O JARDIM AMARELO

Ulrike Eisenmann
Fotografia de Ulrike Eisenmann

.

É um terreno de cinco hectares e meio, com socalcos e linhas imperfeitas, onde, consoante a época do ano, amarelam áleas de mimosas e gingko bilobas, renques de bordos e sibipirunas, canteiros de dálias e de hibiscos, talhões de calêndulas e de astromélias, vasos com lantanas e zínias, bacias de plástico e bidões com lírios e orquídeas, onde medram em latas e vasilhas amolgadas gerberas e jacintos, monturos de cravos-de-tunes e girassóis, mas também (a esmo, como numa charneca) toda a espécie de matos, com as suas pétalas garridas, giestas e solidago, funcho e bocas-de-leão e muitas outras plantas e flores, inumeráveis arbustos e árvores cor de gema, ou de açafrão, ou de fogo, cuja bênção maior é a dissimular semana atrás de semana, mês após mês, ao longo do ano, o velho edifício da cadeia.

Vêm aqui muitos visitantes espreitar o bosquedo. Admiram-no para lá de camadas sucessivas de rede e arame farpado, interrompidas aqui e além por pequenas torres de vigia e canos de metralhadora.

A quem aqui vem um velhote desocupado conta sempre a mesma história.

– Do jardim trata um assassino. Acontece que o tipo uma vez matou a mulher, que era muito bonita e muito jovem ainda, convencido de que ela o traía. Tudo maluqueira da cabeça dele. Foi condenado a prisão perpétua e aqui vive desde há muito, sentenciado à sombra mais escura, ao ódio mais frio, à tristeza mais silenciosa.

O cicerone é dado a palavras elegantes.

– Esse imenso terreno tem sido revolvido a enxada e a picareta. Olhem, é o seu trabalho de Hércules. O tipo odeia a cor. Porque o amarelo, como todos sabemos é a bandeira dos loucos.

Os visitantes ficam impressionados com a obsessão do criminoso.

– Este fogo espalhado por toda a parte que veem não é, como seríamos levados a pensar um modo de o assassino se iluminar, aquecer ou de se exprimir.

Quem escuta estas palavras vizinhas da poesia não pode deixar de franzir o sobrolho.

– Pelo contrário, todo este chão de labaredas é o seu inferno. Acreditem: sem piedade ou arrependimento, é aí que o desgraçado perpetuamente se vai imolando.