Junho

Fotografia de Maksim Shutov

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Era a primeira terça-feira de junho. O miúdo loiro seguia a pé pelo meio do pinhal e sentia muitas coisas boas ao mesmo tempo. Sentia, por exemplo, a leveza das sapatilhas sobre a terra escura e seca. Ou o cheiro da caruma e da resina. Ou o som das pinhas a quebrar no alto, onde o sol àquela hora batia já com força. Mais à frente era o riacho. O miúdo sabia que nele bailariam, num efeito de patinadores desastrados, os alfaiates e as folhas de plátano. E também eles e as ruínas das azenhas despertavam uma impressão de bem-estar e de solidez, como se tudo fizesse parte de um jogo em que nenhuma peça está a mais ou a menos.

O miúdo não ia só. Com ele avançavam na mesma senda empoeirada três garotos de idade igual. Um deles, o corpulento, falava sem parar. Desde que haviam saído das suas casas – pequenas, contíguas, amistosas, na mesma inclinação do vale –, o miúdo tagarela ensarilhava frases, esticava-as, batia-as com orgulho desmedido: o pai, um empreiteiro dos novos, terminava por essa altura um prédio na Póvoa de Varzim. Era um edifício extraordinário. O tagarela exibia, como prova, uma miniatura de azulejo. O arranha-céus estava a ser revestido com pastilha. Aquilo chamava-se “pastilha”. E, lá longe, na cidade litoral, ele mesmo, miúdo falador cheio de sorte, começaria as suas férias assim que acabassem as aulas.

E as aulas estavam no fim.

Com a mochila às costas, o miúdo loiro e os outros dois miúdos escutavam calados o amigo corpulento e achavam-lhe graça. As fanfarronices entravam nas suas cabeças como matéria idêntica à que vinha nos livros. Imaginavam-no a entrar e a sair dos banhos, a comer gelados, a subir pelo elevador do espantoso edifício que o pai e os seus muitos trabalhadores construíam. E supunham, com espanto, que em lado nenhum as férias de verão podiam ser mais extraordinárias do que naquele colosso de vidro e cimento, em cujo topo, entontecido pela força do vento, o corpulento amigo acenaria aos turistas passantes, lá em baixo, na calçada, enquanto se desfazia não de um, mas de uma caixa de Cornetos.

O miúdo loiro sentia-se feliz. Junho chegava como devia: quente, limpo, excessivo. Em breve o caminho da escola seria trocado por outros caminhos mais agradáveis, como o das matas, o dos campos, o dos corredores da casa dos avós, o das noites infindáveis na varanda, conversando com os vizinhos e comendo talhadas de melancia. Não lhe importavam grandezas desmedidas, somente o arrumar dos livros e o poder jogar à bola. Aquele era um dia auspicioso.

O miúdo loiro lembrou que, nessa noite, no México, Portugal jogaria contra a Inglaterra. Era o primeiro Mundial das suas vidas. O miúdo loiro, que venerava o Benfica, levava nos pés umas sapatilhas novas. Prenda da mãe. E elas eram tão leves e tão lestas como seriam as do Álvaro Magalhães, a do Diamantino e as do Rui Águas. Junho, junho, mês inesquecível!

Mas o miúdo das frases intermináveis falava. Em breve o pai teria nas mãos um Jaguar, o carro mais bonito e bem equipado da sua geração. O motor era um estouro. O corpulento explicava como fazia o motor, imitava-lhe o ronco, o arranque, o poder dos pistões e das bielas. Os outros ouviam-no embevecidos, sem réplica, orgulhosos da riqueza do pai empresário do amigo, alegres do tempo estival que lhes não perturbava a leveza dos pensamentos.

O miúdo loiro às vezes distraía-se. Enquanto se encaminhavam para os portões da escola, dava-se conta do chilreio da passarada: dos pardais assustadiços, dos melros atrevidos, das rolas barulhentas, do chasquear fugitivo de uma gralha ao longe ou de um gaio. Todos possuíam a sua quota-parte de beleza e provocavam um arrepio de felicidade, porque o seu canto se juntava ao odor fresco das ervas e à sensação de que o tempo ia parar.

A estação tinha tanto para oferecer. O futebol prometia. As palavras cheiravam a excesso, mas torneavam maravilhosamente a cabeça. O corpulento falava, falava ainda, falava sempre. No futuro, quando se juntasse aos bigodaças todos da Seleção, o miúdo loiro conduziria o seu próprio Jaguar descapotável, com um motor de centenas de cavalos, estofos de couro e volante forrado a pelo. Para já precisava ainda de terminar a caminhada até ao portão de escola. Os quatro iam deixando torvelinhos de pó à passagem. Era a primeira terça-feira desse junho de 1986. Era quase idílico estar ali. Era quase infame não amar a Seleção.

O miúdo loiro sorria. As sapatilhas novas pareciam desprovidas de peso. Era como se levitassem, lépidas de tão cheias de fantasia.

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© João Ricardo Lopes (2026)

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O alfaiate

Imagem de alfaiate a trabalhar. Picture of a tailor at work.
Fotografia de Salvador Godoy

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Antes de o calor se tornar arquejante, pode-se aproveitar no máximo duas ou três horas de frescura. Pela porta e pelas janelas abertas corre uma aragem agradabilíssima, um ventinho que amacia os pensamentos, que às vezes carrega o cheiro das praias e do mar, outras vezes traz subtilmente o aroma verde das hortelãs e dos tomateiros, e que é, em todo o caso, o melhor do dia.

O calor cada vez mais excessivo nos meses do estio é a causa deste ódio do alfaiate Iñigo Larraona à terra ancestral. Nos sonhos – se sonhar pode dizer-se do desconcerto de imagens e de pessoas na sua cabeça durante a noite – caminha amiúde por inóspitos carreiros de pedra calcária, sempre descalço, com a planta dos pés e a garganta num ardor igual, violento, de maceração e agonia. As cabras deambulam debaixo do sol em busca de uma sombra ou de arbustos que lhes matem a sede.

Iñigo conhece um sítio onde a água pode ser encontrada, água leve e límpida como toda a água boa. Fica para lá do pinheiro manso solitário, numa das encostas da colina que tem de subir a muito custo. Há um opérculo de madeira, meio escondido pelo giestal, que tem de remover. Depois há uma corda que puxa e que traz do fundo um pequeno pote de barro. Pode então saciar-se.

A sensação é ambivalente: bebe com sofreguidão, lava o rosto, molha a sola dos pés, volta a engolir o manancial prodigioso empoçado nas rochas. A água escorre, ardeja, silencia o clamor da pele. Mas é então que regressa o pânico. Onde estão todos? Onde se enfiaram os amigos? Que solidão é essa que o cerca aí de todos os lados e se torna um pesadelo tão poderoso capaz de o expulsar de si e da sua infância?

Antes de o calor cair com toda a força no país, Iñigo Larraona regozija-se com a paz das manhãzinhas. Na mesa larga do seu ofício, confirma os números com a fita métrica, empurra com gentileza o giz sobre o tecido, recorta as peças, alinhava-as. A brisa faz empolar suavemente o volume de papéis. De quando em quando interceta o fumo de algum cigarro transeunte, ou o aroma dos pêssegos capturado na frutaria da esquina. O alfaiate sente uma pena imensa que estas coisas durem tão pouco e que não as saiba guardar. Não é fácil limpar-se dos pesadelos, ou calcular com precisão o poder que eles detêm, ou compreender a razão por que tantos anos depois continua a sentir-se vazio, descalço, perdido no meio da vida.

Depois, quando o grande lume deflagra nas vidraças e necessita de encerrar as persianas, o sufoco é maior. Não lhe apetece nada, tudo é uma agressão contra si e contra o mundo. Não escuta a voz de nenhum dos vizinhos, nem o ganir dos cães. A solidão encurrala-o sem misericórdia. Não lhe apetece nada, exceto fechar os olhos. Receia, no entanto, que se o fizer, possa sentir os pés em chamas e a garganta torturada por uma sede insatisfazível.

É um homem comum, em suma. Temos razão para acreditar, ainda assim, que todas as criaturas comuns possuem um hemisfério sombrio, ctónico, sem dúvida merecedor de atenta psicanálise e da melhor literatura.

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Logótipo Oficial 2024

Sonhos

Fotografia de Jess Foami

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Durante a noite sonhou outra vez com pessoas do seu passado. Primeiro com ex-colegas do trabalho, de quem se despedira havia anos. Depois com rostos antigos (que via agora, uma ou duas vezes por anos, em círculos ovais nas lápides musgosas do cemitério da aldeia), rostos que readquiriam a sua graciosidade e lhe faziam perguntas, rostos que tinham sido importantes e que ela quase por completo esquecera.

Acordou imersa numa impressão de tristeza infinita. Esforçou-se por recordar pormenores dos sonhos sucessivos que tivera, escavando dentro de si como se escava um sítio arqueológico. Vinham-lhe um ou outro detalhes, mas escapava-lhe a narrativa onírica, fugia-lhe a lógica das imagens e dos sons (até dos cheiros) que sabia terem-lhe passado pela cabeça. Sentia-se mole, prostrada, com uma nota de amargor na boca. Acontecia-lhe cada vez mais amiúde. Rosana reagia de modo imprevisível. Tomava um duche de água fria, ligava o aparelho de música, entregava-se ao sol com uma chávena de café nas mãos, saía para a rua com vontade de implicar com quantos transeuntes se cruzasse, lia a Bíblia, colocava os óculos escuros e tampões nos ouvidos e seguia para o trabalho no maior mutismo. 

Viver sobre sonhos, tê-los guardados dentro de si, no âmago imperscrutável da sua própria alma, sonhos destes, sem compreender bem porquê devastadores, sabendo que regressariam, que a dominariam, que a humilhariam, era igual a transportar barris de petróleo, era uma bomba-relógio. Rosana odiava sonhar, odiava nada poder fazer contra estes fantasmas que se acovilhavam na sua própria casa, que a assaltavam sem autorização e, pior ainda, com o seu próprio e vil consentimento.

Ocorreu-lhe, então, quase por acaso, de modo ténue, vaporoso, que num dos sonhos da última noite vira a avó a chorar. Era muito pequena, segurava ainda uma fralda de flanela, percebia nos lábios o sabor de uma chupeta rançosa. Estava na varanda da casa velha de granito, protegida por um gradeamento simples (duas barras de ferro carcomido). Sozinha, de pé, espreitava o quintal e o quinteiro em baixo. A avó no campo, de enxada em punho, erguia torvelinhos de pó. 

Rosana consegui paulatinamente desvendar o nevoeiro ao redor deste estranho cenário. A avó, dobrada sobre a terra, extraía batatas. A lâmina da enxada cortava um pouco adiante de cada tufo de folhas. Depois alavancava o torrão cortado, puxava-o para si e do emaranhado de raízes e terra sacudia os preciosos tubérculos pálidos e avermelhados que nessa manhã quente (provavelmente de julho) a prendia àquela parcela. A avó tinha uma cinta apertada, um pano escarlate segurando-lhe o ventre. Bem via a sua gravidez. 

Rosana surpreendeu-se com esta descoberta. Começava a duvidar que tivesse realmente sonhado com a velha avó grávida. No trajeto diário para o local do seu emprego, ou no regresso a casa, costumava rememorar partes da sua infância. Não era raro fixar-se em lugares perdidos, como um sótão onde brincara, uma cave, um quarto onde partículas de pó bailavam sob o efeito oblíquo da luz, uma mina, um caminho entre giestais e matos floridos, a sala de aulas da escola primária, o confessionário e o púlpito da igreja românica, a corte dos animais. Também lhe acorriam feições apagadas, risos, presilhas em volta de certos olhos, mulheres de lenço preto na cabeça, timbres de voz. Era como um imenso bastidor de teatro, um armazém de máscaras e de tipos humanos. Mas perturbava-a muitíssimo que esse legado misturasse factos, que a confundisse, que lhe trouxesse memórias de uma maneira avulsa e revolta. Como podia ele ter sonhado com a avó grávida? E porque chorava a avó?

Lentamente desceu a si mesma. Deixou que o esquecimento retornasse com o seu véu apaziguador. Era preciso estar viva e pronta para o seu dia de trabalho.

Haveria de sonhar dias depois com a mesma mulher, erguendo e baixado a enxada, guardando no seu ventre o fruto bendito de que Rosana não podia lembrar-se. Enquanto isso retirava da terra seca batatas grandes como punhos. Não saberia dizer se o rosto era o da avó, se o da sua mãe, se era o seu próprio rosto. Sentia nas mãos, ao mesmo tempo, o peso do cabo de madeira e o peso da fralda puída, pressentia no fundo do útero o aperto e a dor de um ser que era ela mesma e era outra pessoa. Nesse sonho alguém lhe dizia nas costas (de modo sonoro, mas ininteligível) «És bem como a tua avó, que Deus a tenha!».  Não sabia porque chorava, mas sentia sempre vontade de chorar, porque era uma menina só, numa varanda mal protegida, porque era velha sozinha, dobrada no campo a trabalhar.

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