cama ouve a chuva a cair, às vezes tocada pelo vento com uma tal intensidade que o seu corpo, por instinto, adota a posição fetal. Depois adormece, sonha com um caminho enlameado em direção à escola primária, põe-se a conversar com velhos simpáticos que trabalham nos campos e lhe dizem adeus. Algo em si (mecânico e enigmático) confessa-lhe que naqueles rostos há somente agora um lastro enganador de vida. Mas de repente um som truculento, insistente, metálico, produzindo um efeito de vergasta (a campainha da escola, o despertador no telemóvel) faz desaparecer toda aquela paisagem antiga e bucólica, todos aqueles homens e mulheres dobrados sobre a sachola, todos aqueles estreitos por entre o mato e os giestais. Laura é sacudida, atirada para a realidade, exposta a um tempo duro, a um lugar inexoravelmente seu no mundo.

Levanta-se, empurra para trás o edredão e o lençol, abre a janela, fica um instante imóvel, de olhos fechados, como procurando despedir-se de si noutra existência, como procurando encontrar o melhor percurso de si até si mesma.

O cheiro de chuva principia a invadir o quarto, a expulsar o ambiente saturado de odores corporais. Apesar de fria, a aragem é agradável. Nestas ocasiões ocorre-lhe sempre a expressão “cheiro verde da chuva”. Gosta da combinação das quatro palavras, do que nelas sobressai de sinestesia, de metáfora, de onomatopeia, de aliteração. Gosta de imaginar que é verde o cheiro da água precipitando-se sobre a terra, embebendo-a, fazendo-a germinar, cobrindo-a de musgos e de líquenes. Sobretudo em abril, especialmente quando os perfumes nascidos da noite são profusos, indescritíveis, capazes de entontecer.

Sempre essa mistura de ervas, flores, árvores, frutos, fungos, minerais lhe pareceu um cântico formidável de criaturas silenciosas, um hausto de primavera, um íman de poesia, chamemos-lhe petricoraldeiasaudadevida.

Mas é tudo muito rápido. Rapidamente os olhos reabrem, rapidamente a cor feia da manhã nascente e acelerada a obriga a menear-se. Tem de vestir-se, pentear-se, maquilhar-se, beber o café, sair. A magia não dura quase nada.

Nada é um bom termo. Sintetiza a ideia que sempre nos fica quando observamos as nossas memórias à luz imparcial da eternidade. Tudo é igual a nada, somos um punhado de coisa nenhuma. O nosso empenho, a nossa felicidade, o nosso sofrimento, a nossa morte não passam de um detalhe.

Nas curvas que a linha do metro descreve, pontualmente apertadas, obrigando a mão a segurar-se com firmeza no apoio, estas frases soam-lhe com particular dureza. Tudo é igual a nada. Somos um punhado de coisa nenhuma. A nossa grandeza é um pingo dessa chuva que resvala para as sarjetas imundas da cidade.

Laura sabe que as manhãs de abril, especialmente estas em que o sol não brilha, são enganadoras. Fazem subir uma espécie de nevoeiro que oculta os prédios mais altos. Deprimem. De resto, a sucessão de guarda-chuvas, gabardinas, botas, galochas coloridas enerva-a. Inversamente ao sonho, a viagem para o trabalho parece-lhe cruel, concreta, inescapável, como se fosse ela (e não os velhos da sua meninice) uma pessoa morta. 

Quando as composições param e as portas se escancaram em simultâneo, Laura e dezenas de outros passageiros voltam a estugar o passo. Depois sobe no tapete rolante, esquecida já de todos os pensamentos anteriores, viva, sonâmbula, anestesiada, preparada para o novo dia, cheia de pressa, em rigor para lado nenhum. 

MÁSCARA TRANSPARENTE

Foto: Roswitha Schleicher-Schwarz

Quando se preparava para lavar a boca, antes de sair de casa nessa manhã, Dácil Contreras apanhou um enorme susto: a pessoa ao espelho não era ela. Não só o rosto o desconhecia naquele formato aguçado, como lhe não pertenciam o desenho trocista da boca ou a expressão maligna dos olhos.

Acordou o companheiro, que tinha voltado a adormecer depois da sua saída da cama. Este garantiu-lhe, num tom que misturava irritação, espanto e paciência, que era ela, o rosto era o mesmo de sempre, nada havia de novo nos olhos ou na boca. Pediu que o deixasse dormir e suspirou.

Dácil espreitou-se em todos os vidros, acrílicos, placas metalizadas, poças de água. Não, aquela pessoa não era ela. Definitivamente, operara-se durante a noite um prodígio.

No escritório, quando lhe perguntavam alguma coisa, quando atendia o telefone, quando precisava de responder a Sofía, a colega do lado, a sua voz igualmente lhe soava à voz de outra pessoa. Alguém usava o seu corpo e o deformava, como costuma suceder com um energúmeno.

– Sofía…

– Diz-me, filha!

– Não notas nada de diferente em mim?

Sofía achou-a mais magra ou talvez mais gorda, não tinha a certeza. Decerto mais pálida, isso. Melhor, mais cinzenta! Perguntou-lhe se andava a tomar comprimidos para alguma coisa.

Dácil escutou os seus próprios ouvidos a chiarem. Sentia-se zonza. Ninguém parecia dar por essa mudança tão óbvia. Não, ela não era aquela que era, era outra, outra que a ocupava, que a desalojava da sua aparência, outra a viver em si como uma máscara transparente. «Olha só o absurdo!» pensou, «Uma máscara transparente!»

As manhãs repetiram-se. Aos poucos diferentes partes do seu corpo principiaram a parecer-lhe metamorfoseadas, trazidas a si no mesmo silêncio e com a mesma magia. Deixou de saber que pessoa era ao certo, quem realmente era. O companheiro abraçava-a, ela chorava.

– Que loucura. És a pessoa que eu conheci há dez anos em Madrid, no Café Gijón, posando nos bonecos da avenida dos Recoletos. És a mesma, amor, estás igual, igualzinha!

Não era, não estava. Uma manhã Dácil não quis ir para o escritório. Noutra manhã revoltou-se com o vizinho que batia no cão vadio da sua rua. Noutra lembrou-se de uma criança muito pequena e muito suja que vira no regresso a casa. Sentiu um desejo infindável de a adotar, de tornar-se o seu anjo da guarda, de ser a sua mãe. Olhava para o mundo com uma ferocidade que não admitia resposta. O que quer que se passasse consigo já não assumia somente uma nova fisionomia em si, penetrava agora no seu espírito. Sabia que o nosso aspeto (ainda que Platão o tenha desligado da alma) está com ela casado, intimamente a ela atado por cordas grossas, como as que no teatro fazem subir ou descer pesados objetos no palco.

Dácil replicava a tudo com ironia, sarcasmo, com provérbios, com frases tão perigosas quanto as que podia a sua consciência afiar. Quando o namorado lhe explicou que «Um filho neste momento não vem nada a calhar», compreendeu que naquela casa morava consigo outra criança, outra criança com ciúmes da que nela pudesse entrar, exatamente como costuma acontecer com um animal de estimação transformado num pequeno rei absoluto, incapaz de partilhar o seu amor com outro inquilino.

Quando Javier acordou ao meio-dia, numa bela manhã solar de fevereiro, tinha sobre a mesa da cozinha um bilhete. O armário de Dácil estava vazio, o telefone desligado. Sofía admirou-se que ele desconhecesse um facto tão significativo: havia duas semanas que a colega se despedira. E não, nada sabia a respeito de planos futuros, causas passadas, paixões recentes.

UMA HISTÓRIA DE AMOR

Foto: Masatoshi Washimi

A pouco mais de meia centena de quilómetros de Quioto fica a aldeia de Kawajima, no sopé do Monte Fo. Daí pode contemplar-se o Lago Biwa e os cumes de outros montes, como os de Minako e Hiei.

Em Kawajima vive Ichiro, um artesão viúvo de apenas vinte e seis anos. Casou aos vinte, perdeu a mulher (a belíssima Sakura) aos vinte e três. Não tem filhos, exceto os maravilhosos cadernos de papel grosso cosidos à mão, os estojos e coldres de couro, os famosos ko-daiko que as suas facas, tesouras e agulhas constroem dia e noite, noite e dia.

Ichiro não é um homem melancólico. As suas mãos trabalham depressa e os olhos e ouvidos não perdoam lapsos. A perfeição é uma ordem, tão ontológica como o fogo, como a água do riacho onde vai beber, como a majestade dos animais ferozes que de quando em quando se aproximam do seu casebre.

Nesta altura do ano, contudo, lembra-se muito de Sakura. Era uma mulher simples, ainda uma rapariguinha, de encantadores olhos cor de mel e silhueta elegante. Sente em especial o vazio que ficou no lugar onde os braços de Sakura o apertavam, no lugar onde os seios de Sakura o despertavam, no lugar onde os cabelos soltos dela o acariciavam e o faziam rir. Nesta altura do ano, as cerejeiras principiam a carregar-se de um tom maravilhosamente claro, enchendo-se de pequeninas pétalas de cores rosa e branca, em tudo idênticas à luz do nascer do dia.

A essa hora Ichiro sai para o jardim completamente nu, colhe um punhado de pétalas repletas de orvalho e esfrega com elas o rosto, o tronco, o sexo os braços e as pernas. 

Este costume causa a maior admiração na aldeia. Ninguém compreende o seu significado ou a exata doença de que padece o artesão. Um estudante de medicina, numa das suas viagens de regresso da cidade, interessou-se pelo assunto. Prometeu reportar o assunto aos mestres na universidade. Aí lhe dirão com toda a certeza a qual género de loucura obedece a cabeça de Ichiro.

Não lhe dirão que na noite de núpcias o jovem casal, depois de terem feito amor pela primeira vez, olhando os alvos lençóis manchados pelo sangue de Sakura, prometeu que naquele leito jamais se deitaria outro homem ou outra mulher. Era uma entrega para sempre, uma jura de amor. 

Quando o desejo atiça Ichiro, a dor da partida precoce da esposa é lancinante, uma dor que aperta as cordas da sua alma como ele aperta as cordas dos pequenos tambores que constrói. 

Limpa-se, portanto, do desejo com a casta beleza das pétalas das cerejeiras, com a água visceral que escorre dos telhados e das folhas, com o frio do vento por onde o espírito de Sakura (tinha a certeza) vagueou toda a noite, infeliz e cheio de saudade.