Os irmãos

Fotografia de Eugene Zhyvchik

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Os dois irmãos viveram sempre juntos desde a infância. Depois veio a Grande Guerra e separaram-se. Um foi mobilizado, o outro não. No final do outono de 46, reencontraram-se. O antigo soldado vinha perdido, com a cabeça saturada de recordações. Decidiu, por isso, viajar pelo mundo.

O outro irmão, mais velho, mancando sempre, anuiu com tristeza.

– Tonino, assim nunca mais voltaremos à infância!

– A infância de que falas está tão ardida como a madeira desses toros que vês agora em cinzas.

Despediram-se no lintel da porta, sem efusão. O outro foi a pé e de boleia e de novo a pé desde Santarcangelo, seguindo o vale do rio Marecchia até Rimini. Depois desceu o Adriático, atravessou o Mediterrâneo e entrou no Atlântico.

De quando em quando chegava uma carta. O irmão empilhava-as a todas, sem as abrir, numa caixa de medir feijão, adivinhando o que diziam. Também recebia telegramas, que lia de soslaio e que a seguir enfiava na mesma caixa bolorenta, pois era lavrador e telegrafista.

Por fim, Tonino regressou a casa. A idade atingira-o de tal modo que na aldeia ninguém o reconheceu.

O irmão perguntou-lhe simplesmente:

– Vens para ficar, ou vais continuar na vadiagem?

Deram um curto abraço e foram caminhar para os lados da colina do Castelo Malatestiano, repletos de árvores floridas.

– Podes ter visto as muralhas da China e a Amazónia, muita gente, muitas criaturas filhas de Deus, mas não viste nada tão belo.

Apontava para uma enorme ameixoeira toda branca, cujas florinhas sobre as ramagens e sobre o magnífico tronco em forma de P maiúsculo pareciam faiscar. Crescera no meio de um campo onde ambos, muito tempo atrás, haviam tido a primeira grande briga.

– Não, Fedro, nunca vi nada mais belo!

E foi como se a infância de um e de outro trepasse àquelas pétalas e, empoleirada lá no alto, dissesse coisas de inexprimível alegria.

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O sineiro

Fotografia de Larry Costales

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Depois de os sinos ribombarem lá no alto do campanário, os ouvidos ficam a chiar um pedaço após o que o grande silêncio volta a enchê-los com a paisagem ampla do vale do Arno.

Nicolau Ettori é sineiro desde os setenta, vai para cima de vinte anos. Sobe os degraus de granito em espiral da igreja de San Francesco até atingir o céu. Quando o vento seco de sul sopra forte dos lados de Siena, os sinos emitem pequenos gemidos antes mesmo de ele alavancar as cordas. São como faúlhas de som. Como o frémito dos touros prestes a serem puxados para o meio da arena.

O ancião conhece essa linguagem misteriosa trocada nas alturas, no sítio exato onde o aroma do feno fresco, do rio, dos fornos acesos chega aos dorsos de bronze e os faz estremecer. Sossega-os sempre com palavras meigas:

– Calma, meus filhos! Isto é só o vento a brincar por aqui. É apenas a aragem a experimentar-vos a paciência.

E começa o seu ofício com o ímpeto de que são capazes os seus braços. Então, sim, o atroar cobre a distância, os telhados, os campos, as azenhas, o horizonte ao longe, na linha onde bandos de pombos se põem a desenhar círculos velozes, extasiados, repletos de uma alegria doida.

Ettori duvida que Nosso Senhor aprecie um alarido tão ensurdecedor. Pergunta-se se não seria mais belo e apropriado o chamamento simples das flores ou da água ou das nuvens rosadas ao crepúsculo. Uma vez confessou-o a Monsenhor Benito Esposito.

– Não, Nicolau. Isto já não vai lá assim. Deus precisava era de tiros de canhão para acordar toda esta cristandade desmazelada.

Foi a resposta que o sineiro escutou.

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Sombridão

Fotografia de Bernard Tuck

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Era na penumbra que António se esconsava. As sombras – digamo-lo – dão-se bem com a miséria e com a vergonha dos doentes. Foi, portanto, numa das entranhas do casebre que o ancião escutou o chamar da enfermeira.

– Boa tarde, Sr. Paupério!

A voz, rouca de solidão, tardou-lhe, vinha embargada, num fio de água a nascer em fundo de poço.

– Boas tardes!

António tinha a barba por fazer. Rala e com restos secos da sopa, compunha-lhe um ar mais pobre e uma expressão mais triste.

– Então? Como estamos hoje?

António Paupério, velho mineiro, pai de cinco rapazes e de outras tantas moças, não sabia como estava. Hoje era uma palavra tão odiosa quanto as outras, tão pungente como as que lhe dinamitavam o peito.

– Estamos bem, graça a Deus!

E as lágrimas começavam. Era árduo senti-las, dificílimo represá-las, impossível pôr-lhes uma escora no sítio onde batiam mais em pedra.

Um homem acostumado à força da picareta e aos puxões brutais das rodas do sarilho, afeiçoado ao fundo da terra e ao cheiro da pólvora, domado pela treva e pelos acessos da silicose, não entendia como as putas das lágrimas o deitavam assim abaixo.

A enfermeira sorria e falava-lhe com voz mansa, com a pele ternurenta das mãos.

Ele, António Paupério – palavra de honra –, não compreendia porque sufocava.

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Em casa também se debate literatura

Fotografia de Rafaele Corte

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– Não!

Joachim Meyer disse não como quem decapita o ar com uma espada.

– Não! Existe uma enorme diferença entre ambos!

E pôs-se a atingir com os olhos o canteiro das belas begónias que viriam depois desta neve tardia, a qual fazia pesar os torcidos de ferro fundido que suportavam o vidro da estufa.

– Sempre gostei da escrita de Michael – ripostou Christine. É um homem superelegante e fala bem.

– É uma avelã chocha…

– Oh, Joachim!

– Christine, lês mesmo um tipo que repete metáforas românticas vomitadas há três séculos desde Wordsworth e que não sabe quem foi Wordsworth? Um tipo que cola hífenes para disfarçar a pobreza de vocabulário? Que lê os seus poemas como um gato com um cio, mas incapaz de dar-se conta das redundâncias e da verborreia e de um mau verso «o inverno transforma as paisagens», ou do fedor dos próprios dentes?

– És cruel, Joachim!

O inverno na Baviera não transforma a paisagem, apenas a cutila bastante e a apaga num azedume por vezes alcoólico. Apaga-lhe o tom alaranjado das longas florestas que sobem com o Isar até ao Danúbio e afugenta das bocas o sorriso que teriam outrora os autores das litografias. Aqui o branco não se distingue do branco. Meyer vê o focinho de uma raposa e pensa nas suas begónias sepultados no nada, escuta o crocitar das gralhas e pensa em Schumann, discute com a mulher e sente uma vontade irresistível de beber. O mundo monocromático e gélido é uma merda.

– Existe uma enorme diferença de talento entre Michael e Johann. Uma enorme diferença.

– A tua obstinação. Bolas…

– Johann escreve devagar e bem, com luz, mas sem fogos de artifício, medindo as palavras e colocando-as em ogivas delicadas como um pedreiro nas catedrais.

– Juro, não entendo a tua raiva a Michael…

– É um balofo. Escreve muito e mal, aparelha ideias ocas e anda sempre atrás do aplauso.

Christine olhou a neve. O gentil precipitar dos seus flocos recordava-lhe alguma coisa antiga, repleta de graça e de amor, talvez o incipit de um desses admiráveis contos de Jacob e Wilhelm Grimm.

A literatura é um destino terrível, imbricado de bifurcações, onde facilmente dois companheiros de jornada se perdem. Há sempre o caminho da direita e o da esquerda e nunca se pode saber com um mínimo de certeza o que nos espera do outro lado das boscagens.

O inverno na Baviera não transforma a paisagem. Somente as almas, que lhe perscrutam o branco e às vezes divisam palavras, outras vezes passamanes feios a fingir que o são.

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Duas visões

Fotografia de Luciano Caturegli

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Não resta muito a um homem senão falar das cisas. No desespero, as palavras são tiras de pano embebidas em água fresca sobre uma testa a arder em febre.

Noam Halliday desabafou com um amigo sobre a sua intenção de morrer cedo. Possuía o grande horror de envelhecer sozinho, de ficar como um pássaro desvalido, preso ao seu próprio corpo e através de longos anos de definhamento físico, sem que mãos e olhos bondosos fossem capazes de o ajudar e – mais ainda – de tornar a sua existência suportável até ao fim.

– Não serei um monte de estrume a enojar todos os que forem obrigados a limpar-me o cu e a porem-me morfina nas veias. Não serei um estorvo, Tom.

Justamente Tom Fleetwood era de opinião de que se vivesse a toda a brida, com o pé no acelerador, sem olhar jamais para trás ou para os lados, apenas em frente, entusiasticamente.

A sua experiência de ex-piloto da força aérea tornara-o blindado aos efeitos mesquinhos da visão colateral, porque – mobilis in mobile – o nosso alvo se obtém nas vertigens, em voo picado, em piruetas doidivanas com a adrenalina no máximo.

– Vive um dia de cada vez enão penses tanto, Noam! Se perdes um segundo a pesar, estás feito. És um monte de sucata ardida antes de te tornares, como dizes, um monte de estrume. Não te deixes dominar, homem. Liberta-te!

Mas Noam pensava. A vida não se lhe parecia nada com uma experiência de voo. Nem sequer com uma corrida de cavalos. A vida é uma coisa de caracóis, um fio de baba segregado devagar, como se não déssemos por si e, de súbito, zás, um pé em cima, esborrachando-nos até ficarmos uma nódoa no chão.

Julgamos interessante este diálogo. Não decidimos, porém, o nosso apoio a qualquer uma das duas partes na porfia, ou – se preferirem – em colóquio amigo, em divagar alegórico, em contaminar singelo de horizontes e opiniões.

Os fascistas

Fotografia de Michelle Raponi

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Os velhos fascistas, amargados como tubérculos na terra, reuniam-se à noite na taberna de Albertino. Não havia grandes palavras entre eles. Os fascistas, velhos ou novos, são incapazes de grandes palavras, só das necessárias.

Com o vinho as palavras, mesmo poucas e depauperadas, passam a pesar significativamente, mais ainda na boca de velhos agarrados ao palato sabujo de antigas palavras de ordem.

– Tudo a bem da nação! – atirava de chofre um dos irmãos Oliveira, o de cara amareliça, cor de ovo recozido.

– Tudo a bem da nação! – replicavam os outros fascistas, erguidos num ímpeto do seu sono aranhento e tubercular.

As cartas corriam das mãos ao pinho, do pinho às mãos. Albertino, com a sua gravata verde e o seu alfinete de ouro em forma de esfera armilar, servia a mesa do Henriquinho e a do Laurindo, servia a malga do António e a caneca do Severo, servia os Oliveira, os Guimarães, os Alves, os Costa, o Fiolhais da Farmácia, às vezes o Padre Aníbal. A taberna era espaçosa, a noite uma grande saudade, as paredes uma coleção de retratos: a do Professor Salazar, a do Presidente Tomaz, a do Cardeal Cerejeira, a de garotos lendo o Thesouro da Mocidade Portugueza, a da malta da Legião esticando o braço e, agora, mais recente, a do comentador de futebol.

Todos os fascistas veneravam o tinto nacional, o bacalhau frito, o respeitinho pela pátria. Não havia um único pássaro na taberna do Albertino.

– Os pássaros são para estar nas gaiolas! – dizia o Albertino.

– Os pássaros são para estar presos nas gaiolas! – respondiam os demais fascistas.

Tanta liberdade e tanta alegria para uma só e mesma criatura parece-nos, de facto, um afoitamento desmedido, um manifesto, um perigo.

– A bem da nação…

– A bem da nação! – redarguia, com os bigodes a pingar de carrascão e olho vermelho, o Eduardinho, o menino da Dona Quitéria, o mais novo deles todos, apenas vinte e cinco anos, velho que metia dó.

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Utopia

Fotografia de Al Elmes

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Rafael Hitlodeu apanhava o metro das seis horas. Era o primeiro estágio da sua jornada diária. Quando caía num dos bancos laterais e se agarrava à estrutura metálica, sentia os olhos a arder. A luz artificial arruinava nele o velho prazer de viajar cedo e de se encontrar com o mar e com as árvores da floresta no exato instante em que o sol eclodia finalmente do seu sono.

O antigo marinheiro saía invariavelmente na mesma estação, no extremo sul da cidade. A mochila pesava-lhe cada vez mais, tal como lhe pesavam cada vez mais as pernas e a ginástica do pensamento. Mas a imagem do oceano tomado além pelo tom de fogo do céu, o fosforejar da espuma no sopé da falésia, o avistamento dos navios ao largo, carregados de silêncio, faziam valer o sacrifício.

À medida que os seus passos o aproximavam da floresta e do arfar pelágico, sob a forte impregnação dos pinheiros e da salsugem, a sua memória inchava e parecia deleitar-se com a constatação de que – como um ser vivo – se reintegrava no movimento das minúsculas esferas, das formas, dos astros, abandonando a pele ferida e morta e recobrindo-se de factos novos, de um frio renovado, de uma face de novo pura e pulsante.

Além era a ilha. Hitlodeu amava o luminoso contorno da enseada, o verde dos seus prados, do alto granito branco das suas torres sineiras. Ali era Utopia. E ele, à distância de uma légua marítima, avistava o palácio do monarca, o endireitamento das ruas, a beleza das pequenas casas construídas pelos habitantes mais dóceis, mais civilizados, mais justos que conhecera nos quinhentos e cinquenta anos da sua existência na terra.

Quanto mais perto parecia tocar-lhes, mais longínquos se afiguravam os azimutes e os costumes e as gentes insulares. Podia embarcar num ferry e ir. Mas o medo era muito. O pavor de uma deceção já não seria suportável. Na sua memória, sempre rejuvenescida, aquela ilha era o deslumbramento que o mantinha vivo.

O mundo envelhecera demais, demasiado depressa, despudoradamente. Novas ostentações de poder tinham tomado o lugar deixado pelas antigas ostentações. Guerras atrozes haviam incinerado a paz das bibliotecas e quebrado o busto dos pensadores. O otimismo e a dignidade humanos defendidos por Cristo, Confúcio, Rumi, Buda, Pico della Mirandola, Erasmo ou Thomas Moro foram-se tornando o otimismo voraz e a indignidade vil, horripilante, execrável da vozearia das repúblicas, dos senhores do dinheiro, da retórica fácil dos paladinos da filosofia hodierna.

«Quantas vezes nos deixamos enganar pelo fascínio dos sonhos incompreensíveis». Hitlodeu era um velho marinheiro português apaixonado pelo mundo. Utopia, mesmo à sua frente, seria porventura um tempo distinto num espaço diferente. Mas o velho viver dos homens jamais perdoará o que jamais aceitou e jamais aceitaria o que nunca compreendeu.
E quem nos garante que ele, Rafael Hitlodeu, reconhecesse ainda (se outra vez lhe abrissem de lá os grossos portões de ferro) o sonho formidável de uma ilha em forma de paraíso? Ou pelo menos de semente?

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O poder

Fotografia de Dario Veronesi

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Elegeram um espantalho para rei da província da Trácia. Todos os nobres depuseram o seu voto no fio da espada e no final da eleição ergueram-na, saudando o rei. Chamava-se Elónio.

O imperador apreciava reis-espantalhos a governar sobre a cabeça dos líderes tribais: é mais fácil domar povos entretidos com rebeliões internas do que refrear revoltas concertadas de nações sabedoras da sua força.

O espantalho, com a coroa entalada no crânio, agradeceu o sufrágio dos nobres e beijou a tabuinha de cera e o anel a remeter à púrpura a Roma.

No fio de cada lâmina estava escrito «Não durarás».

Um inverno se passou. As legiões do Lácio encontraram a cabeça desprendida de Elónio nos idos de março. Tinham-lha tirado aqueles que logo depois ficaram sem ela, a oscilar lá no alto, levemente, na pua das suas cimitarras. Incluindo a do novo monarca-espantalho, cuja autoridade Tibério não reconhecia.

O poder, haveria de escrevê-lo Suetónio, o historiador de Os Doze Césares, é um pequeno vento passageiro, é menos do que uma viração da primavera. É um peido pestilento: acontece e, zás, já se perdeu, balordo, entre as fragrâncias noturnas dos jardins do Palatino e do Capitólio.

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Campo dei Fiori

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Mercado de fruta
Fotografia de Slim Mars

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Campo dei Fiori é mais concorrida num determinado dia do que todas as praças de Roma juntas em qualquer parte do ano. Cabazes e cabazes de alperces turcos, mirtilos da Dalmácia, melancias e laranjas do sul da Ibéria, maçãs uzbeques, maboques do Botswana, ameixas azuis da Polónia ou múcuas de Madagáscar invadem os pequenos quadrados onde reina o mercado das flores e onde a estátua escura de Giordano Bruno acabrunha há muito as consciências.

– Um abutre reconhece sempre os outros abutres. Morram os abutres, cazzo!

Palavras praguejadas como estas de Filippo Constanza multiplicam-se. O chão tapizado de restos podres, escarros e insultos é o que se pode esperar de um lugar coabitado por competidores. Todos ganham, tudo se vende, no entanto, a rivalidade corre nas mãos.

Trinta e cinco euros por um quilo de rubicundas cerejas portuguesas é quanto Ignazio Monticcino acaba de embolsar. Ao dele, Federica Livorno seca as mãos ao avental, depois de ter tratado cirurgicamente das suas orquídeas-garça, eleitas por gosto unânime, como as mais belas e as mais caras que se podem transacionar em Itália: cinquenta euros a unidade.

– Um abutre é sempre um abutre. Morram os abutres, cazzo!

Filippo Constanza comercia limões calabreses. É ácido e luminoso como eles. Todas as más palavras respingadas da sua boca são ditas com um sorriso. O mesmo sorriso que esboça quando corta um dos limões em dois e o come tranquilamente em dentadas certas.

Os abutres, aliás todas as espécies de aves raras, todas as formas de carne, diga-se, são mercadoria expressamente proibida agora pelas autoridades em Campo dei Fiori. Isso fica para o Rionale di Monti, ou para o Mercato di San Cosimato.

Não compreendemos, portanto, a que abutres se refere Filippo Constanza.

Os colegas vendedores, que muitas vezes baixam os olhos quando o escutam, também não compreendem. Giordano Bruno lá do alto do pedestal talvez o saiba. Mas a ele não o ouvem, há bem mais de quatrocentos anos.

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Nozes sagradas

Isaac Sloman
Fotografia de Isaac Sloman

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Destroçado por uma violenta onda de desânimo, Aquilino encafuou-se numa cova junto a um grande carvalho secular, na qual se espojava com lentidão e de onde raramente saía.

Tomara-o a acídia.

Por muito que ocultasse os olhos e silenciasse os ouvidos, continuava a ver e a sentir os golpes dos mercenários truculentos de Recaredo, as casas toscas transformadas em tochas, os gritos do povo massacrado, os monges caídos num lamaçal de terra, charcos e sangue.

Tudo por culpa da fé.

Os homens que muito amam odeiam muito e os que muito odeiam amam demais. Deles, como do vento volúvel, pode esperar-se tudo. O muito amor e o muito ódio são dois rios num rio só:

Naquele antro, onde as raízes das árvores se distendiam e encordoavam, onde passavam a correr ratazanas e centopeias, onde o sol jamais ousava adentrar-se e cindir-se como a luz de um círio, Aquilino desejava antes de todas as coisas e sobre todas elas tão-somente a morte.

De que se alimentava Aquilino? A que prodígio devia a sua resistência? Em que resto de forças descobrira ele forma de atenuar a dor?

Ninguém o soube dizer.

Conta-se que no começo do inverno, um esquilozinho penetrou o covil com uma noz e – fitos os olhos de um nos olhos do outro – abandonou-lha nas mãos.

O animal fê-lo no dia após, e no outro, e nas semanas prosseguintes.

Aquilino recordou-se, então, das palavras santas de Ambrósio: «Cristo, Nosso Senhor, é a noz de que havemos de nutrir a boca e alimentar o espírito: a sua madeira arde como ardente é a cruz onde O imolaram; dura é a Sua casca, como duro é o corpo macerado pelo flagelo e consumido pelas chagas; prazenteiro é o pomo escondido pelo zesto, como saboroso e encoberto é o mistério da Sua Morte e Ressurreição».

Aquilino acordou da tristeza.

No dia do Natal, entrou com as vestes esquálidas e a face macilenta nas ruas abarrotadas de Toledo. Era igual a um leproso no aspeto. Conta-se, e foi o grande o milagre, que Aquilino se dirigiu ao rei dos visigodos. Era igual a um profeta, a quem a verdade funda do seu sentir reiluminara as palavras, através das quais resgatou Recaredo da heresia ariana e o converteu à religião do povo.

Desde então, e durante muito tempo na Idade Média, se associou Santo Aquilino à pujança dos nogais e ao nascimento do Messias. Com a lenha dos nogueiras esculpiram-se as primeiras figuras do presépio, com as cascas das nozes acendia-se o lume dos turíbulos, com o seu recheio condimentavam-se as viandas e as iguarias natalícias.

24.12.2024

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