O INSULTO

Emmanuel Kauffmann_typewriter
Fotografia de Emmanuel Kauffmann

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O rapaz gostava de coisas antigas. Todo ele, digamo-lo, caía para o antiquado. A começar pelo pullover sem mangas, de um tom amarelo pastel. Não havia uma única mulher no escritório que o não achasse piroso.

Depois havia aquela coisa entre o nariz e o lábio superior, aquela pelagem a parecer-se com um bigode, ou um buço, e que o tornava mais feio e antipático. E as raras palavras que dirigia aos colegas não ajudavam:

– Pode, por obséquio, arremessar esse agrafador na minha direção?

Era realmente muito desagradável. Ser-se interpelado de um modo cortês, à antiga, dificilmente pode aceitar-se num espaço onde crápulas e devassas se prestam todos os dias a uma feroz demonstração de animalidade.

Ponhamo-nos de acordo: o escritório é um lugar errado para se pedir o que quer que seja por favor. Ainda menos com palavras que ninguém entende.

O rapaz possuía outro grande defeito. Chamava-se Valdemiro. Valdemiro Perestrelo. Não convém hoje que se seja chamado de Valdemiro e Perestrelo. Não perguntemos porquê.

Outra disformidade merece ser assinalada. Embora fosse calmo, o rapaz escrevia demasiado depressa. Matraqueava o teclado do computador com força, com vigor, com fanatismo, num estilo que importunava toda a gente.

O chefe de departamento alertou-o em várias ocasiões para os perigos de uma escrita rápida:

– Fixe o que lhe vou dizer, Perestrelo: não me escreva coisas como “Recebemos com agrado o seu pedido” apagando uma letra na palavra pedido, entendeu? Nem que “Vamos verificar a sua conta” com uma letra a menos na palavra conta. Tem ido malta para o olho de rua por causa deste tipo de equívocos…

Mas o rapaz não se enganava. Possuía treino e devoção, outro grande mal nos dias que correm.

Habitava um apartamento modesto cheia de objetos obsoletos. Dedicava-se a traduzir Shakespeare. Fazia-o de um modo bastante simples: primeiro espreitava o texto original, depois repetia-o sotto voce, a seguir martelava na máquina de escrever a sua versão. Não usava dicionário.

A máquina de que se servia – uma pesadíssima Remington, modelo 12 de 1930 – nas noites mais criativas do rapaz prensava o papel num delírio que não deixava ninguém dormir no prédio.

O treino de Valdemiro vinha daqui.

Datilografava sem necessidade de conferir as teclas redondas. Fazia-o depressa e bem. Limitava-se a corrigir de quando em quando a posição dos oculinhos redondos. No fundo, alimentava o seu modo de vida, que nos parece tão bom como qualquer outro.

Foi, por isso, um espanto ouvir-lhe na manhã do dia de anteontem o insulto.

O chefe de que falámos atrás, impacientou-se com qualquer coisa. Incomodou toda a gente no escritório e toda a gente no escritório descarregou no rapaz, de tendência calado e sorumbático.

O insulto é uma prova corriqueira da nossa fraqueza. Ou das nossas fraquezas.

Esquecemos – e não será desprezível mencioná-lo – que a máquina de escrever de Valdemiro Perestrelo era gaga. Gaguejava nos P e nos A. Por vezes, quando o seu dedo tradutor apertava contra as respetivas teclas, havia um soluço e saíam dois caracteres juntos, ambos mal desenhados. Isso, admitamos, aborrece. Isso estragava, se não a boa disposição, o ótimo papel munken de que o rapaz se servia.

Porque lembramos isto? Porque a nossa cabeça se enreda amiúde em aborrecimentos de que nos não livramos facilmente.

De maneira que o colega mais chegado lhe disse algo como isto:

– Ó pancrácio, tem lá cuidado ou ainda rebentas a mesa!

De maneira que Valdemiro se interrompeu uns vinte segundos e, tomado por uma ira mansa, respondeu a direito e sem rodeios:

– Peço-lhe encarecidamente, Rui Maciel, que vá à berdamerda…

Um insulto, ainda que proferido por alguém desacostumado de os proferir, é sempre motivo de coletiva indignação. Assinalemos aqui o despropósito: não se manda ninguém à berdamerda, menos ainda quando se traduz Shakespeare.

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À MANEIRA ANTIGA

Ingrid Nilsson
Fotografia de Ingrid Nilsson

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Volto à maneira antiga. Limpo a máquina de escrever, atiro-lho o peso para cima da mesa, trago papel, uma resma dele, escolho um dicionário (nunca se sabe), vou ao frigorífico à cata de uma Super Bock. Acabo por regressar com uma lata de Coca-Cola. Depois introduzo uma folha, enrolo-a, acerto os cantos no carreto e começo.

«Ultimamente sinto-me nostálgico. Rebusco nas gavetas objetos de uso passado. Por exemplo, uma caneta de aparo em prata. Por exemplo, um isqueiro dos tempos da universidade. Por exemplo, um rosário dos dias de quando sabia rezar. Por exemplo, um moleskine com os restos de bilhete de avião e uma fotografia de Ingrid. Sinto-me nostálgico, como se sente às vezes o coração mais acelerado, ou o sono mais invencível depois do jantar. As gavetas guardam coisas estranhas. Por exemplo, chaves a que esqueci as concomitantes portas. Por exemplo, números de telefone que deixaram de ter nome. Por exemplo, relógios que há muito calaram os ponteiros. Por exemplo, pequenos cartões prometendo o amor feroz das amantes do Burlador de Sevilla

O velho tear tipográfico sacode a mesa, prensando cada letra de cada palavra com o amor de uma cansada ponderação. O vagar do processo é a sua beleza mais sublime. Sofre-se com o percutir das teclas, com o tilintar da campainha no final de cada linha, com o ruído seco do manípulo à esquerda empurrado para cada linha seguinte. Escrever assim é um jogo desamparado, como o trapezista que se liberta da rede e arrisca competir consigo mesmo.

«Sempre fui um nostálgico. Já a nostalgia tomava conta de mim quando nasci. A vida é nostálgica. Toda a criação é um ato de saudade das origens. De resto, gosto de brincar com as datas, de relacionar acontecimentos que aparentemente nada possuem em comum. Nasci no dia em que Elvis deu o último concerto da sua carreira, em Los Angeles. Nunca gostei das canções de Elvis, até conhecer-te em 16 de agosto, em latitudes inusuais. Tu, uma fã de Elvis, na data em que passavam precisamente 35 anos da morte do velho ídolo americano.

Elvis nasceu a 8 de janeiro de 1935. Gosto de brincar com as datas. Nunca gostei das canções de Elvis. Mas para ti cantei You’re always on my mind».

Não posso estimar a quantidade de textos escritos aqui. A fita bicolor conserva ainda o cheiro húmido, sóbrio, dessa tinta que outrora, nos tempos do Liceu, fizeram nascer sonetos e odes e os primeiros escritos em prosa. Escrevia muito já então. Fiz bem não deixar rasto dessa literatura. O tempo, com exceção para Jean-Nicolas Arthur, não tolera os rasgos de inspiração juvenil. Nem de qualquer outro tipo de inspiração não inspirada. Podemos passar toda uma existência ao lado dessa imensa felicidade. Ou podemos, como no caso de Rimbaud, encontrá-la antes dos vinte anos!

«You’re always on my mind é uma canção que conhecia aos Pet Shop Boys. Sou da década do pop, perdoarás. Cantei-a para ti num desses bares de karaoque, que povoam a Kungsgatan. Ultimamente tenho-a cantado mais vezes. Ando nostálgico. Sou um nostálgico, perdoarás. Tu replicaste The Wonder of you. Será possível que me haja entretanto apaixonado por essa canção? A nostalgia é uma relação complicada com a matéria que nos gera os sonhos e nos conduz a visão. Será possível que nos tivéssemos realmente apaixonado?»

Esta máquina de escrever esteve parada muitos anos. Guardada no escritório, dentro de um armário, dentro de uma caixa. Os anos deveriam tê-la estragado. Observo com comiseração a tecla com o símbolo §. Pressionava-a no final dos meus escritos de dezasseis anos, a separar as entradas de um diário. Com ela construía uma divisória a vermelho, cuja memória fotográfica me faz lembrar também as aulas de Práticas Administrativas e a bela professora ruiva do 8º ano. Chama-se Ludovina. Porquê Ludovina perguntava-me…

«Será possível que ainda nos possamos realmente apaixonar? Digo, neste tempo de falsas imagens e armadilhas? Será possível que, ao cabo de tantos anos de escrita e devaneios, tenha possivelmente encontrado em ti uma alma concêntrica?»

Mas os anos, que tudo corroem, preservam miraculosamente fragmentos fundamentais da nossa existência. Abro a janela para libertar o fumo do cigarro. Ultimamente tenho fumado. Pouco, mas regularmente. O cigarro ajuda-me a situar o horizonte. Tenho lido Hemingway e Malraux. A culpa é deles! Tem-me apetecido novamente ter nascido noutro tempo, algures num país inteligente. Sou um nostálgico. Abro e fecho gavetas, deito ao caixote do lixo cartões e porta-chaves, despeço-me dos adereços do fracasso…

«Tu escreves poesia, também. Escreve-la numa magnífica Corona, herdada, explicaste, da tua avó Ebba; que também escrevia, explicaste, que conviveu com Artur Lundkvist e a mulher, Maria Wine.»

Sou um nostálgico. Um nostálgico progressista, talvez. Ou progredido! Depois de tantos anos, não pude resistir ao apelo da saudade. Tenho-me aqui, preso ao teclado humilde, dividido entre uma lata de gasosa e a música de Elvis, entre a saudade das viagens que não vivi nas verdes colinas de África e as viagens que talvez não repita nos brancos cumes da Suécia.

«E tu escreves poesia, também. Porque te recusas a ser igual a todos os que deixaram de acreditar na humanidade, explicaste. Escreve-la porque és herdeira da tua avó que foi uma mãe para ti, porque a poesia é um vínculo com o além, explicaste».

Volto ao passado. Volto ao cru martelar das palavras, escrevendo-as para talvez as destruir, talvez para me deslumbrar com a vaga semelhança entre mim e os mestres. Não me importo. Não me desilude a certeza do fim. Vivi o suficiente, vivo o bastante em cada cigarro que subtraio e acrescento à noite. As palavras saem limpas, gravadas num vaivém delirante de hastes metálicas e sons anacrónicos. Tudo perfeitamente saído de um filme, ou da memória.

«Será possível ainda o amor, Ingrid? O amor que é o contrário da morte, segundo a etimologia e os mais versados entendidos da latinidade? Digo, neste tempo de armadilhas e falsas esperanças? Será?»

A máquina sacode a mesa. Fá-la trepidar madrugada fora como um tear tipográfico, como um coração pulsando mecanicamente, como um adolescente feliz da sua própria estrada sideral, ordenando e desordenando as frases, à maneira antiga. Escrevo.

«Volto à maneira antiga. Limpo a máquina de escrever, atiro-lho o peso para cima da mesa, trago papel, uma resma dele, escolho um dicionário (nunca se sabe), vou ao frigorífico à cata de uma Super Bock. Acabo por regressar com uma lata de Coca-Cola. Depois introduzo uma folha, enrolo-a, acerto os cantos no carreto e começo.»