CÉU

Céu
Foto de arquivo pessoal (2021)

Vou perdendo algumas capacidades. É o mais certo na vida, que as vamos deixando no lugar onde nos ficaram a infância, a juventude, os primeiros tempos dourados da idade adulta. Julguei há meia dúzia de anos ter perdido a capacidade de amar. Não decerto de sentir amor. Sente-se amor pelas pessoas que nos querem bem, pelos animais de companhia, pelos ofícios que nos destacam, pelos livros e obras de arte que nos resgatam da estupidez. Mas amar… Supus, felizmente em erro, que amar não me dizia já respeito (se alguma vez mo havia dito).

Enovela-se-nos a vida em trapos, em cordas, em fúteis caminhos de perdição. Lastima-se que o tempo haja ido tão mal-acompanhado e que, em vez dele, restasse cá dentro o que resta de um campo arrasado pelas chamas – pavorosas cinzas que ardem noite e dia, dia e noite, noite e dia. E isto sucede ao mais inócuo dos homens. À melhor das mulheres. Perde-se muito, perde-se tudo, ou quase.

Mas então, independente de nós, a vontade das coisas manda. No meu caso, mandou sem que lho tivesse pedido, ou (verdade seja dita) que o tivesse querido. A vontade das coisas trouxe-me de regresso, e fê-lo enviando (a mim, um cético, um pessimista) o melhor dos anjos da guarda. Foi em 1 de setembro de 2018.

Há, portanto, neste dia (não algo, mas) alguém a lembrar. Que o seu nome seja tão divino é outra ironia. Que por ele se tenha o inferno decidido a deixar-me não o duvido. Que me tenha nestes três anos cumulado de poesia, de afeto, de coragem, de companheirismo é coisa para alardear. Nenhuma Céu é demais na vida de um homem, sobretudo se a beleza da sua alma tiver paralelo na beleza dos seus olhos, sobretudo se a beleza dos seus olhos reverbera na beleza dos seus gestos.

Hoje estas palavras (por ridículas que me possam parecer) tenho de as deixar ditas nalgum lado. Três anos é quase nada. Mas arrisco um “quase tudo”, tão docemente mudaram a minha vida.

Muito obrigado, meu amor!

LANZAROTE, SARAMAGO E A CASA

Casa de Saramago

No imaginário português, a árida e despojada Lanzarote é “a ilha de Saramago”. De resto, em lugar nenhum senti a presença de um escritor tão veemente como na casa em que, nesta ilha, viveu ele com a mulher, Pilar del Río.

Com efeito, A Casa (na Calle de Los Topes, 1, em Tías), pareceu-me no final dessa manhã de 29 de agosto de 2018 um nimbo literário, juntamente com a Biblioteca que (quase contígua, do outro lado da pequena estrada) recebe os muitos milhares de livros, revistas, cartas, manuscritos (não contando as estátuas, estatuetas, óleos) que o nobel colecionou em terras canárias. É bastante provável que muitos saramaguianos viajem a este lugar em primeira instância a partir dos seis volumes dos Cadernos de Lanzarote e que, lendo-os (se o preço da curiosidade não for menos do que o medo de fazer umas férias em solo lunar), se sintam tentados a comprar um bilhete de avião e a conhecer o extraordinário chão vulcânico que de Arrecife se estende a Haría, Ye, Guatiza, Orzola, a Caleta de Famara, a Caldera Blanca, a Yaiza, Uga, La Geria, a Las Breñas, a Los Charcones, à Montaña Roja, a Playa Blanca.

Os Cadernos falam de Lanzarote, mas não tanto como gostaria. O volume maior desta escrita diarística incide sobre as relações e questões que o autor alimentou (simpatias, antipatias, querelas, indignações, convites, idas e estadas em eventos literários, notas partidárias, glosas de toda a espécie a respeito do dia a dia social e político do país – olhado à distância, mas com a precisão – e do mundo), mas também sobre o amor a Pilar e aos cães da casa, sobre o maravilhamento do eu na relação tumultuosa com o cosmos, sobre efemérides, sobre uma frase colhida, sobre um pensamento, sobre uma confissão vinda a propósito do ruído do mundo ou vinda do silêncio purgado da sua alma. Todas as alusões à terra lanzarotenha me fascinam, inversamente aos apontamentos da sua agenda social (às vezes fastidiosos, quase sempre narcisistas).

Casa 2

De entre as geniais descrições que Saramago entremeia na meia dúzia de Cadernos a respeito da ilha, uma sobremaneira me toca e me parece súmula perfeita do que nela há de beleza cruel ou de corajosa resistência.

Há em frente da casa um morro a cujo cimo se chega por uma encosta suave, mas que, do outro lado, desce abruptamente sobre a planície que se estende até ao mar. (…) No geral dos dias, a paisagem que hoje dali se vê é escuta, com o chão coberto de troços de lava triturada pelas estações, uma vegetação rala e rasteira, amarelada, de longe quase invisível, continuamente sacudida pelo vento. Os muros baixos de pedra seca já não dividem as antigas parcelas em que se cultivava o trigo, a batata, o tomate. Agora apresentam a figura de um tabuleiro de xadrez mal desenhado donde os reis, os bispos e os cavaleiros se foram a melhor vida, e de onde os peões emigraram para irem ganhar o pão no turismo da costa. Tem chovido com abundância nestas semanas. Como sempre, por toda a parte, reverdecem logo as ervas, ainda sombriamente porém, como e nas seivas viesse misturado algo do negrume calcinado da terra. Vou até ali de vez em quando (…) e julgava conhecer o morro passo a passo, com os seus restos de velhos muros onde se escondem, rápidas, as lagartixas, e onde esquálidos arbustos lutam contra a ventania, mas hoje, num rebaixo, fui descobrir dois algibes que antes me haviam parecido simples amontoados de antigos escombros. Subi aos tetos abobadados e espreitei pelas frinchas das pedras mal ajustadas. Havia água no interior, uma água verde, imóvel. Não existem nascentes perto (quase não as há em toda a ilha), portanto toda aquela água caiu do céu, alguma é destes dias, outra do ano passado (…). Quando regresso a casa olho para trás. Ai estão os algibes, tranquilos como uma ruína, indiferentes ao deserto em que os abandonaram. Vendo-os assim, guardando o que lhe foi confiado, compreendi a razão por que a estas cisternas chamamos arcas de água. Ao dizer arca, ao dizer água, estamos a dizer tesouro.

(1 de janeiro, Cadernos de Lanzarote IV)

Durante um certo período de tempo, a minha irmã mais nova e afilhada viveu em Lanzarote ilha, também. Por sua culpa, errei por lugares que me confundiram os sentidos e me fizeram disparar centenas de vezes os relâmpagos das máquinas fotográficas e do telemóvel: Las Nieves, por exemplo. Por exemplo, o Miradouro del Río (donde nos fere o azul claro da Graciosa e o profundo do oceano). Por exemplo, ainda, a Cueva de Los Verdes. Ou a vista ocre do La Corona (o maior cone vulcânico desta terra). Ou as vinhas escuras de La Geria, aninhadas em craterazinhas e aconchegadas em muretes de basalto. Ou o poderoso e avermelhado Parque Nacional de Timanfaya, com a sua imponente massa de lava solidificada. Ou os férvidos Hervideros. Conheci estes lugares como se conhece, deslumbrado, alguém que nos volta a cabeça do avesso. Absolutamente convencido de que também aqui viveria para a escrita, decerto não tanto como o cosmopolita Saramago, mas talvez como Hilário, o eremita.

Casa_Piscina

O escritor português soube rodear-se de um conforto notável. Da janela do seu antigo escritório alcança-se sem custo o mar. Na penumbra do espaço, brilham não só as lombadas dos livros e as vitrines, onde ficaram aprisionadas as suas canetas, mas igualmente o Atlântico ao fundo e as ramagens das araucárias, das alfarrobeiras, dos encefalartos do jardim. Na piscina da casa, nas suas varandas generosas, ou na Biblioteca a que me referi acima (conspícua, aconchegante, ampla), José Saramago soube criar uma teia imensa de vozes e de amizades, de que dá conta nos diários. Lanzarote, com o seu cenário exótico de cinzas e piroclastos, com a secura do seu corpo velho (onde apenas os catos e as balsamíferas de eufórbio suportam ser plantas), com a sua costa acidentada e de fortes contrastes cromáticos, tornou-se para as visitas de Saramago um motivo extra para regressarem. O escritor português gostava, de resto, de as receber na sua casa. Mais ainda se portugueses fossem.

Maria Alzira Seixo chegou hoje, vem passar uns dias connosco. De cada vez que vou ao aeroporto esperar um amigo português tenho a curiosa impressão de estar a recebê-lo no próprio limiar da casa, como se toda a ilha de Lanzarote fosse minha propriedade, e não apenas estes dois mil e poucos metros empoleirados no alto da encosta que desce de Tías até Puerto del Carmen… Mais curioso é o sentimento de responsabilidade que me leva a desejar que o visitante só leve de cá boas recordações, isto é, que, dia e noite, o tempo, o céu, o mar e a paisagem tenham estado perfeitos, que o vento não tenho soprado demasiado, que nenhum turista distraído ou mal-educado tenha atirado uma lata de coca-cola ou um invólucro de cigarros vazio, que nenhum residente – canário, peninsular ou estrangeiro – tenha infringido o código não escrito que o manda comportar-se como exemplo de civismo quotidiano, que para isso, acho eu, é que temos o privilégio sem preço de viver neste lugar.

(14 de setembro, Cadernos de Lanzarote III)

Que Lanzarote me haja parecido um paraíso é assunto discutível. A minha afilhada sorria, se e quando eu o afirmava categórico, chapinhando nas águas quentes da praia de Famara com a alegria e os planos de um garoto. Existe na ilha e no arquipélago uma dureza de que os forasteiros mal se dão conta. Há três anos lia e corrigia o manuscrito de O Moscardo e Outras Histórias, escrevia nessa paragem, diante uma lua cheia magnífica, as duas narrativas que fechariam o livro («José, Pilar» e «Famara»). A varanda noturna dava-me a impressão de que entre os vizinhos (em cujas garagens abertas se acendiam churrascos e se brindava de cerveja na mão) existia ainda uma unidade ancestral, perdida nas nossas cidades e aldeias. Os garotos corriam e jogavam à bola descalços, algazarrando de um modo que acordou a minha própria infância. Era como assistir ao passado em direto, como ter regressado a um aconchego inesperado, como ter ali à mão de semear o sossego, a jovialidade, a leveza de que se precisa para viver bem e escrever melhor.

Casa_Biblioteca

Mas a Catarina advertiu-me que o dia a dia não é fácil. Falta tudo aqui: água, carne e verduras, comodidades que noutras partes são banais. E o clima é duro, por vezes insuportável. Falou-me da calima, essa praga do deserto de que outrossim Saramago dá nota.

Lanzarote não é sempre o paraíso. Ontem amanhecemos com o céu tapado pela calima, um ar espesso e soturno que transporta para aqui, por cima de cem quilómetros de oceano a poeira do Sara, e nos põe à beira da sufocação.

(25 de março, Cadernos de Lanzarote III)

O que comove na Lanzarote de Saramago é o sentido de que uma terra inóspita e desconhecida possa ser a nossa casa. Exilado de Portugal, do Portugal cavaquista (é bom não esquecer), o escritor encontrou a sul, a mil e quinhentos de distância o seu refúgio, o seu espaço, o seu tempo. Em Lanzarote viveu os 17 anos finais da vida, aí viu-o mundo o viu ressurgir, do chão, da cinza, colecionando pedras e miniaturas de cavalos, escrevendo alguns dos seus romances mais conspícuos. “Lanzarote não é minha terra, mas é terra minha”, escreveu. E talvez por isso também Lanzarote vê José Saramago como um dos filhos distintos e dele se orgulha.

Quando os meus olhos, atónitos e maravilhados, viram pela primeira vez Timanfaya, quando percorreram e acariciaram o perfil das suas crateras e a paz quase angustiante do seu Vale da Tranquilidade, quando as minhas mãos tocaram a aspereza da lava petrificada, quando das alturas da Montanha Rajada pude perceber o esforço demente dos fogos subterrâneos do globo como se eu próprio os tivesse acendido para com eles romper e dilacerar a atormentada pele da terra, quando tudo isto vi, quando tudo isto senti, achei que deveria agradecer à sorte, ao acaso, à ventura, a esse não sei quê, não sei quem, a essa espécie de predestinação que vai conduzindo os nossos passos, o privilégio de ter contemplado na minha vida, não uma, mas duas vezes, a beleza absoluta.

(28 de abril, O Último Caderno de Lanzarote)

É este o Saramago que idolatro. O homem que se serve do seu formidável talento para compor poesia com palavras cirúrgicas. Tal como a ilha que o acolheu, também o escritor português nos conduz por caminhos acidentados para nos desafiar a outra vida, a outro destino, a outra beleza que não mirra com a idade e antes com ela revigora. Em lugar nenhum podia Saramago ter cicatrizado tão profundamente a sua dor de homem desterrado. Nenhuma terra podia ter recebido filho mais grato e fecundo. Mãe e filho de um acaso. E ainda bem.

EUGÉNIO E A FOZ

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Foto de arquivo pessoal

Entre agosto e setembro há a Foz do Douro, o mar, Eugénio de Andrade. Caminhando pelo Passeio Alegre, ou pelas avenidas dos plátanos (rua de Gondarém e rua do Marechal Saldanha), seguindo pelos pontões e pelos molhes, atravessando a pérgula e os passadiços ao longo da marginal, fica-nos a impressão de que há certas partes do Porto que o final do verão torna imprescindíveis, luminosas e enxutas como enxutos, luminosos e imprescindíveis são todos os poemas do autor de Os Sulcos da Sede.

Os jardins, o cheiro das algas e da água, a pedra branca e ardente de alguns antigos edifícios, o corpo generoso das árvores (em cuja sombra nascem estátuas de bronze e casais jovens perdidos de amor), o burilar da luz no vidro alto dos prédios ou nos rochedos húmidos em frente às esplanadas, o azul do horizonte e os navios ao longe cosendo horizontalmente o oceano e o céu lembram estrofes inteiras de Eugénio:

«Um dia chega / de extrema doçura: / tudo arde. // Arde a luz / nos vidros da ternura. // As aves, / no branco / labirinto da cal. // As palavras ardem, / a púrpura das naves. / O vento, // onde tenho casa / à beira do outono. // O limoeiro, as colinas. // Tudo arde / na extrema e lenta / doçura da tarde.»

Há muito que a Foz me fascina. Para ser preciso, desde que a descobri nos tempos de caloiro na Faculdade de Letras, desde que nela e por ela aprendi (seguindo em direção ao Parque da Cidade, a Serralves, ao Campo Alegre, ou então à Ribeira, à Sé, a S. Bento) a calcular a distância entre as diversas camadas temporais do Porto e a por elas calcorrear a literatura dos poetas e romancistas que a têm como ponto de chegada, ou de partida. Pisar o chão da Foz é gostar da escrita de António Nobre e de Raul Brandão, talvez também da de Manuel António Pina e da de Rui Lage. Cirandar pelo arvoredo do Jardim Botânico é reler Rúben A. e Sophia de Mello Breyner Andresen. Apearmo-nos no Largo Amor de Perdição, junto aos clérigos, torna obrigatória a lembrança da vida e da obra de Camilo Castelo Branco. E nos últimos anos já não consigo descer de Miragaia à Alfândega sem rememorar, por exemplo, Intermezzi, Op. 25 de Manuel de Freitas. De todos os cantos da Invicta, da Foz sobretudo (volto a ela), chega o eco nada distante das praias de Matosinhos e de Vila do Conde, o eco demorado dos poemas de Ruy Belo. Ou a serenidade da poesia de Albano Martins, vinda da outra margem do rio.

Mas é aqui, neste pedaço da costa, que a poesia mais se acende, em especial nesta altura do ano, iluminada pelo génio de composições como esta de O Sal da Língua:

«No fim do verão as crianças voltam, / correm no molhe, correm no vento. / Tive medo que não voltassem. / Porque as crianças às vezes não / regressam. Não se sabe porquê / mas também elas / morrem. / Elas, frutos solares: / laranjas romãs / dióspiros. Sumarentas / no outono. A que vive dentro de mim / também voltou; continua a correr / nos meus dias. Sinto os seus olhos / rirem; seus olhos / pequenos brilhar como pregos / cromados. Sinto os seus dedos / cantar com a chuva. / A criança voltou. Corre no vento.»

Foto de arquivo pessoal

Agora as crianças correm de outro modo, montando perigosas bicicletas atrevidas ou serpenteando turistas com trotinetes, segurando às vezes o venenoso telemóvel que as desliga da realidade. Mas a Foz é delas, ainda. Delas e do vento. Dos salpicos de azul por entre metrosíderos e figueiras. Delas e dos muros amarelos que ladeiam o alcatrão. Delas e das gaivotas que poisam sobre os curiosos candeeiros em forma de tridente. Delas e do macio aroma da relva cortada (enleando-se no cheiro do pó e no cheiro a iodo do mar). Delas e da cor indecifravelmente bela das varandas tocadas pelo rútilo da luz, digo, do sol doirando o mar.

Também deste brilho (desta exultação) dá conta Eugénio, no poema «Mar de Setembro», do livro homónimo:

«Tudo era claro: / céu, lábios, areias. / O mar estava perto, / fremente de espumas. / Corpos ou ondas: / iam, vinham, iam, / dóceis, leves – só / ritmo e brancura. / Felizes, cantam; / serenos, dormem; / despertos, amam, / exaltam o silêncio. / Tudo era claro, / jovem, alado. / O mar estava perto. / Puríssimo. Doirado.»

Junto à estátua de Camões, o mar ainda sedutor de entre agosto e setembro sopra-me o seguinte pensamento: que bom que seria se estes e outros poemas de Eugénio de Andrade pudessem nascer dos canteiros floridos da Foz, ocupando – quem sabe em bronze ou pedra – o lugar sujo dos cartazes propagandísticos e publicitários que tanto a enfeiam. Não digo que se ponha de pé uma estátua ao poeta maior deste canto da cidade (tenho a certeza de que Eugénio havia de repudiá-lo). Contudo, seria um ato de justiça que ele fosse lembrado de uma ou de outra maneira. E a justiça, ainda que tantas vezes tarda, faz-nos bem. Eugénio merece-a.

A SOLIDÃO DO MUNDO

Foto: Tanja Ghirardini

Poucas vezes me senti tão só como nessa madrugada de 24 de agosto de 2018, no aeroporto da Gran Canaria, enquanto esperava que as horas se fossem sucedendo umas às outras (e com que vagar elas iam, com que esforço elas vinham), poisado num das dezenas de bancos compridos que atravessam o terminal de voos internacionais, lendo o guia turístico, vendo passageiros chegar à pressa e num ápice desaparecerem de novo, conferindo nos placares eletrónicos siglas, números, lugares de destino, desesperando pelo momento em que abrisse o balcão que me permitiria aceder ao terminal de voos locais e num deles seguir para Lanzarote.

É impressivo o que nos fica de um terminal quase vazio de aeroporto. Os relógios, a luz percuciente das lâmpadas, o cheiro forte de café e dos croissants, o som desconsolado e frio dos tróleis, o movimento silencioso das máquinas enceradoras, a fragrância dos desinfetantes, o acento que as palavras tomam nas outras línguas. Lembro-me de ter comido um panado às três e meia da manhã, de ter dividido algumas frases com a senhora que mo serviu, de ter procurado sem sucesso dormir, de ter tentado escrever qualquer coisa sobre o tema que me ocupa agora. Algures, no miolo da espera, tudo dói como num sonho confuso e a solidão é perfeita. Sentimo-nos exaustos. Damo-nos conta de que não há ninguém para nos escutar, de que somos apenas nós.

Àquela distância, a essa hora, naquele súbito desarranjo de vida, pensei na família, nas pessoas que me querem bem, nos sítios onde havia estado no mesmo dia em anos anteriores, nos sítios aonde gostaria de viajar no mesmo dia em anos futuros, no quão mal-habituado se está quando nos deixamos rodear pelo conforto e pela saciedade, no benefício que nos traz a exigência de transpor as pequenas linhas circulares do dia a dia.

Há com toda a certeza quem experiencie essa solidão tantas vezes e tão frequentemente que dela provavelmente já se alienou. Há talvez quem nestas circunstâncias não pense em solidão, mas em liberdade. Há decerto quem aprecie os corredores despidos e semiescuros de um aeroporto para encontrar neles pontas soltas e respostas existenciais. Pela minha parte lamentava somente a azia que a carne panada e o excesso de café haviam produzido e as alfinetadas horríveis na cervical. Era bom que a ilha de Saramago valesse a pena!

Na verdade, valeu. Valeu bem a pena (a pena, a máquina fotográfica, o tempo, as expetativas, o esforço). Essa noite de 24 de agosto varreu-se, entretanto, sozinha, arrastada para o esquecimento pelo brilho das memórias que a seguir aquilatei. E ter-se-ia perdido para sempre não fosse um parágrafo breve que miraculosamente se preservou no caderno que então me acompanhava:

«É no longe que nos vemos mais de perto, no lugar onde se acaba de nós toda a firme cobardia e começa por ela outra coisa. Aqui, num qualquer aeroporto simultaneamente luminoso e sombrio, sinto-me como um prego espetado na terra: ninguém me vê, ninguém me escuta, ninguém se apercebe de que da cabeça achatada para baixo há metal que o chão oxida. A solidão do mundo é esta: haver quem sempre fique no lugar onde outros sempre se tresmalham, um e outros condenados a desaparecer, ou pela inércia, ou pela pressa.»

Confesso que me fascina este curto e (plausivelmente) inacabado texto. Sobretudo porque não atino com o significado que lhes possa ter dado em 2018, nem com o que volvidos três anos pudesse dar-lhe hoje. A solidão do mundo é também muito isto: comunicarmos mal, pese a beleza e a profundidade do que dizemos.

O REGRESSO DO BLOG «DIAS DESIGUAIS»

Durante quase uma década (entre 31 de janeiro de 2007 e 31 de dezembro de 2015) fui publicando regularmente poesia no blog «dias desiguais». Foram centenas de textos (nem todos poéticos), centenas de fotos e pinturas, bastante música, várias viagens pelo meio.

Acontece que me cansei e apaguei-o. Os textos ficaram guardados, alguns foram publicados novamente, muitos destruídos, outros estão engavetados em ficheiros Word, à espera (quem sabe) de uma outra oportunidade.

Nesta página venho partilhando crónicas e contos (sobretudo). A poesia tem ficado de fora. Por essa razão, criei um espaço novo, melhor, encontrei um novo endereço para um blog antigo, ou um novo blog para um antigo endereço (vai dar no mesmo).

Se tiverem curiosidade, vejam. Se gostarem, partilhem. Se partilharem, não deixem de comentar. Em ano de celebração (20 anos de vida literária é já alguma coisa), não podia deixar de ser. O endereço: www.diasdesiguais.com. Aí como aqui nos encontraremos!

«EUTRAPELIA» – RECENSÃO DE CLÁUDIO LIMA

Ler aqui também

Hoje reunimo-nos para celebrar os 20 anos de poesia publicada em livro por João Ricardo Lopes. Às primícias poéticas deu o Autor o título de a pedra que chora como palavras (ed. Labirinto, Fafe, 2001). E, a justificá-las, se a intrínseca qualidade da obra não bastasse, assinale-se a atribuição do Prémio Revelação de Poesia Ary dos Santos, galardão de encher de orgulho e incentivo qualquer iniciante na difícil arte das belas letras. De facto, percorrendo estes 35 breves poemas, um leitor minimamente apetrechado e familiarizado com os meandros e mistérios da poesia, imediatamente concluirá que aquele livrinho inaugural indiciava, mais do que uma tímida promessa, uma sólida e inequívoca vocação poética. Ainda hoje, volvidos 20 anos, «a poesia irrompe como um meteoro» (pg. 33) ao longo daquelas páginas. Táctil, intensa, evocativa, sob qualquer perspetiva que se a observe, é sempre uma deleitosa fruição o que ela nos proporciona. 

Passados 20 anos e cinco outros títulos de poesia, se o Autor não parou no tempo nem precisou de corrigir a rota, – e entendo que não – é porque partiu de uma rigorosa e bem pensada estrutura formal e conceitual que o tem levado a uma constante e cada vez mais criteriosa indagação do fenómeno, quando não epifenómeno, do que a poesia implica de consistência e aprofundamento. Andam por aí montes de equívocos, montanhas de falácias e cordilheiras de nulidades a doutrinar sobre e a praticar uma escrita balofa e oca a que conferem o rótulo de poesia, travestida, ademais, de genialidade visionária e vanguardista! Um deserto sem vislumbre de qualquer oásis onde mitigar a sede de beleza e unção espiritual!

Um observador comum olha e diz assertivamente: “isto é uma árvore”. E esse juízo, redutor e fechado na estreiteza conceitual, lhe basta. Apenas exige da árvore que lhe dê frutos e alguma sombra. A linguagem com que nomeia e qualifica é pragmática e utilitária; circunscreve o que vê e vê-o por fora e de relance. Um observador de sensibilidade poética, ao invés, vai aos limites da perceção e da expressão da coisa percecionada. Para ele nada é singular e unívoco na linguagem, antes polissémico e polimórfico. Liberta o objeto das amarras a que o uso massivo e ligeiro o submete e explora, ao mesmo tempo que lava as palavras das nódoas causadas pelo uso e o abuso.

Conheço o João Ricardo Lopes há bastante tempo, desde a publicação da coletânea Histórias para um Natal (ed. Labirinto, Fafe, 2004) em que ambos participámos. Mas, sobretudo, desde a publicação das suas crónicas Dos Maus e Bons Pecados (ed. Opera Omnia, Guimarães, 2007), em que de igual modo faz emergir a sua férula de prosador interveniente, atento ao panorama cultural e cívico português. Dessa obra fiz a apresentação na prestigiada e prestimosa Livraria 100.ª Página em 25 de outubro de 2007, cujo texto-base teve publicação no Diário do Minho a 7 de novembro do mesmo ano. Já então eu pressentia, sob a irreverência, por vezes a causticidade, do jovem cronista, a musculada expressão de quem procura bem mais do que a flutuação abúlica à deriva do tempo.

Cláudio Lima e João Ricardo Lopes

Regressa agora, a celebrar duas décadas de poesia, com um título breve e, para muitos leitores, algo esquisito, se não abstruso: Eutrapelia. Palavra de origem grega formada pelo prefixo“Eu” – que significa bem e belo – e pelo lexema “Trapelós”, de amplitude polissémica, omisso em vários dicionários e glossários da língua portuguesa. O velho Cândido de Figueiredo transverte-a simplificadamente para “qualidade daquilo que é gracioso, chistoso, mordaz”; José Pedro Machado no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, tomo II, regista “forma chistosa de motejar”; já o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, no tomo IX alarga um pouco mais o campo semântico: “modo de gracejar sem ofender, zombaria inocente, disposição de pilheriar agradavelmente, brincar amável e espiritualmente, engraçar-se, pilhéria grosseira, palhaçada, troçador birrento”, etc. Por sua vez, o Google, que regista várias entradas de natureza filológica, filosófica e ética, de divergentes, quando não opostos significados e nuances, tendencialmente valoriza os conceitos de conversa agradável, senso de humor, dito jocoso e inofensivo, etc.

E o Autor? Qual destas múltiplas propostas de natureza semântica o moveu à opção por um título que para muitos leitores se torna embaraçoso e impeditivo de uma imediata apreensão, bem como dos conteúdos que pode abranger? Ele esclarece: ao impulso que o moveu a esta solução subjaz um determinado estado de beatitude por indução (osmose?) de tudo quanto o rodeia, o interpela e o seduz. Uma espécie de filtro que tria a indiferenciada e caótica vasa do quotidiano. Veicula uma poesia que vai beber aos clássicos gregos, orientais e a alguns dos mais representativos vultos da cultura ocidental. Exige ser lida com todo o vagar e atenção, dessa forma removendo eventuais dúvidas e obstáculos ao desfrute de uma lírica adulta, bem burilada, pródiga em sugestão, estesia, brincos de retórica e de encantamento. Importa ser lida empenhadamente, em suma.

Facilmente apreendemos o quanto os prodígios da natureza fascinam o Autor e lhe condicionam o estro poético. No seu cíclico e inalterável movimento, estação a estação, admiramos aqui ora o desabrochar pletórico, ora o inelutável dessoramento e morte, para novo ressurgimento em novo ciclo vital. O eterno retorno em movimento perpétuo. Ocorre-me citar, a respeito, o grande Johann Wolfgang Goethe, quando compara a natureza a um livro: «A natureza é o único livro que oferece valioso conteúdo em todas as suas folhas».

Logo na página 13 encontramos um poema intitulado Bosch, Primavera, Museo Del Prado em que, provavelmente influenciado pela contemplação dos trípticos O Jardim das Delícias e / ou O Carro de Feno, do grande pintor brabantino, que se encontram expostos naquele Museu, observa que «encontrar no meio do sangue revolto / a pedra imprecisa // seria essa, talvez, a mais bela fonte da loucura», porque «depois de extraída tudo regressaria ao seu lugar». E na página 16 é ainda um hino à primavera que nos é oferecido num Allegro de jubilosa exaltação: «daqui observo o afã dos piscos nas ramagens / do limoeiro, / oiço o arrulhar, o trissar, / o assobiar das rolas, das andorinhas, dos pardais (…)  em maio as manhãs / fazem-me mergulhar na terra, / na profusão dos cheiros e das formas, / no frescor das ervas, / na quentura das cravinas e das rosas // arrepio-me de pensar que existo / e respiro / e escuto o tempo».

Cláudio Lima, João Ricardo Lopes e João Artur Pinto

Curiosamente, sobre o verão não encontramos nenhum título explícito, não obstante a sua sedução e a sua luminosidade permearem muitas destas composições. Na página 32, por exemplo, podemos ler o poema Agosto, em que fala no «verde azul do mar / ferindo-me como crisocola entre os dedos, / este azul onde os olhos adormecem (…)» E na página 30 repare-se neste extraordinário quadro (tela) estival, intitulado Tremezzo (região italiana da Lombardia): «lembro-me dessa tarde em Tremezzo, / do sol a pique / dos nossos corpos transpirados / à procura de uma sombra (…) os lentos degraus de granito até ao lago, / a água  refrescando-nos os tornozelos, / a lavar-nos do cansaço, / as ondas que os barcos de recreio levantavam / e que vinham de longe, / que vinham contra nós, / criaturas exangues, inofensivas, / sem culpa de nada».

O outono está aqui profusamente referenciado: na página 37, no poema O outono acena mais perto, elenca os gestos rituais de um setembro maduro e abundante: «nestes dias de lavar, brunir, / dobrar em caixas de cartão as roupas, / fazer contas de cabeça, tirar velhas compotas do armário, / despejar-lhes o bolor, lavar os frascos, / fazer polpa, cozer os marmelos, colher os figos, / conservar tudo de novo, como uma memória fresca da infância // o outono acena mais perto, / digo, o ar distraído das coisas, a subtileza madura dos frutos».  Na página 51, em Lendo Erdal Alova, poeta turco, fala do frio que secou os agapantos, das «pétalas soltas, / teias de aranha entre os caules / ressequidos», para concluir: «o outono é a estação do pouco / e eu contento-me / com tê-lo inteiro / aqui, / ou noutro lugar».

Também o inverno percorre estas páginas. No poema, a páginas 10, Sevilha, Inverno de 93, recorda «a pele das tuas mãos / (sempre tão álgidas) / caindo sobre o meu caderno // o que escreves aqui? para quê a poesia? / quem amas tu?» E lá mais para diante, evocando o cineasta russo Andrei Tarkovsky no poema O Inverno ou a Nostalghia de Andrei Tarkovsky, (página 58), é-nos dado a ler: «são agora mais frias as manhãs, / quase espetrais / atravessamos o nevoeiro, / como se atravessa a vau um espelho // os lavradores afastam em molhos a lenha inútil, / pelos campos as gralhas zombam avulsamente» Quadro rústico de grande plasticidade, sem dúvida, a fazer lembrar pintores como van Gogh. A concluir, logo na página seguinte, em Prodígios, leiamos esta quadra: «é possível trazer para dentro da lágrima / a subtil viração de certas tardes de inverno, / quando à janela as cortinas esvoaçam / e se descobre um mundo subitamente interrompido».

João Ricardo Lopes é, sem dúvida, um insaciável buscador de tesouros, naturais ou elaborados por obra do génio humano; coleciona sensações, contemplações, entusiasmos de índole estética e espiritual. Não é um turista apressado e frívolo numa correria tonta, galgando geografias de máquina fotográfica frenética, atrás de alvos banais para registo de selfies e de filmagens. Datados no tempo e situados em amplos espaços da cultura e da arte europeias, estes poemas, de tamanho e estrutura diversificados, constituem-se em precioso álbum literário daquilo que de mais belo e imperecível a humanidade foi realizando. Por aqui se movem em aparições mais breves ou mais demoradas, vultos tutelares da língua e cultura portuguesas, como Camões, Camilo Pessanha, Saramago; génios da arte universal como os poetas Horácio, Schiller, Whitman, Lorca e Seferis; pintores como Vermeer, Caravaggio e Bosch; músicos como Schubert, Debussy e Ravel. E tantos outros, cujas vidas e legados impressionaram o Poeta e o inspiraram nas digressões por museus, catedrais, jardins, monumentos, praças e avenidas, em diversos sítios tais como Creta, Londres, Milão, Madrid, Sevilha, Lanzarote, etc. Um andarilho do sonho e do mistério; do fascínio dos lugares e das coisas em que poisa e demora um olhar deslumbrado.

Encerro esta despretensiosa e limitada exposição-apresentação, lendo o poema O Cheiro da Terra (página 31), demonstrativo da faceta telúrica que esta obra também revela.

O CHEIRO DA TERRA

o cheiro mais antigo de que me lembro

é o perfume da terra

antes mesmo da fragrância húmida

do mar e da chuva,

antes do odor do papel, dos vernizes

ou da tinta,

antes mesmo do aroma dos laranjais,

ou das rosas, ou do pão

invade-me às vezes uma volúpia incerta

de caminhar descalço

sobre os campos lavrados,

de erguer punhados dessa matéria negra

e macia

– aparentada com o ardor

do alecrim e da rezina –,

caindo em torrões e grânulos

como deve cair

os cheiros são o nosso modo de rastrear

o tempo

é um mistério o que deles nos fica

e porque ficam,

um mistério

O FALSÁRIO

Foto: Raul Pires Coelho

 – Quem é afinal este Georges Le Brun? – perguntou o Procurador. 

O Oficial de Justiça deu um jeito às sobrancelhas, arqueando-as, encheu os pulmões, levantou-se, abriu um dos armários metálico gigantes, apontou com o polegar à retaguarda e fê-lo deslizar horizontalmente, de maneira a incluir toda uma estante a abarrotar de capas e dossiês atados por cordéis de ráfia.

– Isto tudo, doutor….

Depois, como quem tem uma boa história para contar, encontrou uma frase sua disse-a num gozo antecipado. 

– O doutor sabe. Em Montreal, os invernos são especialmente cruéis para quem é de fora…

O Procurador estava prestes a conhecer a prodigiosa biografia do maior falsário de literatura de Sainte-Anne-du-Lac no Quebeque, de todo Canadá, provavelmente do mundo inteiro.

*

Georges Ambroise Roger Le Brun nasceu em 25 de agosto de 1944, em Brénac, na margem direita do rio Vézère, na comuna de Montignac. A singularidade da data e a proximidade da gruta de Lascaux criaram no rapaz uma certa crença de que a sua vinda ao mundo fora de algum modo providencialmente preparada para grandes feitos. Na escola sempre os professores o consideraram um aluno excelente, tendo aprendido e dominando vários idiomas (vivos e mortos), entre os quais o alemão, o neerlandês e o russo, o latim, o grego, o hebreu e o aramaico. Desde os tempos universitários tornou-se um incansável perseguidor de arquivos, frequentador assíduo de cronicões e livros hagiográficos, leitor ávido de biografias, colecionador de histórias raras, mas também estudioso de caligrafia e, sobretudo, de literatura comparada. Nesta última área fez o seu doutoramento na Sorbonne, com vinte e sete anos, e na mesma academia permaneceu como professor agregado até surgir o convite que o fez atravessar o Atlântico, rumo à Universidade de Montreal. Publicou dezenas de livros, centenas de artigos, milhares de recensões para os jornais da elite intelectual francófona.

Mas, curiosamente, foi na escrita de Kafka que os seus olhos poisaram definitivamente. Sentiu ciúme muitas vezes de Max Brod, figura que lhe pareceu indecorosamente bafejada pela fortuna, não apenas por a si ter o genial escritor confiado testamentariamente escritos que mais ninguém conhece, como por ter privado, conhecido e sabido de Kafka o que jamais mortal algum (nem porventura Felice Bauer) pôde saber.

Georges Le Brun leu os romances de Kafka com obsessão. Depois de anos de estudo aturado, principiou a escrever ao estilo do escritor de Praga, acalentando a ideia de poder acrescentar à sua bibliografia e à que ficou nos cofres de Brod escritos inéditos, manuscritos, novidades com que o mundo dos literatos jamais sonhara.

*

– Não me vai dizer que este Le Brun inventou obras de Kafka? – sorriu o Procurador. 

– Inimaginável, doutor… Este tipo conseguiu enganar alguns dos decanos dos melhores centros de literatura, apresentando papéis autenticados, cadernos, autógrafos de alguns dos maiores autores do século XX (Kafka foi apenas um deles) e vendeu-os a leiloeiras, institutos, colégios, bibliotecas a preços absurdos.

 – Incluindo a do Congresso dos Estados Unidos. – completou o outro, dando um jeito nos óculos.

– Incluindo a do Congresso dos Estados Unidos. – confirmou o Oficial de Justiça.

*

Georges Le Brun sentiu na juventude um fascínio enorme pela figura de Han van Meegeren, o fracassado pintor holandês que impingiu vermeers aos nazis. O mesmo fascínio fê-lo descobrir Tommaso Debenedetti, jornalista italiano, autor de entrevistas falsas que correram mundo, confundindo tudo e todos com opiniões de figuras públicas que trazia para a ribalta, sem que as mesmas tivessem alguma vez proferido o que quer que fosse do que Debenedetti publicava. Mais recentemente, no início do milénio, Le Brun divertiu-se com as pirâmides que Semir Osmanagićh descobriu na sua Bósnia natal. O mundo torna-se maravilhosamente mais rico, mais criativo, mais liberal com os falsários. 

Após uma visita à Bodley, em Oxford, durante a qual mergulhou com penetrantíssima atenção nos sagrados papéis deixados a Max Brod, Le Brun concebeu o romance que Franz Kafka gostaria de ter escrito. Chamou-lhe O Labirinto. Nele, o conhecido agrimensor K. cava um labirinto, profusamente preenchido de corredores e de memórias, cada vez mais fundo (como os círculos infernais de Dante) e, osmoticamente, cada vez mais dentro da sua cabeça, como se escavando a terra escavasse a alma e a consciência, até chegar aos primórdios, ao lugar absolutamente escuro onde a picareta, batendo em pedra, fez saltar a chispa que deu origem à sua própria vida. Um romance freudiano, o mais freudiano de todos os que o checo compôs.

Para dissipar dúvidas autorais, estudou até as elipses, as interrupções que Kafka faria num texto de publicação incerta, como se tomado de assalto por dúvidas e por um cansaço progressivamente mais letais. O Labirinto não seria publicado pela forte razão de não ser imperfeito, mas tão perto de o ser que o leitor ajuizado descontaria na fúria de Kafka o valor da obra deixada praticamente completa. Georges Le Brun cometeu o atrevimento de forjar uma carta recebida de Dora Diamant, na qual a amente aludia à muita expetativa em torno do livro. Não contente com isso, depois de pacientemente o ter redigido com caneta de aparo, com tinta e sobre papel que metodicamente envelheceu na cave, junto com garrafas de moscatel e serrim, Le Brun sobrepôs rasuras, hesitações no alemão, glosas, sinaléticas iguais às que consultou nos manuscritos de Oxford. Fê-lo três vezes. Esperou vinte e um anos pelo envelhecimento apressado do original. Depois pediu por ele dois milhões e meio de dólares. E obteve-os.

*

– Diz-me que há outros. Deixe-me quem são os outros…  

O Procurador retirava dossiês, deslaçava capas, abria ficheiros. Era um depósito monstruoso de provas.

– Vai divertir-se. O tipo foi HemingwayGertrude SteinBrechtSimone Beauvoir, até Shakespeare. Andava ultimamente a traduzir evangelhos apócrifos. Não o tivesse a Interpol apanhado a tempo, tínhamos aí outra Bíblia.

– Caramba. – disse o Procurador. – Este tipo promete…

– Também o que se pode fazer em Montreal, no meio do gelo?

Ambos quiseram rir. Mas rir seria estranho, como quem receasse parecer demasiado idiota perante um caso difícil, impossível de adivinhar.

EUTRAPELIA – novidade

Título: EUTRAPELIA

Autor: João Ricardo Lopes

N.° de páginas: 68

ISBN: 978-989-53038-5-4

Preço de capa: 10€

Garanta o seu exemplar em pré-venda até ao próximo dia 1 de julho , com desconto de 20% (8€) e portes grátis para Portugal, enviando mensagem para editoralabirinto@gmail.com

Sobre o livro:

Recuperando o nome de uma das antigas virtudes cristãs, com o qual titula 50 poemas escritos em 2020, João Ricardo Lopes assinala com Eutrapelia a sua preferência pelas coisas simples, pela terra e pelo silêncio, viajando (e convidando o leitor a consigo viajar) pela Europa física e pela Europa da literatura, da música, da pintura, do cinema, naquela que é, também, uma viagem pela sua própria existência. Poesia de minudências, de flagrantes, de momentos avulsos, singulariza-a a obsessão pelo instante eternamente fugaz e belo da criação, «este ponto exato / em que o ínfimo e o infinito segregam o instante / e em vidro solidificam»

Eutrapelia assinala o vigésimo ano de vida literária do autor.

Reserve o seu exemplar aqui!

JUNTO AO MAR

Foto de arquivo pessoal (junho de 2021)

Ali, junto ao mar, sentindo nas costas a presença majestosa do farol, olhando à sua frente o istmo de areia muito branca e nele o enrolar da água azul, respirando longamente o misto húmido-enxuto das algas e das dunas, Céu sentiu esvaziar-se-lhe a cabeça, ou mais propriamente talvez, sentiu-se preenchida por uma sensação inefável de bem-estar. Era a mesma terna alegria que em criança experimentava no labirinto de roupas brancas que a avó deixava a flutuar nos estendais batidos pelo sol. Nesses dias (recordava-se tão bem) fechava os olhos e aspirava em haustos profundos o aroma do sabão. Nesses dias (como recordar pode ser tão maravilhoso) era como se a sua vida coubesse inteira no pátio invadido pela luz e pelo perfume.

Agora, ali, junto ao mar, a brisa do final da tarde fazia-lhe cócegas no rosto, soprando sobre ele as farripas loiras do cabelo e o pó subtil do areal. Apetecia-lhe dançar, erguer os braços, gritar, girar sobre si mesma mais e mais depressa, cada vez mais vertiginosamente, para que as imagens e os cheiros, para que as ténues variações de frio e de calor se fundissem e com eles se fundissem também o tempo e todas as memórias. Céu sentia-se feliz. Muito feliz. 

O homem que ela amava fotografava-a, sorrindo. Exigia-lhe, porém, poses, postura, correção. Um atrás de outro o homem que a amava fazia disparar relâmpagos com o pequeno orifício vítreo do telemóvel. Reclamava a sua beleza, os seus olhos verdíssimos, a sua atenção, o seu corpo. Raios o partissem. Seria tão bom tê-lo apenas quieto e protetor junto a si, como o farol centenário, dentro do seu sonho desperto, a brincar consigo e com o amor e a terra, naquela dança eutrapélica e cheia de graça. Puxou-o por isso contra si. Libertou-o do objeto tirano. Beijou-o. Era preciso resgatar os dias perdidos. Peneirando-se no tecido de pequenas nuvens tardias, o sol abria linhas oblíquas. Como se dito pela primeira vez, como se fosse possível redizê-lo como da primeira vez, soprou as duas palavras com intensidade, com intenção.

– Amo-te.

E amava.

NÃO-ASSUNTO

Foto: Przemyslaw Chola

Viu a jovem instrutora de fitness a discursar diante de uma multidão apoteótica. A beleza do corpo aliada à bela escolha de palavras e, sobretudo, à forma bela como unia os seus gestos repletos de graciosidade e de sinceridade desconcertou-o.

Sempre imaginara as pessoas intelectuais como rostos cavados e cinzentos, corpos curvados e bamboleantes. E sempre olhara as pessoas que cultivam o corpo como cérebros ocos e fúteis. A jovem deixou-o desgraçadamente preso. Ele, um homem do poder, pensou imediatamente em colher o dia.

Quando ao cabo de alguns dias de ensaio, lhe dirigiu sem pudor um convite, ela recusou-o. Ele recompôs-se da desfeita, concitou os nervos a um leque de frases ambíguas, de promessa e de ameaça, e insistiu. A jovem voltou a rechaçá-lo, enojada. Tinha marido, tinha princípios, tinha a juventude. Ele, velho porco, na qualidade de dirigente do partido, de pai de família e de avô, de líder carismático, deveria ter juízo, deveria acima de tudo ter respeito.

O assunto foi sempre um não-assunto. Quando a despediram do ginásio e quando, com muita pena, prescindiram dos serviços do marido no escritório de advogados, também foi um não-assunto. Os não-assuntos são, de resto, terríveis no nosso país, onde tudo o que vem à boca não passa de saliva e às vezes um pouco de raiva, também.