O CASTIGO

Foto: Norbert Maier

Nesta época do ano, as manhãzinhas são docemente cruéis. Quem acorda gostaria de continuar a dormir. É a única altura do dia em que uma correntezinha fresca alivia a casa, atravessando como um bálsamo os corredores e o pátio. Depois o sol assenta sobre a terra e o calor massacra, obriga homens e animais a procurar refúgio no meio dos hortos ou dos poços, ou das grutas, ou das caves, ou das adegas húmidas. A Andaluzia é um inferno de junho em diante.

À noite, as janelas são escancaradas. A imensa massa de ar quente precisa de ser expulsa das paredes, dos recessos, dos sótãos, do interior dos armários, da própria alma. Sente-se uma quietude a que os forasteiros jamais se poderão habituar, mas que às gentes de cá confunde a mágoa de uma vida tão árdua. Para lá do lintel das portas ergue-se então um vasto mundo de sombras, de alcáceres, de castelos mouriscos, de montanhas, de ecos de batalhas que o tempo não apagou ainda.

De madrugada, não muito longe, aqui em Escañuela, ouve-se o acelerar de uma moto de alta cilindrada. Uma ou duas por vezes semana, este despudorado atravessa as ruas da aldeia e acorda quem tarde se deitou e cedo tem se levantar. Não contente com a velocidade, com o fazê-lo a desoras, com o ruído partido do cano de escape, nunca repete a trajetória nem as noites em que decide apunhalar o silêncio geral. 

Na cabeça de Emilio Morales correm pensamentos assassinos. Imagina uma desforra, uma lição brutal, um exemplo para quem desafia o sentido da responsabilidade cívica e abusa da liberdade. Esta moto é todo o seu ódio de estimação. Há momentos em que ela se afasta e outros em que ela se aproxima. Em todos, o cano de escape parece soltar, além de fumo, um longo pernáquio trocista. Emilio perscruta o chiar dos pneus, o furioso cavalgar do motor ao longo das retas de alcatrão aquecido. Não consegue desligar-se desse movimento agressivo e traiçoeiro: mesmo nas madrugadas em que o pária não vem, ele aguarda-o, aguarda ansioso o momento em que o seu descanso seja interrompido pelo sopro da máquina, o momento em que essa vinda maldita termine de vez com a angústia da espera, porque adormecer antes dessa vinda pode significar por ela ser acordado e é esse o seu maior pavor.

Em agosto, porém, o ar pode mudar bruscamente. O ar abafado é substituído num par de horas pelo soprar dos ventos da tempestade. Assiste-se a um formidável fender de relâmpagos desde as camadas mais elevadas da atmosfera, pingos grossos cobrem as gretas do solo e fazem deslizar e transbordar as gorduras do asfalto, o cheiro da terra seca invade os quartos sobreaquecidos. Chamam a este perfume petricor. Há muito que os poetas andaluzes o cantam e anunciam ao mundo, mas as palavras não bastam para exprimir a grandeza deste espetáculo.

Escuta-se o zumbido de uma moto. Ela aproxima-se. O trovão do cano de escape parece querer competir com as forças da natureza. Emilio descarregou a sua praga, e nela o seu rancor. Vem à janela ver o criminoso. As luzes da moto lá estão, um olho vivo no meio da treva e da chuva, monstruosamente idêntico ao do gigante ciclope. Mas subitamente os pneus guincham, não é a derrapagem costumeira, deliberada, provocatória. É mais o estertor de uma manobra imprevista, o som desesperado de um erro de cálculo. Eleva-se o estrondo de uma queda, o replicar cavo e o raspar metálico, durativo, de um embate. 

Na Andaluzia o luto tem sempre a dignidade pesada de um tema que não se arquiva. 

Na manhã seguinte contam a Emilio os pormenores: o desgraçado teve morte imediata. Sofreu tantos cortes e tão profundos quantos os que a imaginação permita adivinhar. Os railes afiados são uma faca, particularmente se contra eles somos impulsionados.

Emilio Morales rejubila em segredo. Sente que se cumpriu uma espécie de justiça divina, fulminante, atraída quem sabe pelo para-raios das suas preces. 

Mas agora tem pesadelos todas as noites. Vê o diabo em pessoa a arpoá-lo com o tridente, a empurrá-lo ao encontro de lâminas atrozes. Vê do outro lado do quarto labaredas altíssimas, cujo sufoco parece persegui-lo das unhas dos pés ao pescoço. Acorda em água, não se sabe aos berros, mas julga que sim. 

Aproxima-se da janela aberta e volta a escutar as trevas. O silêncio é total, somente interrompido de quando em vez pelo ladrar dos cães ao longe.

NA TRANSILVÂNIA

Julien Oncete
Fotografia: Julien Oncete

 

Em certa aldeia da Roménia, onde os rapazes se tornam homens aos treze ou catorze anos e as meninas se fazem mulheres ainda mais cedo, vê-se sem esforço os velhos a carregar pesos e a executar tarefas que noutras bandas se diriam impróprias para a sua idade. Aqui todos trabalham e ninguém parasita o próximo. A ociosidade e a mandriice são olhadas como modos desonrosos de viver e, por isso, existe no ser de todos uma força e uma robustez que lembram os antigos servos da nação.

Conta-se acerca desta aldeia a seguinte história:

Oriundo de uma outra terra, implantou-se em certa casa um bruxo. Nos primeiros tempos, acolhido com suspeita e curiosidade, o indivíduo pouco sinal deu de si. Era um homem obeso, de aspeto desleixado (destacando-se nele, por contraste com a magreza dos moradores, a pança protraída e bamboleante), sem cabelo, de olhos torpes e língua venenosa, cuja fala semelhava o discurso rude de um camponês. Não obstante, possuía a esperteza de todo o charlatão. Uma vez tolerado e aceite no lugar, passou a dedicar o seu tempo a receber e a ser recebido, inteirando-se de pormenores, segredos, ódios e ajustes de contas, debilidades e inseguranças. Era hábil no manuseio das frases. Com elas urdia as mais profundas e misteriosas invocações do demónio e, sobretudo, dava sempre a resposta que o temeroso interlocutor buscava. Em escassos anos, passou de respeitado a temido e enriqueceu. Acumulou, com efeito, luxos, privilégios reputação de homem poderoso.

Não podia ser mais irónico que um indivíduo incapaz de usar uma foice ou uma enxada, mole, covarde, sem escrúpulos, tivesse dobrado todos os que naquela povoação eram rijos, afoitos e íntegros. Em duas décadas de convivência com os naturais, a gorda sanguessuga semeou desconfianças, fez crescer as superstições daninhas que o tempo nunca apaga; por vias delas, desfez amizades, inquinou a boa vizinhança, submeteu os mais valentes. Todos receavam o alcance dos seus grimórios e ninguém levantava a voz para o questionar, desafiar ou contestar. O medo, como todos admitiremos, é uma arma maligna e eficaz.

Mas dentro de portas, à puridade, no antro da sua consciência ou da sua alma sulfurosa, o bruxo temia. Temia o futuro.

Como tudo o que é balofo, mentiroso e frágil, também o seu reino era feito de espuma e a sua existência acarretava riscos. Se algum dia, alguém ousasse fazer-lhe frente, se algum esclarecido teimasse em desacreditá-lo, se alguma das muitas famílias que o odiavam, tomasse a resolução de o punir, não teria ele como fugir ou esconder-se, pois a asquerosa reputação de um homem persegue-o para onde quer que ele vá e ao reino do medo costuma suceder-se o da vingança.

Também ele precisaria da ajuda dos demónios e os demónios são criaturas que existem apenas na boca de quem os pronuncia. 

Diz a lenda que uma manhã o encontraram empalado à saída da aldeia, perto da floresta. Uma estaca afiada de abeto havia-lhe sido introduzida pelo ânus e subido ao pescoço e ido mais além, erguendo-se à altura de um edifício de dois andares. Quem o via, cuspia com desprezo e voltava os olhos. Deixaram que penasse insuportavelmente oito dias, até que murchou como uma ratazana no espeto. Assim permaneceu muito tempo, lembrando a forasteiros e a conterrâneos que nenhum bem é maior do que a paz e nenhum pecado mais cruelmente expiado que o de uma afronta.

No interior dos Cárpatos as lendas são muitas vezes sangrentas, pese (felizmente) não passarem disso mesmo, de histórias falaciosas a que não devemos dar muito crédito.