O que é um grande poeta?

Fotografia de Aaron Burden

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O que é um grande poeta? Sim, um poeta, digamos, da dimensão de Homero? De Safo? De Petrarca? De Shakespeare? De Baudelaire? De Breton? De Celan? De Herberto Helder? O que é preciso em rigor para se ser um?

Um professor de literatura garantia há não muitos anos que a comparação de grandezas, fosse entre poetas, impérios ou galáxias, depende muito mais do nível de satisfação sexual dos observadores do que da massa, densidade, tamanho ou longevidade dos observados. A frase chocou. Uma vez, duas, três vezes, sempre. Porque este professor de literatura parecia não levar nada a sério, mesmo quando publicava artigos capazes de rivalizar em erudição e hermetismo com Husserl, Russell, ou Georges Steiner. «A grandeza ou a pequenez é, antes de mais, coisa para se averiguar na casa de banho [sic], com a ajuda de uma vulgar régua de desenho…» Extravagâncias…

Não que não existisse por ali uma pontinha de génio, como anotaria Eça de Queirós. Não que não houvesse mesmo um fundo de verdade, uma frincha para a luz, digamos, porque havia. Havia até uma resposta para essa malsinada pergunta que me ocupa o título da crónica e a cabeça, não agora, mas desde os vinte anos. Porque alguma coisa subsiste de inútil na comparação de factos, de factos que só seriam efetivamente comparáveis num universo regular e coerente. E o nosso é tudo menos regular e coerente. Menos ainda eterno. Um dia destes as estrelas apagam-se, as galáxias esgarçam-se, o Big Bang perde a sua imensurável força, encolhe (ou será que explode? Ou que implode?) e cá se acabam as comparações…

Mas, mas (e insisto no mas), um leitor de poesia sabe distinguir o poema que agrada do poema que faz tremer as mãos. Sabe diferenciar o poeta bom, que se saiu (afinal) bem com a aguardente de medronho, do poeta que nos leva às lágrimas. Não falo dessas lágrimas sujas de rímel e pó de arroz, mas daquelas que verteu Mecenas e Otávio César Augusto: lágrimas de espanto. De incrédulo reconhecimento da perfeição. De agradecimento!

O leitor de poesia sabe comover-se com a Ilíada. Uma epopeia, uma batalha que decorreu (se é que alguma vez teve realmente lugar) algures na costa turca, onde os gregos (ou os seus antepassados) semeavam uma zona de influência. Homens matam, homens morrem, uns heroica, outros covardemente. Outros sobrevivem. Um, o mais singular de todos, volta as costas à querela, furioso com o chefe da sua hoste, o pastor dos homens, que o maltratou… O leitor de poesia vê que os deuses conspiram, (uns por despeito, outros por amor), vê que as mulheres e filhos dos troianos se assustam com o fragor das sucessivas batalhas. Que esse terror é ainda o nosso terror, que essas mães e essas crianças são ainda as nossas e foram as de sempre, em toda a história ensopada de sangue, que é a nossa!

Em contrapartida, o leitor cansa-se com a interminável subida das almas ao Purgatório de Dante. Sente-se torturado pelos maneirismos de Gôngora, nos floridos de Boileau, com as exasperações românticas de Byron. E coça a cabeça (por não saber muito bem o que achar deles) ao ler alguns poemas do Pessoa ortónimo, que são muito alarido inteletual, muito enfatuamento estilístico, um não-ir-a-lado-nenhum, como um cachorro em círculos, abocanhando a cauda…

Porque a mesma infinita embriaguez que nos faz delirar lendo em voz alta ou em silêncio, as grandes odes de Walt Whitman, Álvaro de Campos ou André Breton, a mesma corrente elétrica que percorre os textos megalómanos de Ruy Belo, a mesma satisfação que se sente no final dos inteligentes poemas de Wisława Szymborska ou Tomas Tranströmer, a mesma finura e delicadeza que entrelaça os versos de Elaine Feinstein, a mesma densa metáfora de Salah Stétié, a mesma musicalidade de Fiama Hasse Pais Brandão – particularmente na última fase –, é a que nos faz amadurecer a razão para a grande poesia de Píndaro, Anacreonte ou Alceu, para o poder de concisão (e precisão) da poesia japonesa, para o gosto pela luz crepuscular (primeva versão da nossa saudade) da poesia árabe, para a vastidão filosófica da poesia persa, para a metáfora metapoética da poesia chinesa (a que primeiro denotou um amor narcísico pelo desenho gráfico), para a violência dos elementos da poesia escandinava, etc…

A questão mexe por dentro, como um pinto dentro do ovo: o que é um grande poeta? O que distingue um fundador de um imitador? Um poeta capaz de atingir a essência de um poetastro que a circunda eternamente? Um Homero de um Horácio? (Porque Horácio nunca me seduziu, nem mesmo na famigerada Epístola aos Pisões) O que separa a água consoladora de um poema de Lorca, Auden ou Jabès da água tonta, inquinada, ácida de tantos e tantas que se dedicam a multiplicar títulos, a elogiar perversões, a gastar ideias, a alimentar mediocridade, a repetir, repetir, repetir…

O que é, em suma, um grande poeta? Um poeta do clube restrito de Omar Khayyām, JalāladDīn Rūmī, Pierre de Ronsard, Arthur Rimbaud, Rainer Maria Rilke, T. S. Eliot ou Sylvia Plath? Um que não desmerecesse a companhia de Kavafis, Pessoa ou Miłosz?

«Uma bizantinice, uma questão de lana caprina!» garantia o reputado professor de literatura…

Mesmo assim, quem deixa de o perguntar?

Não será um grande poeta, aquele que ocupa a estante principal da nossa biblioteca? Aquele a quem conhecemos composições inteiras de cor, a quem citamos o vulnerável equilíbrio de uma verdade incrustada nas suas palavras? Não será um grande poeta, aquele que, por (in)voluntário incitamento, por seu exemplo, por sua inspiração, por contagiante mestria, gera outros grandes poetas? Não será aquele que, pretendendo-o ou não, acaba por produzir palavras, textos, ideias que nos servem de referência – como de referência são os Evangelhos e o Corão, a bondade universal, a palavra ahimsa e o nirvana, o amor de uma mãe, a limpidez da água numa nascente, ou a fraternidade entre todas as criaturas no nosso mundo?

Um grande poeta é uma resposta, provavelmente individual, provavelmente consensual, ao espaço mais fundo que a consciência, a fé, a memória e o sonho demoraram a construir em conjunto no nosso espírito! Um grande poeta ocupa o lugar vazio que a vida sublimemente cava com o passar dos anos. E só ele pode ocupá-lo, como só ele pode desocupá-lo.

Quando lemos no Canto VI da Ilíada o desespero de Andrómaca, o susto de Astíanax, a réplica enternecedora de Heitor, é precisamente esse vazio o que nos permite absorver cada pedaço da cena e amar cada uma das belas palavras com que Homero nos solda ao sofrimento das personagens: («Homem maravilhoso, é a tua coragem que te matará! / Nem te compadeces desta criança pequena nem de mim, / desafortunada, que depressa serei a tua viúva.»; («Todas essas coisas, mulher, me preocupam; mas muito eu me / envergonharia dos Troianos de longos vestidos, / se tal como um covarde me mantivesse longe da guerra.»

Quando se lê ao longo dos vinte e quatro maravilhosos cantos deste poema símiles, sentenças, imagens, metáforas semelhantes a «palavras apetrechadas de asas», «a morte chega a quem nada faz e muito alcança», «a escuridão cobriu os olhos», «Por toda a terra espalhava a Aurora o seu manto de açafrão», «Assim como a linhagem das folhas, assim é a dos homens.», é ainda a sublime poesia a que nos imprime a mais viva emoção de um encontro: o que une a gramática à prosódia, a sabedoria e a transfiguração estética.

Colecionei com os anos incontáveis volumes de poesia de todos os tempos e lugares. Com eles forro o meu escritório e o meu quarto, procurando resposta a essa que julgo ser uma questão fundamental. Porque saber o que é um grande poeta é ser capaz de reconhecer o que é a poesia na sua dimensão mais pura. Leio-a todos os dias. Leio-a desde sempre. E, com Simone Weil, creio bem que nenhum poema se superiorizou, ainda, ao canto homérico, particularmente ao de Ílion.

Assim sendo, um grande poeta será sempre o mais parecido que houver de ser de Homero. O mais parecido que houver de ser da espantosa vivacidade da Ilíada, da coexistência de carnificina e amor, sublime poético e calão, arcaísmos e uma notável intemporalidade na leitura da condição humana…

Porque é a intemporalidade a que arbitra a questão. E é essa intemporalidade de Homero (seja ele um único homem, ou vários) a mais espantosa resistência e a melhor prova de o primeiro amor é o melhor amor de todos!

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Na mesa de trabalho

The Travel Writer, (Deviant Mind)
Fotografia de Deviant Mind

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Na mesa de trabalho cabem agora somente objetos imprescindíveis. Um dicionário atualizado, a Bíblia, cadernos de sebenta, uma lapiseira e algumas canetas de pincel (de tinta preta), um cinzeiro (com a função exclusiva de pisar papéis) e um volume de poemas de Tomas Tranströmer, no lugar que foi já de Elaine Feinstein, Salah Stétié, Ian Hamilton, Wisława Szymborska, Ruth Fainlight, Anise Koltz ou Czesław Miłosz. Tenho também as gavetas apetrechadas com a subsistência: uma resma de papel, uma caixa com duas canetas de aparo e respetivas cargas de tinta, uma coleção de livros de bolso da Assírio & Alvim, uma agenda, montes de cadernos antigos (de que não fui ainda capaz de me separar) e um isqueiro elegante (capeado em pele e metal, muito elogiado por amigos e parceiros de tertúlias, quando principiava a publicar há pouco mais de uma década e o ostentava em cigarros de ocasião).

Sobre o tampo da mesa, impecavelmente arrumado e limpo (sobretudo, do pó) há também um candeeiro vermelho que me ficou dos tempos universitários, e cujo design me fascinou na época. Há ainda, por último, uma ampulheta, objeto este sem qualquer serventia, e por isso o mais casto e importante de todos. Como é pesado, imagino que um dia, se me entrar pela janela do escritório um larápio, me possa finalmente ser propício usá-lo…

Ultimamente, quatrocentas páginas de produção poética minha dividem com estes escassos objetos o retângulo de madeira. São o fruto de quase seis anos de criação e divulgação em blogue. Foram mais, mas a salamandra incinerou num primeiro instante os “devaneios”, resultado, evidentemente, de noites mal dormidas ou do álcool!

Tanta filharada junta espatifa-me a paciência. Um a um, vou-lhes passando a boca por cima e sublinhando a mercê de cada qual. Ou então riscando-lhe uma cruz, com a preciosa anotação de «Lixo», com que o cesto tem engordado, a ponto de ter também uma caixa de cartão ao lado, para acolher a rejeição. Não sou, reconheço, um crítico imparcial, ou ser benquisto da minha própria literatura. Sempre suportei mal em mim mesmo o rigor, quase despotismo, da abordagem. E tudo porque, com horror de fiscal, considero os meus poemas francamente defeituosos, em particular por causa dos erros de musicalidade, por causa de lapsos na disposição formal, ou, no pior dos casos, por causa da falta de ideia, pura e simples!

É-me penoso ler e reler-me!

Aliás, essa a minha grande inveja em relação a outros, que me confessam o prazer (e até o júbilo) de juntarem as suas coisas num livro. Porque no lado de cá da rua, também há quem saiba combinar maravilhosamente a roupa com os assessórios.

Não é o meu caso, lamentavelmente. Aliás, vem muito a propósito narrar a peripécia que em 2005 deu origem ao volume dias desiguais. Desesperado e com o ultimato do editor a fazer-se ouvir cada vez mais alto (tinha os poemas, mas não a sua ordem de sucessão), precisei de espalhar pelo soalho de um apartamento desabitado toda a minha obra, mais ou menos como fazem os polícias nos filmes de polícias com as provas de crime dos serial-killers. E foi do chão (e não do céu aureolado de alguma musa) que me caiu a lógica do livro, se alguma lógica é possível…

Sou, com efeito, péssimo a arrumar-me. Neste momento, com cerca de quatrocentas páginas, a coisa parece-se com um bazar marroquino. Há de tudo, dos poemas curtos (à laia de epigramas) a poemas de fôlego com que me atafulhei de reflexão metapoética. Enfronhado nesta feira de palavreado, procuro o melhor do melhor, alguma manifestação de génio com que sacie a fome dos meus vinte e cinco leitores e justifique horas e horas e mais horas inumeráveis de ofício.

A eliminação, porém, é dolorosa. Quer dizer, a princípio é. Porque imponho a máxima do “tudo ou nada”. Uma vez reprovada a folha, não há reciclagem que lhe valha. Nenhum poeta gosta de esbanjar vestígios de incompetência artística ou de fragilidade intelectual. Todo o poeta, pelo menos por princípio e pretensão, é divino. E também as divindades punem mortalmente. Porque também as divindades cometem fífias e delas se desgostam. E se desgostam mais das testemunhas da sua fraqueza. Pela parte que me toca, a minha divindade roça às vezes o olimpo de uma taberna.

Ato contínuo, e para não me perder mais em labirintos retóricos, direi que a eliminação age como a tempestade sobre o alcatrão: apaga-lhe os indícios da imundície. Nada, exceto a perfeição, deverá sobreviver em poesia. A lei de Darwin, no fim de contas, é também a lei da literatura! A memória do sistema, já Bloom o afirmou com todas as letras, é um processo de branqueamento contínuo, metáfora simpática para dizer apagamento. E eu antecipo-me ao tempo. Eu voluntariamente apago!

Para me compensar de tamanha empresa, faço-me acompanhar por chocolate amargo (setenta por cento de cacau). Podia ser uísque, mas julgo-me incapaz de tanta virilidade: diria como Graham Greene “I’m not Hemingway, for God’s sake!”. E o chocolate sempre é mais barato. Diga-se que mais limpo também. Diga-se, ainda, que não tão mau para a vesícula…

Não, reler-me é penoso!

E fazê-lo com um tão grande caudal de escrita será o décimo terceiro trabalho de Hércules. Cá estarei nos próximos tempos para o conseguir. Pouco a pouco, peneirando e peneirando, à cata de pepitas que, oxalá, façam do meu próximo livro um bom motivo para continuar vivo e apaixonado pela vida! Há que reconhecer: um bom poema, nascido das nossas mãos, é motivo suficiente para tanto…

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