Espécie de elegia

W. Eugene Smith - Charlie Chaplin, 1952 I
Fotografia de W. Eugene Smith (1952)

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«A coisa mais triste do mundo é assistir ao espetáculo de um humorista que perdeu a piada» disseste certa vez enquanto empurravas o charuto com a língua e humedecias as palavras com bourbon do forte. «Assistir a uma trampa destas pá, que tristeza!» Não me lembro do nome do artista nem das anedotas que contava. Lembro-me das lantejoulas, do chapéu, das mesas redondas e de ter pensado como é terrível alguém tornar-se caricatura de si mesmo. «Este tipo chegou a levar quinhentos contos por meia hora…». Fixei o número. Nem por um segundo desconfiei que fosse exagero. «Olha-me para ele agora… um palerma a imitar o pior do Herman… Que trampa!»

Sempre tive medo dessa fase. Sempre. Do Elvis gordo e sem timbre. Da Marilyn embriagada e sob o efeito dos barbitúricos. Do último Hemingway. Do último Picasso. Do último Pollock. Do último Coltrane. Do último Sinatra. Da Amália titubeante. Do Herberto Helder de Servidões e A Morte Sem Mestre, malcriado e escassamente luminoso. Sempre tive medo de me confrontar com o espelho, (como Chaplin em Limelight) e de tropeçar com olhos míopes e cansados num ser que se tornou paródia da sua própria pessoa.

«Agora dão-lhe cinquenta euros! Às vezes dão-lhe só de comer. Por piedade! Ao que este tipo chegou, pá!» As palavras cheiram a álcool. Ácidas e incisivas como enzimas devoradoras. Alguém na penumbra forçou uma gargalhada. É pavoroso que se simule um relâmpago tão inocente. A rapariguinha loira veio perguntar se tomávamos mais alguma coisa. Daí a nada o cabaré ia fechar. Com um sorriso apagado, frio como a sopa fria, restavam dois casais, uns quantos solitários e nós. «Cheguei a pedir-lhe um autógrafo… No princípio até lhe propus gravarmos uma cassete!»

Com angústia o palco e o microfone tornam-se claustrofóbicos. Um tipo suado e sem modos passava um pano no balcão e fez tilintar os copos com desdém. As bailarinas, já sem maquilhagem e com as golas dos sobretudos subidas, despediam-se desrespeitosamente deste barman saído dalgum filme lúgubre. O ruído dos tacões fez dispersar o que restava da nossa atenção. «Olha-me só para aquela mulata… Muito bem, hem?» O público bateu as palmas finais, aliviado, infeliz, como todo o dever cumprido sem amor. «Este tipo não presta. Foi tempo perdido… O que vale é ali a mulata. Boa, hem?» E levantámo-nos. Fizeste menção de pedir mais dois copos. Recusei. Insististe. Insististe mesmo em pagar um copo ao tipo do stand-up. À rapariga crioula também. Fui obrigado a beber.

Sempre tive medo destes copos que se bebem com fome, desta espécie de buraco negro absorvendo-nos as ganas de viver com um ou dois cubos de gelo, ou mesmo sem gelo nenhum. «O que é preciso é alegria, meu amor!» O humorista engolia o malte à pressão. Achava muito bem. O que era preciso era muita alegria. A rapariga gostava que cochichasses e lhe desses beijos no pescoço. «O que é preciso é isto, muita alegria, hem!». E eu sempre tive medo dessa tristeza, desse apelo ao esquecimento, desse convite à cirrose hepática e a todas as formas de estar em ruínas no mundo. «Haja alegria, pá!» O tipo do balcão, sob o acicate de uma gorjeta generosa, pôs de novo a música a tocar e a acompanhá-la o globo anacrónico, como nos tempos em que usávamos patilhas imitadas do John Travolta.

Saí sem me despedir. Não quis interromper-te a química. Tu feliz, eu sabendo que a coisa mais triste do mundo é essa impotência voluntária, quando um tipo começa a cair e não consegue nem intenta reerguer-se («Assistir a uma trampa destas pá, que tristeza!» ), quando um tipo percebe que a coisa mais cruel é ter de olhar-se olhos nos olhos («Olha-me para ele agora…») e não suportar o que vê…

Saí. Farrapos de nevoeiro voavam sobre os telhados. A noite pareceu-me finalmente uma coisa concreta. Uma casa a que me recolhia sem pressa, sem palavras e sem piedade.

E não há nada mais triste do que isto. Tombar muito devagar, em câmara lenta, com a sala às escuras, à espera das palmas mecânicas, à espera que nos paguem o cachê, e digam «Muito bem», e perguntem «Amanhã à mesma hora, hem?», e nos paguem um copo, e nos façam sentir menos mal, um pouco menos mal, um pouco acima da linha do alcatrão sujo e quebrado.

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A propósito do absurdo

Monique Krivitzki
Fotografia de Monique Krivitzki

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Um homem precisa apenas de escolher um banco e de sentar-se. Precisa de ficar atento, esperar, justapor os factos. Em breve estará tão saturado deles que a sua impressão da cidade e do ser humano terá sofrido uma sensível mutação. 

Um cachorro é atraído à porta de um talho. Hesita, olha desconfiado, as patas parecem conduzi-lo ora para uma, ora para a outra banda. A oferta decide-o. Mas pouco depois é pontapeado e sai ganindo. O choro toma, por breves instantes, a atenção de duas senhoras de óculos fumados que zelam na paróquia. Conservam ambas debaixo do braço grossos catecismos. Uma delas narra com prazer mal dissimulado a repugnante história do mútuo adultério do doutor e da doutora Simões. O pior é que ambos pertencem à mesma congregação religiosa que elas. Cabeças hão de rolar. Esse facto, essa antecipação, faz-lhes degustar o futuro como se degusta um bom café ou uma chávena de cacau. Quem as haveria de servir (o café, o cacau) é o miúdo gago da esplanada Atlântico. Os ociosos (taxistas, engraxadores de sapatos, aposentados, proxenetas) gostam de puxar-lhe pela língua. A paródia tem mais graça assim. A paródia, os gracejos, o vexame deixaram de constituir problema aqui. Desde que os clientes se disponham a gastar o dinheiro (o que agrada ao patrão), servi-los é um ato pacato, um ato de ódio contido. A humanidade deu muitos passos nestas mesmas condições. Sobreviveu sempre. (Quando duas ou três piadas asseguram um salário e algumas gorjetas, de que vale a pena rezingar?) O patrão é um homem meio doente. Entrou naquela fase da vida em que as memórias acordam sozinhas a qualquer hora do dia. Parece enfeitiçado por elas, tomado de assalto por pensamentos tão longínquos que se dirão astros perdidos no universo. Órfão por azar, também ele começou a trabalhar muito cedo. Pagavam-lhe com comida, pouca e má, num prato frio. O patrão, o velho juiz Simões, comia com a família à mesa. Os criados e jornaleiros na cozinha. Ele, à porta, num escabelo. Pensou durante anos que lhe chamavam Perro por ser lento. Só nas vésperas da tropa compreendeu a canina significação da alcunha. O osso que merecera tantas vezes de refeição enchia-o de ódio como um punhado de veneno encheria uma garrafa de vinho. Ser cão entre humanos é coisa que fica guardada. Não, definitivamente a humilhação não lhe é estranha nem tão distante que não possa agora regressar no voo livre dos pensamentos. Os olhos ficam esquecidos e marejados. Mas a grita na esplanada, as palmadas nas costas ao moço, as gargalhadas alvares dos tipos que limpam e cortam as unhas em público trazem-no de volta ao presente. Ele não gosta nada que brinquem com o miúdo naqueles termos. Ele é um gago, um pouco limitado, dizem que seu filho ilegítimo. O patrão detesta os escarnecedores, simplesmente as coisas atingiram uma tal perplexidade que não merece a pena protestar. Se o fizesse entregaria os fregueses à concorrência. Nesta terra a ferocidade é pouco subtil. Tem pena do gago, mas sobretudo medo da derrota. 

O homem, salvo pequenas nuances, é o mesmo em todo o lado. Uma cidade, uma vila, uma aldeola é isto. Um átomo exemplificativo. Nada de novo debaixo do sol. Nada de muito novo aqui. A velha condição humana impele cada gesto em cada esquina a atrelar-se a todos os gestos e a um só gesto. Em cada um, no todo, o Homem renasce e reenvia-se para o mesmo de sempre. Para compreender a essência desta questão, um transeunte precisa apenas de escolher um banco e de sentar-se. Pode, é claro, ler os contemporâneos Lipovetsky e Innerarity, pode recuar a Cioran, Russell, Sartre, Camus, a Heidegger, a Freud, ao velho Schopenhauer. Pode ler Platão e Aristóteles e todos os outros que as estantes empilharam em dois milénios e meio de filosofia. Ou pode, é o presente caso, escolher um bom lugar na sua terra e ficar atento. Demorará uma manhã no máximo, algumas horas, um pedaço do seu tempo. Em breve terá todas as provas de que necessita para sustentar uma teoria, bons exemplos da magnífica generosidade da sua espécie e excelentes exemplos também da orgânica e continuidade mediocridade que os elos do ADN não foram capazes de expurgar (torpeza, crueldade, injustiça, depredação: quem sabe o que a química poderia aqui fazer?). 

Camus define esta contradição da espécie com a palavra absurdo. É uma palavra significativa, útil e bela. Pode-se fazer muito com ela, até disparates. O indivíduo que queira compreender filosoficamente a sua pele precisa de ganhar consistência no manuseio de palavras como esta. Precisa de compreender a absurdidade e os paradoxos mais intrincados que as suas observações diárias autorizam a considerar. E uma cidade, ou uma vila, ou uma aldeola é um bom palco. Nela encontra boas amostras que pode depositar na lamela e analisar com detalhe ao microscópio. 

O cachorro é agora acarinhado por uma criança que ainda mal começou a caminhar. Os pais retiram-no (sabe-se lá que bicharada ali vive entre os pelos?), limpam-lhe as mãozinhas, ensinam-lhe subliminarmente o exercício da defesa e do repúdio. À porta do prédio as duas mulheres virtuosas conversam ainda. A porta abre-se e fecha-se, entram e saem os moradores, o assunto da conversa é demasiado valioso para que se despeçam. Atrás do balcão, o miúdo gago, ligeiramente corcunda também, conta as moedas que lhe deram os fulanos dos táxis. Vale bem a pena ouvir-lhes as graçolas. O patrão tira uma imperial. Oxalá o Benfica seja campeão. Os clientes discordam. Pois que seja campeão o Porto. Ou o Sporting. Tanto faz… 

Absurdo! Uma excelente palavra! Ainda assim, ainda assim, tão oca no fim de contas, como todas as outras.

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