Vilhelm Hammershøi

Vilhelm Hammershøi, Partículas de poeira a dançar sob os raios de sol, 1900

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Uma das secretas alegrias ao nosso dispor – aprendi-o apenas na última etapa da minha vida – é a serena beleza da luz nas manhãs em que o sol, sem pressa, sem violência, sem fulgor demasiado, cai no vidro das janelas e o interior da casa se vê, de repente, alcançado por uma espécie de graça indizível em que claridade e sombra acordam paredes, móveis, espaços vazios, papéis caídos no esquecimento, retratos, pequenos sons que concitam uma paz sem palavras, ordenada, casta e limpa.

Sentimos, como nos quadros de Vilhelm Hammershøi, o habitar do silêncio: o branco diáfano das portadas, os caixilhos de madeira, as salas iluminadas pela obliquatura dos fotões, a firme mas dócil presença do infinito exige de nós o melhor de que somos capazes. Sentimo-nos rente a um corpo despido que nos toca devagar e devagar nos despe, obrigando-nos a conhecer palmo a palmo a natureza daquilo que existe ao redor. De alguma forma, como nas paisagens tranquilas de Vilhelm Hammershøi, a luz é um poema prestes a nascer.

Ora, neste tempo de rancorosas traições à verdade, de deserções à justiça, de raivosos ataques à ética, esta pequena paz matinal é um vestígio do Paraíso. Dito de outro modo, é o que nos permite suportar o peso quase insuportável do mundo distorcido e venenoso, pondo-nos a comunicar com algum quinhão intocado da alma, como se dela emanasse ainda o poder e a força que permitem os estremecimentos da pele, ou o simples verde das ervas que cheiram mais alto, das árvores que farfalham mais vivas, do pão e do café que nos aguardam numa mesa impecavelmente branca e inocente. Diria que é uma sorte termos tudo isso, ainda tudo isso – repito – ao nosso dispor.

01.03.2025

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Em casa também se debate literatura

Fotografia de Rafaele Corte

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– Não!

Joachim Meyer disse não como quem decapita o ar com uma espada.

– Não! Existe uma enorme diferença entre ambos!

E pôs-se a atingir com os olhos o canteiro das belas begónias que viriam depois desta neve tardia, a qual fazia pesar os torcidos de ferro fundido que suportavam o vidro da estufa.

– Sempre gostei da escrita de Michael – ripostou Christine. É um homem superelegante e fala bem.

– É uma avelã chocha…

– Oh, Joachim!

– Christine, lês mesmo um tipo que repete metáforas românticas vomitadas há três séculos desde Wordsworth e que não sabe quem foi Wordsworth? Um tipo que cola hífenes para disfarçar a pobreza de vocabulário? Que lê os seus poemas como um gato com um cio, mas incapaz de dar-se conta das redundâncias e da verborreia e de um mau verso «o inverno transforma as paisagens», ou do fedor dos próprios dentes?

– És cruel, Joachim!

O inverno na Baviera não transforma a paisagem, apenas a cutila bastante e a apaga num azedume por vezes alcoólico. Apaga-lhe o tom alaranjado das longas florestas que sobem com o Isar até ao Danúbio e afugenta das bocas o sorriso que teriam outrora os autores das litografias. Aqui o branco não se distingue do branco. Meyer vê o focinho de uma raposa e pensa nas suas begónias sepultados no nada, escuta o crocitar das gralhas e pensa em Schumann, discute com a mulher e sente uma vontade irresistível de beber. O mundo monocromático e gélido é uma merda.

– Existe uma enorme diferença de talento entre Michael e Johann. Uma enorme diferença.

– A tua obstinação. Bolas…

– Johann escreve devagar e bem, com luz, mas sem fogos de artifício, medindo as palavras e colocando-as em ogivas delicadas como um pedreiro nas catedrais.

– Juro, não entendo a tua raiva a Michael…

– É um balofo. Escreve muito e mal, aparelha ideias ocas e anda sempre atrás do aplauso.

Christine olhou a neve. O gentil precipitar dos seus flocos recordava-lhe alguma coisa antiga, repleta de graça e de amor, talvez o incipit de um desses admiráveis contos de Jacob e Wilhelm Grimm.

A literatura é um destino terrível, imbricado de bifurcações, onde facilmente dois companheiros de jornada se perdem. Há sempre o caminho da direita e o da esquerda e nunca se pode saber com um mínimo de certeza o que nos espera do outro lado das boscagens.

O inverno na Baviera não transforma a paisagem. Somente as almas, que lhe perscrutam o branco e às vezes divisam palavras, outras vezes passamanes feios a fingir que o são.

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Duas visões

Fotografia de Luciano Caturegli

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Não resta muito a um homem senão falar das cisas. No desespero, as palavras são tiras de pano embebidas em água fresca sobre uma testa a arder em febre.

Noam Halliday desabafou com um amigo sobre a sua intenção de morrer cedo. Possuía o grande horror de envelhecer sozinho, de ficar como um pássaro desvalido, preso ao seu próprio corpo e através de longos anos de definhamento físico, sem que mãos e olhos bondosos fossem capazes de o ajudar e – mais ainda – de tornar a sua existência suportável até ao fim.

– Não serei um monte de estrume a enojar todos os que forem obrigados a limpar-me o cu e a porem-me morfina nas veias. Não serei um estorvo, Tom.

Justamente Tom Fleetwood era de opinião de que se vivesse a toda a brida, com o pé no acelerador, sem olhar jamais para trás ou para os lados, apenas em frente, entusiasticamente.

A sua experiência de ex-piloto da força aérea tornara-o blindado aos efeitos mesquinhos da visão colateral, porque – mobilis in mobile – o nosso alvo se obtém nas vertigens, em voo picado, em piruetas doidivanas com a adrenalina no máximo.

– Vive um dia de cada vez enão penses tanto, Noam! Se perdes um segundo a pesar, estás feito. És um monte de sucata ardida antes de te tornares, como dizes, um monte de estrume. Não te deixes dominar, homem. Liberta-te!

Mas Noam pensava. A vida não se lhe parecia nada com uma experiência de voo. Nem sequer com uma corrida de cavalos. A vida é uma coisa de caracóis, um fio de baba segregado devagar, como se não déssemos por si e, de súbito, zás, um pé em cima, esborrachando-nos até ficarmos uma nódoa no chão.

Julgamos interessante este diálogo. Não decidimos, porém, o nosso apoio a qualquer uma das duas partes na porfia, ou – se preferirem – em colóquio amigo, em divagar alegórico, em contaminar singelo de horizontes e opiniões.

Os fascistas

Fotografia de Michelle Raponi

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Os velhos fascistas, amargados como tubérculos na terra, reuniam-se à noite na taberna de Albertino. Não havia grandes palavras entre eles. Os fascistas, velhos ou novos, são incapazes de grandes palavras, só das necessárias.

Com o vinho as palavras, mesmo poucas e depauperadas, passam a pesar significativamente, mais ainda na boca de velhos agarrados ao palato sabujo de antigas palavras de ordem.

– Tudo a bem da nação! – atirava de chofre um dos irmãos Oliveira, o de cara amareliça, cor de ovo recozido.

– Tudo a bem da nação! – replicavam os outros fascistas, erguidos num ímpeto do seu sono aranhento e tubercular.

As cartas corriam das mãos ao pinho, do pinho às mãos. Albertino, com a sua gravata verde e o seu alfinete de ouro em forma de esfera armilar, servia a mesa do Henriquinho e a do Laurindo, servia a malga do António e a caneca do Severo, servia os Oliveira, os Guimarães, os Alves, os Costa, o Fiolhais da Farmácia, às vezes o Padre Aníbal. A taberna era espaçosa, a noite uma grande saudade, as paredes uma coleção de retratos: a do Professor Salazar, a do Presidente Tomaz, a do Cardeal Cerejeira, a de garotos lendo o Thesouro da Mocidade Portugueza, a da malta da Legião esticando o braço e, agora, mais recente, a do comentador de futebol.

Todos os fascistas veneravam o tinto nacional, o bacalhau frito, o respeitinho pela pátria. Não havia um único pássaro na taberna do Albertino.

– Os pássaros são para estar nas gaiolas! – dizia o Albertino.

– Os pássaros são para estar presos nas gaiolas! – respondiam os demais fascistas.

Tanta liberdade e tanta alegria para uma só e mesma criatura parece-nos, de facto, um afoitamento desmedido, um manifesto, um perigo.

– A bem da nação…

– A bem da nação! – redarguia, com os bigodes a pingar de carrascão e olho vermelho, o Eduardinho, o menino da Dona Quitéria, o mais novo deles todos, apenas vinte e cinco anos, velho que metia dó.

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Utopia

Fotografia de Al Elmes

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Rafael Hitlodeu apanhava o metro das seis horas. Era o primeiro estágio da sua jornada diária. Quando caía num dos bancos laterais e se agarrava à estrutura metálica, sentia os olhos a arder. A luz artificial arruinava nele o velho prazer de viajar cedo e de se encontrar com o mar e com as árvores da floresta no exato instante em que o sol eclodia finalmente do seu sono.

O antigo marinheiro saía invariavelmente na mesma estação, no extremo sul da cidade. A mochila pesava-lhe cada vez mais, tal como lhe pesavam cada vez mais as pernas e a ginástica do pensamento. Mas a imagem do oceano tomado além pelo tom de fogo do céu, o fosforejar da espuma no sopé da falésia, o avistamento dos navios ao largo, carregados de silêncio, faziam valer o sacrifício.

À medida que os seus passos o aproximavam da floresta e do arfar pelágico, sob a forte impregnação dos pinheiros e da salsugem, a sua memória inchava e parecia deleitar-se com a constatação de que – como um ser vivo – se reintegrava no movimento das minúsculas esferas, das formas, dos astros, abandonando a pele ferida e morta e recobrindo-se de factos novos, de um frio renovado, de uma face de novo pura e pulsante.

Além era a ilha. Hitlodeu amava o luminoso contorno da enseada, o verde dos seus prados, do alto granito branco das suas torres sineiras. Ali era Utopia. E ele, à distância de uma légua marítima, avistava o palácio do monarca, o endireitamento das ruas, a beleza das pequenas casas construídas pelos habitantes mais dóceis, mais civilizados, mais justos que conhecera nos quinhentos e cinquenta anos da sua existência na terra.

Quanto mais perto parecia tocar-lhes, mais longínquos se afiguravam os azimutes e os costumes e as gentes insulares. Podia embarcar num ferry e ir. Mas o medo era muito. O pavor de uma deceção já não seria suportável. Na sua memória, sempre rejuvenescida, aquela ilha era o deslumbramento que o mantinha vivo.

O mundo envelhecera demais, demasiado depressa, despudoradamente. Novas ostentações de poder tinham tomado o lugar deixado pelas antigas ostentações. Guerras atrozes haviam incinerado a paz das bibliotecas e quebrado o busto dos pensadores. O otimismo e a dignidade humanos defendidos por Cristo, Confúcio, Rumi, Buda, Pico della Mirandola, Erasmo ou Thomas Moro foram-se tornando o otimismo voraz e a indignidade vil, horripilante, execrável da vozearia das repúblicas, dos senhores do dinheiro, da retórica fácil dos paladinos da filosofia hodierna.

«Quantas vezes nos deixamos enganar pelo fascínio dos sonhos incompreensíveis». Hitlodeu era um velho marinheiro português apaixonado pelo mundo. Utopia, mesmo à sua frente, seria porventura um tempo distinto num espaço diferente. Mas o velho viver dos homens jamais perdoará o que jamais aceitou e jamais aceitaria o que nunca compreendeu.
E quem nos garante que ele, Rafael Hitlodeu, reconhecesse ainda (se outra vez lhe abrissem de lá os grossos portões de ferro) o sonho formidável de uma ilha em forma de paraíso? Ou pelo menos de semente?

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O poder

Fotografia de Dario Veronesi

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Elegeram um espantalho para rei da província da Trácia. Todos os nobres depuseram o seu voto no fio da espada e no final da eleição ergueram-na, saudando o rei. Chamava-se Elónio.

O imperador apreciava reis-espantalhos a governar sobre a cabeça dos líderes tribais: é mais fácil domar povos entretidos com rebeliões internas do que refrear revoltas concertadas de nações sabedoras da sua força.

O espantalho, com a coroa entalada no crânio, agradeceu o sufrágio dos nobres e beijou a tabuinha de cera e o anel a remeter à púrpura a Roma.

No fio de cada lâmina estava escrito «Não durarás».

Um inverno se passou. As legiões do Lácio encontraram a cabeça desprendida de Elónio nos idos de março. Tinham-lha tirado aqueles que logo depois ficaram sem ela, a oscilar lá no alto, levemente, na pua das suas cimitarras. Incluindo a do novo monarca-espantalho, cuja autoridade Tibério não reconhecia.

O poder, haveria de escrevê-lo Suetónio, o historiador de Os Doze Césares, é um pequeno vento passageiro, é menos do que uma viração da primavera. É um peido pestilento: acontece e, zás, já se perdeu, balordo, entre as fragrâncias noturnas dos jardins do Palatino e do Capitólio.

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Campo dei Fiori

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Mercado de fruta
Fotografia de Slim Mars

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Campo dei Fiori é mais concorrida num determinado dia do que todas as praças de Roma juntas em qualquer parte do ano. Cabazes e cabazes de alperces turcos, mirtilos da Dalmácia, melancias e laranjas do sul da Ibéria, maçãs uzbeques, maboques do Botswana, ameixas azuis da Polónia ou múcuas de Madagáscar invadem os pequenos quadrados onde reina o mercado das flores e onde a estátua escura de Giordano Bruno acabrunha há muito as consciências.

– Um abutre reconhece sempre os outros abutres. Morram os abutres, cazzo!

Palavras praguejadas como estas de Filippo Constanza multiplicam-se. O chão tapizado de restos podres, escarros e insultos é o que se pode esperar de um lugar coabitado por competidores. Todos ganham, tudo se vende, no entanto, a rivalidade corre nas mãos.

Trinta e cinco euros por um quilo de rubicundas cerejas portuguesas é quanto Ignazio Monticcino acaba de embolsar. Ao dele, Federica Livorno seca as mãos ao avental, depois de ter tratado cirurgicamente das suas orquídeas-garça, eleitas por gosto unânime, como as mais belas e as mais caras que se podem transacionar em Itália: cinquenta euros a unidade.

– Um abutre é sempre um abutre. Morram os abutres, cazzo!

Filippo Constanza comercia limões calabreses. É ácido e luminoso como eles. Todas as más palavras respingadas da sua boca são ditas com um sorriso. O mesmo sorriso que esboça quando corta um dos limões em dois e o come tranquilamente em dentadas certas.

Os abutres, aliás todas as espécies de aves raras, todas as formas de carne, diga-se, são mercadoria expressamente proibida agora pelas autoridades em Campo dei Fiori. Isso fica para o Rionale di Monti, ou para o Mercato di San Cosimato.

Não compreendemos, portanto, a que abutres se refere Filippo Constanza.

Os colegas vendedores, que muitas vezes baixam os olhos quando o escutam, também não compreendem. Giordano Bruno lá do alto do pedestal talvez o saiba. Mas a ele não o ouvem, há bem mais de quatrocentos anos.

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Bach

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Fotografia Jon Tyson

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Verdadeiramente devo tê-lo escrito em todos os meus livros ao menos uma vez, nos inéditos também: a música de Johann Sebastian Bach, em particular as suítes que compôs para violoncelo, é o mais próximo que conheço de Deus.

Durante as longas esperas hospitalares (em particular quando acompanhava a minha mãe aos tratamentos oncológicos), nas horas de estudo e de pressão no escritório, caminhando junto ao mar, durante as horas infindas de leitura e de escrita, sobretudo nas viagens de automóvel para casa, devo-lhe o único prazer de estar vivo e de poder espreitar os portões daquilo a que sentidamente chamo paz.

E não é pouco. Porque essa paz, esse prazer de sedosa carícia, essa reconciliação do corpo cansado (tantas vezes exausto, doente, prestes a ceder) com a alma (tantas vezes esfarrapada, confusa, desavinda consigo mesmo, como Sá de Miranda verbalizou no poema mais conhecido de toda a sua obra literária), essa paz, esse prazer, essa reconciliação não têm preço. Interpretadas por Yo-Yo Ma (o meu violoncelista predileto), ou por Rostropovitch, por Mischa Maisky, ou até por Pablo Casales, estas seis composições merecem-me o meu eterno obrigado.

Como em tantas coisas mais, como seria o mundo melhor se lhe procurássemos as criações mais geniais. E as agradecêssemos!

28.12.2024

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Pausa

Héleboro, Helleborus, Natal, Christmas
Fotografia de Annie Spratt

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Por fim a pausa.

Reconhecemos uma pausa quando trocamos o café pela poesia grega, quando trocamos a poesia grega pelo jardim.

Herman de Coninck, poeta e jornalista belga de que cujo sentido de humor gosto bastante, escreveu que num texto maravilhoso, dedicado à mãe, que «poesia tem a ver com a duração» e que é preciso «deixar que as coisas ganhem bolor / deixar que as uvas se transformem em álcool». Dito de outro modo, é bom chegar ao final de um lancil, olhar para trás, compreender o tamanho da nossa jornada e ficar quieto.

Trocar o ruído da cafetaria pelo longo tropel dos cavalos e pelo estrugir das armas em Homero constitui um excelente exercício de quietude, mas exíguo se comparado com a luminosa perfeição das heléboros ou do azevinho nestes dias de Natal.

De repente, tudo em volta se parece excedentário e absurdo. Pausar é regressar à justa medida da nossa alma, deter o passo seguinte (o passo em falso) e compreender como Coninck, no já aludido poema, «Tu és o relógio: o tempo passa / mas tu ficas».

21.12.2024

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Arcaísmos

Denis Doukhan
Fotografia de Denis Doukhan

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Poucas coisas me entristecem mais do que a sensação de me estar a tornar velho, velho precoce, velho engolido por um tempo recente, apostado sem clemência em destruir pedaços do humanismo que considera arcaicos, como a pena, a compunção, a castidade, a cortesia leal, a busca paciente, a amizade desinteressada, os gestos sãos, o prazer do silêncio e as saudades, a inteligência intuitiva, os poemas difíceis, o bricabraque, os termos que a língua materna e ancestral fossilizou e a língua franca existe serem lançados fora, como um corpo defenestrado e aleivoso.

Dou por mim a beber café à pressa, a ler pouco, a conversar às escondidas, a apanhar um raio de sol numa nesga, a riscar na agenda afazeres que jamais vou conseguir concretizar, a sentir-me um estorvo no meu próprio corpo, entre os meus pares, contra toda a expetativa que eles e eu formulámos acerca de mim e deles. Porque essa velhice de que falo atinge os antigos e os novos, os idosos e os adolescentes, eu e os outros, todos que fugimos de ver a realidade.

Suponho que os arcaísmos são um reservatório imenso de amor, de vitalidade, de verdade, de autenticidade que precisamos de resgatar. Suponho que não seria mau reintroduzirmos obséquios e donaire no quotidiano, de assumirmos uma coragem e uma galhardia que os nossos avós nos deixaram e que hoje, por culpa da ditadura das modas, da globalização, do apanágio de toda imensa ramificação da cultura pop politicamente correta, e engajada, nos não deixam exibir. Como se escrever ou dizer merda, por exemplo, representasse um atentado inaceitável ao pudor e não gostar da hipocrisia woke nos fizesse merecer o mesmo destino das estátuas derrubadas dos ditadores.

Enquanto isso, podemos fingir que somos civilizados, equilibrados e moralmente íntegros. E aceitarmos que nos palmem a História, ou a reescrevam, e nos impinjam conceitos equívocos e nos apaguem a língua. Tudo em nome da paz e da harmonia universais. Como no jogo das cadeiras, aquele que se atrasar, perde o assento e é expulso!

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