ANDREÍNA

Jackson Carvalho
Foto: Jackson Carvalho

A partir da meia-noite, os cruzamentos do bairro de Biccoca, em Milão,  enchem-se com estas presenças femininas, ou efeminadas, exóticas, negociantes do amor breve, muitas vezes vazio, de quem dele não foi capaz de prescindir e pelo qual está disposto cem euros, duzentos, quinhentos, mais, conforme, porque elas o exigem e o exigem os e as clientes, é um negócio, afinadas as contas, como os outros.

Há muitos artistas dispostos a tudo em nome do renome, pela fama internacional, pelo cosmopolitismo. Esta que aqui passou agora mesmo, maquilhada, perfumada, acetinada, vestida escandalosamente, é filha de pai libanês e mãe colombiana. E, por isso, leva Yussuf no apelido e Andreína no nome que lhe é mais próprio. E, por isso, é um bom exemplo do aforismo de que pequeno é o mundo, às vezes basta uma cama, um banco traseiro do automóvel, um vão de escadas, o linguarejar babélico de um e de outra, de outra e de um, e o mundo ou os mundos juntam-se, culturas tão distintas, o mesmo propósito, os mesmos gemidos, elogios, êxtase e catarse, foi bom, foi ótimo, és fantástica, tu também, até à próxima, arrivaderci, e depois é outro cliente, que a noite é uma criança ainda, isto em todo o bairro, em todos os cruzamentos, Andreína Yussuf é uma entre pares, uma entre muitas, belas e exuberantes, Milão está delas repleta até ao nascer do sol.

Mas também no setor terciário, o dos serviços, há quem se canse da dureza da vida, e uma noite, outra, tantas mais, há quem pense com saudade no tempo de antes, naquele que é sempre puro, mesmo se já então chafurdávamos em promiscuidade, hipocrisia e vileza, em devassidão e imoralidade, em pecados que se pareceram afinal com pecadilhos, pequenas falhas, coisas normais de gente que é gente, dias de experiência afinal felizes, tão diferentes do de agora.

Está Andreína caminhando com o seu salto alto em direção ao posto de trabalho, é o asfalto debruado por sulcos paralelos e folhas, há que evitar uns e outras, a prostituta vai de olhos baixos, não vá o tacão enfiar-se nos primeiros ou arrastar as segundas, olhos pensativos, olhos de quem já viveu demais e tão pouco, de quem está farto e precisa muito do que a vida não dá. É hoje que irá confessar às e aos colegas de ofício «Vou-me embora. Não suporto mais estes homens porcos, ordinários, frustrados!», e elas e eles «E o que farás?», e ela «Não sei. Alguma coisa se há de arranjar!».

Ter um nome que soe a legenda não é para todos. Há artistas que sonham com um tal prestígio e que a ele e por tudo entregariam. Esta moça tem-no e quer dele e a ele ver-se desobrigada. Procuram-na especialistas de dentro e de fora da cidade como se procura perceptora, tocam-na como uma relíquia, fornicam-na com impiedade como se, acesa a animalidade dos e das requisitantes, a queimassem da cabeça aos pés com amor, ódio e luxúria. «Vou-me embora!» dirá.

Não há lugar talvez onde se lave a memória tão fundo que não venha ela à boca uma vez por outra. Para onde vai uma madalena arrependida é o que estamos nós querendo saber, portanto.

Luigi, um universitário, espera-a com impaciência. Ele e outros dois, que consigo ocupam um Alfa Romeo vermelho vivo, cor do sangue: depredação orgíaca, fantasia criminosa, desejo irreprimível o e os levam ao encontro desta mulher transsexual, como se vê pelas peças de couro, dildos, algemas e outros utensílios que não nos atrevemos a descrever. Maltratada será se nada for feito! Caminha de olhos baixos, que o cansaço no-los traz quase sempre assim: «Vou-me embora!», «E o que farás?», «Não sei!», «Não sei!», «Não sei!».

 

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HUBERTO

carpenter, carpinteiro
Foto: Hőbér Szabolcs

A luz do poente transforma todas as janelas. Huberto não o pensava, mas sentiu-o.

Ao aproximar-se da velha carpintaria encerrada, tornaram-se mais agudas as palpitações sobre a caixa cardíaca, como se o debicasse sem piedade o alfinete de um pássaro.

O vidro ainda sujo de serrim, o pedaço de sabão e o pequeno lábis rombudo no parapeito, os cavaletes e algumas tábuas ainda ao alto contra o perpianho musgoso e engrentado, o silêncio onde antes era um alarido de serras e compressores, o vazio daquele miolo (onde já não se viam homens e máquinas, mas somente as paredes de pedra e o negrume), a impressão de que ali ainda era e não era já a sua carpintaria, a chegada da noite, o trevo e as urtigas, os silvados nascidos ao redor (sufocando a memória de cinquenta anos de trabalho), estas todas impressões húmidas e sujas deixaram-no prostrado.

Permaneceu assim muito tempo, quieto, segregando uma ou outra lágrima mais incontrolada. Vinha de longe o procissionar de vozes e de cânticos em direção à igreja. Via ziguezaguear o lento das velas acesas, a mansa contrição dos fanáticos. Detestava a religião.

Depois do calor da tarde, a brisa que agora se levantava até nem lhe pareceu desagradável. Entrava pelas portas e janelas abertas da profunda alma que nele, como anéis de um carvalho, ou duma faia, ou de um ulmeiro se alargara respeitosamente. Respirou. O perfume conjugado das laranjeiras e da bergamota, das tílias e glicínias tardias, das ervas e do milho que despontava fê-lo recuar. Olhou o quarto decrescente da lua, o brilho de Vénus a um canto, o de Júpiter a outro canto do horizonte. Maio sempre fora um poema difícil de escrever: apesar de todas as coisas boas, de que valia ter vivido para chegar ali? Onde estavam todos os companheiros que consigo haviam cortado, aparado, aplainado, esculpido, pregado, colado, envernizado os melhores instantes da vida?

A morte avançava com a dissimulação de uma serpente, cruel e inequívoca.

Sentado no mesmo mocho de granito onde costumava abrir a marmita de alumínio e comer o caldo, sentia-o mais que pensava. Estava só. Era como um sonho.

 

SVEN

Sven Fennema 07
Foto: Sven Fennema

 

A última vez que alguém atravessaria os corredores era aquela. Sven procedia a uma revista final às cargas de explosivos. Assim que desse o seu ok, as entradas do edifício seriam seladas e a equipa poria em marcha a demolição. Ali, onde existia agora o antigo hospital, existiria apenas uma montanha de escombros e pó e, uma ou duas semanas mais tarde, um espaço amplo e limpo no sul da cidade para a construção de um hotel.

O engenheiro caminhava devagar, subindo e descendo degraus, empurrando portas emperradas, pondo-se de cócoras para vistoriar fios e cabos elétricos. A luz sumira-se já, tornando os gestos mais dramáticos e belos, como sempre acontece na penumbra ou numa despedida.

O capacete, as botas e o colete retrofletor esponjoso não transmitiam, contudo, a segurança a que acostumara. Em dado momento, quando o foco da sua lanterna se cruzou com o letreiro MORGUE, Sven sentiu um arrepio. Ali não havia nada: uma porta fechada, um retângulo de vidro fosco, um dístico, silêncio e mais nada. Ainda assim, uma covardia súbita impedia-o de entrar.

Ao longe, numa qualquer sala ventilada demais, provavelmente por culpa dalguma janela sem resguardo, uma porta bateu, um qualquer carrinho, maca ou estante com rodas desatou a cair, aos tropeços, por uma das muitas escadarias deste labirinto, fazendo ecoar com estardalhaço o esqueleto metálico em que se desfazia. Sven ficou paralisado.

– Olsson, estás aí? Allô?

Uma aragem gélida, inundada de mofo, passou-lhe pelo rosto, pela boca, pelo pescoço. Horrível, enjoativa, trespassante.

– Allô? Olsson?

– Sim, estou aqui!

– Conferiste o setor 3?

– Estou a fazê-lo.

Agora a escuridão era mais visível, uma presença, uma certeza. Corredor após corredor (longos e penosos,  repletos de átomos alheios e atentos), Sven via tudo, o vir do nada e o ir para o nada, o chegar de longe para longe chegar, o desaparecer do antes no depois, a matéria que teimosamente se recusava a ceder, a morrer, a extinguir-se.

– Não te esqueças de verificar os anexos subterrâneos!

– Sim, estou a descer. Vou vê-los agora.

Sven via tudo, e tudo era sem mais sentido do que caminhar, assassinando no seguinte o passo anterior, sempre assim, sempre assim, como um pensamento, um acidente, uma ilusão.

ELA É UMA MÃE

Little mother, pequena mãe, pequeña madre, petite mére
Foto: Dorothea Lange

 

A garota segurava ao colo uma criança de ano e meio, dois no máximo. Os circunstantes olhavam-nas com um misto de curiosidade e falta dela.

–Então, e os vossos pais?

A garota, frágil como todas as garotas, amparando (sem se queixar, com mil cuidados) a criancinha que abria grandes olhos negros por cima do círculo da chupeta cor de rosa, nada respondeu.

– Devem ser ciganas.

– São romenas!

– É o mesmo!

– Tens fome, pequenina?

A garota recuou. Não gostava que fizessem perguntas à bebé. Muito menos que lhe tocassem no rosto.

– O melhor em todo o caso seria chamar alguém.

– Já chamaram!

– Ah sim? E quem chamaram?

– A GNR, penso eu.

– Muito bem.

Sem pestanejar, dando às vezes um jeito no embrulho que apertava (para lhe corrigir a posição, ou mitigar o esforço da coluna), a garota não desarmou. Que os chinelos de pano, a roupa sórdida, os cabelos desgrenhados não iludissem. Ali ninguém tocava na sua bebé.  Ninguém lha tirava!

– Que meninas tão amorosas!

– Dói a alma só de olhar a pequenita de chucha na boca!

– Dizem que para aí estão há dois ou três dias…

– Ao deus-dará?

– Sim!

– E alimentam-se de quê?

– Eu sei lá! De esmolas…

Mas a guarda não vinha e as pessoas, que remédio, iam à sua vida! A garota, não perdeu tempo. Ágil e forte, como todas as mães verdadeiras ou improvisadas deste mundo, desapareceu levando no regaço a pequenita.

Para onde? De que viviam? Sozinhas? E como foram ali parar? As mais das vezes, já se sabe, perguntamos por perguntar.

FIM DE TARDE

Akira Takaue
Foto: Akira Takaue

 

Quando o semáforo fez o carro parar, ele pôs-se a olhar em volta. A cidade caía já na grande penumbra de outono, engolindo as formas até ao céu ferrete entrecortado pela caixaria negra dos edifícios mais altos.

Era a sensação de ter vivido já esta experiência que o agitava.

Nesta parte da Baixa, os sinais vermelhos duram uma eternidade, mesmo ao sábado, mesmo estando a avenida quase deserta. Os olhos encontraram e detiveram-se no interior iluminado de uma lojinha vintage.

Dezenas de candeeiros em exposição, acesos, semelhantes a pequenos lustres, a ágeis medusas contorcendo-se, a candelabros e rosáceas, com os seus cristais, com os seus brilhos opacos e transparentes, com o revérbero irisado dos seus primas pendendo, fizeram-no sentir como numa imensa festa em silêncio. Era uma saudade (apesar de a palavra não o satisfazer) de antigos livros que lera, de antigos filmes que vira, de antigas casas e de noites antigas onde permanecera. Sempre gostara de lojas de candeeiros, ainda que não soubesse dizer porquê. Deslumbrava-o essa luz simétrica, dividida, multiplicada, bela, repleta de rútilos dançando nas paredes e nos espelhos. De resto, admitamos, ninguém sabe explicar muito bem as razões por que uma determinada luz o fascina ou fere, aborrece ou tranquiliza. A luz é talvez uma escolha psicanalítica.

Viu-se a si mesmo, muitos anos antes, conduzido no velho Talbot dos pais, quem sabe à mesma hora crepuscular, neste mesmo cruzamento, olhando a mesma vitrina. A memória confundia-o. Na negritude fria desse fim de tarde, aquele instante era como um aluvião de bem-estar sobre um oceano de desconhecidas e inimagináveis proporções.

O verde substituiu o encarnado. O carro arrancou. Estava atrasado para a consulta. O que quer que o médico da especialidade lhe dissesse podia esperar.

CAÇA AO TALENTO

Johannes Glännman
Foto: Johannes Glännman

— Diga-me, então: do que é que ele é capaz?

— Bem, sabe recitar de cor alguns dos trechos mais significativos de algumas das mais importantes obras da literatura universal!

— Bah! – cortou o diretor com um gesto cheio de desprezo. – Hoje ninguém se importa já com a literatura universal. Além disso, para fazer o que ele faz, temos a Wikipédia.

— Compreendo… – disse, um tanto descorçoada, outro tanto envergonhada, a jovem treinadora de pássaros cultos.

— Bem, já conhece o caminho não é verdade?

— Conheço o caminho, sim, obrigada!

Afagou o pequeno gaio-comum e saiu. Era uma manhã como as outras. Nem sequer mais fria.

WILLIAM WIMBLOT

Claude Brazeau
Foto: Claude Brazeau

 

Em cima da mesa, William Wimblot tinha as cascas da laranja que acabara de comer. A sua disposição, em hélice, misturada com aparas de queijo de cabra, migalhas de broa, e com o copo vazio e sujo de vinho, dava-lhe a sensação de uma pequena convulsão no universo.

«O que é mais perdurável: o caos ou a ordem?»

O senhor Wimblot gostava de pensar que os seus pensamentos entravam na matéria negra do nada como a lâmina de uma charrua na terra. Dedicava-se a rabiscar ideias, anotando-as e compilando-as um pouco ad hoc em sebentas de escola. Quase nunca as voltava a ver, porque lhe incomodava a sensação de ler algo seu, mas nunca desistia desse ofício, porque lhe dava prazer indagar sobre o tempo e o espaço da sua vida.

No dia anterior chegara à conclusão que o Homem (escrevia sempre a palavra Homem com maiúscula) «é uma espécie de nó bastante complicada, difícil, se não mesmo impossível de desatar, depois do Bem e do Mal, em milénios de recíproca miscigenação, se terem nele encordoado com toda a força».

Gostava de metáforas. Preferia as mais inusitadas. Adorava alegorias. As científico-religiosas, em especial. Já por uma ou duas vezes comparara o evoluir da nossa espécie com o movimento silencioso dos seus ervilhais, tão extraordinário de resto quanto o dobrar da matéria em grandes ondas gravitacionais. Na sua cabeça, as abóboras, as galáxias, os tratados de Heidegger, a compaixão, a voz da soprano que canta a In Trutina de Carl Orff eram o mesmo. «Existir é a potência de iludir o antes com o depois, como se antes e depois não fossem o mesmo.»

A frase, dita numa quermesse diante do abade e de outros lavradores da Cornualha, causou sensação, granjeando-lhe reputação duvidosa nos dois terrenos onde semeava a sua paciência: no das beterrabas (onde o viam como um intelectual) e no das ideias (onde o desprezavam como o vilão de galochas, que era em todo o caso). Não é fácil, admitamo-lo, ser-se um homem do campo, das ciências e das letras.

Wimblot mirava sem o ver o perpianho das paredes, as alfaias penduradas do teto de madeira, o lume que preguiçava na laje da lareira. Sentia-se embalado pelo vento forte a fustigar no pátio as sombras aguçadas da noite, acalentado pelo bom Syrah que cultivava na terra mais agreste de Redruth, distraído pela beleza caligráfica do aparo de ouro sobre o papel.

«O que é mais perdurável: o caos ou a ordem?»

Não sabia. Talvez Deus não permitisse que se soubesse. Talvez não houvesse resposta. E, no entanto, ela faria toda a diferença: ela explicaria toda a História, justificaria toda a Filosofia. Ao passo que sem ela talvez nada fosse afinal sério e verdadeiro, talvez tudo não passasse de uma brincadeira.

«E andamos nós nisto desde sempre!»

Wimblot sentia a acidez distender-se do estômago à boca. Era hora de ir dormir. O cansaço é uma bênção. «Sempre foi o que fizemos: dormir» repetia o amável homem, quando, apagando de supetão o gasómetro, como quem fazia (num truque de ilusionismo) desaparecer todo um grande problema.

O ORADOR

Rapahael Guarino
Foto: Rapahael Guarino

 

O Orador dispôs um olhar exortativo sobre a assistência. A preleção corria-lhe bem, aqui e ali (notava-o agora) talvez alegórica demais. Para o dissimular, o Orador servia-se de um tom mais crispado, acusando os adversários de todo o género de manigâncias. Vieram as palmas. Alguns que tinham os maxilares rigidamente presos à boca para não serem vistos a bocejar, puderam soltar «Bravo» e «Apoiado».

Falou durante uma hora e cinco minutos. No final, elevando o tom, como quem dá o remate final numa pintura muito rebuscada, olhou a plateia e quase gritou:

– Assim, ilustres companheiros, amigos, correligionários, o Partido deverá constituir-se como um exemplo inatacável, lembrando a sua matriz fundadora e os seus líderes do passado. Somos o partido das grandes reformas e nunca nos coibiremos de ostentar na lapela a vitalidade do que criámos, nem o desejo de refundar a nação e de lhe impor as mudanças inadiáveis! Não permitiremos que a causa pública se veja coartada por irrisórios expedientes, negligenciada ou impedida por esta oposição incompetente, acéfala, por esta oposição acrítica, populista e demagógica! Somos nós, nós, este partido, quem tem o ónus da responsabilidade! Não nos demitiremos do nosso lugar de charneira! Em cada aldeia, vila ou cidade faremos chegar o progresso das nossas ideias e faremos que o bom povo compreenda a nossa visão! Tenho dito!

Seguiu-se o ribombo das palmas. Alguns, que dormitavam, começaram por instinto a aplaudir. Aplaudiam com força, com frenesi, com devoção.

O Orador recebeu abraços apertados de consideração, elogios cochichados dos membros da mesa, apertos solenes de mão. Liam-se nos lábios expressões encomiásticas, «Muito bem!», «Honra-nos!», «Parabéns»! Era um homem conspícuo, falara brilhantemente. A grande sala, unânime e rouca, era o sopro guardado de uma bolha de sabão. Unânime e rouca, elástica, crescia na ovação.

O Orador sentou-se no lugar que ocupara antes. Vários colegas levantaram-se em volta para o virem saudar, para lhe exprimirem a admiração e ele, notavelmente contido, sorrindo apenas, recebia e agradecia comovido.

Outro orador subiu ao palanque. Outros se lhe seguiram. Mas nenhum orador era o Orador. O soberbo homem esgotara o filão da melhor retórica. Quando, horas mais tarde, o presidente da mesa declarou encerrados os trabalhos por esse dia, era ainda a intervenção do Orador a que prendia as atenções.

Ninguém duvida da importância deste tipo de acontecimento, nem da profundidade intelectual dos palestrantes. Costuma discutir-se sobre a distribuição de cargos, sobre o modo mais eficiente de criar falanges de apoio, sobre vendetas e punição de dissidentes. Também se fala do futuro do país. Sobretudo do passado do país. A res publica atrai centenas de congressistas que não arriscam nunca mostrar-se descontentes ou cansados. Convém ser cortês com quem tem poder, pese o poder pertencer ao povo. Simplesmente o povo é vasto e abstrato. O melhor é ser cortês com pessoas como o Orador.

Logo que as luzes se sumiram na grande sala, os grupos desfizeram-se e o Orador, retardando-se em colóquios fraternais com um companheiro veterano e outros nem tanto, pôde sentir no jardim anexo o aroma das laranjeiras em flor. Ia comentando ainda coisas sérias, sublinhando ainda a linha de orientação do Partido. Um coro de cabeças anuía. Era exatamente assim. O Orador adivinhara-lhes na cabeça o pensamento. Como podiam eles não concordar?

Era uma noite belíssima. Quando, por fim, se introduziu no carro e se dispôs a regressar ao hotel sentiu-se um tanto só. Verificou no relógio: eram quase três horas. No céu erguia-se o silêncio, um infinito recamado de estrelas e poeira de galáxias. O Orador recordou-se do avô, que costumava ensinar-lhe o nome das constelações e lhe narrava as façanhas dos argonautas.

O ar limpo passava-lhe por entre os dedos e pelas narinas. O volante era tão leve como uma pena. O Orador sentia-se mergulhar num alçapão misterioso. Uma vozinha vinda de nenhures reclamava a sua atenção. Quase sentiu saudades dos campos, das noites da infância, do velho que lhe fazia papas de abóbora. Essa flamazinha aguda doía.

‒ Que porra! – resmungou o Orador.

Ligou o rádio. As notícias acalmaram-no. Falavam do congresso, do Partido, de si. Todos aquiesciam. Repetia-se o aviso, «irrisórios expedientes», o «calcanhar de Aquiles», nada podia perturbar as grandes reformas em curso. Pedia-as o país. O Orador penetrou na noite. Mal-humorado. Terrivelmente…

NÓS GOSTAMOS DA NEBLINA

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Foto: Alexander Schönberg

M. caminhava com pressa nessa manhã. Fazia-o por causa do frio, mas outrossim em virtude do hábito (no verão caminhava igualmente apressado; talvez, neste caso, por causa do calor). De todas as partes da cidade, por onde a água corresse, subia uma neblina espessa e álgida que engolia tudo: um olhar não demasiadamente perspicaz vê-la-ia erguer-se do rio, mas também das sarjetas, dos chafarizes, nos jardins públicos, e das bocas ofegantes dos transeuntes.

M. lembrou-se (ultimamente era uma memória assídua) da ponte de outros dias, no fim da primavera, quando aí costumava comprar a uma velhinha de lenço na cabeça cerejas magníficas, e se punha a observar a lentidão do caudal quase transparente, e os junquilhos lhe debruavam as margens, e uma mulher o esperava na outra banda, ao lado da igrejinha românica, cujos lábios carnudos confundia às vezes, no inferno de uma insónia, com a cor e a carne das próprias cerejas maceradas na sua boca.

M. suspirou. Teria vivido o que viveu? Chegava a duvidá-lo. Olhou o céu com um suspiro. O sol, um sol cor de prata, forrado pela neblina como por bocassim, ia e vinha por entre os prédios, aparecia e desaparecia no meio da cabeça ossuda das árvores. M. suspirou de novo. Era uma visão do passado e não tanto de um déjà vu o que lhe estava a acontecer nesse preciso instante, porque nalguma parte de si sabia há muito que iria viver esse momento, esses suspiros, essa pressa, essa nebulosa divagação por entre espaços e pelo âmago do tempo. Principiara a acreditar no eterno retorno. Convencera-se mesmo que, algures, na viagem da nossa vida, apesar de não vermos o antes ou o depois, repetíamo-lo.

Entrou na farmácia e pediu aspirina.

– Uma caixa, senhor?

– Três, por favor!

– Três?

– Três.

M. gostava de comprar tudo a triplicar. Detestava a sensação de ver esgotar-se algo de que precisava ou de que gostava. Casara três vezes, tantas quantas as que se divorciara. Começara três cursos na universidade, sem ter concluído, porém, por culpa de um tédio irreprimível, nenhum. Era assim. Se pudesse, teria nascido em três e falecido outras tantas ocasiões, para não lhe escapar qualquer pormenor e pelo prazer de regressar a um ponto exato da existência.

– Aqui tem. São treze euros e vinte cêntimos.

M. pagou e saiu. Doía-lhe a cabeça. Doía-lhe amiúde. Caminhava com pressa, em direção a qualquer parte que a neblina não deixava divisar bem. Ah, as cerejas túmidas, a velhinha simpática, a amante que o esperava com um sorriso tímido, num banquinho de madeira, à porta da antiga igreja. M. entrou na neblina como se entra num sonho.

Até agora não voltou a ser visto.

OS NOSSOS DESVELOS MAIS ROMÂNTICOS

Ebba Torsteinsen Jenssen
Foto: Ebba Torsteinsen Jenssen

 

Última novidade da moda, espantosa, não se fala de outra coisa, todas as querem, acessíveis a partir de agora nos mercados do costume e nos alternativos: pedras de bolso!*

Escolhidas com meticulosidade nas melhores pedreiras, riachos e praias, embaladas individualmente ou às meias dúzias, em caixas de madeira ou em latinhas forradas de esponja e cobertas com uma dobra de tarlatana, elas são o must have do momento, ideais para quem queira (à maneira antiga) ofender uma cabeça intrometida, chamar alguém pela calada da noite a uma janela alta, ou ir abrindo, repleto de melancolia, as águas de um lago (pode ser as de um rio, ou as do próprio mar, também), enquanto se aquieta dúvidas e angústias profundas.

Estas pedras de bolso são, ainda, aconselhadas para quem goste de amuletos, precise de apertar com todas as forças um objeto denso (em vez de estrangular, por exemplo, o pescoço de um aluno, ou o de um vizinho malcriado), ou, ainda, pretenda iniciar-se em microescultura.

O preço é francamente convidativo e a variedade do produto (nas modalidades de granito, basalto, mica, ardósia e mármore) promete satisfazer uma larga fatia de clientes, nacionais e estangeiros.

Trata-se do primeiro de uma série de promissores investimentos de uma empresa exploradora dos nossos desvelos mais românticos. O seu lema, «NÓS SONHAMOS POR SI», responde a uma necessidade humana há muito propalada e sem resposta: agora, à medida que deixarmos de perder tempo com os nossos sonhos, poderemos fazer o que nos der na real gana. E isto, sim, é o progresso!

* Produto em vias de homologação, junto das autoridades competentes.