SFILARTEN

Tatyana Tomsickova
Foto: Tatyana Tomsickova

 

As tardes de verão são belas em toda a parte. Neste preciso momento, o jovem presbítero Henrik Sfilarten arregaça as mangas da camisa e corrige o chapéu de palha, de modo a que os raios de sol que dançam nos ramos do ulmeiro o não atinjam e lhe não firam os olhos claros.

Aqui mesmo, encostado ao tronco da grande árvore, sente-se em paz. A Suécia nesta época do ano parece-se uma cópia do Paraíso. Atravessou até aqui chegar campos imensos de trigo e de lavanda, sorriu aos agapantos e às margaridas, descobriu como nos tempos de menino a azáfama doce das abelhas, por entre os talhões de flores silvestres, e a pressa das libélulas ao longo do ribeiro e sobre os açudes. Não faltam nesta paisagem a cabana tosca de bétula nem o moinho solitário no cimo de uma colina ligeira atapetada de girassóis.

Mais aprazível ainda (Sfilarten degusta-o como um verdadeiro néctar) é o cheiro das ervas ripícolas. Junta-lhes o pipilar dos pássaros, especialmente dos chapins e dos gaios, e depois pode pensar que esta singeleza condiz com as palavras dos Evangelhos e que as palavras dos Evangelhos soam mais profundamente assim, no âmago da criação, na áurea mediania em que Criador e criaturas se entregam a uma recíproca blandícia.

Há pouco, num lugarejo afastado da paróquia, entre cascas de pinheiro e pés de amoreira, ajoelhou para colher um morango maduro, enorme, suculento. Confirmou nessa inesperada oferenda a sábia lição de Cristo de que as todas as aves do céu se satisfazem sem angústia ou ganância. «Deveríamos todos viver deste modo, agradecendo a Deus cada instante que nos concede e o que nos concede a cada instante.»

Adormentado pela tranquilidade da sua fé, ou pelo calor de julho, ou mesmo pelo rumor sempre renovado da corrente, o presbítero boceja em intervalos cada vez mais curtos. Em breve será vencido pelo torpor da sua existência feliz. Como numa historieta infantil, personagens suas conhecidas entrarão à vez, a sua cabeça sentir-se-á vogar sem controlo, velhas imagens decorarão o cenário do sonho. Esta maciez solar da estação, por exemplo. Ressona já. Não intensa, mas levemente, como a própria brisa que afaga a haste do lólio à beira da estrada. Vê-se a si mesmo a passar a vau num lugar onde belas carpas prateadas correm contra o fluir da água. Depois, sem transição, vê-se a pedalar num sobe e desce de caminhos estreitos, com a Bíblia no regaço, até à pontezinha medieval; daí, com o coração descompassado e o cabeço a esvoaçar, alcança a propriedade do Senhor Larsson, o governador da comuna. Vê o modo como a aragem faz agitar poeticamente as espigas loiras dos campos de cevada. No meio delas, numa pose de elegância inimitável, sobraçando um cesto de vime, a mulher mais fascinante e formosa de toda a região. Oh, é a bela Inga! E Inga adivinha-lhe a presença, pois se volta, devagar, com meneios de difícil tradução, mostrando um sorriso meigo, corando um pouco. Como uma figura de Chagall, Sfilarten vê-se no ar, voando para ela, levando-lhe na mão uma flor de taráxaco.

Jamais trocou com Inga uma réplica em privado. Fá-lo-á desta vez. Porventura lhe dirá que o olhar eutrapélico de Nosso Senhor aprova estes colóquios íntimos, porque Nosso Senhor vê com aquiescência (com simpatia até) o desvelo de todos os seus filhos para que amem e sejam amados, e é amor este carinho, este dente de leão soprado por ambas as bocas num sopro só. É o rosto do circunspeto Larsson que se desfaz, se evola em mil fragmentos de algodão. Tão belas que és, minha Inga. Beijo-te, acaricio-te, tomo-te como minha. Oh, Inga! Não é pecado que uma mulher e um homem se amem assim. Não é cobiçar a mulher do próximo se a mulher do próximo também nos cobiça. Pois não é assim, Inga louçã? Que importa que sejas a esposa do governador de Sundsvália, se assim nos amamos os dois? Ela pensa o mesmo. Vê só. Este é o nosso filho. Carrego-o neste cesto como prova do nosso vínculo para sempre!

Sfilarten estremece. O pescoço poisado no sulco de uma raiz dá sinal de si, todo ele tornado dor. Esfrega os olhos. Levanta-se para forçar o corpo e a cabeça. Uma sensação de mal-estar flui dentro de si, como que transportada por sangue empeçonhado. Sente-se tonto e enjoado, sente os lábios e a língua sujos, repletos de sal.

Para diante a jornada é inversa à que antes fez. Segue a pé, ladeando, ziguezagueando explorações agrícolas.

Alguns transeuntes saúdam-no numa meia vénia. A hora canicular passou. Mais à frente, o presbítero é engolido por um rebanho de ovelhas suffolk. Tresmalhado, apático, ele caminha com elas na direção da aldeia. O pastor é um homem de idade. Tem a voz terna de quem já muito viu e ouviu neste mundo.

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