A SANTA

Bobby Kostadinov
Foto: Bobby Kostadinov

 

A santa cheirava a cebola.

Comentava-se muito e a meia voz este facto. «Esfrega-se com o bolbo (rodelas ou casca é que não se sabia) para repelir o olho gordo» dizia-se aqui, «Faz infusões para prevenir a gripe» argumentava-se da outra banda, «É uma desleixada e não toma banho» concordavam todos.

Por culpa deste odor, o ambiente na sala de reuniões e, mais ainda, no gabinete pessoal, era pesado e às vezes pestilento.

A santa sorria bastante. A gengiva e a dentuça viam-se bem. Tal com a verruga e o tufinho de três pelos que dela cresciam em arco, como um emaranhadozinho de espigas bravas. No tampo da sua secretária, dentro das gavetas, no interior da agenda, por todo o lado, havia folhas avulsas repletas de garatujos infantis. A santa parecia ouvir toda a gente e não escutar ninguém. Desenhava.

– O Senhor Jesus olha sempre por nós. Há de guiar-nos nesta e noutras decisões difíceis.

O Natal estava à porta. Cada vez que abria os braços, a santa fazia saltar uma presilha da manga do seu casaco de fazenda.

– Mas, presidente, tem de existir uma alternativa menos dolorosa!

– Não estou a ver qual, caro secretário. Poupa-se dinheiro assim e salva-se a face de toda a gente… Talvez seja essa a vontade de Nosso Senhor!

Vendo bem, o botão da manga do casaco estava partida. Por isso, aquela presilha irritante dançava, ofendendo a concentração dos vogais, que mal podiam suportar o cheiro de refogado entre as paredes da pequena sala de trabalho.

– Caramba, mas estamos em cima das Festas! Esta decisão vai ser mais impopular do que nunca. – observou o tesoureiro.

– Pois… Mas quanto mais tarde pior. Além disso, elas não vão propriamente de mãos a abanar!

Nessa noite, antes de adormecer e de sonhar de novo com os seus quinze filhos numa roda animada (a cantar com ela e a bater palmas e a agradecer a Deus a dádiva da vida), a santa considerou com regozijo que as funcionárias teriam uma boa indemnização.

O segredo é sorrir, sorrir sempre. E deixar que o Senhor Jesus decida por nós o que é melhor para nós. O caminho das nossas opções pode às vezes afigurar-se bem tortuoso!

Nessa noite, quando adormeceu e os sonhos a fizeram elevar-se um pouco deste mundo vil, a santa cheirava a cebola ainda.