João Ricardo Lopes estreou-se em 2001 com a publicação de um conjunto de pouco mais de trinta poemas, intitulado a pedra que chora como palavras (Labirinto), obra vencedora do IX Prémio Revelação de Poesia Ary dos Santos, atribuído por um júri composto por José Correia Tavares, Baptista-Bastos e Manuel Frias Martins, em representação da Associação Portuguesa de Escritores e da Câmara Municipal de Grândola.

anoitece
anoitece
talvez sejas o mar e
eu vá descendo pelas pernas
azuis do teu corpo, como
a bola de fogo que se introduz mais dentro
nas linhas demasiadas do caderno
ou nos recônditos músculos
do oceano

a pedra que chora como palavras (2001)

No mesmo ano, e no âmbito de outro concurso nacional, foi galardoado com o XII Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres, distinguindo o volume de inéditos além do dia hoje, obra hoje esgotada.

depois das tempestades

depois das tempestades
tudo é belo, sobretudo
as coisas quietas:
o caderno, o sítio da roupa
a cortina, a rua e as portas brancas

o café, os jornais e o quiosque

a fala das mulheres na praça
é diferente das outras tardes:
hoje não falam dos outros

não fedem ao lixo da boca

talvez tenha enganado a peste

mais uma vez

além do dia hoje (2002)

Em 2002, o escritor publica contra o esquecimento das mãos (Labirinto), um conjunto de 84 poemas, divididos em sete quadros: «o lugar de onde viemos», «contra o esquecimento das mãos», «das tardes», «a noite de um homem», «memórias», «pequenas ilhas interiores» e «dos silêncios».

Trata-se de uma experiência poética de maior fôlego, que lhe abriria caminho para as primeiras traduções: para servo-croata, por Tania Tarbuk (Nova portugalska poezija, Hrvatsko Drustvo Pisaca, Zagrev, 2005); e para castelhano, por Jesús Losada (9 de 9 – Poesía actual portuguesa, CELYA, Salamanca, 2007)

Em rigor, contra o esquecimento das mãos apresenta-se como um polígono, onde os diversos tópoi do universo poético de João Ricardo Lopes se percebem já completamente definidos, entre eles a preponderância da memória, o jogo poesia-morte e a metapoesia.

raras vezes trespassam a pupila (a noite de um homem)

raras vezes trespassam a pupila

tão duras casas de pedra

sob a concha do luar, azul e amarela

o homem sorri de dentro, de muito dentro de si

é um homem de memórias

aturdido pela sombra dos colossos

mas é difícil saber o que pensa esse homem

é difícil saber o que sonha esse homem

está quieto, inerte, poisado na lonjura

como se fizesse uma despedida

e nós que o olhamos assim

sentimos todo o frio da terra inundar-nos o corpo

contra o esquecimento das mãos (2002)

*

raras veces traspasan la pupila

raras veces traspasan la pupila

tan duras casas de piedra

bajo la concha del resplandor de la luna, azul y amarillo

el hombre sonríe desde dentro, desde muy dentro de sí

es un hombre de memorias

aturdido por la sombra de los colosos

pero es difícil saber lo que piensa ese hombre

es difícil saber lo que sueña ese hombre

está quieto, inerte, parado a gran distancia

como si fuese una despedida

y nosotros que así lo miramos

sentimos todo el frío de la tierra inundarnos el cuerpo

(Trad. Jesús Losada)

No ano de 2004, sai a terreno (aquando doa Dia Mundial da Poesia) o volume Isto é poesia, coordenado e prefaciado pelo escritor, no qual se compilam, entre outros, poemas de António Ramos Rosa, Fernando Pinto do Amaral, daniel gonçalves, José Luís Peixoto, Jorge Reis-Sá ou Nuno Júdice. Trata-se, de acordo, com o texto preambular de uma homenagem à poesia portuguesa, numa altura em que “verificamos a fraca relevância do texto poético no mercado editorial, onde os grandes romances, ensaios e reportagens (para não falar de outros) passam das estantes às mãos do público como navios descomunais num oceano onde apenas um ou outro livro de poesia incontornável granjeia medir forças.” (p.7)

Ainda em 2004, João Ricardo Lopes é integrado na terceira, última e mais alargada edição da antologia Anos 90 & Agora (Quasi Edições), aquela que o antologiador, Jorge Reis-Sá, considerou ser a portadora dos “novos líricos portugueses” (p.9).

No final do mesmo ano, João Ricardo Lopes participa no projeto Histórias para um Natal (Labirinto), estreando-se na ficção com um pequeno conto intitulado «Desconto de Natal».

2005 assinala o regresso à poesia com dias desiguais (Labirinto), livro que estabelece uma procura de distanciamento em relação às obras anteriores, patente sobretudo na sua terceira parte da obra, onde o apego ao quotidiano e o recurso a traços retórico-discursivos próprios da oratória parecem evidenciar a preferência pela lição de Wisława Szymborska, escritora que profundamente marcará a sua arte poética nos anos subsequentes.

Klee
aconteceu por mero acaso
naquela nova cidade
naquele ano quentíssimo
no dia mais quente desse ano
eu e tu não tínhamos nome
viajávamos por mero prazer
em não sei qual museu
apontaste
«Klee»
era um beco de luz muito forte
a empurrar-nos de encontro a tudo.
quisemos pertencer àquele quadro
e nunca mais ao corpo
aconteceu por mero acaso
uma nova cidade
um beco de luz
Klee que nos despiu
eu e tu não tínhamos nome
viajávamos por mero prazer
*
apontamento
um dia acontece na estrada
entre as casas que passam
e as árvores que para trás deixamos:
fantasmas em que não acreditávamos
misturam-se no olhar
e dão às lágrimas um peso insuportável
paramos o carro.
à nossa volta paira a indiferença daqueles
que nunca nos viram
e cujo olhar fraco e vazio
nos obriga a pensar no inútil da partida
fazemos inversão de marcha
interceptamos as mesmas casas
as mesmas árvores
interceptamos o que supúnhamos ser
o fio esquecido do tempo
de repente somos pássaros com medo
da solidão e perguntamos:
a quem pertencemos nós
senão àqueles que nos amam?
dias desiguais (2005)

 

Em 2011, ano em que assinala uma década da sua estreia, João Ricardo Lopes regressa à poesia, género em que melhor (ou mais naturalmente) respira a literatura, partilhando o volume bilingue reflexões à boca de cena (português/ inglês).


proscénio

abre-se o pano e eles existem

um vocifera de calças arregaçadas, que ridículo
outro chora das tréguas da fortuna, pungentíssimo
e divertem à luz viva, fingem a contraluz.
existem num aparato de alma, guindastes à mistura
e solilóquios, grandes cenas dramáticas, gritos
sarabandas, momices, intrigas, tudo escrito e
decorado

por vezes junta-se a nós uma serena escuridão.

a vida aos pedaços corre num sentido que
é decerto a grande peripécia rebentando-nos nos olhos

— qual das réplicas foi afinal esquecida?

abre-se o pano e eles chegam-nos maquilhados de
um amor só a fazer de conta.
e porém choram que é de arrepiar a alma
e gesticulam alto como deuses e demónios colossais.
no palco eles contracenam, dizem, renegam, mentem
concretos e sinceros como as linhas de uma máscara

uma escuridão funda de poço sem fundo escuta-nos sempre
uma espécie de soluço seco, um sufoco
um derrame de piedade, remorso, tudo a fingir
que do lado de cá a vida é mais engraçada ainda

o nome que nos deram a princípio, apenas ele
compreende a corda negra do teatro

reflexões à boca de cena (2011)

*

proscenium

the curtain opens and they exist

one blusters in rolled up trousers, how ridiculous
the other cries about the truce of fortune, pungently
and they amuse at plain sight, feigning at backlight.
they exist in a display of soul, contraptions in the mix
and soliloquies, big dramatic scenes, screams
bustles, antics, intrigues, all written and
memorized

sometimes a peaceful darkness comes over us.
life in pieces goes on in a way which
is certainly the great adventure bursting before us

— which of the retorts was forgotten after all?

the curtain opens and they come to us made-up of
a make-believe love.
and nonetheless they cry making you cringe
and gesticulate loudly like colossal gods and demons.
on stage they act, say, deny, lie
concrete and sincere as the lines of a mask

a deep darkness of a bottomless well listens to us always
a sort of a dry wail, a choke
a shedding of pity, remorse, all pretence
that on this side life is even funnier
the name they gave us at first, only it

understands the dark rope of theatre

onstage reflections (trad. Bernarda Esteves)

Para ler o artigo completo (voltar aqui)

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