Nada houve que tivesse valido a pena

Fotografia de Joakim Honkasalo

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Por uma razão ou por outra, ou por todas, há aqueles dias em que nos descobrimos miseráveis. Os ossos gemem, comprimem mais as linhas frontais da nuca, impedem-nos de respirar. O sangue enlameia-se na boca, galga as narinas, conspurca a cerâmica do lavatório. A cabeça e provavelmente a alma, com que se associa às escondidas, erram pelos dedos e provocam tremuras.

Antecipamos o parágrafo.

Trazem-nos comida a casa, digitam-nos uma mensagem, preocupam-se com os nossos olhos vazios. Algures, numa voluta indefinida do cérebro, o comércio da informação opera-se tão devagar quanto possível a um filho de Deus demasiado vivo, ou demasiado morto. As palavras entram e partem em grandes vagões sem mercadoria: não nos servem de nada, não atingem a profundidade, não nos respaldam contra o breu ao redor dos outros, não respiram o mesmo ácido que nos sobe e desce pela traqueia.

O que é isto?

Talvez fosse boa altura para engastar aqui uma frase inteligente. Sublinhei a lápis grosso milhares delas. Tenho-as anotadas, arrumadas, avulsas, postas no interior de livros e de cadernos de que me esqueci, ou em guardanapos, em papelitos irrisórios da publicidade religiosa, em bilhetes de cinema, nos recibos das finanças. Uma frase inteligente é sempre capaz de acelerar o raciocínio e de filtrar o absurdo do tempo numa firmeza tonta de génio. Uma frase de Borges. Uma frase de Kundera. Uma frase de Lobo Antunes. A miséria nutre-se conspicuamente destas certezas que a humanidade gosta de cinzelar.

Como te salvarás?

Dias e dias de solidão, soterrado nos compromissos balofos, a vasculhar na carne mole dos papéis difíceis, trazem-nos o grande mal. O grande mal é a tolerância, a mansidão de escravo, a paciência. Criador e criatura caem juntos na mesma água limpa e diluem-se até ao ponto de se não reconhecerem já, de se odiarem implacavelmente, de se mutilarem. Sobrevém a fúria súbita de Aquiles, a vontade destemperada de apagar todos e tudo, a ordem, a memória, o pedestal do amor, Deus, as galáxias. Um homem riposta com desmesura, odeia e exige. O homem exige que um grande mal vassoure a natureza medíocre das coisas. Futuro, presente e passado querem devorar-se como o dragão do Apocalipse voltado para a sua cauda espinhosa.

Um homem miserável sabe o que isto é.

Mas, então, sombriamente, come-se um pouco de chocolate. Amargo, 100% de cacau. Sai-se à varanda, aspira-se o rumor, bebe-se uma chávena de café, fuma-se um cigarro descoberto numa gaveta de baixo entre postais desbotados e cartas cheias de úlceras amarelas. Recita-se com pudor religioso versos de um poeta arcaico. Olha-se o nevoeiro e o triângulo formado pela luz dos postes elétricos. Existe na vertigem das ações prestes e excessivamente próximas dalgum fim um delírio de felicidade. Parece maravilhosa a potência dos impotentes, a dor física dos extraviados, a loucura dos metros que nos separam do asfalto.

Ponho o violoncelo de Yo-Yo Ma a tocar.

Um homem necessita de escrever. Para todo o sempre ou para a ninharia dos alfarrábios, um homem necessita sempre de um lápis e de um caderno sobre a mesa. Na sua doença mais vil, no lugar onde o orgulho se despenhou mais desastroso, precisa um homem de tudo o que acabou de dispensar: de Deus, do medo, das frases repletas de opacidade, do gato que se reergue do sono, do aconchego do candeeiro atrás da poltrona. Um homem precisa de comer, de dormir, de se perdoar, de fingir que não o ferem horrorosamente a lucidez, o vexame, a fome, a condição mendiga da carne e do osso, da carne e do espírito, da carne e da podridão.

E o que é a sua miséria?

Por uma razão ou por outra, por todas, decerto, há aquelas noites em que apertamos o botão e decidimos riscar de alto a baixo a folha da agenda. Nada houve que tivesse valido a pena. Nem o desengano.

Algo aconteceu

Fotografia de Fredrik Solli Wandem

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De repente dou-me conta da bestialidade dos homens num ponto em que a jamais sentira na minha existência de quase meio século. Profana-se o lugar-comum, o lugar dos outros, o lugar próprio. Cada pessoa é um inimigo latente, um ódio possível, uma briga, um insulto, uma forma de agressão física, um ato predatório. Dou-me conta do modo fácil como se fere alguém sem causa, sem motivo, sem preocupação pelo que é e significa cada gesto: um condutor abandona a viatura para erguer um braço violento contra o condutor imediatamente atrás de si; um garoto de dez anos profere uma barbaridade na sala de aula, ameaçando de morte um colega ou o professor; um doente morre numa maca de hospital, em frente ao médico que o devia tratar; um presidente calunia e divide os cidadãos do seu país, desprezando o juramento feito sobre a Bíblia; um povo outrora dizimado assassina em massa, justificando a força com a covarde e hipócrita justiça de que se diz herdeiro. De repente dou-me conta de que o sol limpo que corre sobre o parapeito da janela e sobre a mesa lisa do meu caderno é impuro e insuportável.

Busco Johann Sebastian Bach como um leproso busca a sua toca. Busco a infância, a memória dos bons amigos que tive, das caminhadas idílicas para a escola primária, do cheiro ancestral das ervas à beira dos regatos. Busco o rigor das cores, o sentido inequívoco das palavras, o cuidado das unhas, a verdade nos olhos. Havia naquela altura um sentido incomensurável de esperança. Aprendi a respeitar, a agradecer, a ser gentil, a cultivar o bom-humor, a valorizar os belos objetos raros que me ofereciam, a ler com delicado manuseamento os livros, a imprimir o espírito nas pensadas frases que devia pôr – umas atrás das outras – nas composições escolares e nas respostas à subtileza dos diálogos. Busco o silêncio para me lembrar de tudo isso, para escutar as suítes para guitarra, para me desligar da pátina ruidosa que os dias segregam.

Há dias um aluno perguntou-me o que faço para obter inspiração. Por instantes baloiçou-se-me na boca uma banalidade, um chavão, uma resposta pronta. Estávamos numa sala comprida, ladeada de computadores de última geração, respirando o ar impregnado dos cabos e dispositivos eletrónicos. Falávamos de António Vieira e da coragem de discursar sobre o abismo. «Não sei», «nunca soube». E esta é a certeza. Inspiração, como quem abre os brônquios a um ar leve e lavado de outubro, tangendo o orvalho e as folhas muito verdes do funcho e da lúcia-lima, não a sei explicar. A não ser, talvez, como uma grande nostalgia, uma vontade melancólica de reinventar os dias de trás para a frente, como quando o lápis se quebrava na linha nervosa e eu pensava «este não é o caminho». De repente, a humanidade esfarela-se no papel, entumecida de estupidez e de orgulho perverso. E é necessário que alguém diga «este não é o caminho».

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Será errado escrever muitas vezes sobre alguém que se ama?

Fotografia de Nancy Borowick

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Para Maria Alice Pereira Costa, (08-06-1956 – 21-09-2024),  in memoriam

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Arde sempre uma luz junto à Sagrada Família. Fiz uma promessa, que cumpro inquebravelmente. O lugar da luz deve ser esse, esse lugar onde até a noite chega a ser a bonita. É como nos quadros de Caravaggio: a sombra aconchega-se às velas, às candeias, aos olhos flamejantes, às cores fortes das túnicas e adormece. Quando tu partiste, jurei que haveria sempre luz a amansar a escuridão cá em casa, ainda que ao menos com um fósforo aceso, com uma frase dita de dentro para o fundo, ao menos com um olá, mãe.

As datas são terríveis. Digo sempre a mesma coisa, mas não encontro outra forma de o dizer. Foi o um de novembro, assombroso, pesado, anestesiante. Foi o Natal, esse golpe certeiro: estiveram cá o Presépio e o Pinheiro – a Catarina fez questão – mas a aldeiazinha de Belém pareceu-me mais longínqua do que o canto do universo de onde saiu a estrela eufórica. Foi o Dia da Mãe e eu incapaz de escrever uma linha. Agora o teu aniversário. O primeiro. E eu às voltas com a casa desarrumada pelas lembranças, eu perdido nas frases, no riso, nas subtilezas da voz, evocando essas cordas de peripécias que nos punhas à mesa à noite, enquanto o caldo ia cozendo nos potes de ferro da lareira e rezávamos o terço, com a Renascença a ditá-lo diretamente da Capelinha das Aparições. A tua vida era cheia e difícil, mãe. Tenho a alma em pantanas. E, sim, as datas são atrozes.

Fazes 69 anos hoje. E, no entanto, como te direi, não fazes anos. Fazer anos era tu estares cá, e tu estás cá mas não os fazes. Um filho (e somos quatro) baralha-se com as palavras: ainda há pouco sentenciavas, profetizavas, insuflada por uma certeza irritante:

Esta é a última vez que me cantais os parabéns.

E já esse dia tão remoto, tão próximo ainda, nos abre fissuras nas paredes do juízo.

Não digas isso, mãe.

E o teu silêncio, os teus opacos olhos sem claridade ou fosfenos, a tua lassidão crescendo até sair pelo nariz sob o arranque de um suspiro.

Deus lá saberá.

Era como quem ouve o comboio antes dos outros, a tremer, a apitar, a vir no remanso da noite, a acercar-se da luz como as trevas dos quadros de Caravaggio, a fingir que é maravilhoso estar tudo bem.

Não digas isso, mãe.

Tinhas razão. Tudo aconteceu de súbito, muito depressa, tudo devagar e tudo vertiginoso, tudo carregado de espanto e de dor, tudo cá dentro a soltar-se de cada memória que me põe a alma num desarrumo: tu comigo ao colo, tu deitada na cama do hospital, tu derreada sobre os teares, tu com o dedo erguido a suspeitares de alguma, tu a cuidares da avó, tu a amassares o pão e a metere-lo no forno, tu a despedir-te, entubada, cheia de hematomas, tu corada de alegria, tu no féretro – fria como um papel – quando pela última vez te beijei.

Para o ano, sabe Deus!

Não digas isso, mãe.

E eu, nós os quatro, os cinco (que o pai também entra, evidentemente), a alucinar, a murmurar ao almoço que farias hoje 69 anos se fosses viva. E eu, nós os cinco, a odiarmos esses verbos conjugados no condicional, no conjuntivo, como se não estivesses viva, como se não estivesses aqui entre nós, a escutar com o teu sorrido trocista o «Parabéns a você, nesta data querida», como se nos falhasses numa data tão importante, tão inesquecida, tão acordada logo pela manhã na pequena vela bruxuleando ao pé da caixa de madeira com a Virgem, o São José e o Menino.

O cancro intrometeu-se. Sempre abominei a minha cobardia em relação a doenças. Estou sempre a rever-te, com os pulmões a laborar num esforço tremendo, com o punho empurrado para o peito:

Este filho da puta não para.

E nós, com os olhos mergulhados em nevoeiro, com o nariz a pingar de tristeza, com a voz aluindo na garganta:

Ó minha mãe.

Jurei – na véspera de nos deixares – que enquanto for pessoa neste mundo há de existir sempre uma luz a irradiar da Sagrada Família, a alastrar pelos interstícios da casa, a fazer recuar corajosamente as sombridões, a trazer no lume amigo de um círio a tua segurança, a tua sensatez, o teu desenvencilho, os teus provérbios, a tua liderança, a tua maneira de contar histórias com humor e sem maldade. Jurei explicar-me assim quanto à saudade, que às vezes soca e asfixia com violência. O lugar da luz é o interior das metáforas. A luz deve dizer mãe com a mesma solene suavidade com que a chama diz amor.

Será errado escrever muitas vezes sobre alguém que se ama?

Herberto Helder escreveu em A Colher na Boca, 1961, aquela que me parece ser a mais pura justificação para esse amor: «As mães são as mais altas coisas / que os filhos criam, porque se colocam / na combustão dos filhos, porque / os filhos estão como invasores dentes-de-leão / no terreno das mães». Estes versos não podiam caber mais direitos nem mais luminosos nesta crónica.

Esta não será a última vez que te cantamos os parabéns, minha mãe.

Estou bem agora. Não vos preocupeis comigo.

E é por isso que me parece a luz tão delicada, tão macia, tão catártica, agora que a noite vem e as sombras – tenho de o repetir – chegam quase como em Caravaggio a ser bonitas.

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Crónica de dois turrões

Fotografia de Alan Pope

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Desde que a minha mãe partiu a casa é uma armação de tijolos presa por arames. Divido a maior parte do tempo com o meu pai, cujos interesses são sobretudo a horta e os trabalhos manuais. E o meu pai divide a maior parte do seu tempo comigo, cuja evasão são sobretudo a escrita e o sonho de uma casa nova.

Vejo-o muitas vezes de sandálias nos pés, sem peúgas, no meio da hortaliça e do cebolo, mesmo nas difíceis manhãs frias de nevoeiro e chuva. Ou então derreado ao sol, sem chapéu, com um alicate nas mãos, a embeiçar uma dobradiça ou a corrigir as tamis de uma peneira. E eu irrito-me com a sua teimosia, com o olhar que me faz de lado como se estivesse mesmo a dizer-me:

Vai para o raio que te parta.

E preciso de aspirar uma grande quantidade de oxigénio, de escolher melhor as palavras que saltitam na cabeça num modo de peixes na canastra:

Pai, olha o frio. Mete-me umas meias. Calça umas botas.

E ele, barricado em si, cheio de impávida mestria, a consertar a dobradiça, a remendar a peneira, a arrancar ervas dos talhões verdíssimos, a ignorar-me, a fazer de conta que a idade não é para todos, à espera da reprimenda seguinte:

Pai, este sol mata. Põe um boné nessa cabeça, se faz favor.

O tempo apanha-nos quase sempre nas dúvidas metódicas. O carteiro veio? O que havemos de fazer para o almoço? A tua irmã virá aqui mais logo? Quando é mesmo a tua consulta de urologia?

Uma casa com dois homens é um barco sem leme e com dois motores. Parecemos abelhudos porque somos abelhudos. Turramos como bichos teimosos, inflados da certeza de que o outro não sabe o que faz e que se a mãe fosse viva isto piava de outra maneira.

Porém, seria hipócrita não falar de mim.

Muitas vezes paraliso na sanita com o Expresso de há quatro dias nas mãos, a coaptar pedaços de um artigo de economia, a passar os olhos pela revistinha de turismo, a pastar com a palha dos analistas políticos.

Vais demorar muito aí dentro?

E o tom é repleto de sarcasmo. É irritante. Um tipo precisa de paz para apurar as nuances da sociedade, para se informar, para curar o mal da cabeça. Não respondo. Nunca respondo a provocações desta espécie.

Anda-se com o aspirador de um lado para o outro, com esfregões e detergente dos vidros. Mas às tantas cai um verso de cangalhas, jeitoso, precioso, fundamental. Atiro-me ao caderno, escrevo, rasuro, releio, reescrevo, anoto, gloso, divirjo setas entre os versos e as linhas. E é nesse poço de silêncio, quando mais e melhor me sabe o ritmo das palavras, que me atordoa a voz intrusa das coisas práticas:

Vou ao LIDL. Precisas de alguma coisa?

Ultimamente tenho-me perguntado para que serve tudo. Uma casa é um labirinto de tarefas. Há sempre pó nos mesmos esconsos e reentrâncias, nos mesmos rendilhados da madeira, nas mesmas dobras de marfinite dos anjinhos. O sabão da espuma reaparece sempre na mesma cerâmica e sobre o mesmo espelho. Por muito que me acocore para aspirar a base dos móveis e por debaixo das camas, lá me encontra o sempiterno cotão malfadado a obrigar-me a despedir do seu poiso, numa sequência de dominó, edredões e cortinas e caixas com arrumos e sapatos e sapatilhas e chinelos. E há os pratos para lavar, a roupa a estender, o ferro à espera do cesto com calças e camisas, os pátios a suplicar por água, os vasos das orquídeas a exigir manutenção. Uma casa é um cativeiro brutal. De recordações, de objetos, de embrulhos, de quinquilharias e bagatelas que acumulamos por simples deslembrança da vaidade e do vento que passa do Eclesiastes.

E depois há o relógio que oxida tudo. As caleiras, as tubagens, as linhas de raciocínio, a memória.

Pai, a porta do frigorífico!

E ele, como quem não quer a coisa:

Não fui quem deixou a luz do escritório acesa.

E eu a inchar de vingança:

Nem eu quem deixou uma torneira aberta na casa de banho do anexo!

E ele saturado de razão:

Sempre quero ver quando chegares à minha idade, sim, sim.

Contemplo a minha vida. Velho e jovem em simultâneo. Derreado e criativo paradoxalmente. Esperançado e sem fé no mesmo passo. Cismo nos livros abandonados sobre a mesinha de cabeceira, nas muitas viagens que devo à vida, nos projetos esfarrapados pela invernia precoce, na agulha que pulou na bússola das minhas paixões. De repente já não sei quem sou nem no que acredite.

E é por culpa disso que me agrada tomar o pequeno-almoço com o meu velhote. É certo que me repete todas as manhãs as suas façanhas de Don Juan dos tempos da tropa. Mas recompensam-me os morangos frescos, acabados de colher no quintal. Há alturas em que maça escutar pela milésima ducentésima quinquagésima quinta vez a peripécia das faúlhas do comboio que lhe sujaram a camisa branca e o fizeram abortar missão numa conquista romântica para os lados da Trofa. Mas impressiona tê-lo ao pé de mim, a viver com energia autêntica o sopro de Adão, em lugar de estar longe, perdido numa penumbra de corredor, mordido por uma ventosa qualquer.

E a aturar-me. Porque se há coisa que muito me espanta é que haja no mundo quem disponha de paciência para o fazer.

Como disse, de repente já não sei quem sou nem no que acredite. Tiro um café na máquina e desço ao esconderijo. Atiro-me ao computador e ponho-me estas frases à frente. Precisava delas. Por uma ou por outra razão precisava.

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Francisco

Fotografia de Fernando Miranda de Oliveira Junior

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«O homem eleva-se da terra com duas asas: a simplicidade e a pureza. A simplicidade deve estar na intenção, a pureza na afeição. A simplicidade procura Deus; a pureza toma dele posse e nele se compraz». Assim começa Thomas de Kempis o quarto capítulo do Segundo Livro da sua célebre Imitação de Cristo, obra mais conhecida na Cristandade, depois da Bíblia, e cuja leitura me parece hoje um revigorante desafio às mulheres e aos homens que ainda procuram compreender a luz e se não resignam à medíocre condição do ser medíocre.

Francisco, aliás Jorge Bergoglio, personifica o homem elevado da terra com as duas asas. Dificilmente se obterá outro testemunho que não o de pessoa humilde, servidora, surpreendente que foi, no modo como ao longo dos doze anos de missão pontifícia conduziu os destinos do Vaticano e renovou a Igreja Católica, reaproximando-a dos ideais de Cristo, que eram os de São Francisco, ou de Thomas de Kempis: amar o próximo, perdoar os pecadores, acolher os pobres, defender os fracos, incluir os ostracizados. Francisco, ou Jorge Bergoglio, lavou os pés a condenados, ministrou o sacramento da comunhão a divorciados, acarinhou mães solteiras, disse que a Igreja era de «Todos», olhou para dentro da comunidade, quis que se justiçasse as vítimas de pedofilia, renovou o cardinalato, exigiu limpeza nas palavras e nos atos, apontou o dedo aos poderosos hipócritas (que, a espaços, o visitaram), denunciou o massacre fratricida de Gaza ou na Ucrânia, posicionou-se em favor do planeta e das criaturas atacadas pela lupina ambição ou insensatez dos filhos do seu Deus: animais, florestas, embriões no ventre materno, (i)migrantes, etc., etc., etc.

A minha simpatia por este Papa, que supera largamente a que podia ter nutrido por qualquer outro, começou na escolha do nome Francisco. Cresceu em reação ao modo como, prescindindo do anel e da cruz de ouro, ou dos sapatos vermelhos da Prada do seu antecessor, como sem voz ornamental e intelectualizada, se entregou ao exercício de ser pastor dos povos, líder exemplar, homem corajoso e muitas vezes sozinho (e não me refiro à comovente imagem que dele nos na Basílica de São Pedro em 2020), pugnando por uma fé íntegra, verdadeira e disponível para aceitar o outro. Como certeiramente nota José Tolentino Mendonça em O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas, «na sua espantosa leveza, e sem alardes, a amizade dialoga com coisas muito fundas dentro de nós: faz-nos reviver o primeiro amor com que fomos (ou não fomos) amados; toca as nossas feridas, mesmo as que não conseguimos verbalizar; transmite-nos confiança para sermos o que somos e como somos; estimula-nos a progredir vida fora». Julgo que este Papa era, na sua essência, um amigo de todos nós. E, por isso, a dor tão coletiva, tão universal, tão unívoca que hoje sentimos.

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Elegia, ou quase

Escritor Português, João Ricardo Lopes
Fotografia de Ales Krivec

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(Mateus, 20:1-16)

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Na minha frente a paisagem mais significativa: vinhas desenhadas com precisão, um pequeno palacete entre elas, ao fundo – na orla do espaço – um bosque. Árvores outoniças, bordos amarelos e alaranjados, carvalhos, uma linha de choupos quase despidos a tocar – à distância – o branco, árvores verdes ainda, castanhas, outras atirando ao azul, como os pinheiros nórdicos que alguém aí plantou e me dão agora a sensação de um ar frio vindo de muito longe.

Saí mais cedo do almoço. Não suporto almoços. Os dias de almoço atrasam-me. Estar parado aqui, no meio da viagem, não. As pessoas fazem-me desperdiçar horas, obrigam-me a gostar delas, a preferir o seu bom gosto, a admirar escravamente o seu blush, o seu batom vermelho a combinar com as unhas, o seu decote, a sua joia ostensiva, a sua juventude, a sua perfeição física.

É uma vinha enorme. Homens vêm e vão deslocando-se em tratores ou a pé, com ar de quem sabe cuidar e de como proceder com cada videira. Admiro sem limite a sua sabedoria. Sinto-me intimidado pelo desenvencilhar dos seus gestos, pelo orgulho discreto das suas mãos quando se servem da tesoura da poda. É como se dissessem não existe maior dignidade no ser humano do que a dignidade de trabalhar bem, com limpidez, tocando as velhas coisas com amor.

Detesto as coisas novas. A ciência do digital, a produção de conteúdos balofos, a beleza oca das pessoas falsas e falsadoras. Por isso me penalizam tanto estes encontros, as reuniões sem pontos de ordem, os convívios com gente que deixou de ser gente e se tornou um produto narcísico, hipócrita, corrigido pelos retoques estéticos e elevado à curva sinistra do snobismo.

– Quando casas, Ricardo?

Abandono os almoços – invariavelmente – no instante em que começam as perguntas. Pior do que os detalhes alheios são as perguntas. Hesita-se, duvida-se, responde-se às vezes. Mas as pessoas não escutam. As pessoas agora interrompem os discursos confessionais, porque são extremamente incapazes de não partilharem mais detalhes, mais conteúdos, mais informação cativante das suas existências-fitness.

Gosto de viajar com as janelas do carro abertas, a absorver os cheiros, o ar, as vozes que chegam de fora. Às tantas apanho na frente algo de que gosto e paro. Antes fumava, agora não. Agora limito-me a permanecer em silêncio, a colher com as pupilas, como o rinencéfalo, com a saliva aquilo que o acaso me traz. Este perfume da terra, por exemplo, esta impressão húmida dos musgos sobre os muros de pedra, estes vinhateiros afanados. Cortam os ramos secos e parecem falar sozinhos. Ou talvez conversem com as cepas. Avançam devagar pelos corredores do terreno e expurgam-nos, limpam-no dos excessos, cutilam a lenha pelas vergônteas certas. Depois carregam tudo e avançam um pouco mais. A vinha rejuvenesce.

O escritor José Tolentino Mendonça surge-me pelo meio dos fotogramas deste filme. A sua poesia cabe aqui com delicadeza, com humor, com pertinência. Talvez por ali, onde a neblina inçou de repente, vagueie Deus. Talvez por ali vagueie calado, com as mãos atrás das costas, distraindo-se um pouco do extremo sacrifício da sua solidão. Acredito que vagueie, decerto saturado da beleza e perfetibilidade dos seres que orbitam a maior parte do seu tempo.

– Quando é o casório, Ricardo?

E eu entendo que o Pai Celestial se queira talvez sentar ao meu lado no lugar do pendura, a observar comigo esse postal, a descansar do fastio e da insuportável sensação de que o tempo é simplesmente estúpido quando passa por nós e não nos leva consigo.

Os homens conduzem agora os tratores para outro pedaço da quinta. Invadem-me os ciúmes e uma certa tristeza. Dou uma volta à chave na ignição, o carro responde, despeço-me disto, de Deus, de mim. Esperam-me já noutra parte. Tenho de ir.

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Crónica dos dias que vão

Peter H - lost-places
Fotografia de Peter H

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Um dos meus maiores medos começou há uns tempos, subtilmente, numa das conversas em família à hora do jantar: disseram-me que nesse dia fora a sepultar a última das saboeiras da freguesia.

Não era do meu conhecimento que tivesse havido fábricas de sabão e saboeiras na terra, por isso senti uma puada cá dentro, como as que sentimos quando nos escapa algo de valioso e se mistura culpa e nostalgia em nós.

Poucas semanas depois os sinos dobraram e o meu pai, contadas as repetições do dobre supôs de imediato:

– Foi o guarda-rios, foi o Salvador! Olha, coitado, era o derradeiro do seu ofício…

Mais uma vez atingiu-me a perplexidade: desconhecia que houvesse uma profissão tão específica, tão bastantemente útil e tão autossuficiente como a desse pobre homem que levava a alma ao outro mundo.

Comecei aos poucos a tomar consciência da excecionalidade desta época em que um mundo inteiro de mesteres e modos de vida e ganha-pães personalizados morre e outro mundo inteiro de cargos e encarregados, diretores, funcionários e colaboradores varre a paisagem sem lugar a rosto, individualidade ou história para lembrar mais tarde. Ao dar-me conta deste exato momento epigonal em que o último vedor e a última jornaleira, em que o último alfaiate e a última camponesa com coragem para matar galinhas e esfolar coelhos, em que o último alambiqueiro e a última boticária se preparam para entregar ao vazio a sua arte e o seu orgulho, a sua perícia e os seus rituais, dou-me conta (por arrasto) de que uma porção imensa do espaço e do tempo em que fui preparado para viver está a ir-se, subtilmente, num voltar de capítulo silencioso, num cortejo fúnebre discretíssimo, num fechar e abrir de olhos ao serviço de uma hierarquia nova, computacional, globalizada, irrespirável, inumana, de identidades-números, onde tudo o que se faz é produto, onde tudo o que é concreto é virtual, onde todo o contentamento mói num longo bocejo eterno de-antevéspera-a depois-de-amanhã.

Um dos meus grandes medos é o sentir-me fiel da balança, sentir-me depositário de um mundo antigo que se despede sem adeus e até sempre, e sentir-me recebedor de um mundo outro, atroz, que me exige (para merecer estar vivo) que esqueça justamente e depressa, que oblitere, que apague pura e simplesmente essa memória decadente de trabalhos ultrapassados, de muitos nomes, de velhas histórias e sentimentos incompreensíveis, como a saudade, como o sentir falta de meter mãos às coisas e sobre as coisas, como o frémito de cheirar a terra, ou o tecido acabado de riscar pela sábia costureira, ou sentir prazer e repugnância junto das vísceras quentes e do sangue pingado desses animais que alguém, repleto de competência, acabou de degolar.

Um dos meus grandes medos é o de me sentir expulso deste outro mundo nascente, falso, hipócrita, reescrito com a lei suprema do politicamente correto e do balofo e do estéril e do artificial.

Tremo de pensar que estou na cauda de um cometa vertiginoso, assistindo à desaparição de algo a que chamam velho e inútil, mas que é, tenho de teimar, luminoso e cheio, vivo e refrescante. Tremo de sentir-me como aquele punhado de gente que assiste com lágrimas à implosão do Cinema Paraíso. Tremo de pensar que os sinos um dia talvez nem dobrem. Que um pequeno estalido ecoe eletronicamente, interligadamente, absortamente, cansadamente, nos dispositivos dos meus sucedâneos e que algum deles, um apenas, desvie um pouco os olhos do ecrã e considere pelo pequeno ângulo de firmamento acessível o sentido da existência.

– O velhote do quinto direito… morreu!

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Do velho hábito de cuidar dos velhos

Anna Kudriavtseva
Fotografia de Anna Kudriavtseva

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Vejo a minha mãe a cuidar da minha avó, a colher rapando o fundo do prato, enquanto quieta, como uma garota velha, a minha avó se entregava a esse cuidado, frágil, absorta em nebulosos pensamentos indecifráveis, consoladoramente. O último dos seus vícios: um copo de vinho às refeições. Com a bênção de São Gonçalo de Amarante, cujo báculo estampado no copo alto de asa, parecia tocá-la amigavelmente. Era, na verdade, uma minicaneca. De estimação. Como todos os hábitos e objetos do final da sua vida.

Penso muitas vezes na minha avó. Na sua mudez. Na cegueira. Na paralisia. Penso em como movimentos tão simples, como o de trocar de posição na cama, ou de levantar-se a meio da noite para ir à casa de banho, ou de acender o candeeiro, ou de beber um gole de água lhe eram inacessíveis. Penso no abismo do silêncio, multiplicado pela falta de voz, de imagens, de movimentos. Penso nos seus próprios pensamentos. Em como terá pedido ao seu Deus (em noites furiosamente insones) que a levasse, que a libertasse dessa prisão do corpo e da mente, que a deixasse fora do alcance das palavras que, dentro da sua cabeça, chocalhariam sem piedade, vergastando-a.

Quando algum de nós se aproximava da sua cama (que, com o tempo, se tornou numa espécie de lugar assustador, onde um corpo morria devagar e, vivo ainda, nos ensinava os tortuosos caminhos para a morte) sentia o arrepio que se tem diante de um santo. Puxávamos-lhe o cobertor. Dizíamos qualquer coisa. Despedíamo-nos. E a minha avó emitia meia dúzia de sons guturais, decerto em agradecimento.

O quarto adquirira, igualmente, um cheiro característico. O da caixa dos remédios. O da lixívia. O do sabonete Patti. O do detergente da roupa. O da velha manta de alpaca. O do cartucho dos doces ‒ traziam-lhe sempre um cartucho de doces aos domingos ‒ e o do pão de ló. O das bananas maduras. O da madeira da mobília. O da velhice. Tudo junto. Como uma orquestra de odores desafinada.

As visitas rarearam. Deixámos de escutar-lhe os passos no corredor. Repetir as mesmas histórias, vezes sem conta, com a mão da minha avó poisada na sua mão deixou se ser possível, porque os poucos amigos da minha avó foram desaparecendo. A solidão nos derradeiros meses foi apenas contrariada pelos magníficos esforços da minha mãe e dos outros filhos, que a lavavam, vestiam e alimentavam, entre discursos e censuras começados sempre por um «Ó minha mãe…». Penso muitas vezes nessa solidão. Porque a receio mais do que tudo na vida. Porque essa solidão se transformou na minha definição de inferno. Imerecido, profunda e totalmente, no caso da minha avó…

Quando morreu, ninguém se espantou. A tristeza foi-se entranhando em nós… Não fui capaz de chorar, exceto muitos dias depois, quando na imensidão do quarto vazio compreendi que o lugar de cada pessoa é insubstituível e que a morte (pese os labirintos para onde nos foge a memória às vezes) tem em si, no seu escuro alçapão, um ser definitivo e terrível. «Não, nada será como dantes!»

Revejo os desvelos, as arrelias, os ditos por dizer, a segurança e o conforto desse último reduto, que (como num casulo) embrulharam a minha avó Amélia no fim. Aprendi tanto com a sua decrepitude! Jamais se pôs sequer a hipótese de um lar de terceira idade. Jamais se equacionou outra proteção que não a da casa. Os tempos eram, ainda, os do alto dever de «proteger os nossos velhos». Os ralhos eram manifestações de amor zangado e não de profissionalismo mascarado de amor. As chagas curavam-se com mercurocromo e tintura de iodo. Acordava-se a meio da noite para, como aos recém-nascidos, ser trocada a fralda. Se havia lágrimas no canto do olho da avó, a voz da minha mãe crescia no torpor da casa, «Ó minha mãe, você que tem?», e uma sucessão de chamadas telefónicas (para os outros filhos, para a médica, para o hospital) punha-nos a todos em sentido. Ganhar tempo contra o fim inevitável parecia, mais do que uma obrigação, uma obstinação.

Leio, agora, que o Governo quer punir os maus-tratos contra os idosos. Como se a lei pudesse pela força suprir o que o amor perdeu em força… Como se uma sociedade ‒ como esta, como a nossa! ‒ pudesse, à conta de normativos legais, reaprender a cuidar dos mais velhos. Como se uma cegueira (uma amnésia quanto ao futuro) a tivesse desabituado à ideia de que envelhecer envelheceremos todos e que, assim como fizermos, assim nos farão.

E, por isso, penso. Penso muitas vezes, aproveitando o vago marulhar das árvores nestes dias outoniços de agosto. Como se ainda fosse a tempo de alguma coisa. Penso na minha avó. Penso na minha mãe, metendo-lhe a comida na boca. «Ó minha mãe, você é pior do que uma criança…». Penso nos resmungos da minha avó. Nos sons guturais. No báculo de São Gonçalo que usaria, se pudesse, para dar à minha progenitora um enxerto. E o tempo passou. E é como se não tivesse passado…

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Tudo gente boa

Rui Palha
Fotografia de Rui Palha

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Sempre foi um defeito considerável este meu hábito de meter conversa e querer conhecer as pessoas. Não consigo ficar-me pelo «Bom dia», «Boa tarde», «Como está?», «Como tem andado?». Às duas por três, estou a saber a alcunha, a parentela, a história do divórcio, os resultados dos exames médicos, os sonhos de infância de toda a gente. E a compreender, a consolar, a aconselhar, a passar a mão pelo ombro, a dizer «Vai ver que sim! Vai ver que sim!». E a contar algo meu, a explicar que isto custa a todos, a mostrar que não há nada mal nenhum em ser-se frágil, querendo ser-se forte, nas coisas que nos tocam mais fundo.

Sempre fui incapaz de ignorar uma boa história, mesmo se para a conseguir me arrisco a uma reprimenda. Porque é fácil exasperarem-se comigo, pelo tempo que demoro nas lojas, na rua, no gabinete, na sala de espera, no parque de estacionamento. Só para me despedir do colega, da moça do balcão, do amigo reencontrado, do pedinte, do transeunte estrangeiro (de guia turístico em punho).

‒ João, vens?

‒ Já vou, amor! Espera só um bocadinho…

Aprendi este ofício com Maria Antonieta, vendedora ambulante, peixeira, na cidade do Porto, quando lá vivi, nos tempos universitários. Aprendi com esta profissional da psicanálise o costume de ler nos olhos e de entrar, com licença ou sem ela, nos corredores complicados da alma e da cabeça de cada pessoa. Aprendi-a como se aprende o jargão, ou uma anedota, ou um trejeito, ou seja, à conta de tantas vezes conversar consigo, de me rir consigo, de lhe entregar confidências, de lhe escutar outras tantas à puridade.

‒ Olha, olha… O senhor doutor da mula ruça!

‒ Bom dia, dona Maria Antonieta…

‒ Ó caralho, que cara é essa?

‒ Cansaço… Estive a fazer noitada…

‒ Menino, cara de enterro não faz dinheiro! Cara de gente é que é sempre para a frente!

E trepávamos os dois a escadaria íngreme da rua da Bandeirinha; ela, de avental plástico e com a canastra sobre uma rodilha na cabeça, saracoteando as ancas; eu, com o saco a tiracolo e a Teoria da Literatura do Aguiar e Silva debaixo do braço. Enquanto não desembocávamos na praceta, ficava ao corrente da humanidade vizinha: das maleitas e da solidão da dona Esmeraldina, octogenária com filhos mas sem família; dos cornos do Freire, a quem sempre faltou coragem para o suicídio; dos calotes da Magali, beldade da rua que diziam ser acompanhante; da condicional do Francisco Terra, regressado meia dúzia de dias antes de Paços de Ferreira.

‒ Tudo gente boa. Conheço-os como a palma da minha mão…   

E eu, dividido entre as mamas da Magali e o descontrucionismo de Derrida, a aceitar a explicação.

‒ Tudo gente boa… Dava um rim por esta gente, menino… São meus fregueses e meus amigos… Quando for dar aulas, vai ver como se afeiçoa depressa à miudagem…

‒ Sei lá se vou dar aulas…

‒ Ó caralho, que anda você a fazer com os livros?… A passeá-los?…

Aprendi a ir ao fundo das coisas, a deitar a rede onde o parece ser em menor número e miúdo, quase insignificante. Aprendi-o com jeito, com modos, com arte, com a intuição de que por detrás de cada rosto se esconde uma vida, com o respeito que se exige a cada mágoa e a cada miséria.

‒ Ó Xico, fica lá com meia dúzia de chicharros, homem!

‒ Hoje não.

‒ Caralho, se tos dou, é porque hoje vais ficar com meia dúzia de chicharros…

E o Xico anuía, com o cigarro amolecido, barba por fazer e olho inseguro, relampejando a cólera e a aguardente.

‒ Olha lá! Tira-me esse cu do sofá e vai dar uma volta! Deita-me o olho ali à velhota. Ela que tome o remédio. Se precisar de ir à farmácia, diz-mo tu, ouviste? Tira-me esse cu de casa…

E o Xico dizia que sim com a cabeça, agradecia em monossílabos, aceitava um pouco de luz pelos intervalos da sua paliçada.

Fiquei com o costume. Absorvi-o à medida que me foi parecendo ser mais e mais urgente espalhar essa luz por outras humanidades. Porque a humanidade, em geral e decerto em particular, vive como uma toupeira, escavando às cegas e vivendo sem alegria. Sei que irrito, que aborreço, que prolongo um simples encontro casual, uma compra, um pedido de informação, um «olá», num acontecimento, às tantas numa gargalhada, algumas vezes numa lágrima à esquina do olho.

Tenho escutado reprimendas, avisos, ameaças. Tudo porque acredito nas coisas boas que guardamos em silêncio. Porque gosto de viver menos depressa e ir ao encontro da alma. Porque, como a varina, prefiro o ritual da luz, a multiplicação dos gestos e das boas palavras.

‒ Tudo gente boa, menino…

Ela, indo-se embora, deixando um rasto brilhante de escamas no empedrado. E os moradores à janela, a cismar, a fumar, a esperar pelo dia seguinte, pela hora do aceno, do cumprimento, da companhia.

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Quando os eternos nos morrem

Herberto Helder (Alfredo Cunha)
Fotografia de Alfredo Cunha

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«A morte – diz o canto – é o amor enorme.» Herberto Helder tinha 33 anos quando publicou este verso (em Poemacto) e é irónico que essa mesma morte, ou outra morte qualquer, tenha finalmente levado um tal poeta. Essa mesma morte, ou outra morte qualquer, foi anunciada quatro dias mais tarde a Tomas Tranströmer ‒ se é possível que um poeta morra! Fica-me de memória esta sua meditação de 1983, deixada no poema «Bilhete-Postal Negro»: «Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta / e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida, / e a vida continua. O fato, porém, esse / é cosido em silêncio.» (cito a tradução de Alexandre Pastor).

Quis o destino que assim fosse. Que se falasse de morte, no sentido puro que a morte pode ter, na estação em que a paisagem se enche com o branco imaculado das magnólias, com o matizado azul do agapanto, com o vermelho da amarílis, com os salpicos da serralha e das pascoinhas, com o verde da hortelã e do funcho, com o amarelo veemente do tojo. O espaço é enxuto, luminoso, celebrante. E, contudo, a morte anda-nos na boca.

É sabido o modo como Herberto Helder (nascido no Funchal, em novembro de 1930) e Tomas Tranströmer (nascido em Estocolmo, a 15 de abril de 1931) viveram discretamente, distanciados de certo ruído que lhes obscurecesse a visão do mundo, fiéis à servidão da metáfora com que definiram tão profundamente o ethos e o pathos humanos. Como tão bem notou Pessoa/ Ricardo Reis, «Cada um cumpre o destino que lhe cumpre», e eles, Herberto e Tomas, cumpriram-no, na certeza, na convicção inabalável de que a poesia fosse esse destino.

Dir-se-ia inevitável o conhecimento destes dois poetas. A muitos de nós, leitores-admiradores do seu (diferentíssimo) espaço criativo, tal encontro deu-se no universitário, em curtas seletas e traduções extraídas do Jornal de Letras, em edições muito folheadas e quase sempre sublinhadas por frenéticos lápis de discípulo. De Herberto havia a Poesia Toda, milagre de edição de que nunca consegui um exemplar! De Tomas Tranströmer havia pouca coisa. Inesquecível, porém, o contacto com a pequena recolha que nos era dada em Vinte e Um Poetas Suecos, de que fiz nessa altura, criminosamente, uma edição policopiada. Beleza plástica e contenção lírica, expressão do pormenor, domínio do inefável, brevidade e sentido de humor, eis como me chegou a poesia do psicólogo Tranströmer.

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AQUELE QUE ACORDOU COM O CANTO SOBRE OS TELHADOS

Manhã, chuva de Maio. A cidade está calma
como uma cabana. Ruas tranquilas. No céu
troa azul-verde um motor de avião ‒ a janela está aberta.
O sonho onde se dorme de membros estendidos
torna-se transparente. Move-se, tateia
pelos instrumentos da visão ‒ quase no espaço.

(Tradução de Teresa Salema, Vega)

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Não me recordo do primeiro poema que li de Herberto Helder. Lembro-me do estremecimento provocado pelo poema que principiava pelos versos «São claras as crianças como candeias sem vento, / seu coração quebra o mundo cegamente. / E eu fico a surpreendê-las, embebido no meu poema, / pelo terror dos dias, quando / em sua alma os parques são maiores e as águas turvas param / junto à eternidade.» (sexto andamento do poema «Elegia Múltipla» de A Colher na Boca). Com fervor quase religioso, como tomado pela mesma devoção com que leem alguns os seus guias místicos, fiz-me acompanhar na última década pelo volume precioso Ou O Poema Contínuo. Li-o integralmente vezes incontáveis, certo de que vive ali o génio e o sortilégio do melhor que se escreveu em língua portuguesa em toda a sua já vasta história.

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Lenha ‒ e a extracção de pequenas astros,
áscuas. De poro a poro,
os electrões das corolas. Somente no mais escuro
não há nada. No escuro a carne é um buraco
invisual, e o que arde é o pão
no estômago, e nos brônquios
cortadamente
o ar. E o carbono devora sono a sono a inocência
das imagens. O que toca o órgão mais profundo
do sopro não é a música
nem chama: apenas um dedo de mármore entre
as têmporas como
uma bala. E enquanto pontas de fogo marcam
a boca, morremos afogados
no espelho, no rosto. E se a loucura um instante
levanta as pálpebras.
A grande válvula do corpo.
A escuridão, a terra.

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Tomas Tranströmer (Ulla Montan)
Fotografia de Ulla Montan

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No verão de 2012 senti um fervor idêntico, quando principiei a ler os Cinquenta Poemas de Tranströmer editados pela Relógio d’Água. Não há na poesia do sueco o ritmo torrencial, encantatório, melódico dos versos de Herberto. Há, ainda assim, a mesma subtileza dos silogismos, o poder da imagem, a afirmação da palavra poética num mundo dolorosa, progressivamente mais prosaico. Há a beleza escultural, marmórea, luminosa de verdades que, não raro nos escapam, e que representam o privilégio da revelação e da sensibilidade poéticas.

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FURACÃO ISLANDÊS

Não um terramoto, mas um sismo celeste. Turner, bem amarrado, podia ter pintado aquilo. Ainda há pouco, uma luva solitária passou por mim redemoinhando a muitos quilómetros de distância da sua mão. Lutando contra o vento, tenho de chegar à casa que está do outro lado do campo. Como uma bandeira, adejo no furacão. Sou radiografado, o esqueleto entrega o seu pedido de demissão. O pânico aumenta enquanto avanço aos ziguezagues, vou a pique, vou a pique, acabarei por me afogar em terra firme. Que pesado se torna tudo o que tenho de arrastar, o que será para uma borboleta rebocar um batelão! Chego, por fim, ao destino. Um último combate com a porta. Já entrei, já entrei! Agora estou atrás da enorme janela envidraçada. Que estranha e fantástica invenção não é o vidro ‒ estar tão perto e não ser afetado… Lá fora, em debandada pelo campo de lava, uma horda de corredores, vestes insufladas, gigantes e transparentes. Mas eu já não esvoaço. Sentado atrás do vidro, quieto, sou o meu próprio retrato.

(Tradução de Alexandre Pastor, Relógio d’ Água)

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É quase manhã quando escrevo estas palavras. O trissar das andorinhas e dos estorninhos enche o espaço. Penso com o espanto de um mortal na complexa roda do tempo. Nos poetas que nos morrem e no quanto lhes devemos. No que dever significa e talvez nem saibamos. Na imprecisão com que se diz morreu o poeta Herberto Helder. Na devastação de se pensar que o poeta Tomas Tranströmer desapareceu. Porque um e outro deixaram seguidores, vagos epígonos, amantes, sementes e metáforas, luz. E talvez pudesse confessar o quanto um e outro trouxeram para dentro do meu coração por vezes despedaçado e maltratado. Ou talvez devesse explicar que a poesia de um e de outro enche uma pequena parte das minhas estantes de poesia, aonde regresso amiúde, como quem pretende converter-se a uma melhor humanidade. Ou talvez pense (pensando melhor) que talvez os poetas morram mesmo e que a morte de um poeta seja talvez a morte lenta da própria humanidade. Talvez pense que afinal não são tantos assim os que se importam e os que têm estantes de poesia em casa. Talvez pense que poucos serão os que regressam a certos livros de poesia como quem regressa a uma fé, ou a uma cela, ou a um certo silêncio impermeável. Talvez a humanidade tenha, finalmente, deixado os seus poetas morrer. E queira morrer com eles e sem eles, numa infinita e incapaz solidão.

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