Andrew Dwight discursava sempre na primeira pessoa do plural, no modo majestático dos professores universitários e académicos. Na abertura da mostra antológica alusiva aos últimos anos da sua pintura, ia contando pequenas narrativas da cada tela exposta.
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Entrávamos no sonho como se entra num filme de Antonioni, debaixo de um manto intenso de nevoeiro. Aos poucos já conseguíamos distinguir a forma dos nossos sapatos, o caminho para o jardim, o sulco dos nossos pés sobre a terra. Então, o nevoeiro miraculosamente desaparecia e em vez dele víamos a relva, árvores de pequeno porte (oliveiras, cameleiras, bonsais, bordos japoneses com a sua cor avermelhada). Era um horto, um terreno cuidado que nos levava a um casebre de madeira, cujas vidraças pareciam atentas ao que os nossos olhos iam querer espreitar. Dentro, um casal fazia amor. Ele segurava-a, ela entregava-se. Havia nos gestos de ambos não brutalidade, mas desejo de perfeição, arte, conhecimento mútuo. O sonho levava-nos ali e logo depois abria-nos a porta. Escutávamos mais perto, quase rosto com rosto, o ardor sexual, escutávamo-lo aturdidos e fascinados, como quando se escuta pela primeira vez o som vindo de um lugar desconhecido. Havia quase choro, quase demência, quase júbilo, quase orgulho no suceder de movimentos, na antecipação de prazer e dor. Mas o sonho expulsava-nos agora dali, com receio de que (intrusos) pudéssemos interromper a veemência do instante. O sol principiava a rasgar por entre as trevas, a transbordar das nuvens, rebrilhava nos mesmos vidros que antes atiçavam a nossa curiosidade e nesse momento nos rechaçavam. O orvalho escorria do cálamo das roseiras, resvalava na corola das delicadas flores que se abriam e acendiam por toda a parte. Quem eram eles? Porque nos conduzia ao seu encontro a nossa cabeça perturbada? Como explicar a beleza surpreendente do curto filme que acabáramos de fixar? Quando voltaríamos a sonhá-lo e até quando o sonharíamos? No derradeiro pedaço de tempo, o jardim via-se de cima, como alcançado pelo olho visionário de uma ave. Era, sem dúvida, uma espécie de Éden, uma variante do paraíso primitivo.
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Andrew Dwight terminou a sua explicação com uma frase enigmática: cada um dos nossos quadros é uma mentira negociada com a verdade. Depois prosseguiu, acompanhado por um batalhão de jornalistas, críticos e admiradores. Havia tantas narrativas por partilhar ainda. A noite mal havia principiado.
Durante a noite sonhou outra vez com pessoas do seu passado. Primeiro com ex-colegas do trabalho, de quem se despedira havia anos. Depois com rostos antigos (que via agora, uma ou duas vezes por anos, em círculos ovais nas lápides musgosas do cemitério da aldeia), rostos que readquiriam a sua graciosidade e lhe faziam perguntas, rostos que tinham sido importantes e que ela quase por completo esquecera.
Acordou imersa numa impressão de tristeza infinita. Esforçou-se por recordar pormenores dos sonhos sucessivos que tivera, escavando dentro de si como se escava um sítio arqueológico. Vinham-lhe um ou outro detalhes, mas escapava-lhe a narrativa onírica, fugia-lhe a lógica das imagens e dos sons (até dos cheiros) que sabia terem-lhe passado pela cabeça. Sentia-se mole, prostrada, com uma nota de amargor na boca. Acontecia-lhe cada vez mais amiúde. Rosana reagia de modo imprevisível. Tomava um duche de água fria, ligava o aparelho de música, entregava-se ao sol com uma chávena de café nas mãos, saía para a rua com vontade de implicar com quantos transeuntes se cruzasse, lia a Bíblia, colocava os óculos escuros e tampões nos ouvidos e seguia para o trabalho no maior mutismo.
Viver sobre sonhos, tê-los guardados dentro de si, no âmago imperscrutável da sua própria alma, sonhos destes, sem compreender bem porquê devastadores, sabendo que regressariam, que a dominariam, que a humilhariam, era igual a transportar barris de petróleo, era uma bomba-relógio. Rosana odiava sonhar, odiava nada poder fazer contra estes fantasmas que se acovilhavam na sua própria casa, que a assaltavam sem autorização e, pior ainda, com o seu próprio e vil consentimento.
Ocorreu-lhe, então, quase por acaso, de modo ténue, vaporoso, que num dos sonhos da última noite vira a avó a chorar. Era muito pequena, segurava ainda uma fralda de flanela, percebia nos lábios o sabor de uma chupeta rançosa. Estava na varanda da casa velha de granito, protegida por um gradeamento simples (duas barras de ferro carcomido). Sozinha, de pé, espreitava o quintal e o quinteiro em baixo. A avó no campo, de enxada em punho, erguia torvelinhos de pó.
Rosana consegui paulatinamente desvendar o nevoeiro ao redor deste estranho cenário. A avó, dobrada sobre a terra, extraía batatas. A lâmina da enxada cortava um pouco adiante de cada tufo de folhas. Depois alavancava o torrão cortado, puxava-o para si e do emaranhado de raízes e terra sacudia os preciosos tubérculos pálidos e avermelhados que nessa manhã quente (provavelmente de julho) a prendia àquela parcela. A avó tinha uma cinta apertada, um pano escarlate segurando-lhe o ventre. Bem via a sua gravidez.
Rosana surpreendeu-se com esta descoberta. Começava a duvidar que tivesse realmente sonhado com a velha avó grávida. No trajeto diário para o local do seu emprego, ou no regresso a casa, costumava rememorar partes da sua infância. Não era raro fixar-se em lugares perdidos, como um sótão onde brincara, uma cave, um quarto onde partículas de pó bailavam sob o efeito oblíquo da luz, uma mina, um caminho entre giestais e matos floridos, a sala de aulas da escola primária, o confessionário e o púlpito da igreja românica, a corte dos animais. Também lhe acorriam feições apagadas, risos, presilhas em volta de certos olhos, mulheres de lenço preto na cabeça, timbres de voz. Era como um imenso bastidor de teatro, um armazém de máscaras e de tipos humanos. Mas perturbava-a muitíssimo que esse legado misturasse factos, que a confundisse, que lhe trouxesse memórias de uma maneira avulsa e revolta. Como podia ele ter sonhado com a avó grávida? E porque chorava a avó?
Lentamente desceu a si mesma. Deixou que o esquecimento retornasse com o seu véu apaziguador. Era preciso estar viva e pronta para o seu dia de trabalho.
Haveria de sonhar dias depois com a mesma mulher, erguendo e baixado a enxada, guardando no seu ventre o fruto bendito de que Rosana não podia lembrar-se. Enquanto isso retirava da terra seca batatas grandes como punhos. Não saberia dizer se o rosto era o da avó, se o da sua mãe, se era o seu próprio rosto. Sentia nas mãos, ao mesmo tempo, o peso do cabo de madeira e o peso da fralda puída, pressentia no fundo do útero o aperto e a dor de um ser que era ela mesma e era outra pessoa. Nesse sonho alguém lhe dizia nas costas (de modo sonoro, mas ininteligível) «És bem como a tua avó, que Deus a tenha!». Não sabia porque chorava, mas sentia sempre vontade de chorar, porque era uma menina só, numa varanda mal protegida, porque era velha sozinha, dobrada no campo a trabalhar.
No ano de 1317 morreram nos curtos dias do mês do fevereiro o abade de Saint-Michel e três dos seus frades. Sujeita ao luto, ao rigor das chuvas intermináveis do inverno, à fome prolongada, ao medo de alguma incontrolável fulminação divina, o mosteiro manteve-se numa penumbra obstinada até fins de março. Fecharam o scriptorium e a sala do capítulo e os monges permaneciam quase todo o tempo em oração, encerrados nas suas celas, meditando na calamidade imensa que se abatera sobre o mundo sem poupar os próprios servos do Senhor.
Mas uma manhã o sino, empurrado por uma brisa amena que juntava a respiração do mar e os perfumes das flores, das ervas e da terra seca, começou a tocar sozinho. Os frades saíram para o claustro e para os jardins, atravessaram os pátios iluminados pelo clarão das magnólias, voltaram a olhar para a luz benévola onde o canto dos pássaros parecia sussurrar a própria voz do Criador. Tinha passado a Quaresma, era o domingo da Ressurreição. Nunca até aí os meandrosos caminhos da Providência lhes haviam parecido tão bem explicados.
Abriram os pesados portões e as leves janelas de vitrais em forma de treliça. Deixaram que o ar morno se passeasse pelos corredores, lavasse as escadarias empoeiradas, erguesse um pouco as folhas de pergaminho coloridas, subisse aos altares e ao zimbório.
Nada existia na vida terrena como o sinal do perdão de Deus. E por isso todos choravam.
Na véspera do dia 2 de fevereiro do ano de 1309, a cidade de Bolonha engalanou-se para a Festa das Candelárias. Por toda a parte, não só nas igrejas, erguiam-se círios e velas em honra de Nossa Senhora da Piedade. Círios e velas malcheirosos, feitos de unto de porco, pelos quais se pagava o equivalente a uma de vinte partes de um gibão. Era domingo, haveria a procissão de atravessar solenemente a Piazza Maggiore, mesmo debaixo do nariz do Conde Roberto.
Mas os estudantes universitários estavam descontentes.
Depois de sucessivas queixas ao reitor, a quem chamavam «O grande sovina», acusando-o de cobrar exorbitâncias pelos estudos (pela collecta) e de não encher as lareiras da universidade, além de ser conivente com os arrendatários do burgo, também eles escandalosamente apostados em extorquir os pobres rapazes vindos de fora, alojando-os aos magotes em pequenas divisões frias e escuras, decidiram protestar.
Logo que ecoou o sino de São Petrónio, entraram em quantas igrejas puderam, pondo a arder todas as preciosas e caríssimas velas de cera que nelas encontravam. Era um desperdício de luz, um exagero. Pecado extraordinário esse de alumiar o interior cavernoso onde a fé buscava muitas vezes sem esperança o sol divino.
Não pensava assim um dos sacristães da igreja de Santa Filomena.
Furioso, pôs-se a apagar o espalhafato das pequenas labaredas no altar-mor. Mas logo outras, dezenas, centenas, se acendiam nas laterais. Vinha soprar também sobre elas, mas imediatamente outras deflagravam na sacristia, na abside, no interior dos confessionários. Desembainhou o punhal, feriu um dos estudantes, logo foi cercado, manietado, socado. Houve gritos, vieram em seu socorro outros acólitos. Ninguém sabe em que parte do templo o grande incêndio principiou.
Nessa manhã, antes mesmo de o sol nascer, uma imensa cruz de fogo ergueu-se aos céus, consumindo retábulos, tecidos, relíquias, afugentando pelas portas de San Vitale e de San Donato os criminosos aterrorizados, atraindo pelas mesmas portas mesteirais, camponeses, forasteiros estupefactos.
Repicaram os sinos da desgraça.
Era uma ironia atroz: a igreja da patrona das trevas transformada num braseiro, a cidade engalanada para a festa das luzes caindo num assombro incontido, como se em vez de amanhecer, ali anoitecesse.
Aquele lugar tinha sido magiar, romano, bizantino, otomano, húngaro, soviético. Agora era de que tivesse muitos euros e bom gosto. Sobre os velhos hotéis foram levantados novos e luxuosos empreendimentos turísticos, rivalizando em número de quartos, prestação de serviços e anúncios em línguas estrangeiras. À entrada da cidade, uma placa dizia «Üdvöljük Tihanyban», querendo dizer «Bem-vindo a Tihany». Na verdade, deveria antes explicar «Desfrute o Lago Balaton». Pela sua arquitetura e decoração vintage, destacava-se na vertente sul o Hotel Olympus. Aí, em qualquer varanda e com alguma sorte pode estar-se no paraíso.
A vista é, indubitavelmente, soberba. Sobranceiros ao curso de água avistam-se belos palacetes ao gosto da Renascença, perfilando-se compridos ciprestes e pátios com colunas de mármore, aonde sobe volta e meia a elite para uma boda, um pôr do sol ou para uma sessão fotográfica nos meses de verão. No inverno as montanhas ao redor do Balaton cobrem-se de nevoeiro e depois de neve e todo aquele lugar é uma pintura romântica, para onde convergem artistas, filósofos, magnatas, predadores de toda a espécie e de todas as vocações. São especialmente assíduos os cineastas e fotógrafos americanos, sequiosos de génio, antiguidade e mulheres europeias.
Em dezembro de 98, o californiano Mike Juno alojou-se no Olympus no momento em que fazia uma tour com uma assistente argumentista para preparar a rodagem do filme de ação com que tencionava alcançar recordes de bilheteira no final do ano seguinte. Aí conheceu, também por circunstâncias profissionais, a fotógrafa franco-canadiana Danielle Ducrot. Conviveram duas manhãs, duas tardes e uma noite. Os hóspedes vizinhos do quarto 507 denunciaram sucessivamente nessas noite e madrugada o ruído escandaloso que dali chegava. O jovem na receção tentou sem sucesso fazer alguma coisa, convencido de que o problema se resolveria sozinho. E resolveu. Porém demoradamente.
Após isso, a fotógrafa regressou a Budapeste, de onde seguiria para Nice e de lá para Vancouver. O americano ficava mais uns dias. Deixou-se cair, entretanto, numa melancolia extática, a que jamais havia cedido em toda a sua existência de quase meio século.
Prova do que dizemos foi a caminhada que decidiu fazer até a um miradouro lá no alto da peninsulazinha. Fê-la sozinho, levando consigo uma mochila e a sua Leica vetusta de celuloide. Era uma manhã solar, silenciosa, sem excitações de espécie alguma. Danielle partira e da anterior lascívia restava apenas uma memória contaminada. Em Los Angeles esperavam por si uma mulher jovem e um filho pequeno. Havia semanas que a sua viagem de volta ia sendo protelada. Ocorreu-lhe a semelhança com Ulisses. Por um breve momento, coincidiram dentro de si o orgulho, a vergonha, o medo e o desejo de catarse. Era simultaneamente um homem velho e um homem novo, um bandido e um contrito. Aquilo nunca lhe havia acontecido. Sentia uma propensão quase irresistível para as lágrimas. Apeteceu-lhe abandonar o mau filme em que se via aprisionado e começar ab radice uma película nova, complexa, abstrata, a que chamaria «A velha casa».
Mas foi somente um instante, uma iluminação, uma turvação, provavelmente por culpa daquele sol, daquele espelho de água, daquela maldição que ata os europeus a labirintos sinistros.
Cada vez que regressava, a jovem punha-se a murmurar uma indecifrável ladainha ao rio. Era uma coisa antiga, um esconjuro que aprendera em criança com velhos da sua terra. Se alguém dava conta desta crença, ela punha-se a divagar sobre os mistérios que correm debaixo das águas enevoadas e que de manhã cedo se erguem como almas em farrapos ao céu.
Em todo o caso, as orações em língua estrangeira pouco nos importam. Apenas na nossa fala compreendemos a angústia e o sentido das ameaças ou das alegrias que deslizam sorrateiramente das florestas aos rios e destes ao mar. Na boca dos outros que mal-entendemos tudo nos parece distante e frio, como garatujos que os antepassados escreveram nas pedras.
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Esperava amar e ser amado. Porém, ela deixou-o e no lugar do amor ficou o ressentimento.
Deu-se conta, no início, de que o irritavam os risinhos dos jovens casais na rua, o estalar dos beijos entre sucções bruscas (por causa da pastilha elástica), o efeito moroso de certas interjeições demasiado teatrais.
Depois tornaram-se-lhe abomináveis os operários da construção civil, rebarbando eternamente pontas metálicas. E os táxis buzinando a toda a hora e em toda a parte. E as sereias das ambulâncias. E os apitos dos elevadores e dos micro-ondas. Com o tempo, o seu ódio estendeu-se aos latidos dos cães à noite, ao miar imaginado do persa que ela levou depois do divórcio, à algazarra das crianças no recreio ou no parque defronte o seu apartamentozinho. Não tolerava os estalidos de madeira, o zumbir do frigorífico, o súbito aumento de decibéis no intervalo dos programas televisivos, o timbre metálico de certas vozes que o chamavam, interpelavam, interrogavam.
A misofonia e crescente misantropia eram nomes, uma explicação. Nada mais.
Nos sonhos, a cena do crime e o cadáver profanado, desfeito, transportado com empenho e ardil até ao alto do paredão e trinta e três vezes lançado à albufeira em trinta e três meticulosos e sinistros sacos herméticos, todo esse empenho vinha à boca e ele falava. Os pesadelos dobravam-no, enlouqueciam-no. Eram como terramotos que retorcem e amesquinham o aço.
Esse o seu castigo.
Ninguém suporta que lhe digam, especialmente nos sonhos, que até a vida indigna de um assassino o é por alguma razão. Que até para ela há um sentido, uma cura, um perdão.
Ao sol está agora uma roupa tão branca que parece, sob a força do primeiro, uma cascata de lâmpadas acesas. O jovem padre olha-a enternecido. Gosta de contemplar a castidade onde quer que ela se encontre.
Na sua terra natal, a esta hora cheirará ao preparo das cozinhas, a alho e a azeite, a refogados e a estrugidos. Em breve rescenderá a peixe frito. No lugar onde costumava beber o seu café matinal, três esquinas adiante da velha Sé de pedra basáltica, ver-se-á o recorte da costa no Atlântico, a sombra azul das ilhas desertas, e há de misturar-se no corpo atento de quem ali um instante repousar o lume roxo dos jacarandás, a aragem das casuarinas e araucárias, o travo vestigial e amargo do café, o paladar doce do papel velho, o ruído manso dos transeuntes na Baixa e pela marina.
Mas vive agora na grande cidade. Aqui são o rio e o Cristo gigante de braços abertos que dominam a sua atenção. E essa luz forte que chega a doer. E esse rumor indecifrável de um milhão de coisas simultâneas e em conflito entre si.
O padre bem se esforça por anotar ideias, juntar frases, trazer de volta o seu dom. Depois do serviço religioso, vem até esta parte. Caminha largos minutos a pé, em absoluto silêncio, procurando absorver a paisagem. Visita os jardins, vê os telhados, escuta os barcos no meio do azul. Os novos paroquianos saúdam-no. Ele acena-lhes. A brisa de junho é macia, impregnada no aroma das tílias.
Morar aqui não é assim tão diferente de viver lá.
E, no entanto, a poesia ainda não regressou. A sua alma verdadeiramente virá quando ela vier, somente quando ela chegar. Entristece-o saber que assim é e que assim será. É uma espécie de pecado mortal que não pode sequer confessar.
A rapariguinha estugou o passo. Não demoraria a chuva. Era uma tarde estranha, uma rua comprida, uma gente de rosto frio. De quando em quando, sempre que a acometia ao de leve uma suspeita, uma voz mais alta, uma ameaça, acariciava o ventre: bendito o fruto que ali devagar, desapressada, maravilhosamente, crescia.
A rapariguinha levava as golas do sobretudo erguidas, a bolsa a tiracolo, o coração aos pulos. Queria chegar a casa, descalçar os sapatos, abrigar-se no seu canto, sentir o aconchego das paredes e do silêncio, ser tocada pelo pulsar dos objetos conhecidos. Havia muito de umbilical ali: uma promessa de conforto, uma sensação de perenidade e de paz, uma resistência contra tudo e contra todos. Era dentro dela que gostava de pensar, de sonhar o futuro, de acalentar o rebento por nascer.
A rapariguinha à noite, quando ninguém a poderia escutar, dizia ao gato e ao sofá e às lâmpadas acesas, dizia como quem gostasse de ser ouvido «Este meu filho triunfará», «A este menino não faltarão o amor ou que comer», «Ninguém fará mal a esta criança, que eu não deixo».
A rapariguinha estremecia ao murmurar estas palavras. E era toda ela uma coragem, toda ela uma certeza, toda ela o encarnar de uma força desconhecida. E não chovia. E ninguém se atravessava entre si o tempo. E nenhum perigo se aproximava sequer do filho acalentado. E ela era tão franzina. E a criança tão pequena..
Teodorico, o Rei tinha-o mandado chamar e ele foi. Três dias de jornada até perto da capital, até à praia onde o esperava um ror de gente. O desgrenhado eremita entrou no areal, trajando farrapos, segurando um longo cajado, sem um esgar de ansiedade, medo ou hesitação. À medida que avançava para o baldaquino ou tenda real abria-se à sua frente uma clareira de espaço e de silêncio. Por fim, João deteve-se diante do monarca.
Teodorico levantou-se impressionado e deu um pequeno passo na sua direção, mas o monge barbudo recuou um passo maior ainda. Depois, em modo de compasso, o monge escreveu com o cajado um círculo na areia. Ninguém poderia nele entrar, sob pena de extrema maldição e vergonha para a posteridade. O bispo enojou-se do cheiro e do aspeto dos seus andrajos, os nobres arregalaram os olhos, o povo sussurrou.
Teodorico sentou-se e disse:
– Bom homem, agradeço que tenhas vindo. Há muito que te procuro. Os meus batedores trouxeram a boa notícia de que vinhas. Sei da tua santidade, conto com ela para que me ilumines o pensamento!
Os guardas trouxeram então, atados e sujos, sem sinal da anterior opulência e de magnificência, o deposto Almostancir e seis dos seus filhos, califa e senhores das ricas províncias do sul, terras ímpias e infiéis, em cujos palácios se cultivava agora o hábito de lançar seguidores da religião de Cristo a covis de leões e de víboras.
Teodorico não sabia que destino dar a tais prisioneiros. Confundia-o o amor devido ao próximo e o ódio merecido a estes distantíssimos inimigos da fé. Dar-lhes a morte atentava contra os preceitos, deixá-los vivos contra a vitória dos seus exércitos e a segurança do seu império.
– Este homem, rei nascido e agora execrado, matou impiedosamente, com ódio absoluto, incontáveis dos nossos irmãos. Quis a mão de Deus que se fizesse justiça. Tu, o mais desapegado dos filhos de Deus, que escolheste as montanhas para refúgio de todos os perigos do mundo, dirás o que fazer com ele e com os seus descendentes!
O monge ouviu estas e todas as palavras de Teodorico.
– Escutei as palavras do nosso bispo (o bispo afetou uma vénia ao ser apontado pelo rei), escutei as palavras dos meus generais (os chefes militares endireitaram mais o tronco), escutei os homens mais sensatos de entre os mesteirais e camponeses (os representantes do povo ergueram orgulhosamente o rosto), mas em boa verdade o digo: Deus por ti falará!
Viviam-se tempos agónicos, apocalípticos. Nunca como então, no virar do milénio, se desejara com tal veemência o ouro, em lado nenhum como ali se desprezava tanto o sagrado exercício de Paulo de Tebas, Antão ou Macário, santos anacoretas. Era preciso que as Escriturasvoltassem a ser lidas, era preciso que as palavras de Jesus voltassem a soar, nesse terrível século de lutas, limpas e desembestadas, como soaram outrora nas praias da Judeia.
O eremita olhou o rei nos olhos, profundamente, demoradamente, afetivamente. Depois sentou-se no meio do círculo, fechou os olhos, cruzou as pernas, colocou sobre elas o bordão e permaneceu imóvel, ausente, sem uma palavra, durante muito tempo. Teodorico, inquieto, escutava os cochichos crescentes dos conselheiros, o murmurar da multidão, o abespinhar das ondas, o grito selvagem das gaivotas.
Por fim, cansado, impaciente, cheio de tédio, perguntou.
– Então?
O asceta abriu os olhos de novo, levantou-se, fitou o céu e, brandindo o cajado, declarou:
– Porque me perguntas, Teodorico, o que tu próprio sabes já?
O corpo dos prisioneiros pendia, exausto, macerado, sem esperança. Teodorico, o Rei voltou a inquirir.
– Como podes tu saber o que eu sei?
– Foste ungido. A tua semente nasceu da semente d’Aquele que entre nós viveu um dia, as palavras d’Ele habitam as tuas palavras, o que Ele disse tu o dirás… Não perguntes mais!
Depois, perfurando pelo meio da multidão, pelo mesmo caminho por onde veio, o eremita partiu, infundindo nela o mesmo temor de antes. Afastavam-se os homens à passagem, juntavam as mulheres curiosas cabeças nas suas costas. Em breve desaparecia, sumindo-se na floresta que havia de o levar aos lugares trogloditas onde gastava os seus dias.
O monge dissera nada e tudo dissera. As suas palavras eram a afirmação de uma ideia, mas podiam sê-lo também da ideia contrária. Teodorico, perplexo, quis saber o que pensavam os outros da enigmática resposta do monge João.
Era um doido, declarou o anelado bispo: a resposta dele era um opróbrio, uma estultice, uma marca do demónio. O que o eremita quis dizer era óbvio, defenderam os generais, olho por olho, dente por dente: aqueles cães moiros mereciam ser atirados a um poço e deixados apodrecer à fome e ao frio! Isso não, corrigiram os homens do povo, devia era negociar-se a sua vida, exigir-se os resgates devidos a um rei e a príncipes: se o nosso dinheiro é útil, o do inimigo é-o duas vezes mais, para curar as feridas da guerra!
Teodorico levantou-se. Todos se ajoelharam.
Era mister que olhasse para o fundo, para dentro, para onde não podia mais enganar-se. Ele sabia, sim. O monge acertara. O paradoxo é inerente à condição de mandar.
Beijou a cruz que trazia no peito e ergueu-a para que os infiéis conhecessem o novo poder. Depois, brandindo a espada fê-la descer sobre as odiosas cordas que sujeitavam os cativos. Libertou-os, sem saber porque o fazia ou com que riscos. Ordenou que os montassem nos cavalos saqueados.
E eles foram, pelo mesmo caminho do eremita, a caminho da floresta. Ninguém sabia em direção a que deserto.