A velha casa

Fotografia de Sven Fennema
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Aquele lugar tinha sido magiar, romano, bizantino, otomano, húngaro, soviético. Agora era de que tivesse muitos euros e bom gosto. Sobre os velhos hotéis foram levantados novos e luxuosos empreendimentos turísticos, rivalizando em número de quartos, prestação de serviços e anúncios em línguas estrangeiras. À entrada da cidade, uma placa dizia «Üdvöljük Tihanyban», querendo dizer «Bem-vindo a Tihany». Na verdade, deveria antes explicar «Desfrute o Lago Balaton». Pela sua arquitetura e decoração vintage, destacava-se na vertente sul o Hotel Olympus. Aí, em qualquer varanda e com alguma sorte pode estar-se no paraíso.

A vista é, indubitavelmente, soberba. Sobranceiros ao curso de água avistam-se belos palacetes ao gosto da Renascença, perfilando-se compridos ciprestes e pátios com colunas de mármore, aonde sobe volta e meia a elite para uma boda, um pôr do sol ou para uma sessão fotográfica nos meses de verão. No inverno as montanhas ao redor do Balaton cobrem-se de nevoeiro e depois de neve e todo aquele lugar é uma pintura romântica, para onde convergem artistas, filósofos, magnatas, predadores de toda a espécie e de todas as vocações. São especialmente assíduos os cineastas e fotógrafos americanos, sequiosos de génio, antiguidade e mulheres europeias.

Em dezembro de 98, o californiano Mike Juno alojou-se no Olympus no momento em que fazia uma tour com uma assistente argumentista para preparar a rodagem do filme de ação com que tencionava alcançar recordes de bilheteira no final do ano seguinte. Aí conheceu, também por circunstâncias profissionais, a fotógrafa franco-canadiana Danielle Ducrot. Conviveram duas manhãs, duas tardes e uma noite. Os hóspedes vizinhos do quarto 507 denunciaram sucessivamente nessas noite e madrugada o ruído escandaloso que dali chegava. O jovem na receção tentou sem sucesso fazer alguma coisa, convencido de que o problema se resolveria sozinho. E resolveu. Porém demoradamente.

Após isso, a fotógrafa regressou a Budapeste, de onde seguiria para Nice e de lá para Vancouver. O americano ficava mais uns dias. Deixou-se cair, entretanto, numa melancolia extática, a que jamais havia cedido em toda a sua existência de quase meio século.

Prova do que dizemos foi a caminhada que decidiu fazer até a um miradouro lá no alto da peninsulazinha. Fê-la sozinho, levando consigo uma mochila e a sua Leica vetusta de celuloide. Era uma manhã solar, silenciosa, sem excitações de espécie alguma. Danielle partira e da anterior lascívia restava apenas uma memória contaminada. Em Los Angeles esperavam por si uma mulher jovem e um filho pequeno. Havia semanas que a sua viagem de volta ia sendo protelada. Ocorreu-lhe a semelhança com Ulisses. Por um breve momento, coincidiram dentro de si o orgulho, a vergonha, o medo e o desejo de catarse. Era simultaneamente um homem velho e um homem novo, um bandido e um contrito. Aquilo nunca lhe havia acontecido. Sentia uma propensão quase irresistível para as lágrimas. Apeteceu-lhe abandonar o mau filme em que se via aprisionado e começar ab radice uma película nova, complexa, abstrata, a que chamaria «A velha casa».

Mas foi somente um instante, uma iluminação, uma turvação, provavelmente por culpa daquele sol, daquele espelho de água, daquela maldição que ata os europeus a labirintos sinistros.

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O Costa

Fotografia de Ludwig Riml
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«Comer onde comem poucos, trabalhar onde trabalham muitos» repetia o Costa, enquanto irritado com a garlopa ia desbastando e alisando o pau do eucalipto que trouxera do monte. Tinha quarenta e três anos. O cabelo e a barba haviam tomado a feição rala e grisalha de um velho, os dentes escasseavam, o lombo curvava, os olhos e as mãos mostravam-se nervosos e sem encanto. Aos pés da burra as aparas enroladas de madeira empilhavam-se.

Setembro principiava, precisava-se de uma escada nova. Mas ele, circunstância imperdoável, não podia contar senão consigo mesmo. Enfurecia-o o facto de os filhos irem procurar as moças em vez de lhe deitarem uma mão. Noutros tempos teria funcionado o cinto, mas agora não lhe restava outro remédio senão murmurar. A mulher de quando em vez mirava-o, amaldiçoando aquele azedume, aquela expressão vingativa, aquele zelo hipócrita que a meio da tarde haveria de curar na taberna, com dois ou três quartilhos de vinho entre meia dúzia de partidas de sueca.

O Costa escolhera e serrara o tronco, agora alisava-o com a garlopa e com o rebote, para em seguida o medir cuidadosamente e marcar com giz. Depois, sempre com o cigarro no canto da boca e praguejando alto, chamou pela mulher e por uma das raparigas, para que lhe segurassem as pontas, enquanto ele fizesse rodar o trado perfurando a madeira vinte e cinco vezes, no lugar onde deveriam posteriormente ser apertados os vinte e cinco degraus.

«Bem diz Caifás: manda e faz e servido serás!» repetia, sempre a meia voz, sempre de olhos postos no tronco, para que ali se soubesse que a culpa daquela desfeita dos filhos varões se devia unicamente a ela e não podia ele calar-se ou perdoar, visto que se era certo não dever trabalhar-se no dia de Nosso Senhor (essa era outra das máximas do Costa), ele o fazia-o apenas nesse domingo por incúria dos filhos, que daquele modo e tão perto já das vindimas o despreveniram.

– Moça, segura bem. Não o deixes mexer!

A cada fala mais alta e mais severa dele, mais fundo se desenhava nos olhos da mulher a sanha. Bem sabia ela como gostaria aquele velho de ter aproveitado melhor o dia de descanso para dividir na taberna infusas e bazófias, provavelmente uma meretriz de ocasião com os parceiros de jogatina. Mas estava ali, preso, debaixo da ramada, a construir um escadote de vinte e cinco passadas, como competia ao homem da casa e a um pai de família honrada.

Feitos os furos, o Costa teria de passar o fio do serrote de alto a baixo, dividindo o tronco nas duas pernas que em breve seriam içadas e usadas. Tinha o talento de todos os camponeses, de trabalhar simultânea e indistintamente nos muitos ofícios que a terra impunha, metendo com o mesmo desenrasque e o mesmo denodo as mãos à farinha e ao estrume, tanto fazendo de alvenel se fosse preciso reconstruir um muro, como de tanoeiro quando se precisava de construir um pipo. Tudo o Costa sabia fazer. Até bastardos. Inimigos até.

A mulher passava agora com o balde da lavadura. Ia cevar os bácoros. Ninguém lhe tirava da ideia que aquele homem azedo podia ter sido melhor pai e melhor marido, e de que em algum momento passara a odiá-lo, como ele a odiava a ela. Porém, estava-lhe grata, pois no mundo dos deveres, o primeiro de todos era sustentar a família, e esse dever cumpria-o o Costa.

De cócoras, cuspindo nas mãos, o velho terminava a tarefa aramando os degraus da escada. Se alguma vez um eles (corroído pelo tempo ou pelo bichedo) desabasse, sempre podia o corpo lá no alto segurar-se ao fio de metal que o capeava, livrando-se assim de uma queda certamente fatal.

A tarde ia já a meio. O Costa libertara finalmente a miudita que lhe servia de cavalete. Talvez nesse domingo não fosse beber. Pelo menos seria como nos primeiros tempos de casados, pensava a mulher, enquanto na esquina da eira espreitava. Ninguém lhe tirava da ideia de que lá no fundo ele ainda gostava de si. Em coisas de amor e de ódio ninguém sabe bem o que dizer. Isso ela o dizia, ele não. O Costa não conhecia esse adágio.

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A tangerineira

tangerinas, mandarin tree
Fotografia de Lydia Jacobs
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O leproso tinha um cão. Procurava todos os dias o amparo de uma grande pedra para se pôr ao sol. O vento sacudia as crinas, mas sem lhe magoar excessivamente a pele ulcerada. Primeiro morreu o cão. O leproso enterrou-o num sítio onde viria a nascer e a crescer uma grande árvore.

Em dezembro o vento é glaciar, a bela tangerineira mexe os seus canos carregados de fruto. Ali, no que era um lugar ermo, construíram uma gafaria. Os curiosos vistoriam a pedra onde há um buraco semelhante à casca de uma pevide, mas sem a semente, sem a luz do sol aninhada no seu interior.

A única parecença com o lume é a das tangerinas maduras. Quem as vê enche-se de piedade. Sob o impulso do vento gélido, elas baloiçam como carvões acesos. São pequenas chamas aquecendo o olhar.

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