Diante do féretro aberto do seu melhor amigo, no que parece ser um velório pouco concorrido, o ex-faroleiro Argyll Williams mostra-se acometido por uma solidão mais penetrante do que aquela tantas vezes experimentada na ilha de Tory, quando o oceano tumultuoso, verdadeiramente insano, se erguia contra as paredes cilíndricas da pequena torre iluminada e se dava conta de ser ele a pessoa mais só e mais estoica do planeta.
Olhar um corpo quieto e sem fôlego, a quem o acinzentar das carnes e a rigidez das expressões tornam uma presença intrusa no meio de tantos pensamentos e memórias, é o que faz também a astrofísica Kathleen O’ Connor. No deserto do Atacama, a visibilidade do céu noturno convida olhos gulosos a indagar as profundezas do universo, como sejam a luz das estrelas primitivas e das primeiras galáxias.
O’ Connor observa agora a morte. O seu tio, Michael Mahon, não se parece nada com o autor das mais engraçadas anedotas do condado de Donegal, apenas um corpúsculo sem luz na embocadura de um buraco negro. Dos amigos que teve poucos vieram, um deles o velhote de pele vermelhusca e camisola de lã, com um barrete grosseiro de pescador na mão direita.
Na igreja entrou agora Mary Gallagher. É uma mulher notada, com o seu peculiar vestuário de couros e acessórios de luto. De ambas as metade da face escorre um curto leito de lágrimas e produtos cosméticos, um sulco comprovativo de que a mágoa nos suja o rosto e o deforma sempre.
Se toda a comunidade de Cloughaneely aqui tivesse acorrido, compreenderia que a uma antiga prostituta não descabe a sua quota-parte de desgosto e que um véu fúnebre nunca sabe bem, nestes casos, o que esconde.
Admitamos que o vazio se conte entre os despojos que ao fim e ao cabo atormentam as almas sensíveis de um antigo vigilante nas noites pelágicas, de uma cientista acostumada ao silêncio do cosmos, ou de uma mulher que abandonou as camas pungentes de uma casa de passe. Ninguém saberá dizer, sob pena de leviana suposição, em qual das três o será mais, ou de maior escondimento.
Para Maria Alice Pereira Costa, (08-06-1956 – 21-09-2024), in memoriam
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Arde sempre uma luz junto à Sagrada Família. Fiz uma promessa, que cumpro inquebravelmente. O lugar da luz deve ser esse, esse lugar onde até a noite chega a ser a bonita. É como nos quadros de Caravaggio: a sombra aconchega-se às velas, às candeias, aos olhos flamejantes, às cores fortes das túnicas e adormece. Quando tu partiste, jurei que haveria sempre luz a amansar a escuridão cá em casa, ainda que ao menos com um fósforo aceso, com uma frase dita de dentro para o fundo, ao menos com um olá, mãe.
As datas são terríveis. Digo sempre a mesma coisa, mas não encontro outra forma de o dizer. Foi o um de novembro, assombroso, pesado, anestesiante. Foi o Natal, esse golpe certeiro: estiveram cá o Presépio e o Pinheiro – a Catarina fez questão – mas a aldeiazinha de Belém pareceu-me mais longínqua do que o canto do universo de onde saiu a estrela eufórica. Foi o Dia da Mãe e eu incapaz de escrever uma linha. Agora o teu aniversário. O primeiro. E eu às voltas com a casa desarrumada pelas lembranças, eu perdido nas frases, no riso, nas subtilezas da voz, evocando essas cordas de peripécias que nos punhas à mesa à noite, enquanto o caldo ia cozendo nos potes de ferro da lareira e rezávamos o terço, com a Renascença a ditá-lo diretamente da Capelinha das Aparições. A tua vida era cheia e difícil, mãe. Tenho a alma em pantanas. E, sim, as datas são atrozes.
Fazes 69 anos hoje. E, no entanto, como te direi, não fazes anos. Fazer anos era tu estares cá, e tu estás cá mas não os fazes. Um filho (e somos quatro) baralha-se com as palavras: ainda há pouco sentenciavas, profetizavas, insuflada por uma certeza irritante:
Esta é a última vez que me cantais os parabéns.
E já esse dia tão remoto, tão próximo ainda, nos abre fissuras nas paredes do juízo.
Não digas isso, mãe.
E o teu silêncio, os teus opacos olhos sem claridade ou fosfenos, a tua lassidão crescendo até sair pelo nariz sob o arranque de um suspiro.
Deus lá saberá.
Era como quem ouve o comboio antes dos outros, a tremer, a apitar, a vir no remanso da noite, a acercar-se da luz como as trevas dos quadros de Caravaggio, a fingir que é maravilhoso estar tudo bem.
Não digas isso, mãe.
Tinhas razão. Tudo aconteceu de súbito, muito depressa, tudo devagar e tudo vertiginoso, tudo carregado de espanto e de dor, tudo cá dentro a soltar-se de cada memória que me põe a alma num desarrumo: tu comigo ao colo, tu deitada na cama do hospital, tu derreada sobre os teares, tu com o dedo erguido a suspeitares de alguma, tu a cuidares da avó, tu a amassares o pão e a metere-lo no forno, tu a despedir-te, entubada, cheia de hematomas, tu corada de alegria, tu no féretro – fria como um papel – quando pela última vez te beijei.
Para o ano, sabe Deus!
Não digas isso, mãe.
E eu, nós os quatro, os cinco (que o pai também entra, evidentemente), a alucinar, a murmurar ao almoço que farias hoje 69 anos se fosses viva. E eu, nós os cinco, a odiarmos esses verbos conjugados no condicional, no conjuntivo, como se não estivesses viva, como se não estivesses aqui entre nós, a escutar com o teu sorrido trocista o «Parabéns a você, nesta data querida», como se nos falhasses numa data tão importante, tão inesquecida, tão acordada logo pela manhã na pequena vela bruxuleando ao pé da caixa de madeira com a Virgem, o São José e o Menino.
O cancro intrometeu-se. Sempre abominei a minha cobardia em relação a doenças. Estou sempre a rever-te, com os pulmões a laborar num esforço tremendo, com o punho empurrado para o peito:
Este filho da puta não para.
E nós, com os olhos mergulhados em nevoeiro, com o nariz a pingar de tristeza, com a voz aluindo na garganta:
Ó minha mãe.
Jurei – na véspera de nos deixares – que enquanto for pessoa neste mundo há de existir sempre uma luz a irradiar da Sagrada Família, a alastrar pelos interstícios da casa, a fazer recuar corajosamente as sombridões, a trazer no lume amigo de um círio a tua segurança, a tua sensatez, o teu desenvencilho, os teus provérbios, a tua liderança, a tua maneira de contar histórias com humor e sem maldade. Jurei explicar-me assim quanto à saudade, que às vezes soca e asfixia com violência. O lugar da luz é o interior das metáforas. A luz deve dizer mãe com a mesma solene suavidade com que a chama diz amor.
Será errado escrever muitas vezes sobre alguém que se ama?
Herberto Helder escreveu em A Colher na Boca, 1961, aquela que me parece ser a mais pura justificação para esse amor: «As mães são as mais altas coisas / que os filhos criam, porque se colocam / na combustão dos filhos, porque / os filhos estão como invasores dentes-de-leão / no terreno das mães». Estes versos não podiam caber mais direitos nem mais luminosos nesta crónica.
Esta não será a última vez que te cantamos os parabéns, minha mãe.
Estou bem agora. Não vos preocupeis comigo.
E é por isso que me parece a luz tão delicada, tão macia, tão catártica, agora que a noite vem e as sombras – tenho de o repetir – chegam quase como em Caravaggio a ser bonitas.
Procura-se, procura-se melhor, procura-se com afinco e é então que surge o orifício, melhor o alçapão, melhor ainda o portal para esse tempo julgado desprendido de nós, a vaguear no vazio – como uma jangada sem gente, quer dizer com gente, gente morta, gente que nos visita em sonhos e que nós visitamos no pensamento. Procura-se e às vezes descobre-se um modo de descermos ao mais fundo da existência. Principia nesse instante a poderosa viagem a que um caderno aberto e uma lapiseira afiada aspiram.
Por exemplo, estes dias em que andamos de pijama pela casa, pelo pátio, pelo meio dos livros e ocorre-nos de repente que os nossos gestos são os gestos dos nossos velhos – escrevo velhos com amor, com devoção. Por exemplo, esta forma de acariciar as folhas carnudas da alfádega, de roubar à pele da mão o hausto por sua vez por ela furtada aos folículos dos manjericos, à citronela, ao verde luminoso dos fiolhais. Damos por nós a tombar num mergulho de décadas até a um quintal antigo, até a um avô que procedia exatamente do mesmo modo nas manhãs solares de junho.
Estamos a vê-lo, as repas do cabelo e a barba rala – do mesmo tom tisnado – por fazer, o rosto macilento, o colete de lã azul, as calças enfunadas por dentro das galochas, a enxada ao ombro. Vemo-lo a fazer a vistoria diária aos regos de milho, ao talhão das batatas, à inflorescência das vides. Amiúde o olhar perde-se-lhe mais rúbido, mais aquoso, mais longe. Vemo-lo a palpar o tronco das árvores, a medir o tamanho dos caules das cebolas, a fazer cócegas aos tufos de salsa, a dizer de si para si coisas que apenas se percebem ditas pelo movimento aguçado do queixo e da boca infeliz.
Estamos a vê-lo. Funga como nós fungamos. Leva a palma ao cabelo como nós levamos. A feição de tirar da ameixoeira o fruto amadurecido e rescendente e de o passar pela roupa sem outro modo de o lavar é a nossa feição de o tirar da fruteira e de o levar à boca. Estamos a vê-lo. O seu sorriso breve e tímido é o nosso sorriso. Sorri para os pequenos bichos que cacarejam e chafurdam na lama. Cada qual com o seu nome próprio, porque esse avô gostava como Adão de nomear os animais. Estamos a vê-lo. Com um lápis rombudo anota na face da madeira números e garatujas. Faz a lâmina da serra deslizar sobre a carne das tábuas e constrói coisas, guarda as aparas, aproveita-se do serrim. Tudo é bom e útil e dádiva que se não deve menosprezar. Estamos a vê-lo e, vendo-o, vemo-nos na grande proximidade que apenas a distância soube mostrar.
Tropeçar na memória é um risco que corremos. É uma espécie de vágado. Pomo-nos a deambular em silêncio pelos corredores e precisamos de uma voz apontada às folhas lisas do caderno. Sentimos a orfandade dilatar-se dentro de nós como um tumor. O tempo, que desnovelamos pouco a pouco com palavras humildes e tersas, magoa.
Esses velhos pareciam criaturas eternas velando por nós, aconchegando-nos no fogo particular das suas palavras, e eis que de repente passaram trinta, quarenta anos, e nós somos o lugar difuso que eles ocuparam. Repetimos-lhes os provérbios, o gosto pela broa, a sisudez endurecida pelo orgulho, a repugnância pelos fracos, traidores e hipócritas deste mundo. Somos hoje os velhos do amanhã e damo-nos conta de que pequenos seres ao nosso redor nos espiam e nos imitam, atentos aos mínimos movimentos da nossa solidão.
Procura-se, procura-se bem, procura-se no fundo das gavetas, procura-se por detrás das sombras, por dentro da ofuscação do aqui e do agora e é então que surge essa frincha, essa abertura, essa ruína antecipada de nós mesmos zarpando em direção ao ponto mais vago do horizonte. Adestramo-nos na morte. Estamos mais perto, cada vez mais perto, pertíssimo talvez. Desconfiamos que alguém possa à retaguarda acompanhar-nos nessa viagem – açodada agora – de palavra para palavra, a mais veemente a que um caderno aberto e uma lapiseira afiada podem aspirar.
Um dos meus maiores medos começou há uns tempos, subtilmente, numa das conversas em família à hora do jantar: disseram-me que nesse dia fora a sepultar a última das saboeiras da freguesia.
Não era do meu conhecimento que tivesse havido fábricas de sabão e saboeiras na terra, por isso senti uma puada cá dentro, como as que sentimos quando nos escapa algo de valioso e se mistura culpa e nostalgia em nós.
Poucas semanas depois os sinos dobraram e o meu pai, contadas as repetições do dobre supôs de imediato:
– Foi o guarda-rios, foi o Salvador! Olha, coitado, era o derradeiro do seu ofício…
Mais uma vez atingiu-me a perplexidade: desconhecia que houvesse uma profissão tão específica, tão bastantemente útil e tão autossuficiente como a desse pobre homem que levava a alma ao outro mundo.
Comecei aos poucos a tomar consciência da excecionalidade desta época em que um mundo inteiro de mesteres e modos de vida e ganha-pães personalizados morre e outro mundo inteiro de cargos e encarregados, diretores, funcionários e colaboradores varre a paisagem sem lugar a rosto, individualidade ou história para lembrar mais tarde. Ao dar-me conta deste exato momento epigonal em que o último vedor e a última jornaleira, em que o último alfaiate e a última camponesa com coragem para matar galinhas e esfolar coelhos, em que o último alambiqueiro e a última boticária se preparam para entregar ao vazio a sua arte e o seu orgulho, a sua perícia e os seus rituais, dou-me conta (por arrasto) de que uma porção imensa do espaço e do tempo em que fui preparado para viver está a ir-se, subtilmente, num voltar de capítulo silencioso, num cortejo fúnebre discretíssimo, num fechar e abrir de olhos ao serviço de uma hierarquia nova, computacional, globalizada, irrespirável, inumana, de identidades-números, onde tudo o que se faz é produto, onde tudo o que é concreto é virtual, onde todo o contentamento mói num longo bocejo eterno de-antevéspera-a depois-de-amanhã.
Um dos meus grandes medos é o sentir-me fiel da balança, sentir-me depositário de um mundo antigo que se despede sem adeus e até sempre, e sentir-me recebedor de um mundo outro, atroz, que me exige (para merecer estar vivo) que esqueça justamente e depressa, que oblitere, que apague pura e simplesmente essa memória decadente de trabalhos ultrapassados, de muitos nomes, de velhas histórias e sentimentos incompreensíveis, como a saudade, como o sentir falta de meter mãos às coisas e sobre as coisas, como o frémito de cheirar a terra, ou o tecido acabado de riscar pela sábia costureira, ou sentir prazer e repugnância junto das vísceras quentes e do sangue pingado desses animais que alguém, repleto de competência, acabou de degolar.
Um dos meus grandes medos é o de me sentir expulso deste outro mundo nascente, falso, hipócrita, reescrito com a lei suprema do politicamente correto e do balofo e do estéril e do artificial.
Tremo de pensar que estou na cauda de um cometa vertiginoso, assistindo à desaparição de algo a que chamam velho e inútil, mas que é, tenho de teimar, luminoso e cheio, vivo e refrescante. Tremo de sentir-me como aquele punhado de gente que assiste com lágrimas à implosão do Cinema Paraíso. Tremo de pensar que os sinos um dia talvez nem dobrem. Que um pequeno estalido ecoe eletronicamente, interligadamente, absortamente, cansadamente, nos dispositivos dos meus sucedâneos e que algum deles, um apenas, desvie um pouco os olhos do ecrã e considere pelo pequeno ângulo de firmamento acessível o sentido da existência.
A velha, via-se bem, lacrimejava. Não havia meio de acender o fogão maldito. Já por duas vezes os dedos trémulos haviam precisado de imiscuir-se no buraco do serrim e de retirá-lo aos bocados. Recolocou o bastão numa das bocas e pela terceira vez, via-se bem que com irritação, pôs-se a peneirar a serradura para o seu interior. Depois com o cabo da foice começou a comprimir as aparas lentamente no espaço em volta. Vinha-lhe à cabeça a história do aerograma: que dor tão funda para aquela família! Retirou o bastão com cuidado, de modo a aguentar o espaço aberto no miolo do serrim e de seguida lançou pelo largo orifício um bocado de papel a arder. Era uma tarde inusualmente fria, não se recordava de um julho assim. Curvou-se mais um pouco e recomeçou a soprar. Fazer deflagrar a chama exigia perícia, paciência, temperança. A velha não tinha filhos, mas não os ter tido não significava que não se doesse da dor dos outros. De dentro do tubo mole das aparas começou a crescer uma língua de fogo. Dentro da cozinha às escuras, o fumo rodava, entretanto, mais espesso, mais azul, mais implacável. Fazia arder os olhos. A velha, via-se bem, chorava.
Os rapazes iam para África a mando do governo. Iam e às vezes não voltavam. Como se governavam lá não o sabia a velha, que fora sempre apenas senhora do seu mundo, enterrada desde a infância nos campos e nos montes, nas singelas coisas das pessoas simples. O filho da Aninhas foi dos tais: levaram-no de pé e trouxeram-no dentro de um caixão selado com chumbo. Uma mulher, ainda que velha e solteira, dói-se dos destinos funestos dos outros. Na solidão da cozinha podia soltar as lágrimas, ainda que lágrimas dolorosamente paridas no silêncio lágrimas e talvez estéreis. Sobre as bocas do fogão colocou as grelhas e sobre as grelhas as pequenas panelas enegrentadas. África é longe, a infância é longínqua, a morte é ainda mais distante, ainda mais intransponível. Pobre rapaz!
À hora habitual, a moça subiu o lanço de escadas e deu a fala acostumada.
– A bênção, madrinha!
– Oh, filha, Deus te abençoe!
– Venho da casa da Soledade. Venho parva…
– O que foi?
– Não sabe o que aconteceu ao Sê Pereira e à Aninhas?
– Já soube, filha. Já soube…
– Chegou um aerograma da Guiné, do Torcato.
– Já sei, filha. Já sei…
A velha regressou ao bolso do avental. Limpou o canto dos olhos com o mesmo pedaço de tecido esquálido onde se assoou a seguir. Seria um daqueles gestos mecânicos que repetimos sem pensar. Depois serviu-se de uma bacia com as batatas e a cenoura que descascou com uma tristeza doente. Que espinho para uma família receber um aerograma do Ultramar um mês depois de fazer o funeral ao filho que o enviou!
– Acho que foi para uma gritaria ontem à noite. Coitados…
A velha soergue o rosto sem dizer nada.
– O Torcato mandava dizer que estava bem, que graças a Deus já pouco faltava para acabar a comissão… que neste Natal já cá estaria para casar com a Rosalina e começar a construir a casa…
Lá atrás, num dia de nevoeiro, uma mulher bastante jovem vê-se engolida pelo desespero. Uma outra, mais adulta, sopra sobre um pedaço de pedra, onde o serrim teima em não arder. «Tudo se há de arranjar, tem calma rapariga.» O fumo circula como uma cortina ofensiva, dá volta às paredes mascarradas de uma cozinha onde o mais belo fruto da vida está guardado, envolto num cobertorzinho macio. «Tem calma, rapariga. Tudo se há de arranjar. Essa criança terá um pai e uma mãe e tu terás uma vida pela frente.» «Como será isso?» «Confia em mim. Se vais para a França, deixa-a a comigo. Tudo se há de arranjar.» «Vossemecê o que fará com o menino? Cria-o por mim?» «Não te aflijas. Nosso Senhor pensa em tudo, ele há de ter pai, mãe e casa.»
– Ai, madrinha. Uma pessoa fica maluca. A Aninhas queria tanto que o marido livrasse o Torcato da tropa… Dinheiro não lhes falta, nunca faltou.
– Sabe Deus o quanto ele tentou.
– Olhe que não é o que se diz por aí…
– O povo o que sabe? O povo fala com peçonha, que é para isso que o povo serve.
– Oh, madrinha. Se ele quisesse… O moço ainda agora estava vivo!
– Cala-te, rapariga! Não sabes da missa a metade… O Pereira bem quis untar os beiços a muita gente, mas os do governo não deixaram…
A noite demorava. A velha retirava de outra bacia as folhas carnudas da troncha para as inspecionar. As palavras, via-se bem, saíam-lhe penosas, amaras, pesadas. O nariz, via-se bem, pingava. Os olhos, via-se bem, pareciam pedrinhas em brasa. Uma devastação nova caía ali, como um pesadelo renascido. Talvez dissesse à rapariga para meter um punhado de caruma e uma pinha na lareira e umas achas e um toro. Não se lembrava de uma tarde de julho assim tão fria.
Dentro da sua cozinha, apenas alumiada pelas duas bocas do fogão rudimentar, sentia-se fulminada por uma estranha traição. Vinham-lhe sempre à cabeça o aerograma, as esperanças do rapaz, as malditas quelíceras da guerra, os homens do governo que arrancavam filhos às famílias para os lançar na imensa África dos caixões numerados e chumbados. A velha, via-se bem, secava a amargura. Era preciso, em todo o caso, suportar a vontade de Nosso Senhor, fazer o caldo, sobreviver.
O suplemento cultural do El País noticiava na semana passada, e a propósito da entrevista com Hernán Diego Caballero – o mais caro, o mais culto, o mais singular cangalheiro de Madrid – uma série de factos bizarros, a que chamaram nas caixas laterais da peça «Cosas Increíbiles».
Recordemo-las:
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A nadadora
Paloma Martínez*, ex-atleta olímpica, nadadora, divorciada cinco vezes, exigiu em testamento que a depositassem no caixão completamente nua, devendo o esquife ser de madeira de cedro azul e conter dois palmos bem medidos de areia proveniente de Alicante, sua terra natal.
Exigiu, igualmente, que a não maquilhassem, mas que, antes de ser encaminhada para o crematório, lhe desenhassem «ao de leve» um sorriso no rosto, «delicado, mas trocista». Não dispensou o velório, mas quaisquer tipos de cerimónias religiosas foram liminarmente excluídos, por sua vontade.
Varrida a areia da urna – não constante, diga-se, do circuito cinerário de todos os fins –, o funcionário de serviço leu, eram nove menos um quarto, sobre o tampo do féretro a lacónica inscrição: «Em suma, fui uma tola!»
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O podologista
Gervasio Muñoz, podologista, viúvo de noventa e muitos anos, pretende ser sepultado com as fotografias do casamento, ocorrido em junho de 1946. Explicação: a mulher, Concepción Aguilara, possuía os pés mais bonitos que viu em toda a sua vida e nunca eles lhe pareceram tão belos como no dia da boda, calçando uns modestos peep-toe feitos de uma imitação de pele de cobra e emprestados pela sua irmã mais velha.
Na campa de Gervasio todos os recipientes deverão apresentar a forma deste membro inferior e todos deverão – pelo período de vinte anos – ser enchidos uma vez por semana com orquídeas brasileiras, as prediletas da sua defunta.
Deixa testamentada a soma de oitenta e cinco mil euros para este efeito.
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O engenheiro
Daniel Guarnido, engenheiro de telecomunicações, lunático, declara ser pedido expresso de sua mãe, Leonor del Prado, festejar a partida como festejaria um novo casamento ou o centésimo aniversário. Todos os interessados em participar no programa exequial devem rever o repertório dos ABBA. Com efeito, o sistema sonoro da capela mortuária prepara-se para repetir o Chiquitita, o Mamma Mia, ou o Voulez-Vous.
Momento culminante – garantiu-o Caballero ao El País, sob palavra de honra – acontecerá quando os músicos tocarem um arranjo musical, especialmente concebido para a ocasião, do Take A Chance On Me e toda a assistência responder em coro, e comovida, eufórica, incapaz de resistir – e muito fácil de adivinhar – se entregar a um pezinho de dança.
Nota: o engenheiro quer filmar o evento e oferecer a todos os amigos e convivas a possibilidade de o recordar, contando que acedam a uma plataforma de streaming. Caso é para que reflitamos neste sábio pensamento de um autor anónimo: «Nunca nada será tão estranho que o não possa ser mais ainda.»
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O traficante
Na mesma linha de pensamento – sem que, contudo, tenha ocorrido a Hernán Diego Caballero a evidente falta de originalidade temática – Pablo Iñigo desejou que o seu derradeiro avistamento neste mundo fosse assinalado com a presença de um DJ, colunas de potência máxima e dançarinas repletas de sensualidade. Aos convidados – «Convidados, pois claro», enfatizou o cangalheiro, «e do melhor pano social» – a eles foi servida uma mistura de uísque, bebidas energéticas e o remanescente do produto que na etapa final da sua curta vida Iñigo comerciou «entre os nossos filhos, nos melhores bairros da nação».
Não importa que o barulho, as moças delirantes, as drogas, o álcool, o grotesco ataúde enfeitado com fitas néon coloridas, os gritos orgásmicos saídos de todos lhe hajam parecido um fornízio bíblico.
«Na nossa empresa o lema é Em tudo agradar ao cliente, como se não houvesse amanhã».
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O eletricista
Por último, o caso de Jose Luis Ibarzabal, eletricista. Mostrou-se irredutível no modo de aparecer diante do Criador. Em lugar de um terço, quis as mãos unidas a uma lâmpada vulgar em forma de pera, das antigas. Também desejou que o não vestissem com fato e gravata, mas com o macacão azul-sulfato. Não quis sapatos, mas as botas de trabalho e o cinto das ferramentas. «Se Deus fez a luz e a luz se fundiu, vou em boa altura».
Foi de rir.
Ao forro acetinado da tumba decretou que cosêssemos as placas retrorrefletoras com os sinais de perigo e de aviso a que se acostumou. O mais bizarro de todos – obra do seu engenho e sentido de humor – uma caveira iluminada com o brilho de uma explosão e o seguinte dizer: Cuidado com os mortos. Eles cagam-se!
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* N. A. Todos os nomes próprios foram devidamente reintegrados no nosso texto, pese “a inoportunidade e deslealdade” (sic) de o termos feito, como muitíssimo bem o lavrou no seu protesto (a nós dirigido em sobrescrito de janela e com monograma dourado) Hernán Diego Caballero, acionista principal da empresa TE INMORTALIZAMOS, a quem pedimos (e às famílias dos visados) as mais sinceras desculpas.
No Golfo de Bótnia, a meio caminho entre a Suécia e a Finlândia, fica o arquipélago de Åland. Mika, um carpinteiro naval, trabalha em Iniö com o seu irmão Thure. Presentemente, ocupa-se com a construção de um drácar viking, mas o seu pensamento desce muitas vezes a um sonho que se repete noite após noite.
Vê-se a velejar pelo espelho tranquilo das águas na costa continental, com as pequenas casas vermelhas de madeira a espreitá-lo desde os prados. É já muito velho. A família reúne-se para o ver partir. Ele entra numa cápsula futurista, espécie de grão de ervilha todo em vidro, e o estranho objeto sobe então em direção ao espaço a grande velocidade. Viaja entre planetas e asteroides, vê o movimento de aproximação e afastamento dos grandes corpos celestes, das luas, dos anéis de gelo. Não precisa de alimentar-se, nem de satisfazer quaisquer outras necessidades fisiológicas. Não precisa sequer de respirar.
Penetrou no campo da eternidade. Assim como está, assim se manterá para sempre. Distancia-se cada vez mais da Terra e daqueles que vieram despedir-se. A morte é um caminho infinito para o além e o além é o afastar-se cada vez mais daqueles que ama ainda e de que sente já saudades insuportáveis.
Desperta todas as madrugadas com lágrimas nos olhos. Noora, felizmente, dorme. Não seria fácil explicar-lhe este enredo onírico e, sobretudo, a repetição do pesadelo.
«E se a morte for exatamente aquilo, a solidão total no tempo e no espaço!»
Quando regressa à oficina, já o dia despontou. Trabalhar a madeira com a enxó e com a plaina costuma ser revigorante – esta novíssima embarcação é uma encomenda especialmente cara e desafiadora. Mais ainda quando decide velejar entre as ilhas e ilhotas vizinhas até Mariehamm, sentindo o fustigar do vento frio e o movimento do sol na água que tudo reverbera e ilumina.
Mas a sombra do pesadelo reapodera-se de si à medida que a noite cai. Chega a ter medo de adormecer.
As salas de espera nos hospitais são lugares incríveis, desconfortáveis, ruidosos, atarracados, repletos de pessoas numeradas, numerificadas, anónimas, cheias de velhice precoce ou consumada, com compressas e ligaduras, deitadas em macas ou presas a cadeiras de rodas, babando-se ou resmungando, ansiando pela chamada do intercomunicador, pedindo outra vez para ir à casa de banho, manejando o telemóvel horroroso (que não para de tocar e toca altíssimo), berrando pela filha que saiu do campo de vista ou contra a mãe que fez chichi pelas pernas abaixo e obriga agora à intervenção de uma funcionária de bata azul e muitíssimo mau-humor.
Chega-se muito antes da hora marcada para a consulta, procura-se uma cadeira plástica livre, limpa, menos retorcida se possível, senta-se nela a angústia toda, devagar, muito devagar se possível, para que a paciência esgote aos bochechos e não de uma vez só, o diabo leve para longe uma crise de pânico, e então, sim, tem-se uma visão claríssima da nossa condição.
O cavalheiro que não deixou de me perseguir com o olhar desde que cheguei é, literalmente falando, um velho conhecido. Cruzámo-nos num corredor da Imagiologia em junho, na Imunohemoterapia em julho, num WC em agosto. Podia dizer que o mundo é pequeno, mas a expressão parece-me duplamente redundante, porque o mundo é mesmo pequeno, para mais dentro de um hospital, e o mundo dos doentes é menor do que o mundo pequeno das outras pessoas, é um mundo asfixiante, uma casca de noz!
Na fila da frente, há uma mulher de lenço na cabeça. É um lenço bonito, elegante, feito de um rosa macio, nacarado, de onde brota uma esperança que me comove. Podia ser verde, ou azul, ou violeta, ou salmão. A mulher tem um rosto fino, não sei dizer se jovem ainda ou já não, mas belo, muito belo, atraente. Gosto de me distrair descrevendo-lhe os lábios, as pestanas, o rubor que pinta as suas faces e contrasta com os olhos amadurecidas pela surpresa.
Quase sempre trago um livro ou o iPad. Às vezes rabisco um apontamento e faço de conta que não pertenço às estatísticas, que sou um intruso, que não venho ouvir notícias duras, que os ponteiros funcionam de maneira diferente para mim. Chego a esquecer-me das dores nas costas, e da espécie de enxaqueca que se vai costurando na minha cabeça, e da fome, e da sede, do maldito cigarro que alguém decidiu fumar além, ali mesmo, para lá da curta porta que os sensores mantêm sempre aberta e sempre a fechar-se.
Durante a espera há tempo para tudo.
Às vezes atrevo-me a olhar para as pessoas de frente. Explico-me, a observá-las sem piedade, com ousadia, fundo, perscrutando-as até aos ossos. Deve ser uma prática criminosa, porque às duas por três me arrependo, me sinto vexado, me encho de remorsos e de culpa. Sinto-me então ainda mais cansado e mais triste. É como se outra pessoa tivesse ocupado o lugar que deixei vazio e essa pessoa fosse eu a olhar-me ao espelho sem me reconhecer.
Será que na sala há outros monstros como eu? Em que pensará toda esta gente? O que sentirá? Que medo a fará pregar-se ao chão e não agir com ímpetos de motim?
Regresso então ao ancião conhecido, que me segue sempre com um misto de carinho e de espanto («O que trará um rapaz tão novo a este lugar tão tenebroso?», «É o que eu digo, elas vêm cada vez mais cedo!», «Se calhar, é um cancro.», «Sei de miúdos cada vez mais novos a morrer assim…»). Percebo que me quer o nome, a idade, a confirmação da maleita. Adivinho-lhe os pensamentos, apetece explicar que não sou assim tão novo, que não tenho (segundo o apurado até à data) um mal tão grande, que isto se vai resolver, que há na vida complicações inesperadas. Percebo que talvez gostasse de me falar da sua própria enfermidade, dos filhos, dos netos, especialmente, quem sabe, daquela que é enfermeira em Londres e o orgulho da família («Sabe você que tenho uma netinha, pouco mais nova será que o senhor: foi trabalhar há coisa de um ano, ano e meio, para Inglaterra. É uma miúda do dianho. Foi sem medo, ganha muito bem!»).
Mas nunca trocámos uma palavra.
Porque me divido agora com a senhora do lenço na cabeça. Tão bonita, tão triste, tão saturada da vinda a este e a outros banquetes semelhantes, tão só («Descobri há meses um nódulo no peito e foi o começo», «Já uma irmã minha morreu por causa do cancro da mama», «O que custou mais foi a quimioterapia. Nessa altura, fiquei com a boquinha toda em ferida.», «Agora, se Deus quiser, isto vai passar…»). Não descortino um modo de iniciar com ela uma conversa. Nem valerá a pena. Não suporto tamanha tristeza. Não saberia contar-lhe algo engraçado, tragicómico, apropriado à situação («Olhe, estou aqui sem saber bem como. Foi como um macaco ter caído de um galho. Descobri tudo por acaso…», «A vida prega-nos rasteiras inacreditáveis. Fui a uma consulta, supondo que me raspava em cinco minutos, e fiquei internado onze dias…»). As desgraças cansam, maceram, desgraçam-nos.
Nunca faço nada de relevante. Não consigo concentrar-me.
Sinto que aqui cheira a medo. Na verdade, a diferentes tipos de medo: a medo de que a espera se prolongue interminavelmente; a medo de más notícias; a medo de que a filha subitamente desaparecida não volte para a nossa beira e um bando de estranhos nos capturem e encaminhem para qualquer lado incógnito, incompreensível, irreversível, infernal; a medo de que a nossa mãe demente volte a protagonizar um escândalo na sala (onde já se viu, fazer chichi pelas pernas abaixo?) e de que a funcionária terrível, carrancudíssima, nos passe uma descompostura monumental; a medo de que na sanita faltem o papel e a higiene e de que, nesse preciso instante (em que intestinos e bexiga atingem o limite), soe o nosso nome e a indicação do consultório no altifalante. A medo decerto de sermos afinal tão frágeis como acreditamos que somos; de que se repita uma epistaxe, de que se solte um flato, de que em desespero de causa se diga um palavrão. A medo da velhice. De ficarmos nessa ou naquela maca com algália e saco repleto de urina de lado; a medo de que as palavras sejam a partir de certa altura apenas chocalhos mentais, átomos a bater contras as paredes da cabeça, ideias confusas, morte.
Normalmente, tudo termina quando nos levantamos e nos dirigimos para certa porta. Depois, alguém de bata branca, voz mansa e olhos risonhos apazigua todos os pavores. Não sei como se passará com o velhote que me espia, nem com a senhora de lenço na cabeça que eu espiei. Julgo que é só uma forma de ver as coisas, ou também isso será uma feição do medo: medo de não se saber nada, de não se ter certeza sequer de que à nossa volta outras pessoas existam.
Foi por esta altura que nos conhecemos. O frio de novembro estampando-se em todas as janelas, eu desempregado, tu no lar de idosos. Aquela frase soou. Certeira e inesquecível como uma reprimenda.
‒ A ruína é sempre mais feia do que bonita, não lhe parece?
Eu desempregado, tu segurando uma bengala, de pé, com olhos trocistas. Em volta um armazém de corpos tremelicantes e babosos, corpos esquecidos retomando às vezes numa grita desenfreada o caminho das dores e da frustração.
‒ Que lhe parece esta velharia toda?
Eu desempregado, ajudando uma senhora a erguer-se, outra a sentar-se. Eu sem voz, aquecendo as mãos desamparadas de um avô a quem o Alzheimer veio furtar os últimos farrapos de lucidez. Eu acabrunhado, aturdido, com a alma pesando-me na alma, como um cacho de melancolia. Eu atrozmente perseguido pelo inverno de uma ponta à outra ponta das paredes. Eu desejoso de me tornar numa centopeia e de poder esgueirar-me por uma fresta. Eu desempregado, em fuga. E tu quieto, vertical como uma âncora suspensa. Em proa. Agudo como um discurso da consciência.
‒ Já viu bem a miséria que nos espera?
Foi por esta altura que nos conhecemos. Que cruzámos palavras. Que estreitámos a distância. Que aprendemos o preço da amizade. Essa que nos obriga a mentir e a falar verdade e a mentir como só na verdade se mente.
‒ Nem tudo na velhice é forçosamente mau, não acha?
Tu muito sereno. Tu muito contido. Tu muito senhor das palavras que, ditas no momento exato, ficam gravadas para sempre. Tu com um sorriso enigmático, quase de mofa, quase de simpatia, quase feliz, quase pungente.
‒ O senhor parece tão bem disposto!
E as velhotas guinchando, chorando, batendo palmas num estertor de loucura. E os velhos, com os coturnos calçados, com o fio de baba, com a lágrima ao canto do olho, enquanto as funcionárias, sempre com voz estridente, sempre fingindo euforia, vinham meter-lhes a sopa na boca, rapar os iogurtes, acomodar-lhes os travesseiros.
‒ Tem aqui tantos amigos!
E tu sem resposta. Tu mordendo o lábio, cheio de intenção. As sobrancelhas franzindo, aconchegando um pensamento satírico, com vontade de me mandar à merda. Tu incapaz de acreditar na piedade voluntariosa. Tu sereno e belo como um mestre grego. Aproximando-te. Mastigando a verdade. Pondo-me a mão no ombro.
‒ Um dia saberá distinguir tão bem a vida da morte, que lhe parecerá insuportável o tempo perdido…
‒ Como assim?
‒ Lá chegará! Lá chegará…
E eu desempregado, à procura de um norte. E tu desprotegido, à espera do fim. Um de cada lado, agarrados à mesma visão, como as duas serpentes entrelaçadas de um caduceu.
‒ Vejo que é bom rapaz. Pena é não ser lá muito esperto…
Foi, sem dúvida, por esta altura. O frio de novembro estampando-se em todas as janelas, embaciando-as, fechando-as numa estranha obscuridade de cinzas e pó. Eu asfixiando, ajudando uma senhora a erguer-se, outra a sentar-se. Tu aos ziguezagues, atravessando um corredor, saindo para o quarto.
‒ Ou talvez seja mais esperto do que parece… E me julgue tolo!
Foi por esta altura que nos conhecemos. O frio de novembro cobrindo os ossos. As horas caindo na penumbra depressa de mais. A noite caminhando como uma sombra gigante sobre os olhos. Foi assim que nos tornámos íntimos. Cheios de retórica. Irmanados pelo mesmo parágrafo de tristeza e de amor. E nunca pude responder-te. Nem agora que morreste e te levam baloiçando, fechado num enigma de mogno, com a cruz ao cimo, feia e sinistra, brilhando, prometendo a eternidade…
‒ Não é feliz aqui?
Eu desempregado. Tu calado, voltando-me uma última vez o rosto, com aquela última frase na ponta da língua, como a despedir, como a dizer, como a perguntar.