O poder

. Elegeram um espantalho para rei da província da Trácia. Todos os nobres depuseram o seu voto no fio da espada e no final da eleição ergueram-na, saudando o rei. Chamava-se Elónio. O imperador apreciava reis-espantalhos a governar sobre a cabeça dos líderes tribais: é mais fácil domar povos entretidos com rebeliões internas do que …

Pausa

. Por fim a pausa. Reconhecemos uma pausa quando trocamos o café pela poesia grega, quando trocamos a poesia grega pelo jardim. Herman de Coninck, poeta e jornalista belga de que cujo sentido de humor gosto bastante, escreveu que num texto maravilhoso, dedicado à mãe, que «poesia tem a ver com a duração» e que …

Crisântemos

. CRISÂNTEMOS Hoje, primeiro dia de novembro, regressei a esta parte da casa onde os últimos vasos coloridos alardeiam as suas flores. Gosto de beber o meu café aqui, no recanto que muitas vezes se enche de gerberas e orquídeas, de cravinas e de gladíolos, lírios e jarros amarelos, mas também de funcho, hortelã, salsa, …

O pintor

para a Céu . Em setembro tudo é melhor cogitou o pintor. Preciso de limpar os telhados, de varrer os pátios, de cuidar do jardim. O pó do mar, o lixo dos turistas e o sol de julho e agosto trouxeram o caos a este meu esconderijo. O homem considerou com devoção o seu ateliê …

Ezequiel

. É um mar de livros desde a porta. E a seguir a esta primeira está outra porta, para lá da qual um novo oceano de títulos pesa e alastra. Entra-se e fica-se de cabeça aluada, derramando a atenção, de alto a baixo, sobre coisas tão vagas e exóticas como num ervanário. E são elas …

A inveja

. Como naquele conto de Jorge Luís Borges em que Aureliano de Aquileia foi condenado a morrer numa fogueira, atraiçoado pelo ciúme de João de Panónia, assim Kamo no Chomei se viu enredado na maior das perfídias por conta da inveja de Katsuo Hashira, poeta rival, poderoso, incapaz de lidar com a gloriosa humildade desse …

Um povo que não ama a poesia é um povo estúpido: ponto!

. Aceitemos o facto: nós, os portugueses, estamo-nos positivamente marimbando para a poesia. Acrescentemos essa a outras famigeradas sinas: nós, os portugueses, damos o litro a escrever poesia, mas estamo-nos nas tintas para a poesia dos outros. Nós, os portugueses, como os demais povos que já foram um dia burgueses, que tiveram já na sua …