O HOMEM MUITO TRISTE

sadness, o homem muito triste
Foto: Miroslav Mominski

Cruzo-me com este homem quase todos os dias no caminho para a escola. No ângulo de cimento de um murete, acompanhando a curva apertada de um caminho secundário, ocupa com a sua sombra todo o lado esquerdo do vidro do carro, e tão singular a sua comum figura que nunca resisto a deitar-lhe, muito de viés, uma mirada curiosa.

É um velho triste. Apoiado numa bengala (seria mais correto admitir que a bengala se tornou um grande braço caindo na terra), lança o rosto num movimento de rede, como quem não sabe se vai ou o que vai apanhar do dia. Julgo que me vê passar e que me não vê passar. Porque gasta os dias a olhar sem ver, fixado num ponto onde nenhum automóvel chega, nem decerto nenhuma mirada curiosa e comovida, a bengala debaixo da mão como um pilar muito hirto, pensando quem sabe, quem sabe lembrando, quem sabe cismando na curta viagem entre a infância e essa idade de tão frias e de tão feias emanações.

É um velho triste. Barba branca e rala, aguçando o queixo numa expressão inquisidora. Pele tão velha como a boca velha e escancarada, que parece arfar. Uma máscara. Todo ele numa expressão que tanto se diria alheada, distante da realidade, como nela achando e arregalando uma epifania.

O carro leva-me por lugares que me dão muitas vezes o primeiro verso, a primeira linha, a primeira impressão de uma fotografia. Às vezes, como aqui e agora, ao interceptar este ancião, sinto uma cobardia inexplicável. Finjo que não percebo o que é óbvio, que não toco o que palpável. Ponho-me a mexer nalgum manípulo, troco de estação de rádio, fiscalizo criminosamente o ecrã do telemóvel. Aquela expressão triste do velho, porém, está lá, entrou, já me não permite evasivas. Volto-me, esforço-me por não olhar, mas zás, olhei-o nos olhos! O carro já me pôs noutra rua, noutra estrada, noutro ângulo de outra luz.  Mas aquela expressão de casa abandonada enche-me o vidro dianteiro. É inútil fazer de conta. É ridículo. É, provavelmente, hipócrita e cruel.

Ponho-me em devaneios morais. E, se em lugar de acelerar, eu encostasse, me apeasse, lhe propusesse um cigarro, quisesse saber o nome, lhe escutasse a vida? Se, em vez de fingir que o dever me chama muitos quilómetros à frente, admitisse que me chama aqui o dever de confortar, de saber, de vestir pele humana  e tripas humanas, cabeça humana, coração humano?

É um velho triste. Encontro-o rodeado pelas mesmas casas solitárias, pelas mesmas ervas bravas, pelo mesmo céu mortiço, junto ao mesmo alcatrão sujo e irregular. Uma cena de meia dúzia de segundos, enquanto o carro resfolega e ao longe uma sirene apita para a mudança de turnos. Dou por mim a observá-lo pelo retrovisor, como quem se dá conta que a oportunidade passou, que a separar o futuro do passado há uma estreitíssima ponte,  o presente não existe, braços e tronco vergados, lá atrás, como se ameaçasse despenhar-se, estilhaçar-se, partir-se todo, lá muito atrás, mal se vê agora, como se somente a bengala se importasse, agora é um pontinho, a reta levou-me a uma rua mais larga, uma lomba, agora já não se vê, uma subida, uma curva, e zás, já o horizonte é outro.

É um velho tristíssimo. A cena repete-se. Fica-me no vidro, junto com o cadáver dos mosquitos e a meia-lua do pó. Sou forçado a rememorá-la, preso a um remorso que os outros perdoariam, mas eu não perdoo.

Acabo por esquecê-lo, assim que retiro a chave ignição e me lanço numa corrida para a porta da escola, em cima da hora, sempre a pisar o risco, homem livre, homem preso, cheio de fé e sem fé. Caminho com o rosto um pouco levantado demais, olhos num ponto indecifrado do infinito, incapaz de pensar no que quer que seja.

Antes que o pergunte a mim mesmo, respondo: não, não sei porque tem de ser assim!

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CRÓNICA UM DOMINGO DE OUTONO

Yvette Depaepe
Foto: Yvette Depaepe

 

Foi bom ter vindo.

É sempre bom chegar a esta praia, desagrilhoar-me do carro, seguir longamente pela marginal, pedir nesta e em nenhuma outra casa um café tirado, bebê-lo às escondidas do mar, deixar-me em paz, como um desses áceres ou plátanos da anterior avenida, com a sensação de que sou um derrotado mas um herói, cansado mas digno, silencioso mas cheiinho de palavras (às quais dou ordem para se absterem, enquanto o café aquece), descontente mas satisfeito, sem pressa mas ansioso por regressar ao cheiro forte da salsugem. Regressar é sempre bom, ótimo, revigorante.

«Deseja mais alguma coisa?»

Desejo, sim. Em primeiro lugar, libertar-me da gente estúpida (é impressão minha, ou a gente estúpida vem sempre morar para o pé da nossa porta?). Em segundo lugar, prender-me definitivamente aos gestos de excelência, às pessoas maravilhosas que os sabem interpretar, como essa garota que me não sai da cabeça, cuja história me repetiram há dias.

«Olhe, professor, então não é que um desses meninos com trissomia se apaixonou por ela! Todos a fazerem troça no recreio e ele a chorar. Então, a garota foi ter com o menino, limpou-lhe as lágrimas, abraçou-o, deu-lhe a mão e levou-o…»

Gosto de vir também por esta razão. Para estar comigo, para pôr estas narrativas na ordem (a nossa cabeça é um caderno caótico), para descortinar lógicas submersas nas máscaras que as coisas vestem todos os dias.

«Aqui tem o seu troco, senhor…»

Gosto da sensação do frio, da brisa veemente que me faz inchar o casaco de náilon e me enche o rosto com salpicos de espuma. Gosto destes prédios à retaguarda, calados, inofensivos, como molduras de vinhetas de banda-desenhada. Gosto destas palmeiras baloiçando, baloiçando agora e sempre que aqui estou, fazendo-me sentir em território amigo, mesmo se o outono obscureceu já demasiadamente a paisagem.

«De modo que a rapariguinha, esta mesma de que estamos a falar, teve um acidente na sexta-feira à noite. Um horror…»

Os ténis têm, é incrível, o seu modo automático de me guiar, de me levar sem que os sinta. Nem dou pelos semáforos deixados para trás, do paredão e dos pescadores solitários, do farol, das rugas de água verde acinzentadas (além quase negras), que crescem e se desfazem no molhe, pelas gaivotas que me vistoriam com o seu movimento circular, pelas folhas de jornal com restos de castanhas assadas que civilizadamente algum transeunte deixou de presente ao mundo.

«A coitadinha tirou carta há tão pouco tempo. O carro ficou debaixo de um camião, todo desfeito, professor! Morreu logo ali! Uma rapariguinha tão boa, tão educada… Um horror!»

Nem damos conta.

As palavras atam-se-nos com perícia. Por mais que as expulsemos, elas têm um modo muito seu de voltar. E nunca vêm sós. Trazem imagens, memórias, cenas inverosímeis. Como este magote que se acotovela do lado de fora da janela da mercearia, onde o senhor da funerária cola o fúnebre papel debruado de preto, com a sua cruz, com a foto, com o nome da rapariguinha bonita, com as informações imprescindíveis, com a dor da família enlutada.

«Sempre lhe digo, professor: vão os melhores e os filhos da mãe ficam, nunca lhes acontece nada… Passam sempre entre os pingos da chuva… Não percebo!»

Não demora a chuva.

Gosto deste lugar, do modo como a cabeça se me enche aqui de vazio. Nem damos conta de como a cabeça precisa tanto do vazio, tanto do silêncio, tanto da sombra, tanto de se apagar como se apaga às vezes o azul do mar debaixo de nuvens tão carregadas de dor como estas nuvens aqui!

«Tenho muita pena deste rapazinho deficiente, nem imagina! Ainda não percebeu bem o que sucedeu à amiga…»

É sempre bom caminhar sem destino, o casaco mais apertado, a tarde levando-me para muito longe (nunca sei para vou nestas tardes em que me vejo sem âncora), o frio lavando-me, a cabeça cada vez mais leve, os ténis voando (em breve estarei noutra dimensão), o mar sempre ao lado, o mar correndo quem sabe, às tantas, dentro de mim.