ASSOBIO

Osamu Asami
Foto: Osamu Asami


Na esquadra local da polícia de Poznań, o agente Mirosław Ciepluch manuseia distraidamente uma lupa. As horas do turno da noite, exceto quando faz a ronda, podem ser bastante enfadonhas. Estudar a sua coleção de selos ajuda-o a manter-se acordado.

Nesta altura do ano, a neblina cresce durante a madrugada e vê-se bem a sua passagem debaixo do halo alaranjado dos postes elétricos. Começa nas águas do Warta e aos poucos propaga-se por toda a cidade, encobrindo os telhados e as torres das igrejas. Um apaixonado por literatura policial veria neste fenómeno o cenário ideal para o crime mais hediondo. Um sobressalto, com efeito, esconde-se nesse manto. Campeia nas ruas, e com a maior das impunidades diga-se, o perfume das tílias. 

Ciepluch sabe o que é esse cheiro. Ao longo do ano dá-se conta da chegada e da partida misteriosa de ocorrências similares. Os narizes no ar, cheios de lascívia, respondem aos eflúvios das frésias, papoilas, magnólias, glicínias, das flores de laranjeira, dos jaracandás, dos agapantos, até das ervas e da relva aparada. 

O nosso agente policial conhece o poder destabilizador destas entidades. Lastima, nestas matérias nada despiciendas, a passividade das autoridades superiores. Os viciados em aromas, em especial botânicos, casais de namorados e poetas, exibem terríveis sinais de agitação nos bancos dos jardins públicos (como se nas suas vidas nada importasse mais do que o hausto, o êxtase e o amor).

‒ Boa noite, menina Agnieszka!

‒ Boa noite, Ciepluch. – cumprimenta, com a maior secura, a jovem bibliotecária.

Quando rodava a chave na porta, antes de entrar em casa e de ser cumprimentada, a bela loira sorria. Além, prestes a ser engolido pela bruma mas ainda ao alcance de uma vista treinada, um rapaz estuga o passo. Ciepluch, que detesta insubordinação e ruídos noturnos, ouviu-o assobiar.

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