LAVOISIER

Christophe Kiciak
Foto: Christophe Kiciak

 

Ao alto, a máquina tem o imponente aspeto de uma parede interrompendo o caminho da cidadela para os subúrbios. Mas a populaça grita, e com a populaça chiam as rodas dos carros e com as rodas dos carros resmungam homens esfarrapados, que pontapeiam e empilham cabeças em cestos de vime. Estamos no 19.º dia do mês de Floreal. Maximilien é o sumo pontífice da nova religião do Estado.

Antoine Laurent de Lavoisier segue com sua mulher, Marie-Anne, na proa de uma carroça, puxada por uma pileca. Chovem os impropérios e os escarros. Agitam-se forquilhas e varapaus. Também as rameiras de Paris se juntam para uivar o seu ódio ao aristocrata. Com elas increpam as vendedoras de peixe, os açougueiros, os taberneiros, os tecelões, os curtumeiros, os sapateiros, os carvoeiros, os camponeses, os alfaiates, os boticários, os doentes, os mendigos, os ladrões, os trânsfugas, os clérigos apóstatas, os loucos. Engrossa das ruelas para a praça a multidão execradora. Antoine leva os pulsos presos em cordas, como um criminoso vulgar. Marie-Anne traz o vestido rasgado e tingido de sangue. Por toda a praça se atiça o fervor sanguinolento. O incorruptível chefe da Convenção vibra. É de peso o nobre cientista. «Roubar-lhe a cabeça não servirá senão para nos afogar mais ainda no sangue da ignomínia» lamenta Joseph-Louis de Langrage.

A tropa revolucionária encarniça-se na execução de Marie-Anne Pierrette Paulze. Fá-lo desta vez com requinte, metodicamente, e não à bruta. Lavoisier, assim visto pelo exterior de vidro, não vacila. Por dentro, as moléculas possíveis da miséria humana eclodem num frenesim, quando se escuta o desamparo rude da lâmina sobre o corpo da mulher de Lavoisier. Dois pares de sujas mãos envolvem agora o pescoço do eminente cientista-filósofo, constringindo a traqueia e as parótidas. Cheiram mal as imundas mãos, cheiram nauseabundamente, se é possível dizer assim. Cheiram à pura impregnação do sangue.

Um dos supliciadores diz em horrível francês «Vais-te cagar todo, meu porco». Fede a boca que o diz. Os escassos dentes encavalitados sublinham o grotesco da cena. É a alma da própria França nestes dias de igualdade, fraternidade, revoltosa liberdade.

Fazem tombar o homem numa espécie de carreto e apertam-lhe bem os pulsos e os tornozelos. Imobilizam-no horizontalmente e empurram-no em direção ao garrote, em linha perpendicular à força que o há de matar. É uma morte abrupta esta, que inventou o Dr. Joseph-Ignace Guillotin. As crianças sorriem. É um jogo. O fascínio de uma execução pública é como andar às cavalitas ou fazer uma dança de roda, brincadeiras tão afamadas neste século das luzes.

Lavoisier pensa. Dentro de alguns segundos juntar-se-á ao tempo de outro modo. «Também a matéria se revolve, como a água em círculos depois de uma pedrada. Mas tudo se aquieta novamente. Toda a matéria se recompõe, se reequilibra e remistura. Nada mais inútil do que pretender a permanência ou a imutabilidade». São pensamentos desordenados, quase nebulosos, porém intensos, como os pilares dogmáticos de uma religião nova. «Tudo se transforma», pensa Lavoisier.

A multidão escuta agora Maximilien Robespierre, que, inflamado, perora sobre a nação que se limpa, sobre o povo sublime que «extirpa as perniciosas ervas daninhas», sobre a sociedade que se cura «da ferida das antigas abomináveis sanguessugas», sobre «o futuro que se levanta do charco atroz da peçonha de todos os viperinos cortesãos».

Robespierre é jovem, tem o rosto ruborizado pela exaltação, os olhos de quem sabe amestrar a multidão, a expressão de quem fará triunfar princípios morais há muito sonhados. A lâmina da guilhotina, tantas vezes levantada e descida, pode bem aguardar. É imperioso que aguarde. É-o a bem da doutrina, para que esta penetre mais e mais no crânio desta feliz geração de analfabetos raquíticos, a quem a Providência destinou o papel de fazer erguer um patamar novo da história da humanidade. Robespierre apregoa ab imo corde, tem as rédeas da manipulação, tem o rastilho da ideia. Sabe que o veem como um messias, um jovem messias no cataclisma que a Europa está prestes a viver.

«Todo o universo é regido pelos mesmos princípios, leis, regras físicas», pensa Antoine Laurent. Não teme a morte, como não temeu a vida. «Em todo o esplendor da ideia há o formoso acaso da matéria revelada». O mecanismo circular das moléculas torná-lo-á irmão de cada mosca, das pedras, do sangue derramado e da alma dos mártires da violência, dos de agora e dos de toda a infindável geografia do tempo.

Já Robespierre se calou. Já a mão do algoz se soltou. Já o geométrico aço desce, dividindo o que antes era um portentoso espírito da humanidade. Já Langrage profere a célebre máxima de que «Não bastará um século para produzir uma cabeça igual à que se fez cair num segundo». Já a aclamação do vil poviléu se alastra, passando muito para lá da Praça da Bastilha, por todos os meandros desse coração às artérias menores… Já Lavoisier, ou a cabeça dele, é segurada por um palafreneiro embriagado, que a sacode como um troféu. Já o seu corpo restante é retirado do palanque para dar lugar a outros nobres que aí vêm, em carroças de bois, uns enjaulados, outros caídos, outros a pé, sofrendo o enxovalho final de suas desconcertantes existências.

Há de um cronista qualquer, meu mestre, tomar a sério o duro ofício de narrar estes funestos acontecimentos. Estamos a 8 de maio de 1794, 19 do mês de Floreal.

Anúncios