Será errado escrever muitas vezes sobre alguém que se ama?

. Para Maria Alice Pereira Costa, (08-06-1956 – 21-09-2024),  in memoriam . Arde sempre uma luz junto à Sagrada Família. Fiz uma promessa, que cumpro inquebravelmente. O lugar da luz deve ser esse, esse lugar onde até a noite chega a ser a bonita. É como nos quadros de Caravaggio: a sombra aconchega-se às velas, às …

Elegia, ou quase

. (Mateus, 20:1-16) . Na minha frente a paisagem mais significativa: vinhas desenhadas com precisão, um pequeno palacete entre elas, ao fundo – na orla do espaço – um bosque. Árvores outoniças, bordos amarelos e alaranjados, carvalhos, uma linha de choupos quase despidos a tocar – à distância – o branco, árvores verdes ainda, castanhas, …

Ezequiel

. É um mar de livros desde a porta. E a seguir a esta primeira está outra porta, para lá da qual um novo oceano de títulos pesa e alastra. Entra-se e fica-se de cabeça aluada, derramando a atenção, de alto a baixo, sobre coisas tão vagas e exóticas como num ervanário. E são elas …

Mais perto

. Procura-se, procura-se melhor, procura-se com afinco e é então que surge o orifício, melhor o alçapão, melhor ainda o portal para esse tempo julgado desprendido de nós, a vaguear no vazio – como uma jangada sem gente, quer dizer com gente, gente morta, gente que nos visita em sonhos e que nós visitamos no …

Ter tempo

. Ter tempo ou não ter tempo distingue o modo de vida da maior parte das pessoas e, sobretudo, divide a nossa em duas províncias praticamente incompatíveis, cuja fronteira se situa algures entre o fim da infância e o começo da puberdade, quando nos começamos a separar da elementaridade de levantar, lavar o rosto, vestir …

Vim até cá acima e fiquei

Fico e às tantas fecho os olhos. Às tantas as coisas fluem, as coisas vêm-me involuntariamente à boca, as coisas passam-me diante as retinas, atiram-se-me à nuca, coisas como os murmúrios da avó Amélia, coisas como o cheiro triste da murta nos dias que se seguem ao Natal, coisas como a castidade absoluta das suítes de Bach, coisas como a maciez dos seixos, como a cor fulminante do papel debaixo dos versos de Camões.

Os poetas pobres

. Os poetas pobres veem as coisas de um modo que significa alquimia. Tocam-nas e transformam-nas em ouro, ou devolvem-lhes o ouro que têm, mas que (coisas singelas que são, coisas do seu estatuto social, coisas que os olhos dos poetas ricos desprezam) passam por insignificância, tolice, apontamentos de pé rapado. César Vallejo foi um …

A grande nostalgia

. De algum lugar obscuro da minha memória vêm-me chegando por estes últimos dias saudades da antiga Escola Montelongo, onde frequentei o 5.º e 6.º anos, o Ciclo, como então lhe chamávamos, escola nos arrabaldes da cidade, pobre, sem cantina, sem ginásio, com uma escadaria larga que nos levava da cave ao piso superior por …

Eugénio e a Foz

. Entre agosto e setembro há a Foz do Douro, o mar, Eugénio de Andrade. Caminhando pelo Passeio Alegre, ou pelas avenidas dos plátanos (rua de Gondarém e rua do Marechal Saldanha), seguindo pelos pontões e pelos molhes, atravessando a pérgula e os passadiços ao longo da marginal, fica-nos a impressão de que há certas …