Captura de ecrã 2018-06-29, às 14.08.15

Depois de quatro livros de poesia, João Ricardo Lopes publicou em 2007 o seu primeiro livro de crónicas, Dos Maus e Bons e Pecados (Opera Omnia), uma coleção de pequenas narrativas onde o escritor desenvolve a sua apetência pela ficção e onde assume, não raras vezes, uma postura ideologicamente ativa e comprometida com causas sociais.

Cláudio Lima resume deste modo a obra: “Mais do que uma promessa, esta obra confere ao cronista o estatuto de confirmado, não tendo eu engulhos em considerar estes textos na linha do que de melhor no género vão escrevendo Lobo Antunes, Mário Cláudio, Baptista Bastos ou Fernando Venâncio e escreveram os infelizmente já desaparecidos Alexandre O’ Neill, Cardoso Pires ou Eduardo Prado Coelho. São cinquenta e três peças de natureza vária, reunidas sob um título tão sugestivo e provocatório como ferido de heterodoxia. Pela moral religiosa não há pecados bons; eles são, em essência, todos maus, apenas variando a sua maldade (ou malignidade) de acordo com o preceituário transgredido e o maior ou menor grau de consciência transgressora. O título foi retirado de uma das crónicas (pg. 85) e nela o autor fala dos pequenos prazeres induzidos ou deduzidos pelas circunstâncias propiciadoras de pecado, sobretudo para a malta jovem: os locais de diversão nocturna com as insinuações eróticas de Madonna, um pifozito, umas passas ou tragadas e, sobretudo, umas teens frenéticas e liberadas, se possível em mini-saia de cabedal…” (Lima, 71-2).[1]

Pendulando entre a ficção e a realidade, entre a crónica propriamente dita e o conto, Dos Maus e Bons Pecados representa a primeira tentativa consolidada do autor de superar a “tirania do lirismo”, dando continuidade ao diário que mantém no seu blogue e ao “anseio de enveredar futuramente pela ficção”[2].

Devo ter envelhecido

Devo ter envelhecido.

Dou-me conta do absurdo de ficar em casa neste sábado à noite, com um cobertor enrolado nos pés e a máscara facial reduzida a um escombro de tristeza, em lugar de ir tomar um banho com aquele gel refrescante comprado na Rituals, em vez de uma roupa justa e eventualmente escandalosa em direcção ao Bar M. a atiçar o desejo dos homens casados e a fúria das namoradas inseguras.

Sinto-me esquisita.

É o que me disseram todas — Estás esquisita, filha, o que tens? —, a Mónica a ficar de pé atrás, a dizer-me que vinha cá a casa, e eu a explicar-lhe que não se passa nada, que na verdade não me ocorre nada, estou só um pouco cansada.

Cansada disse-lhe eu. Farta de levar apalpões e discutir só um bocadinho, farta das súplicas dos tipos dos bancos, muito bem vestidos, cheirando maravilhosamente, farta que me convidem para os seus apartamentos nas Amoreiras, que me prometam uma dedicação sem limites, farta que me usem o corpo, que me agradeçam, me digam que foi uma noite espectacular, querida.

Hoje de tarde, vi o Luís no Colombo. Foi tão por acaso que a coisa durou vinte segundos. Não reparou em mim, não me avistou sequer. Pareceu-me mais bonito, elegante, sólido. De modo que a loira ao lado dele tem sorte, tem o Luís bem tratado, a partilhar provavelmente um T3 no Mar da Palha, à espera da altura certa para darem o nó.

Devo ter envelhecido.

Tripliquei sem dar por ela o número de cremes de beleza, as loções hidratantes, os bálsamos anti-rugas, os minutos passados diante do espelho, no pânico dos primeiros sinais.

De modo que a Mónica e a Sofia e a Adelaide também foram hoje sem mim num táxi para o Bairro Alto, e tenho a certeza de que os indivíduos de fato e porta-chaves com o emblema da Mercedes, e as namoradas ciumentas dos universitários vão dar pela minha falta, quando na pista eu não estiver semidespida a concentrar todas as atenções.

Os meus pais ligaram, fizeram de conta que faziam algazarra, e foi assim que tive a certeza de não estar equivocada.

Não me apetece sair (Estás esquisita, filha. O que tens?), fiquei em casa, de serviço, velando-me, comemorando sozinha esta data feliz.

Devo ter envelhecido.

Não me recordo de quantas vezes já esqueci já as velas, o bolo, o marido, os dois filhos, todos na mesma casa, com os amigos a juntar os flutes, a desejar muitos anos de vida, num brinde cheio de sorrisos e que alguém haveria de querer de fotografar para mim, numa Kodak descartável.

Dos Maus e dos Bons Pecados (2007)

Para ler o artigo completo (voltar aqui)

Anúncios