O LOUCO

Foto: Péter Aczél
Foto: Péter Aczél

O louco deteve-se diante do maravilhoso Steinway. Tocado daquele modo, qualquer um de nós sentiria a mesma comoção. Era o terceiro andamento da Sonata 14, opus 27, de Beethoven. As lágrimas principiaram a balbuciar e a pele arrepiou-se-lhe num calafrio sincero.

O pianista no centro do plano parecia tomado pelo êxtase dos mártires. Esperava que a lâmina o degolasse a qualquer instante, podia jurar que a morte lhe pesava já sobre o ombro esquerdo, respondia-lhe com movimentos alucinados, como se pudesse viver de modo absoluto a vida que restava. Enquanto as teclas pudessem devolver o génio da composição, continuaria tocando e tocando.

O louco fez deslizar a arma, quase cego. Mal podia ver com o torpor das lágrimas. E quando se preparava para golpear a vítima, o realizador disse «corta». Num gesto de contrariado autocontrolo, o louco apertou com veemência o cabo do punhal e suspirou. Houve aplausos. A equipa de produção tomou o lugar. A maquilhagem foi retocada. Na mão o peso morto do objeto. O louco escutou as últimas recomendações. Sabia (sabia-o há muito) que a mão sedenta mais cedo ou mais tarde lhe não obedeceria. Berraram «Take 2». A música encheu de novo o grande salão romântico. Uma sombra percorreu as paredes. O louco deteve-se. Respirou fundo. A sonata quebrava as últimas moléculas de paz.

Diante do piano de cauda o louco deteve-se. Como a morte podia desoprimi-lo! Exatamente como o guião ditava.

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UM EMBRULHO

Sebastian Prioteasa
Foto: Sebastian Prioteasa

 

Eufórico com o embrulho do correio, Carlo Lambrigello abriu-o ainda assim sem pressa.

Tacteou a caixa do CD, leu o título (achou bela a imagem da capa), regozijou-se por ter nas mãos um objeto da Deutsche Grammophon, e só então o introduziu no leitor de CDs do automóvel.

A essa hora já a noite tomava conta da autoestrada. Labaredas sombrias ardiam nas margens do céu.

Escutou com grande comoção o álbum do princípio ao fim. Depois da primeira vez, repetiu o «Beata Viscera Mariae Virginis» de Pérotin, cantado pelo Coro da Capela Sistina e por Cecilia Bartoli. O canto da soprano, acalentada pelo sopro murmurado das outras vozes, pareceu-lhe sobrenatural, vindo das entranhas da própria alma. Não pôde conter as lágrimas.

O maestro Massimo Palombella e o crepúsculo acabavam de lhe proporcionar um momento místico. Sentiu-se pequeno e vulgar, contrito e solitário, limpo e aniquilado.

Nas cercanias de Chiusi fez um desvio para a estação de serviço.

Depois de limpar os olhos e de se assoar, Lambrigello abriu devagar a porta do carro e saiu para sorver o tremendo ar de outono da Toscana. Na sua cabeça alguma confusão havia-se instalado:

O que fizera na vida de realmente assombroso? De indiscutivelmente belo e perfeito? De imprescindível?

O professor de Belas-Artes caminhou um pouco pelo baldio onde camiões e camionistas se alinhavam, num misto de faróis, roncos mecânicos, cheiro de combustível e calão.

Sim, o que o distinguia daqueles homens e mulheres atascados em vileza? Tudo. Nada.

Sentiu vontade de urinar. E de comer alguma coisa. E de beber café. A viagem até Roma fatigava-a cada vez mais. Tantas necessidades!

Pôs-se a mirar a autoestrada, o movimento frenético dos veículos que nela partem e regressam. Também ele queria chegar a casa, voltar ao ventre bendito do silêncio, do vento frio, da terra batida.

«Chegar a casa. Mas que porra é chegar a casa» perguntou. Os transeuntes surpreendidos não souberam o que dizer.

A pergunta, de qualquer modo, não lhes fora dirigida.

O EREMITA

Derek Galon
Foto: Derek Galon

 

 

O EREMITA

I

A meio e no alto do bosque fica o eremitério. Escassa gente atravessou estes portões nos últimos cem anos e nas centúrias anteriores quem o fez pôde descrevê-lo como nós o descreveremos agora: é um lugar ermo, tosco, bendito, impoluto.

Os adjetivos nada dizem, reconheçamos. Haverá quem deseje um relato pormenorizado sobre as suas escadarias, sobre as suas varandas e jardins incultos, sobre a cozinha com forno e celas desertas, sobre o oratório. Mas nem esses serão bem sucedidos. Não há que descrever mais do que paredes e arestas descarnadas, granitos com manchas de humidade e tenebrosos entrançados de silvas ameaçando o lintel das janelitas, junto à cumeeira do tugúrio.

Tudo se mantém inalterado desde a era dos primeiros santos que aqui resgataram a sua existência ao bulício e ao sorvedouro das grandes cidades. A natureza só não submergiu por completo esta edificação pelo caridoso ofício do irmão Anthony Montague, a quem cabe a guarda destas vetustas e gastíssimas lâminas, com que vai limpando como pode as balaustradas, os tetos e as esquinas de pedra musgosa.

Mas o visitante importar-se-ia sobretudo com o silêncio.

De manhã à noite, a maior gratidão do eremita é para o depurado silêncio que brota de todas as coisas em redor. O bom silêncio envolve-o numa paz profunda. E ao ter-se a ele acostumado, disciplinou tal forma o ouvido que pode com facilidade alcançar os mínimos estalidos, os mais distantes assobios, o sussurro da água nas fontes do bosque, a súbita mudança do soprar do vento na cabeleira dos pinheirais. Ao mastigar o bocado de pão à noite, os estertores da boca ou o crepitar da lenha tornaram-se palavras inteligíveis de que gosta mais do que das antigas, cujo significado lhe pareceu tantas vezes embaciado e inútil. Mesmo as orações, que medita e repete várias vezes ao dia e durante o serão, prefere pronunciá-las sem articular a língua, dizendo-as com o seu timbre de voz interior, tão belo e abafado tanto tempo. O silêncio tornou-se o seu modo de estar com Deus e o único motivo por que vale a pena continuar vivo.

Montague vive no eremitério há somente cinco anos. Veio de Dublin, onde foi casado e onde exerceu os cargos mais distintos na vida política e também na empresa multinacional EMPIRE.

Depois de nesse dia de outono ter contemplado na paisagem a formação de bulcões, sobre uma brisa quente e pressaga, lava-se agora à chuva abundante da noite com um quadrado de sabão. A tempestade faz as sombras mais suspeitas, com rebrilhos de relâmpago. Ao lume tem o eremita o seu caldo de feijão e sobre a mesa o De Civitate Dei, que vem há muito decompondo gulosamente em epifania e amor pelo próximo.

Depois de se secar num monte de trapos, sentindo a pele exalar o doce torpor da purificação, Montague dirige o olhar para o firmamento. Há no imo da sua alma qualquer reminiscência druídica, pois a natureza por si só o comove como um deus e lhe apetece alimentar-se de raízes e ervas para reencontrar um caminho perdido.

Escuta então um restolho. Um restolho e um gemido. Julga ouvir, também, o mover das bisagras e o raspar de metal sobre um lancil. Não tem dúvidas de que algo ou alguém vem aí. A pele empola-se, os pelos estão eriçados. Nunca lhe sucedeu igual. A sua santidade, tão duramente procurada nestas paragens, não o impede de apossar-se do tronco de carvalho que lhe serve de cajado e de o projetar defensivamente. É uma arma tão boa como qualquer outra e não tendo outra é esta melhor ainda. Um halo argênteo e azulado corre as paredes, invade-lhe o interior do casebre. Prepara-se para brandir o que segura nas mãos, quando uma voz o imobiliza.

– Olá, está aqui alguém?

II

A rapariga sorria e agradeceu muito o cuidado. Encontrar um chão seguro, poder abrigar-se da chuva e comer algo quente era muito melhor do que podia esperar. Não sabia explicar como ali fora parar, apenas que se perdera do seu grupo e que caminhara sozinha e desesperada durante horas, especialmente depois de anoitecer.

«Graças a Deus, descobrira aquele oásis no meio do deserto!»

Montague, aturdido, envergonhado, estremeceu ao som da palavra «Deus». Deitou uma concha de sopa no prato dela. Achou que talvez fosse avareza. Serviu-lhe outra concha. Não sabia se devia sentar-se a seu lado ou se devia comer num canto da cozinha. Ela falava, falava depressa, repleta de gratidão e de ruído. Como a rapariga não se decidia a começar a comer e o olhava fixamente, ele sentiu-se na obrigação de a acompanhar. Partilharam a refeição, depois de rezarem. Montague não percebia bem o que ela dizia, não tanto pela rapidez da sua fala, mas sobretudo porque o coração lhe batia descompassado e lhe tolhia a lucidez.

«Vivo muito perto de Cardiff, mas sou de Bristol. Na última década vivi em sete países diferentes. Adoro explorar a natureza, sabe? Passo a vida a viajar e a fotografar os sítios mais encantadores do nosso planeta…»

O lume, avivado pela mão diligente do eremita, parecia mais rubro que um rubi. Na face angulosa do granito, a silhueta da rapariga aparecia distorcida, como se da cabeça aos pés inúmeras hastes se descobrissem e a tornassem monstruosa. Por outro lado, a sua voz, vencida agora pelo cansaço e pelo sono, era menos vigorosa, mas muito mais dócil, quase sedutora.

«Quase não abriu a boca… E eu tão tagarela… Fale-me de si. Afinal, é o meu querido salvador… O que seria de mim, se o não tivesse descoberto esta noite?»

Os pelos dos braços e das pernas de Montague voltaram a erriçar. Depois de ter desaprendido determinadas facetas do mundo, aquela linguagem perturbava-o, tornava-o de novo refém de um mecanismo de que se libertara, a seguir à morte da sua mulher, muitos anos antes. O silêncio e o isolamento trouxeram-lhe o caminho do êxtase e encerraram atrás de si portas e corredores de cuja memória não estava já muito certo.

«Não sei o que lhe diga… Vivo só… Aqui… Há muitos anos…»

«Meu Deus, estou tão fascinada! O senhor é um daqueles santos, que se afastaram do mundo para conquistar o direito ao Paraíso!… Tão bonito!»

«Sim.»

«Não consigo imaginar o que tem sido viver longe de tudo! Sem conforto. Sem tecnologia. Sem o toque de uma outra pessoa!»

«Vivo com Deus.»

«Mas Deus é amor. Deus quer que nós amemos, que nos amemos uns aos outros!»

E ao proferir as palavras «Deus» e «amor», a rapariga soergueu o tom, como para espicaçar o entendimento de Montague. Sorria. Para sublinhar o poder do seu raciocínio, colocou-lhe a mão por cima da sua própria mão. O contacto da pele delicada com a pele áspera surpreendeu mais o eremita do que a afoiteza das palavras. O sorriso da rapariga fê-lo recuar. Precisava de retirar-se para orar. Tinha já passado o tempo devido.

Então, a rapariga aproveitou para lavar os dois pratos, estender o saco-cama, cuidar como podia da higiene pessoal. Depois despediu-se do anfitrião, sorriu com um «Boa noite, meu salvador!» e deitou-se.

Montague, mais uma vez, não conseguiu decidir entre usar a sua cela ou acompanhar a rapariga. Não raras vezes precisou de lidar com vermes e répteis, atraídos pela humidade ou pelo calor daquele antro. Receou que soasse a má criação não velar pelo sono da sua visita. Tanto mais que as horas noturnas durante as tempestades lhe pareciam um ensejo para descortinar a vontade de Nosso Senhor.

Ficou, por isso, diante da lareira, não muito longe do perfume que a rapariga exalava e que o entontecia. Era como uma tentação.

Rezou. Pediu perdão a Deus por todas as impurezas que nesse final de dia o pudessem ter cometido. Especialmente, quando se lembrou de Rose, a sua falecida mulher. Porque se lembrou dela nesse final de dia, sim, não da Rose murchando numa cama de hospital, mas da Rose do namoro e do casamento, bonita e insensata, que o desafiava a toda a hora, sem temer ou admitir sequer a têmpera do pecado.

«Não consegue dormir? Ou simplesmente nunca dorme?»

Montague estremeceu. A rapariga dirigiu-lhe nova pergunta.

«Assustei-o?»

«Não.»

Apesar da fadiga, do calor da fogueira, do som aconchegante da água precipitando-se das alturas, a rapariga explicou que não conseguia adormecer. Intrigava-a aquele modo de vida de Montague, aquela decisão de voltar as costas ao mundo, aquele silêncio e solidão no alto e no meio da floresta.

«Não voltei as costas ao mundo…Voltei-me para Deus…»

A rapariga abriu o fecho do saco-cama, soergueu-se (dorso encostado à mochila) e, iluminada pelas achas, disse que também Zaratustra viveu nas montanhas, mas que ao cabo de dez anos, segundo as sentenças de Nietzsche, precisou de voltar para junto dos seus semelhantes.

Um pouco depois, o eremita e ela, na mesma posição em que haviam jantado, estavam um dia diante o outro, sentados à mesa. No mesmo tom sereno, no mesmo ritmo apaziguado, disse muitas palavras doces. De quando em vez, a rapariga mexia no cabelo e sorria. A camisola que envergava tornava-lhe o desenho dos seios mais óbvio, como se ao mesmo tempo os guardasse e os expusesse. Montague não ouviu quase nenhuma das palavras que lhe foram destinadas.

Então, animada pelo assentimento do eremita, reparando mais na beleza dos seus olhos azuis (que as barbas desleixadas não podiam senão evidenciar), afogueada pela gratidão que sentia em relação a esse homem invulgarmente casto e sóbrio (mais atraente lhe parecia o seu carácter assim), a rapariga tomou-lhe as mãos e beijou-as, acariciou-lhe o rosto, percorreu com os dedos a comissura dos lábios e, por fim, beijou-os também. Montague nada fez para interromper estes desvelos.

III

O eremita acorda sempre antes alba. Hoje não. Os olhos, terrivelmente cansados, avistam uma leve coluna tisnada a subir e a tocar o cume da cozinha. É uma língua de fumo que sai do raizeiro sobre a laje da lareira. Sobressalta-se, de chofre, ao dar-se conta das orações negligenciadas. Sente frio. A fome revolve-lhe o estômago. Recorda-se da tempestade, que durante a noite recrudesceu. Agora que os sentidos recobram o seu préstimo, percebe também um perfume diferente no ar, pairando como uma memória difusa. Lava o rosto, medita as primeiras orações, come um pouco de pão e, então, sim, compreende a indolência do seu corpo: acode-lhe à cabeça a rapariga.

Não pode descortinar um único sinal dela. Não percebe quando, como e porque partiu. No chão, onde o saco-cama foi estendido, não se perscruta o mínimo vestígio. Somente o areão e alguma folha ressequida, algum inseto sossegado e em trânsito entre esconsos.

Montague, aturdido, lembra-se do corpo nu da rapariga, do corpo quente e meigo que roçou no seu próprio corpo e o submeteu. Mas o chão, o puro chão do seu tugúrio, nada informa sobre o amor que ali existiu.

A rapariga, cujas palavras irresistíveis, cujo sorriso invencível, cuja doçura o fizeram mergulhar num sono profundo, desapareceu. Procura um só indício de que a sua cabeça o não engana. Na pedra onde costuma lavar o seu prato, não pode avistar senão um prato. Não possui dois pratos, aliás. Em cima da mesa, na exata posição em que o deixou ontem, o De Civitate Dei de Santo Agostinho.

A demanda prossegue. Fora, a manhã mostra-se esplêndida, como todas as manhãs de sol que sucedem às noites de procela. Montague verifica o granito sem lama da escadaria, a pequena vereda de acesso sem sulcos ou estrias de calçado, o portão que permanece tão fechado como um segredo por confessar. Treme.

O que foi tudo? Um sonho? Uma visita do demónio?

O frio fá-lo tiritar. Sente-se horrivelmente só. Pela primeira vez, nesse lustro, as forças faltam-lhe. O que foi tudo aquilo? Uma epifania? Uma prova de fé a que Deus o sujeitou?

Treme. Sente-se doente. Na pedra da lareira acumula-se a cinza da noite. Nenhum calor, nenhuma chama, nenhuma centelha aviva os seus olhos. Somente um fiozinho de fumo resta no corpo ardido do raizeiro. Montague pensa que chegou o seu momento: divino ou demoníaco, o sopro da vida está prestes a expirar. Não sabe, não o censuremos, que interpretação dar a tudo isto…

27 e 28 de outubro de 2017

 

VIAGEM

Yvette Depaepe
Foto: Yvette Depaepe

A meio da viagem que repete todas as manhãs entre Estocolmo e Uppsala, Arthur Ekelöf precisou de fazer um desvio. Estacionou o Volvo de última geração na entrada de um parque de merendas, desligou o telemóvel e todos os outros dispositivos eletrónicos anichados na pasta, saiu do automóvel, subiu as golas do sobretudo e sentou-se.

Foi a primeira vez em quase duas décadas.

A cabeça, repleta de sons e de imagens, nada pôde ver ou escutar durante muitos minutos. A impressão de que o coração batia mais depressa e de que os olhos nada descortinavam com nitidez (como se uma película suja os embaciasse) assustou-o. Era como se presa às solas dos sapatos viesse uma outra vida, parasitária, de que supunha não ser já capaz de separar-se.

Gritou. Gritou outra vez. Gritou com raiva.

– Então, é isto a minha vida?

O sangue acorreu-lhe ao rosto, as mãos mudaram de cor.

Depois, Arthur começou a ouvir pequenos sons ao perto e ao longe, por exemplo a revoada de gralhas que ia e vinha doidamente quando gritava. Notou, também, as diferentes entoações dos ramos dos pinheiros empurrados pelo vento. E o despenhar-se de quando em vez de uma pinha.

Sentiu-se limpar. Era como os pulmões abertos deixassem respirar a sua alma. Como se a alma lhe dilatasse no tronco amarfanhado. Como se o tronco retorcido se endireitasse.

O tempo. Quanto tempo? Aqui, sentado num banco de madeira, neste parque vazio?

Só a aceleração e a travagem dos camiões, além, lhe recordava a irreverência inusitada desse dia. Não precisou de lutar sequer contra a sensação de remorso ou contra qualquer mal-estar provocado pela falta ao emprego. Os seus alunos teriam de contentar-se com uma explicação. Os seus alunos? Que se lixassem os seus alunos!

– Quarenta anos, porra! Tenho quarenta anos! E sinto-me tão perdido quanto um barco de pesca em alto mar, longe de todos os ancoradouros. Estou perdido, porra!

A fome e o cansaço instalaram-se. E também uma tristeza enorme, indisfarçada, sem consolação. Sozinho, entre a caruma seca e a bolsa de silêncio que o envolvia, Arthur sentiu as cócegas do nariz ultrapassá-lo. Teve a certeza de que não saberia dominar-se. E de feito lançou-se num choro violento, sem freio, alavancando obscuras frustrações, misérias, sentimentos de dor, cinza calcada e esquecida. Chorou como uma criança magoada, traída, exposta.

Uma comiseração tão profunda era-lhe estranha. Depois de chorar, o professor de Filosofia ficou em silêncio. Um silêncio total, de pássaro ferido nas asas. O céu foi-se despojando lentamente da energia solar, mergulhando numa paz de outono inteiramente nova, como se cada elemento tivesse reaprendido a ocupar com sobriedade o seu lugar.

Arthur ergueu-se.

O corpo, entorpecido, vacilou. Pôs-se a contemplar a paisagem ao redor. Viu um casebre ao longe, no cimo de uma colina, sob nuvens de um tom violeta. Viu os debruns azul ferrete de um lago. Viu embarcações atravessando serenamente o tapete da água, onde o vento compunha e descompunha rugas de um alarme poético, até aí nunca pressentido. A sua existência, passada nas grandes cidades, alheia a esse bucolismo tão belo e tão intemporal, pareceu-lhe estúpida, opressiva, hostil.

Sorriu com escárnio. Como podia ter-se enganado tanto acerca de tudo?

Abriu a porta do carro como quem abre com desprezo um caixão. A morte estava ali, à espera de o levar de volta. Pronta, seguramente, para lhe gritar, ameaçar, punir. Sabe Deus o rancor que se teria acumulado desde o meio da manhã no seu correio eletrónico, no seu correio de voz, em mensagens de espanto, desespero e deceção através das redes sociais!

O que lhe diriam? Como se justificaria ele? Teria coragem para dizer simplesmente «Tirei o dia por conta da minha vida»?

Arthur sorria. Já não com troça de si mesmo, mas com orgulho. Desobedecera a si mesmo, em defesa de si próprio. Tinha a absoluta certeza de que o Volvo o não apanharia em falso.

Reentrou na autoestrada, iluminada agora por centenas de faróis alinhados e sequenciais.

Tinha a absoluta certeza de que iria reencontrar-se algures.

UM VELHO

Hari Sulistiawan - old man
Foto: Hari Sulistiawan

 

Um velho seguia na direção do monte mais alto do seu país. Pelo caminho cruzou-se com viandantes da terra e outros de fora, os quais se mostraram curiosos com a sua rota solitária e difícil. Não poucos o procuraram dissuadir:

– Bom homem, em frente encontrarás somente montanhas e desfiladeiros. De modo algum esta jornada é para alguém que pretenda viajar sozinho, ainda para mais com a tua idade…

Mas o velho prosseguiu lentamente a marcha. Nem uma só vez duvidou que lhe faltariam as pernas ou os pulmões para ultrapassar os obstáculos. Apoiado num cajado, atingiu por fim o cume mais elevado do seu trilho, bem no cocuruto de uma cordilheira. Aí sentou-se a contemplar o mundo ao redor e em baixo.

– Toda a minha vida fui um velho. Agora que sei o que a juventude é posso finalmente descansar…

Moral da história: no alto de uma montanha, pode-se facilmente encontrar frases que enchem o nosso ouvido.

DÚVIDA METÓDICA

Holger Droste
Foto: Holger Droste

 

A primeira impressão, como a música de Rachmaninoff, é desagradável. O vento fustiga a varanda, as rulotes, o areal, o espelho da água.

Por sua culpa, a ondulação enche-se de uma tonalidade verde-azeitona, entrecortada pelo alvacento da espuma. Por sua culpa, há plásticos a voar, mulheres arrepiadas no limiar das lojas, poetas cismando na extremidade dos pontões. Por sua culpa, as palmeiras chicoteiam desgovernadas a avenida e são escassas as embarcações no alto mar, pese o arco generoso das velas que se alcançam muito ao longe, de dentro da vidraça.

A tarde é de final de agosto, fria e, por culpa do vento, ruidosa também. Pelas partes da casa não completamente soldadas entre si há um assobio constante e sinistro, especialmente estando ela hoje tão vazia de gente e de vozes.

Aos poucos o corpo habitua-se e à medida que se acostuma o corpo ao espaço também o pensamento se aquieta. Os sons concertam-se. A roupa que baloiça no estendal e os tacões que a vizinha em cima faz martelar no soalho são engolidos pelo staccato do piano. A pele defende-se dos contrastes térmicos do sol e da aragem na sombra limpa do escritório. Há sobre a mesa um livro, com um marcador de cartão assinalando o ponto onde a leitura ficou interrompida: é um tratado de Arcanus. Ao folheá-lo sente-se o perfume do papel avançar pela casa, penetrar o silêncio, acoitar-se nos poros da madeira e nas profundezas do rinencéfalo.

«O tempo é eminentemente repetitivo. Não há nas nossas vidas um único dia que não seja em tudo semelhante a outro dia vivido por outro homem numa outra era.»

A exatidão dos movimentos dentro de casa reflete um estado de espírito próximo da perfeição. Mas uma dúvida tornou-se agora dolorosa. Terão as impressões colhidas durante a tarde, a agrura do vento, o perfume dos agapantos misturado com o cheiro do iodo do mar, a cadenza do concerto para piano, a paz enxuta e calafetada do escritório sido meras ilusões? Ou vulgares repetições de um instante original mais veemente e puro? Réplicas do que outras almas já sentiram? Ecos rarefeitos de um Éden de outrora?

O homem acende um charuto. Forma com o fumo um círculo que faz evolar pela janela aberta, ir em direção ao nada. Enerva-o a incerteza. O prazer de cada gesto é ambíguo. Não sabe se é reencarnação de outro ser, ou a sua própria reencarnação, ou se existe sequer. Não sabe se é prazer ou se é dor o que lhe congestiona a cabeça. Ou se no âmago da sua pessoa possui alguma coisa que possa provar-se como tangível. Quase lhe apeteceu queimar-se com o lume do isqueiro. Abandona-se por fim, como a música de Rachmaninoff, a um silêncio gigante, simétrico do som.

O vento fustiga a varanda, escuta-se no ar o fino e inquebrável chicote da matéria em convulsão. Um assobio goteja por dentro e por fora do tempo e do espaço. O homem sente-se nu. Nenhuma lógica o acompanha.

Apúlia, 15 de agosto de 2017

 

 

O RELOJOEIRO

Antonio Grambone
Foto: Antonio Grambone

 

«O tempo é simples, mas meticuloso» costuma dizer o relojoeiro Carlo Ambrozini, o último em atividade em toda a província de Cantazaro.

Se o netinho, um travesso, lhe vem à puridade sonegar uma mola, um pistão, um linguete, uma minúscula roda dentada, um ponteiro irrisório, introduzindo-os sorrateiro nos bolsos do calção, o jovial relojoeiro mostra-se intransigente:

– Põe aqui o que tiraste. O detalhe é o segredo de tudo, meu filho. O mínimo deslize compromete o andamento da máquina…

A bancada de Carlo Ambrozini é um caos de rodízios, argolas, correntes, pesos, alicates, almotolias, foles e vidros empilhados, relíquias ferrugentas a que acredita poder ainda restituir a vida. Agora, por exemplo, com o óculo posto e uma paciência olímpica, experimenta o mecanismo pendular de um maravilhoso Alois Mayer Schönemback. Algo está a atrasar o vaivém do pendente metálico e a caixa de música, que deveria reproduzir o toque de Westminster, emudeceu e recusa-se a repeti-lo, como fez durante muitos anos.

– Às vezes é assim, meu filho… – começa, com o sobrolho levantado e acariciando interrogativamente uma série de ganchos – demoramos  dar com o imbróglio. Mas lá está, meu filho. Ele está sempre lá, à espera que demos com ele…

Apúlia, 7 de agosto de 2017

VOTAÇÃO

Victoria Ivanova
Foto: Victoria Ivanova

 

Em cima da mesa estava a velha questão. De tempos a tempos a velha questão regressava. Os membros do Conselho tinham de a votar outra vez. Era um exercício complexo, apesar de a questão propriamente dita exigir apenas uma de duas respostas: SIM ou NÃO.

Alguns conselheiros, mais antigos, arengaram. Ao longo da sua carreira tinham já votado uma coisa e o seu contrário. Mas de tempos a tempos era preciso ressuscitar o problema, tal como se faz com um sonho mal resolvido.

Em cada cabeça sopesou-se os prós e os contras. A maior parte não sabia bem o que preferir. Como o voo de um pêndulo, os argumentos pareciam igualmente razoáveis de um lado e do outro, e tanto no caminho de ida como no de volta. Razões tão lógicas e tão perfeitas, como as de que alguém se socorre para convencer outra pessoa a desdizer-se e a segui-lo apaixonadamente, foram aduzidas.

Sir Arthur R. MacEwen, líder histórico do Congresso, usou da palavra. Independentemente de como, era imperioso que se decidisse. A indecisão não podia mais prolongar-se no tempo. Cada cavalheiro com assento naquela sala tinha ali a prova da grande importância do seu juízo. Votasse-se.

A mesa tornou-se um murmúrio só. Votar-se-ia de mão no ar ou por voto secreto? O rosto de alguns conselheiros encheu-se de angústia. «Votar é um compromisso irremediável com o futuro, uma aposta» explicava o veterano Sutherland, dando palmadas nas pernas. Ninguém ali estava propriamente certo de nada, nem podia jurar que no final do escrutínio se não desfizessem alianças, se não apunhalassem amizades. Votar é quantas e quantas vezes a melhor forma de expressar o nosso pequeno potencial de doce hipocrisia. Quem pode antecipar as consequências de tão tenebrosa provação?

Votou-se. Dez votos para cada lado. Foi um alívio. Ao redor da mesa houve até um cumprimento discreto, que os olhos repetiam. Todos se voltaram, então, para o Presidente. Cabia-lhe a última palavra, o voto de qualidade, a decisão. Acontecesse o que acontecesse, agora era com ele!

O ancião, apoiando-se no castão da bengala, ergueu-se a custo, visivelmente desagradado.

SIM ou NÃO, Sir Arthur?

– Pois, por mim, nem uma coisa nem outra… Nem uma coisa, nem outra… – repetiu, colérico, enquanto (amparado pelo escrivão pessoal e sem se despedir) se fez retirar para o seu gabinete, bem no âmago do edifício principal.

(IM)PERFEIÇÃO

Franz Baumman
Foto: Franz Baumman

 

Depois de escutar uma conferência de Slavoj Žižek na Sourbonne, Emmet Johnson, de 19 anos, oriundo de uma família afro-americana de Nova Orleães, convenceu-se de que podia perfeitamente ganhar a vida como filósofo. Ou confeiteiro. Ou mesmo alfaiate. Paris é um palco de indistinções…

«Importa praticar a perfeição, não importa como…» escreveu no seu blog.

Em fevereiro, no começo do segundo semestre, conheceu uma bela rapariga húngara, bailarina e assistente na companhia de circo The Endless Rope. Os cabelos loiros caíam-lhe em cachos sobre os seios, tal como os imaginamos nos nossos sonhos mais inconfessáveis.

Na América, todos julgam Emmet advogado e não o trapezista de méritos já firmados em que se tornou. 

Nós, que achamos a frase atrás transcrita equívoca e até perigosa, debaixo de certa ideológica, concordamos que a perfeição é uma bela mentira, um voo às vezes sobre o nada, um devaneio dos mais jovens. Não raro dos velhos também.

 

 

BUCÓLICO

avó e neto, grandpa, grandfather and grandson, love
Foto: Steffi Atze

 

Ao cimo da colina fica o centro do mundo. Dali avista-se tudo: a aldeia poisada nas encostas, a igreja medieval, o rio mais abaixo com a sua pontezinha romana, os carros de feno e os rebanhos deslocando-se devagar, iguais aos carros de feno e aos rebanhos de há mil anos.

Aí, protegido pelas ramagens de um velho freixo repleto de vergônteas e raízes, escutamos o seguinte diálogo:

– A minha vida foi covarde, fraca, miseravelmente vivida…

– Porque diz essas coisas tão feias?

– Porque fui sempre um covarde, um fraco, um miserável…

– Não diga essas coisas tão feias…

– Mas tu podes ter outro destino, meu filho!

– Como assim, avozinho?

– Podes pôr em mim os teus olhos, ver o que não queres para ti, olhar-te agora num tempo futuro…

– Mas, avozinho, como pode acreditar nessas coisas tão feias? Foi sempre tão amigo de toda a gente.

– Matei todos os meus sonhos, desprezei todas as mulheres com medo que me desprezassem, ignorei os avisos, descri nos conselhos, supus-me velho em todas as idades da minha vida… Não fui sequer, por fim, capaz de pôr termo ao terrível remorso que por dentro me devora como uma Erínia!

– O que quer dizer com isso?

– Tu sabes… Acabar com tudo…

– Avozinho!

– Mas tu és diferente, filho! Digo-te que tens outro destino à tua espera. Digo-te que vás! Vai enquanto a sombra dos teus pés não é suficientemente pesada para te emperrar ou demasiado forte para te fazer voltar o pescoço… Vai e nunca olhes para trás!

As nuvens adejam lá em cima. A colina é suave como o contorno de um fruto. Todos os que gostam de uma boa história sabem como as palavras são vaidosas e o quanto apreciam um bom cenário em fundo.

«Nunca olhes para trás!». Realmente, quando se caminha nunca se deve voltar os olhos para trás. É uma verdade universal.