UM NOVO DIA

Foto: robillard laurent

Na cama ouve a chuva a cair, às vezes tocada pelo vento com uma tal intensidade que o seu corpo, por instinto, adota a posição fetal. Depois adormece, sonha com um caminho enlameado em direção à escola primária, põe-se a conversar com velhos simpáticos que trabalham nos campos e lhe dizem adeus. Algo em si (mecânico e enigmático) confessa-lhe que naqueles rostos há somente agora um lastro enganador de vida. Mas de repente um som truculento, insistente, metálico, produzindo um efeito de vergasta (a campainha da escola, o despertador no telemóvel) faz desaparecer toda aquela paisagem antiga e bucólica, todos aqueles homens e mulheres dobrados sobre a sachola, todos aqueles estreitos por entre o mato e os giestais. Laura é sacudida, atirada para a realidade, exposta a um tempo duro, a um lugar inexoravelmente seu no mundo.

Levanta-se, empurra para trás o edredão e o lençol, abre a janela, fica um instante imóvel, de olhos fechados, como procurando despedir-se de si noutra existência, como procurando encontrar o melhor percurso de si até si mesma.

O cheiro de chuva principia a invadir o quarto, a expulsar o ambiente saturado de odores corporais. Apesar de fria, a aragem é agradável. Nestas ocasiões ocorre-lhe sempre a expressão “cheiro verde da chuva”. Gosta da combinação das quatro palavras, do que nelas sobressai de sinestesia, de metáfora, de onomatopeia, de aliteração. Gosta de imaginar que é verde o cheiro da água precipitando-se sobre a terra, embebendo-a, fazendo-a germinar, cobrindo-a de musgos e de líquenes. Sobretudo em abril, especialmente quando os perfumes nascidos da noite são profusos, indescritíveis, capazes de entontecer.

Sempre essa mistura de ervas, flores, árvores, frutos, fungos, minerais lhe pareceu um cântico formidável de criaturas silenciosas, um hausto de primavera, um íman de poesia, chamemos-lhe petricoraldeiasaudadevida.

Mas é tudo muito rápido. Rapidamente os olhos reabrem, rapidamente a cor feia da manhã nascente e acelerada a obriga a menear-se. Tem de vestir-se, pentear-se, maquilhar-se, beber o café, sair. A magia não dura quase nada.

Nada é um bom termo. Sintetiza a ideia que sempre nos fica quando observamos as nossas memórias à luz imparcial da eternidade. Tudo é igual a nada, somos um punhado de coisa nenhuma. O nosso empenho, a nossa felicidade, o nosso sofrimento, a nossa morte não passam de um detalhe.

Nas curvas que a linha do metro descreve, pontualmente apertadas, obrigando a mão a segurar-se com firmeza no apoio, estas frases soam-lhe com particular dureza. Tudo é igual a nada. Somos um punhado de coisa nenhuma. A nossa grandeza é um pingo dessa chuva que resvala para as sarjetas imundas da cidade.

Laura sabe que as manhãs de abril, especialmente estas em que o sol não brilha, são enganadoras. Fazem subir uma espécie de nevoeiro que oculta os prédios mais altos. Deprimem. De resto, a sucessão de guarda-chuvas, gabardinas, botas, galochas coloridas enerva-a. Inversamente ao sonho, a viagem para o trabalho parece-lhe cruel, concreta, inescapável, como se fosse ela (e não os velhos da sua meninice) uma pessoa morta. 

Quando as composições param e as portas se escancaram em simultâneo, Laura e dezenas de outros passageiros voltam a estugar o passo. Depois sobe no tapete rolante, esquecida já de todos os pensamentos anteriores, viva, sonâmbula, anestesiada, preparada para o novo dia, cheia de pressa, em rigor para lado nenhum. 

SÓ QUERIA DORMIR

Foto: Vito Guarino

Olhada do quinto andar a rua era toda ela chuva. Chuva miúda, persistente, escorrendo nos vidros, dos telhados, debaixo dos candeeiros, contra as pernas apressadas das senhoras que entravam e saíam na estação de metro.

Ao tipo do 5.º D apetecia-lhe dormir, dormir indefinidamente. O asfalto molhado, o som dos pneus a cortar os charcos lá em baixo, o cheiro húmido na roupa deixada negligentemente no estendal, o facto de ter recebido más notícias do hospital funcionavam juntos como um comprimido dos fortes. Ao tipo só lhe apetecia cair de borco na cama, fechar os olhos e apagar-se. 

O telefone tocou.

Que porra. Quem seria? Fez um esforço sobre-humano para se erguer e aguentar nas pernas, caminhar até à mesinha da sala, apanhar o aparelho e atendê-lo.

Viu no ecrãzinho o número sem o reconhecer. O telefone continuava a tocar, as mãos pareciam encarquilhar-se-lhe sob o peso do objeto, a chuva esbarrava-se nos vidros, um cão ladrava, o elevador estremecia nos cabos, o telefone tocou mais duas vezes e, por fim, calou-se.  

Arrastando os chinelos, o tipo regressou à cama. O cinto do roupão dançava-lhe à frente, atirando-se à toa para aqui e para ali à medida que ele caminhava. Deixou-se cair na cama, puxou como pôde a roupa e respirou fundo. Era bom poder estar assim, enfiado naquele ninho como no ventre de uma mãe. 

Simplesmente alguém tinha urgência em falar-lhe. O telefone recomeçou a tocar. Que martírio trágico para a humanidade terem-lhe retirado o direito ao silêncio. Quantas vezes iria aquele energúmeno dispositivo amofiná-lo? QUANTAS VEZES? Teria de o rebentar todo? Mandá-lo janela fora?

O silêncio que se seguiu desta feita era diferente. Era um silêncio enervado, crispado, quase com ódio. Na sua existência de trinta e cinco anos o mais parecido que tinha visto com o seu íntimo desejo de silêncio eram as pinturas de Vilhelm Hammersøi Gostaria de viver dentro de paredes assim castas e caladas, iluminadas pela enxuta luminosidade de um sol matinal, lendo o seu poemário, ouvindo Bach, Barber, Chopin, Marcello, Schubert, pintando retratos da moderna civilização, bebendo whisky.

A sua paciência estava claramente a ser testada. No mesmo instante em que se levantava o vento e a chuva parecia salpicar a varanda, o telefone voltou a tocar. 

Desta vez a cólera acendeu um sentimento mais forte. Encaminhou-se para a mesinha, tomou conta do pequeno demónio e atendeu com toda a rudeza de que foi capaz. 

– SIM???

– Estou a falar com o Sr. Miguel Santos?

– ESTÁ A FALAR COM O SR. MIGUEL RODRIGO ALBUQUERQUE SANTOS. POSSO SABER PORQUE ME ESTÁ A LIGAR???

Era da contabilidade do hospital. 

–  QUANTO?!

– Trezentos e cinco euros e quarenta cêntimos… é um valor acumulado… respeitante a várias consultas, Sr. Santos. 

O tipo passou-se. Uma onda de calor atravessou-lhe a moleira, dava-lhe a impressão de que ia ter um AVC.

– PAGUEI TODAS AS TAXAS MODERADORAS. TODAS, MINHA SENHORA! MEXAM O CU E FAÇAM O VOSSO TRABALHO. NÃO ME FODAM A CABEÇA. VÃO PARA O RAIO QUE AS PARTA!

Havia num canto da varanda um canteiro improvisado onde se cingia meia dúzia de vasos com begónias. Foram lá parar os restos mortais do telefone. Pedaços de plástico e de borracha por toda a parte.

O tipo sentou-se. Empurrou o volume de uma Enciclopédia de Pintores Impressionistas para os pés do sofá. Deitou-se, puxou o cobertor. Que dor de cabeça. Era imprescindível respirar e acalmar-se. Procurou no bolso do roupão. Tirou um Alprazolam, engoliu-o e fechou os olhos.

O silêncio tornava cada móvel, o cavalete, os quadros guardados e cobertos com um lençol branco testemunhas angustiadas daquele sofrimento.

– Foda-se. Que farrapo!

La fora a chuva ensopava a tarde, reluzia por cima dos toldos e sobre o tecido dos guarda-chuvas, tornava o ar pesado, quase viscoso. Dentro as assoalhadas pareciam impregnadas pelo cheiro característico do mofo. Era de cortar os pulsos.

O tipo já praticamente roncava, anestesiado pelo miligrama do Alprazolam, quando o telefone se acendeu todo, as luzes esventrando as camadas de plástico resistente, o visor mostrando como uma boca desdentada somente metade de um número, o grilar rouco anunciando como podia uma nova urgência. 

Não podia ser verdade. Era mofa. O grande cabrão não morrera, ainda tocava do outro lado do vidro, moribundo, tinhoso, servil.

O tipo só queria dormir. Estava quase lá. Só precisava de um pouco mais de tempo, quase lá, de mais um pouco…