OS POETAS POBRES

Gerard Sexton
Fotografia de Gerard Sexton

Os poetas pobres veem as coisas de um modo que significa alquimia. Tocam-nas e transformam-nas em ouro, ou devolvem-lhes o ouro que têm, mas que (coisas singelas que são, coisas do seu estatuto social, coisas que os olhos dos poetas ricos desprezam) passam por insignificância, tolice, apontamentos de pé rapado.

César Vallejo foi um poeta paupérrimo. Peruano de nascença, andou por este mundo fora colhendo as maçãs da sua miséria. Em Paris, os poetas ricos miravam-no com o mesmo espanto apavorado com que em Braga, nas esplanadas, os poetas ricos atingiam Sebastião Alba, outro mendigo. Há, também, poetas mendigos. Poetas que, literalmente, mendigam pão e, volta e meia, uma cachaça.

Yannis Gitsos, Yourgos Seferis, Paul Celan, Tonino Guerra sentiram a fome. Todos por causa da guerra (dos combates, das perseguições, da prisão). Allen Ginsberg e Charles Bukowski conheceram-na, igualmente, em virtude do alcoolismo, das drogas, do oposicionismo político exacerbado. O caso mais dramático, seguramente, o de Anna Akhmátova, a resistente russa que padeceu toda a série de agruras que o estalinismo pôde infligir. Antes dela, Czesław Miłosz conheceu as agruras do gueto de Varsóvia, que recorda no poema magnífico “Campo di Fiori”. Foram poetas pobres, um ou outro remediou-se, mas humildes sempre, irónicos quando possível, geniais cada um à sua maneira

Em Portugal, a história da poesia é a história da pobreza pura e dura. Cultivaram-na reis, nobres e aristocratas, mas sobretudo gente sem eira nem beira. Camões, Bocage, Gomes Leal, Pessoa foram poetas sem dinheiro. Sá-Carneiro foi um poeta rico, cujo suicídio teve provavelmente algo que ver com o spleen da capital francesa e com a condição anómala de ser filho de burguês abastado para quem os seus avanços literários nada significavam. Sophia foi aristocrata, mas conheceu os apertos financeiros que os opositores de Salazar sofriam quando ousavam perturbar as malhas do regime. Nem todos puderam ser Antónios Ferreiras, Diogos Bernardes, Sá-Mirandas. Nem todos puderam viver dos subsídios generosos de suas majestades ou podem viver dos prémios literários que as fundações, câmaras municipais e juntas de freguesia entregam amiúde. Ou do beneplácito das grandes editoras.

Por lá, como por cá, há uma imensidão de poetas a contar os cêntimos e a contemplar as coisas irremediavelmente belas que a natureza tem para oferecer, do mais lírico e humílimo que possa encontrar-se pelo caminho, enquanto se faz pela vida e se arranja um ganha-pão decente, sem privilégios ou cunhas partidárias, ganha-pão despido de toda a espécie de adorno e enliças políticas, sociais ou familiares. Ainda que estendendo a mão a quem passa, como esse célebre Ulisses Santiago que conheci no Porto (nos idos da Faculdade) a quem dei cem escudos a troco de um amontoado de versos escritos a tinta verde.

Os poetas pobres veem as coisas de um modo particular. Talvez não vejam o orvalho entre as rosas rubras e aveludadas do seu jardim, mas o orvalho poisado em grandes gotas (que lembram prata líquida) sobre a folha carnosa das couves e das alfaces. Ou talvez vejam de manhã cedo (caminhou o dia os primeiros metros no horizonte) o rasto iluminado dos aviões e se recordem do fio de baba dos caracóis e associem ambos num verso pobríssimo como “aviões segregando a sua baba translúcida”. Ou talvez assistam ao acender das fogueiras nos campos de uma qualquer terreola e se lembrem de outonos passados, evocando avós maravilhosos (com o podão à cinta e botas de vitela calçadas) que os levavam pela mão até ao lugar onde o trabalho os fixou para sempre, muito perto de uma azenha revolta, presa nas névoas e no som do açude, muito perto de uma coluna de fumo no interior da qual a lenha seca produz chamas vermelhoalaranjadas e uma memória pura de afeto. Talvez escutem, caminhando a pé, o som das escrevedeiras, o pio triste das gralhas, a algazarra das levandiscas e saibam com elas iniciar ou concluir uma homenagem à infância.

Ou talvez vivam na cidade e testemunhem o lento dobrar de esquina dos idosos desvalidos, solitários, deixados ao deus-dará, para quem um gesto de amor pode ainda valer tudo e significar que a vida longa não foi (não é) em vão. Talvez não lhes passe despercebida a indigência encapotada das famílias modernas, das que não alardeiam a sua situação e não buscam subsídios (das que trabalham todos os dias do mês e levam para casa salários de merda) e têm todas as contas para pagar. Os poetas pobres conhecem muitas histórias destas. Costumam sentar-se nos bancos de jardim, conviver com outros pobres, ler e ouvir-lhes as assombrosas existências de carne e osso. Talvez se deem conta (como deu Pablo Neruda nas minas de Antofagasta) do terrível mundo que fica para lá ou para cá do palco iluminado de todas as falsidades e estatísticas. Os poetas pobres veem a olho nu e talvez seja por isso que veem melhor, mais a direito, mais dentro, mais fundo.

Pessoalmente, sinceramente, verdadeiramente, não suporto a escrita dos poetas que não vejam as coisas que têm de ser vistas. Dos poetas que comunicam sem ideias, que se glosam a si mesmos, que multiplicam palavras. Dos poetas que cavam dentro da sua própria vaidade e expelem coisa nenhuma. Desses é o reino da Terra, quem sabe do outro reino também. Mas a mim não me apanham a louvaminhá-los. Não apanham!

AMÉLIA TARRUCA

Amélia Pereira (1936)
No seu casamento, em 1936

in memoriam

Minha avó Amélia nasceu há precisamente um século! Não é fácil encontrar palavras que descrevam esta mulher, essa matriarca cujos dias terminaram em grande sofrimento físico, desprovida de fala, paralisada e incapaz de alimentar-se. Expirou no preciso lugar onde escrevo estas palavras, o mesmo pequeno quarto que a viu atravessar um longo outono até perder-se no nevoeiro da cegueira, quem sabe rodeada pela memória dos seus mortos e das muitas imagens que aquilatou em vida.

Nas redondezas ficou conhecido como Mélia Tarruca, nome que ainda hoje perdura, associado a gratas recordações dos que a conheceram e lhe sobreviveram. Era desbocada, sim, capaz do palavrão intempestivo. Era enérgica e reativa, a ponto de comprar uma pistola de cerâmica (dizem que igualzinha a uma pistola de verdade) para ajustar contas na taberna com o marido adúltero. Era humana e sensível, de uma humanidade e sensibilidade genuínas, timbradas pela fome e pela miséria, por duas grandes guerras, pela necessidade de se sujeitar às agruras de um tempo em que nem os campos nem a indústria emergente eram garantias de sustento… Havia sempre um naco de broa, uma gabela de couves, meio caneco de feijão, meia dúzia de ovos, às vezes uma galinha para dar a quem precisasse. A míngua tornou equitativa e generosa a gente desta mesma aldeia onde lhe fizeram um funeral sem fim…

Se fosse viva, Amélia Pereira completaria hoje um século. Cem anos de agruras.

Não lhe conheci a adultez, só a velhice. As histórias que dela me chegavam na infância dificilmente podiam coincidir com a anciã acamada, incapaz já de articular palavra que se compreendesse. Minha mãe, que por ela velou até à morte, recebeu-a cá em casa devia eu ter seis ou sete anos. No princípio ainda caminhava um pouco, com a ajuda de uma bengala. Depois houve uma cadeira de rodas. O jornal da paróquia fotografou-a assim, como um bom exemplo cristão. Vieram duas meninas entrevistar, uma munida de caneta e caderno, outra com a máquina fotográfica. Recordo-me vagamente de tudo isto, que era para mim a distinção de classe, a vaidade de possuir uma avó famosa.

Com o tempo a saúde esfumou-se. Havia que pôr-lhe fralda. Eu ia comprá-las à farmácia. Eram sacos enormes, que não me custavam carregar, porque naquela época os miúdos eram todos homenzinhos e sofria-se de vergonha quando não se podia carregar pesos como um adulto. Minha mãe contou então com a ajuda de minha tia Conceição e ambas davam as voltas, como se dizia, à velhinha. Às vezes havia visitas. Com o tempo rarearam. Porque as pessoas deixaram de ter um motivo para vir. Porque a conversa era a bem dizer um monólogo. Minha avó respondia com monossílabos, revirando os olhos, de quando em quando deixando correr as lágrimas … Sei tudo isto porque espreitava por detrás da porta, à espera que as visitas trouxessem um cartucho com doces… Ou bananas. Incompreensivelmente as visitas traziam cachos de bananas e eu ficava fascinado com as visitas que as deixavam amarelejar em cima da cómoda e se despediam da minha avó como se faz a uma criança pequena, com inflexões de voz artificiais e claramente paternalistas.

Só compreendi exatamente quem foi esta mulher após a sua morte. Muita gente me contou sobre ela histórias preciosas, informando-me do seu caráter tenaz e frontal. Por exemplo, a história de quando descobriu a amizade do meu avô, seu marido, por certa mulher de índole incerta. Avisada por vizinhos, entrou de rompante na tasca onde os adúlteros confraternizavam com a escumalha do vinho e das cartas. Pediu que lhe enchessem o vasilhame do azeite e puxou da pistolita.

«Manelzinho, encha-me esta botelha de azeite, enquanto eu vou ali fazer duas mortes!».

A amante fugiu espavorida pela porta. Meu avô, espavorido também, lançou-se por uma janela alta, em direção às traseiras da taberna. Morreria sem saber onde a mulher tinha obtido a arma e onde a guardara. De caco, explicam-me, entre risos, E também esse pormenor ele ignorou até ao fim dos seus dias. Mas o bastante para acabar com as veleidades românticas fora do casamento!

Contam-me que, já com vários filhos pequenos, se deslocava a pé até Vizela, para trabalhar numa fábrica têxtil. Aí cuidava do mais novo, deixando a casa entregue à filha mais velha, pouco mais que uma criancinha. Trabalhava-se muito, ganhava-se pouco, desfazia-se a saúde nos teares e na violenta desagregação do mundo rural em que havia nascido a década de 30. Mas também aí se moldava a têmpera combativa e o arregaçar de mangas que tornou a família incapaz de aceitar que o céu lhe caia em cima sem ao menos ensaiar uma resposta.

Dos filhos que teve sobreviveram sete. Quatro raparigas e três rapazes (dois dos quais mobilizados para a Guerra do Ultramar: um chegando no dia em que o outro partia; o terceiro fugindo para França, a salto). Não se diga que enfrentou a triste sina de os enterrar, porque não aconteceu tal, felizmente. Meus tios regressaram todos, sãos e salvos. Ainda hoje são sete os filhos que sobrevivem, com suas mazelas, mas vivos e amigos uns dos outros. Quantas famílias não se podem gabar do mesmo?

Se fosse viva, minha avó Amélia talvez nos desse com a bengala e nos chamasse alguns nomes pouco simpáticos. Metia-nos na ordem. Era assim com as filhas, por exemplo.

Contam que amanheceu o dia em que determinado padre se aproximava pelo caminho rural, mesmo ao lado da casa velha. Vinha devagar, meditando o seu breviário e os seus pensamentos. O padre, ao que parece, não era boa rês. E o dia corria mal por causa de certo número de frangas que haviam escapado do galinheiro a andavam escarafunchando o cebolo. Minha avó praguejava alto e bom som contra as filhas negligentes. Fizeram-lhe notar a aproximação do clérigo.

«Eu quero que o padre vá para o caralho e vós também, minhas grandes putas!»

Assustado, o padre persignou-se; elas cobertas de vergonha refugiaram-se como puderam. Ficou a velha Tarruca sozinha na leira, de vassoura em riste, berrando e espalhando o terror entre as galinhas tresmalhadas.

É de longe o meu antepassado mais conhecido nas redondezas e, sem dúvida, o ascendente de que mais me orgulho.
Porque esta avó proverbial, que não tinha pejo em desdenhar de um mau padre (hipócrita, ao que parece), era capaz, em contrapartida, de mandar uma filha com um açafate cheio de víveres a casa de fulana, beltrana ou sicrana, a quem o marido dava porrada como milho mas não o dinheiro para se governar.

Sirvo-me das palavras dos outros, da memória dos outros, do regozijo dos outros para compreender a razão deste apreço pelo “politicamente incorreto” que me corre nas veias. Talvez o instinto para desprezar as inutilidades e me conservar num torrão afetivo, que há de ser sempre escasso, mas incorruptível!

Se fosse viva, Amélia Pereira, mãe, avó, criadora de filhos e de netos, faria hoje cem anos. Escrevo no preciso lugar onde expirou, às primeiras horas do dia 27 de setembro de 1994.

Como escritor e cronista da família, cabe-me conservar, pelo menos um pouco mais, este relicário de memórias e de o passar aos outros… Quando explico a algum velhote da terra a minha ascendência, o parentesco com a Mélia Tarruca, logo um amplo sorriso fraterno nos envolve aos dois, como a capa de Martinho.

«A sua avó era uma grande mulher», «A Tarruca era uma mulher muito direita!», «A sua avó matou muita fominha, Deus a tenha!»

Nasceu há cem anos, a 15 agosto de 1913.

“ABUSIVAMENTE”

Captura de ecrã 2021-09-18, às 13.16.01

Com perplexidade, com profunda desilusão, assisti ao debate entre os candidatos à Junta de Freguesia de Arões S. Romão na Fafe TV, decorrido na passada quarta-feira: durante uma hora vi um deserto de ideias, desorientado por uma miserável perceção do que é Arões S. Romão e, pior, condenando-a ao servilismo em relação à Câmara Municipal, que sempre trouxe à vila migalhas e não foi capaz, até hoje, de descentralizar nela um dos seus serviços ou de lhe reconhecer, de facto, o estatuto de vila.

Também não percebi se os candidatos têm orgulho em pertencer à vila, ou se pelo contrário lhe negam essa qualidade (tanto disseram que Arões S. Romão é uma grande terra, como a reduziram a uma freguesia subsidiária de Arões Santa Cristina). De resto, esclareçam: o que significa “Ir da Portela a Arões?” A Portela não é Arões?

Não gostei das hesitações. Menos ainda das insinuações. Detestei a falta de ideias concretas. Não chega dizer que se quer grandeza, desenvolvimento, recuperar tempo perdido. É preciso explicar como se vai conseguir tudo isso, sob pena de nos arriscarmos a transformar o mandato de 2021-2025 num fracasso igual ao que Cláudia Castro nos ofereceu nos últimos quatro anos.

O que se disse sobre reivindicar um maior orçamento? Nada!

Quem assistiu às assembleias de freguesia nos mandatos de 2009-2013 e 2013-2017 ouviu-me dizer, repetidamente, que precisamos de triplicar o valor anual vindo da Câmara.

Precisamos de mais funcionários no terreno (não no balcão de atendimento). O que se disse sobre o tema? Nada.

Precisamos de ligar os passeios da Portela às Teixeiras e entrar no miolo da freguesia. Precisamos de lombas e sinalética luminosa nas passadeiras. Precisamos de alargar estradas (urge fazê-lo em relação ao Nó). Qual dos candidatos tocou no assunto? Nenhum.

Precisamos de retomar as iniciativas culturais, abandonadas escandalosa e vergonhosamente por Cláudia Castro. Teatro, cinema, espetáculos musicais, feiras temáticas, literatura. Quem se prontificou a defender esta importante faceta da cidadania? Ninguém.

Assisti ao debate sem entusiasmo de espécie alguma. Lá voltou a quimera do Pavilhão Gimnodesportivo, a pouquidão do “parque da vila”, a ideia (aliás urgente) de um segundo terminal de multibanco. Lá se trouxe à colação a bizarria da sede da Junta (que não pertence à Junta), mas não se partilhou qualquer intenção de se construir uma nova sede de raiz. Não se disse uma palavra sobre o descuidado estado da Igreja Românica (esse tesouro tão maltratado, tão ignorado, tão vilmente esquecido pela Autarquia).

E, por fim, o “abusivamente”.

Explico:

Carlos Rui Abreu introduzia a questão dos “limites de freguesia” e deu a Joel Fernandes o ensejo de brilhar. Explicava que o tema foi alvo de crítica acesa por parte dos socialistas aronenses, indignados com o colega de Arões Santa Cristina. Joel Fernandes apressou-se a corrigir que houve “um texto a circular por aí”. O jornalista lembrou que “escrito e publicado num espaço de socialistas aronenses”. Joel Fernandes defendeu-se que “abusivamente”.

Eu e o engenheiro Joel Fernandes fomos colegas de Executivo de Junta durante 10 anos (2007-2017). Com toda a honestidade, considero-o um técnico excelente, capaz e criativo. Porém, separa-nos um mar de diferenças no que toca à coragem política.

Nunca estive preso a nada e ninguém. Escrevo e penso agora como pensei e escrevi sempre: com liberdade e sem mordaças, grilhetas ou cordas. Não preciso de pedir licença a chefes ou chefinhos, nem de garantir o “politicamente correto” para parecer bem e manter relações cordiais com quem quer que seja. Por isso, aquele “abusivamente” afastou-me ainda mais do ex-colega de Junta, a quem (repito) reconheço grandes qualidades, mas não a da coragem política.

A questão dos limites de freguesia é complexa. Não chega dizer, como o afirmou o candidato do PSD, que “vamos recuperar o que é nosso”. É preciso muito mais do que isso. Enquanto Secretário de Junta trabalhei incansavelmente pela correção do gravíssimo erro cometido pelo Instituto Geográfico Português (IGP), que sonegou parcelas imensas de território a Arões S. Romão: se algum dos candidatos à Junta leu já o relatório dos Censos 2021 terá reparado neste espantoso facto: Arões São Romão aumentou em apenas 9 os seus habitantes no período de 2011-2021! Eis a prova do roubo!

A questão dos limites de freguesia levou-me a escrever e a publicar no blogue “PS Arões”, no passado dia 9 de abril um texto, que aparentemente ganhou asas e mereceu o repúdio de toda a gente civilizada de Fafe. As pessoas civilizadas de Fafe, nomeadamente as que lideram o Partido Socialista, não gostaram que se protestasse contra um roubo. Aconselharam inclusive a que me calasse! Não é bonito que digamos verdades, que nos queixemos e que ponhamos em causa o bom nome dos impecáveis autarcas que tomam como seu o que não lhe pertencem!

Aparentemente o lugar da publicação – um blogue que eu criei, administrei e usei em prol do partido, nomeadamente na campanha autárquica de há quatro anos (quando era socialista e concorria contra pessoas que na época não eram socialistas, mas que hoje são socialistas) – tornou-me um abusador.

Quando Carlos Rui Abreu introduziu o tema, Joel Fernandes poderia ter dito simplesmente “O texto tem uma assinatura, deve perguntar à pessoa que o assinou o que quis dizer com o que escreveu”. Ou poderia, como o fez em relação a várias questões feitas sobre a incompetente equipa de Cláudia Castro (candidata que Joel Fernandes mal disfarçadamente apoiou em 2017 e de cuja lista recebe pelo menos o Tesoureiro Óscar Samuel Costa e várias outras figuras), ter dito “Não me sinto capaz de responder”.

Mas não. Joel Fernandes, desconsiderando o mérito do texto, que o teve, demarcou-se. E ao tê-lo feito provou ser um “candidato do sistema, conivente com as chefias partidárias, para quem os assuntos delicados se resolvem com uma vassoura. Em setembro de 2017 (no auge da campanha eleitoral), o mesmo engenheiro Joel Fernandes mostrou deslealdade comigo, quando fez publicar um boletim de Junta onde compilou e atribuiu ao mérito exclusivo de Cláudia Castro o que não lhe cabia em sorte ou direito. Foi um favor à amiga, contra o colega.

Esta agora foi, portanto, a segunda vez.

Terei de explicar que “abusador” é, antes de mais o aparelho partidário que se serve das pessoas e, depois de servido, as cospe como pevides.

Publiquei um texto com a legitimidade que me conferia o ter participado numa lista partidária do Partido Socialista e ter trabalhado (forte e feio) numa campanha eleitoral de que não ouvi até hoje (das cúpulas) um único obrigado.

“Abusivamente” é sem dúvida o advérbio que Joel Fernandes e a sua equipa deveriam usar para se referirem ao facto de (apenas quatro anos volvidos) terem despido à pressa as camisolas do Fafe Sempre e terem vestido as do Partido Socialista. Não reconheço ao Sr. engenheiro, nem a ninguém da sua equipa, qualquer estatuto ou poder identitário especial no tocante ao socialismo.

Eu sou socialista, escrevo onde, quando e como quero, E isso basta-me.

CÉU

Céu
Foto de arquivo pessoal (2021)

Vou perdendo algumas capacidades. É o mais certo na vida, que as vamos deixando no lugar onde nos ficaram a infância, a juventude, os primeiros tempos dourados da idade adulta. Julguei há meia dúzia de anos ter perdido a capacidade de amar. Não decerto de sentir amor. Sente-se amor pelas pessoas que nos querem bem, pelos animais de companhia, pelos ofícios que nos destacam, pelos livros e obras de arte que nos resgatam da estupidez. Mas amar… Supus, felizmente em erro, que amar não me dizia já respeito (se alguma vez mo havia dito).

Enovela-se-nos a vida em trapos, em cordas, em fúteis caminhos de perdição. Lastima-se que o tempo haja ido tão mal-acompanhado e que, em vez dele, restasse cá dentro o que resta de um campo arrasado pelas chamas – pavorosas cinzas que ardem noite e dia, dia e noite, noite e dia. E isto sucede ao mais inócuo dos homens. À melhor das mulheres. Perde-se muito, perde-se tudo, ou quase.

Mas então, independente de nós, a vontade das coisas manda. No meu caso, mandou sem que lho tivesse pedido, ou (verdade seja dita) que o tivesse querido. A vontade das coisas trouxe-me de regresso, e fê-lo enviando (a mim, um cético, um pessimista) o melhor dos anjos da guarda. Foi em 1 de setembro de 2018.

Há, portanto, neste dia (não algo, mas) alguém a lembrar. Que o seu nome seja tão divino é outra ironia. Que por ele se tenha o inferno decidido a deixar-me não o duvido. Que me tenha nestes três anos cumulado de poesia, de afeto, de coragem, de companheirismo é coisa para alardear. Nenhuma Céu é demais na vida de um homem, sobretudo se a beleza da sua alma tiver paralelo na beleza dos seus olhos, sobretudo se a beleza dos seus olhos reverbera na beleza dos seus gestos.

Hoje estas palavras (por ridículas que me possam parecer) tenho de as deixar ditas nalgum lado. Três anos é quase nada. Mas arrisco um “quase tudo”, tão docemente mudaram a minha vida.

Muito obrigado, meu amor!

O REGRESSO DO BLOG «DIAS DESIGUAIS»

Durante quase uma década (entre 31 de janeiro de 2007 e 31 de dezembro de 2015) fui publicando regularmente poesia no blog «dias desiguais». Foram centenas de textos (nem todos poéticos), centenas de fotos e pinturas, bastante música, várias viagens pelo meio.

Acontece que me cansei e apaguei-o. Os textos ficaram guardados, alguns foram publicados novamente, muitos destruídos, outros estão engavetados em ficheiros Word, à espera (quem sabe) de uma outra oportunidade.

Nesta página venho partilhando crónicas e contos (sobretudo). A poesia tem ficado de fora. Por essa razão, criei um espaço novo, melhor, encontrei um novo endereço para um blog antigo, ou um novo blog para um antigo endereço (vai dar no mesmo).

Se tiverem curiosidade, vejam. Se gostarem, partilhem. Se partilharem, não deixem de comentar. Em ano de celebração (20 anos de vida literária é já alguma coisa), não podia deixar de ser. O endereço: www.diasdesiguais.com. Aí como aqui nos encontraremos!

«EUTRAPELIA» – RECENSÃO DE CLÁUDIO LIMA

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Hoje reunimo-nos para celebrar os 20 anos de poesia publicada em livro por João Ricardo Lopes. Às primícias poéticas deu o Autor o título de a pedra que chora como palavras (ed. Labirinto, Fafe, 2001). E, a justificá-las, se a intrínseca qualidade da obra não bastasse, assinale-se a atribuição do Prémio Revelação de Poesia Ary dos Santos, galardão de encher de orgulho e incentivo qualquer iniciante na difícil arte das belas letras. De facto, percorrendo estes 35 breves poemas, um leitor minimamente apetrechado e familiarizado com os meandros e mistérios da poesia, imediatamente concluirá que aquele livrinho inaugural indiciava, mais do que uma tímida promessa, uma sólida e inequívoca vocação poética. Ainda hoje, volvidos 20 anos, «a poesia irrompe como um meteoro» (pg. 33) ao longo daquelas páginas. Táctil, intensa, evocativa, sob qualquer perspetiva que se a observe, é sempre uma deleitosa fruição o que ela nos proporciona. 

Passados 20 anos e cinco outros títulos de poesia, se o Autor não parou no tempo nem precisou de corrigir a rota, – e entendo que não – é porque partiu de uma rigorosa e bem pensada estrutura formal e conceitual que o tem levado a uma constante e cada vez mais criteriosa indagação do fenómeno, quando não epifenómeno, do que a poesia implica de consistência e aprofundamento. Andam por aí montes de equívocos, montanhas de falácias e cordilheiras de nulidades a doutrinar sobre e a praticar uma escrita balofa e oca a que conferem o rótulo de poesia, travestida, ademais, de genialidade visionária e vanguardista! Um deserto sem vislumbre de qualquer oásis onde mitigar a sede de beleza e unção espiritual!

Um observador comum olha e diz assertivamente: “isto é uma árvore”. E esse juízo, redutor e fechado na estreiteza conceitual, lhe basta. Apenas exige da árvore que lhe dê frutos e alguma sombra. A linguagem com que nomeia e qualifica é pragmática e utilitária; circunscreve o que vê e vê-o por fora e de relance. Um observador de sensibilidade poética, ao invés, vai aos limites da perceção e da expressão da coisa percecionada. Para ele nada é singular e unívoco na linguagem, antes polissémico e polimórfico. Liberta o objeto das amarras a que o uso massivo e ligeiro o submete e explora, ao mesmo tempo que lava as palavras das nódoas causadas pelo uso e o abuso.

Conheço o João Ricardo Lopes há bastante tempo, desde a publicação da coletânea Histórias para um Natal (ed. Labirinto, Fafe, 2004) em que ambos participámos. Mas, sobretudo, desde a publicação das suas crónicas Dos Maus e Bons Pecados (ed. Opera Omnia, Guimarães, 2007), em que de igual modo faz emergir a sua férula de prosador interveniente, atento ao panorama cultural e cívico português. Dessa obra fiz a apresentação na prestigiada e prestimosa Livraria 100.ª Página em 25 de outubro de 2007, cujo texto-base teve publicação no Diário do Minho a 7 de novembro do mesmo ano. Já então eu pressentia, sob a irreverência, por vezes a causticidade, do jovem cronista, a musculada expressão de quem procura bem mais do que a flutuação abúlica à deriva do tempo.

Cláudio Lima e João Ricardo Lopes

Regressa agora, a celebrar duas décadas de poesia, com um título breve e, para muitos leitores, algo esquisito, se não abstruso: Eutrapelia. Palavra de origem grega formada pelo prefixo“Eu” – que significa bem e belo – e pelo lexema “Trapelós”, de amplitude polissémica, omisso em vários dicionários e glossários da língua portuguesa. O velho Cândido de Figueiredo transverte-a simplificadamente para “qualidade daquilo que é gracioso, chistoso, mordaz”; José Pedro Machado no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, tomo II, regista “forma chistosa de motejar”; já o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, no tomo IX alarga um pouco mais o campo semântico: “modo de gracejar sem ofender, zombaria inocente, disposição de pilheriar agradavelmente, brincar amável e espiritualmente, engraçar-se, pilhéria grosseira, palhaçada, troçador birrento”, etc. Por sua vez, o Google, que regista várias entradas de natureza filológica, filosófica e ética, de divergentes, quando não opostos significados e nuances, tendencialmente valoriza os conceitos de conversa agradável, senso de humor, dito jocoso e inofensivo, etc.

E o Autor? Qual destas múltiplas propostas de natureza semântica o moveu à opção por um título que para muitos leitores se torna embaraçoso e impeditivo de uma imediata apreensão, bem como dos conteúdos que pode abranger? Ele esclarece: ao impulso que o moveu a esta solução subjaz um determinado estado de beatitude por indução (osmose?) de tudo quanto o rodeia, o interpela e o seduz. Uma espécie de filtro que tria a indiferenciada e caótica vasa do quotidiano. Veicula uma poesia que vai beber aos clássicos gregos, orientais e a alguns dos mais representativos vultos da cultura ocidental. Exige ser lida com todo o vagar e atenção, dessa forma removendo eventuais dúvidas e obstáculos ao desfrute de uma lírica adulta, bem burilada, pródiga em sugestão, estesia, brincos de retórica e de encantamento. Importa ser lida empenhadamente, em suma.

Facilmente apreendemos o quanto os prodígios da natureza fascinam o Autor e lhe condicionam o estro poético. No seu cíclico e inalterável movimento, estação a estação, admiramos aqui ora o desabrochar pletórico, ora o inelutável dessoramento e morte, para novo ressurgimento em novo ciclo vital. O eterno retorno em movimento perpétuo. Ocorre-me citar, a respeito, o grande Johann Wolfgang Goethe, quando compara a natureza a um livro: «A natureza é o único livro que oferece valioso conteúdo em todas as suas folhas».

Logo na página 13 encontramos um poema intitulado Bosch, Primavera, Museo Del Prado em que, provavelmente influenciado pela contemplação dos trípticos O Jardim das Delícias e / ou O Carro de Feno, do grande pintor brabantino, que se encontram expostos naquele Museu, observa que «encontrar no meio do sangue revolto / a pedra imprecisa // seria essa, talvez, a mais bela fonte da loucura», porque «depois de extraída tudo regressaria ao seu lugar». E na página 16 é ainda um hino à primavera que nos é oferecido num Allegro de jubilosa exaltação: «daqui observo o afã dos piscos nas ramagens / do limoeiro, / oiço o arrulhar, o trissar, / o assobiar das rolas, das andorinhas, dos pardais (…)  em maio as manhãs / fazem-me mergulhar na terra, / na profusão dos cheiros e das formas, / no frescor das ervas, / na quentura das cravinas e das rosas // arrepio-me de pensar que existo / e respiro / e escuto o tempo».

Cláudio Lima, João Ricardo Lopes e João Artur Pinto

Curiosamente, sobre o verão não encontramos nenhum título explícito, não obstante a sua sedução e a sua luminosidade permearem muitas destas composições. Na página 32, por exemplo, podemos ler o poema Agosto, em que fala no «verde azul do mar / ferindo-me como crisocola entre os dedos, / este azul onde os olhos adormecem (…)» E na página 30 repare-se neste extraordinário quadro (tela) estival, intitulado Tremezzo (região italiana da Lombardia): «lembro-me dessa tarde em Tremezzo, / do sol a pique / dos nossos corpos transpirados / à procura de uma sombra (…) os lentos degraus de granito até ao lago, / a água  refrescando-nos os tornozelos, / a lavar-nos do cansaço, / as ondas que os barcos de recreio levantavam / e que vinham de longe, / que vinham contra nós, / criaturas exangues, inofensivas, / sem culpa de nada».

O outono está aqui profusamente referenciado: na página 37, no poema O outono acena mais perto, elenca os gestos rituais de um setembro maduro e abundante: «nestes dias de lavar, brunir, / dobrar em caixas de cartão as roupas, / fazer contas de cabeça, tirar velhas compotas do armário, / despejar-lhes o bolor, lavar os frascos, / fazer polpa, cozer os marmelos, colher os figos, / conservar tudo de novo, como uma memória fresca da infância // o outono acena mais perto, / digo, o ar distraído das coisas, a subtileza madura dos frutos».  Na página 51, em Lendo Erdal Alova, poeta turco, fala do frio que secou os agapantos, das «pétalas soltas, / teias de aranha entre os caules / ressequidos», para concluir: «o outono é a estação do pouco / e eu contento-me / com tê-lo inteiro / aqui, / ou noutro lugar».

Também o inverno percorre estas páginas. No poema, a páginas 10, Sevilha, Inverno de 93, recorda «a pele das tuas mãos / (sempre tão álgidas) / caindo sobre o meu caderno // o que escreves aqui? para quê a poesia? / quem amas tu?» E lá mais para diante, evocando o cineasta russo Andrei Tarkovsky no poema O Inverno ou a Nostalghia de Andrei Tarkovsky, (página 58), é-nos dado a ler: «são agora mais frias as manhãs, / quase espetrais / atravessamos o nevoeiro, / como se atravessa a vau um espelho // os lavradores afastam em molhos a lenha inútil, / pelos campos as gralhas zombam avulsamente» Quadro rústico de grande plasticidade, sem dúvida, a fazer lembrar pintores como van Gogh. A concluir, logo na página seguinte, em Prodígios, leiamos esta quadra: «é possível trazer para dentro da lágrima / a subtil viração de certas tardes de inverno, / quando à janela as cortinas esvoaçam / e se descobre um mundo subitamente interrompido».

João Ricardo Lopes é, sem dúvida, um insaciável buscador de tesouros, naturais ou elaborados por obra do génio humano; coleciona sensações, contemplações, entusiasmos de índole estética e espiritual. Não é um turista apressado e frívolo numa correria tonta, galgando geografias de máquina fotográfica frenética, atrás de alvos banais para registo de selfies e de filmagens. Datados no tempo e situados em amplos espaços da cultura e da arte europeias, estes poemas, de tamanho e estrutura diversificados, constituem-se em precioso álbum literário daquilo que de mais belo e imperecível a humanidade foi realizando. Por aqui se movem em aparições mais breves ou mais demoradas, vultos tutelares da língua e cultura portuguesas, como Camões, Camilo Pessanha, Saramago; génios da arte universal como os poetas Horácio, Schiller, Whitman, Lorca e Seferis; pintores como Vermeer, Caravaggio e Bosch; músicos como Schubert, Debussy e Ravel. E tantos outros, cujas vidas e legados impressionaram o Poeta e o inspiraram nas digressões por museus, catedrais, jardins, monumentos, praças e avenidas, em diversos sítios tais como Creta, Londres, Milão, Madrid, Sevilha, Lanzarote, etc. Um andarilho do sonho e do mistério; do fascínio dos lugares e das coisas em que poisa e demora um olhar deslumbrado.

Encerro esta despretensiosa e limitada exposição-apresentação, lendo o poema O Cheiro da Terra (página 31), demonstrativo da faceta telúrica que esta obra também revela.

O CHEIRO DA TERRA

o cheiro mais antigo de que me lembro

é o perfume da terra

antes mesmo da fragrância húmida

do mar e da chuva,

antes do odor do papel, dos vernizes

ou da tinta,

antes mesmo do aroma dos laranjais,

ou das rosas, ou do pão

invade-me às vezes uma volúpia incerta

de caminhar descalço

sobre os campos lavrados,

de erguer punhados dessa matéria negra

e macia

– aparentada com o ardor

do alecrim e da rezina –,

caindo em torrões e grânulos

como deve cair

os cheiros são o nosso modo de rastrear

o tempo

é um mistério o que deles nos fica

e porque ficam,

um mistério

O FALSÁRIO

Foto: Raul Pires Coelho

 – Quem é afinal este Georges Le Brun? – perguntou o Procurador. 

O Oficial de Justiça deu um jeito às sobrancelhas, arqueando-as, encheu os pulmões, levantou-se, abriu um dos armários metálico gigantes, apontou com o polegar à retaguarda e fê-lo deslizar horizontalmente, de maneira a incluir toda uma estante a abarrotar de capas e dossiês atados por cordéis de ráfia.

– Isto tudo, doutor….

Depois, como quem tem uma boa história para contar, encontrou uma frase sua disse-a num gozo antecipado. 

– O doutor sabe. Em Montreal, os invernos são especialmente cruéis para quem é de fora…

O Procurador estava prestes a conhecer a prodigiosa biografia do maior falsário de literatura de Sainte-Anne-du-Lac no Quebeque, de todo Canadá, provavelmente do mundo inteiro.

*

Georges Ambroise Roger Le Brun nasceu em 25 de agosto de 1944, em Brénac, na margem direita do rio Vézère, na comuna de Montignac. A singularidade da data e a proximidade da gruta de Lascaux criaram no rapaz uma certa crença de que a sua vinda ao mundo fora de algum modo providencialmente preparada para grandes feitos. Na escola sempre os professores o consideraram um aluno excelente, tendo aprendido e dominando vários idiomas (vivos e mortos), entre os quais o alemão, o neerlandês e o russo, o latim, o grego, o hebreu e o aramaico. Desde os tempos universitários tornou-se um incansável perseguidor de arquivos, frequentador assíduo de cronicões e livros hagiográficos, leitor ávido de biografias, colecionador de histórias raras, mas também estudioso de caligrafia e, sobretudo, de literatura comparada. Nesta última área fez o seu doutoramento na Sorbonne, com vinte e sete anos, e na mesma academia permaneceu como professor agregado até surgir o convite que o fez atravessar o Atlântico, rumo à Universidade de Montreal. Publicou dezenas de livros, centenas de artigos, milhares de recensões para os jornais da elite intelectual francófona.

Mas, curiosamente, foi na escrita de Kafka que os seus olhos poisaram definitivamente. Sentiu ciúme muitas vezes de Max Brod, figura que lhe pareceu indecorosamente bafejada pela fortuna, não apenas por a si ter o genial escritor confiado testamentariamente escritos que mais ninguém conhece, como por ter privado, conhecido e sabido de Kafka o que jamais mortal algum (nem porventura Felice Bauer) pôde saber.

Georges Le Brun leu os romances de Kafka com obsessão. Depois de anos de estudo aturado, principiou a escrever ao estilo do escritor de Praga, acalentando a ideia de poder acrescentar à sua bibliografia e à que ficou nos cofres de Brod escritos inéditos, manuscritos, novidades com que o mundo dos literatos jamais sonhara.

*

– Não me vai dizer que este Le Brun inventou obras de Kafka? – sorriu o Procurador. 

– Inimaginável, doutor… Este tipo conseguiu enganar alguns dos decanos dos melhores centros de literatura, apresentando papéis autenticados, cadernos, autógrafos de alguns dos maiores autores do século XX (Kafka foi apenas um deles) e vendeu-os a leiloeiras, institutos, colégios, bibliotecas a preços absurdos.

 – Incluindo a do Congresso dos Estados Unidos. – completou o outro, dando um jeito nos óculos.

– Incluindo a do Congresso dos Estados Unidos. – confirmou o Oficial de Justiça.

*

Georges Le Brun sentiu na juventude um fascínio enorme pela figura de Han van Meegeren, o fracassado pintor holandês que impingiu vermeers aos nazis. O mesmo fascínio fê-lo descobrir Tommaso Debenedetti, jornalista italiano, autor de entrevistas falsas que correram mundo, confundindo tudo e todos com opiniões de figuras públicas que trazia para a ribalta, sem que as mesmas tivessem alguma vez proferido o que quer que fosse do que Debenedetti publicava. Mais recentemente, no início do milénio, Le Brun divertiu-se com as pirâmides que Semir Osmanagićh descobriu na sua Bósnia natal. O mundo torna-se maravilhosamente mais rico, mais criativo, mais liberal com os falsários. 

Após uma visita à Bodley, em Oxford, durante a qual mergulhou com penetrantíssima atenção nos sagrados papéis deixados a Max Brod, Le Brun concebeu o romance que Franz Kafka gostaria de ter escrito. Chamou-lhe O Labirinto. Nele, o conhecido agrimensor K. cava um labirinto, profusamente preenchido de corredores e de memórias, cada vez mais fundo (como os círculos infernais de Dante) e, osmoticamente, cada vez mais dentro da sua cabeça, como se escavando a terra escavasse a alma e a consciência, até chegar aos primórdios, ao lugar absolutamente escuro onde a picareta, batendo em pedra, fez saltar a chispa que deu origem à sua própria vida. Um romance freudiano, o mais freudiano de todos os que o checo compôs.

Para dissipar dúvidas autorais, estudou até as elipses, as interrupções que Kafka faria num texto de publicação incerta, como se tomado de assalto por dúvidas e por um cansaço progressivamente mais letais. O Labirinto não seria publicado pela forte razão de não ser imperfeito, mas tão perto de o ser que o leitor ajuizado descontaria na fúria de Kafka o valor da obra deixada praticamente completa. Georges Le Brun cometeu o atrevimento de forjar uma carta recebida de Dora Diamant, na qual a amente aludia à muita expetativa em torno do livro. Não contente com isso, depois de pacientemente o ter redigido com caneta de aparo, com tinta e sobre papel que metodicamente envelheceu na cave, junto com garrafas de moscatel e serrim, Le Brun sobrepôs rasuras, hesitações no alemão, glosas, sinaléticas iguais às que consultou nos manuscritos de Oxford. Fê-lo três vezes. Esperou vinte e um anos pelo envelhecimento apressado do original. Depois pediu por ele dois milhões e meio de dólares. E obteve-os.

*

– Diz-me que há outros. Deixe-me quem são os outros…  

O Procurador retirava dossiês, deslaçava capas, abria ficheiros. Era um depósito monstruoso de provas.

– Vai divertir-se. O tipo foi HemingwayGertrude SteinBrechtSimone Beauvoir, até Shakespeare. Andava ultimamente a traduzir evangelhos apócrifos. Não o tivesse a Interpol apanhado a tempo, tínhamos aí outra Bíblia.

– Caramba. – disse o Procurador. – Este tipo promete…

– Também o que se pode fazer em Montreal, no meio do gelo?

Ambos quiseram rir. Mas rir seria estranho, como quem receasse parecer demasiado idiota perante um caso difícil, impossível de adivinhar.

EUTRAPELIA – novidade

Título: EUTRAPELIA

Autor: João Ricardo Lopes

N.° de páginas: 68

ISBN: 978-989-53038-5-4

Preço de capa: 10€

Garanta o seu exemplar em pré-venda até ao próximo dia 1 de julho , com desconto de 20% (8€) e portes grátis para Portugal, enviando mensagem para editoralabirinto@gmail.com

Sobre o livro:

Recuperando o nome de uma das antigas virtudes cristãs, com o qual titula 50 poemas escritos em 2020, João Ricardo Lopes assinala com Eutrapelia a sua preferência pelas coisas simples, pela terra e pelo silêncio, viajando (e convidando o leitor a consigo viajar) pela Europa física e pela Europa da literatura, da música, da pintura, do cinema, naquela que é, também, uma viagem pela sua própria existência. Poesia de minudências, de flagrantes, de momentos avulsos, singulariza-a a obsessão pelo instante eternamente fugaz e belo da criação, «este ponto exato / em que o ínfimo e o infinito segregam o instante / e em vidro solidificam»

Eutrapelia assinala o vigésimo ano de vida literária do autor.

Reserve o seu exemplar aqui!

JUNTO AO MAR

Foto de arquivo pessoal (junho de 2021)

Ali, junto ao mar, sentindo nas costas a presença majestosa do farol, olhando à sua frente o istmo de areia muito branca e nele o enrolar da água azul, respirando longamente o misto húmido-enxuto das algas e das dunas, Céu sentiu esvaziar-se-lhe a cabeça, ou mais propriamente talvez, sentiu-se preenchida por uma sensação inefável de bem-estar. Era a mesma terna alegria que em criança experimentava no labirinto de roupas brancas que a avó deixava a flutuar nos estendais batidos pelo sol. Nesses dias (recordava-se tão bem) fechava os olhos e aspirava em haustos profundos o aroma do sabão. Nesses dias (como recordar pode ser tão maravilhoso) era como se a sua vida coubesse inteira no pátio invadido pela luz e pelo perfume.

Agora, ali, junto ao mar, a brisa do final da tarde fazia-lhe cócegas no rosto, soprando sobre ele as farripas loiras do cabelo e o pó subtil do areal. Apetecia-lhe dançar, erguer os braços, gritar, girar sobre si mesma mais e mais depressa, cada vez mais vertiginosamente, para que as imagens e os cheiros, para que as ténues variações de frio e de calor se fundissem e com eles se fundissem também o tempo e todas as memórias. Céu sentia-se feliz. Muito feliz. 

O homem que ela amava fotografava-a, sorrindo. Exigia-lhe, porém, poses, postura, correção. Um atrás de outro o homem que a amava fazia disparar relâmpagos com o pequeno orifício vítreo do telemóvel. Reclamava a sua beleza, os seus olhos verdíssimos, a sua atenção, o seu corpo. Raios o partissem. Seria tão bom tê-lo apenas quieto e protetor junto a si, como o farol centenário, dentro do seu sonho desperto, a brincar consigo e com o amor e a terra, naquela dança eutrapélica e cheia de graça. Puxou-o por isso contra si. Libertou-o do objeto tirano. Beijou-o. Era preciso resgatar os dias perdidos. Peneirando-se no tecido de pequenas nuvens tardias, o sol abria linhas oblíquas. Como se dito pela primeira vez, como se fosse possível redizê-lo como da primeira vez, soprou as duas palavras com intensidade, com intenção.

– Amo-te.

E amava.

NÃO-ASSUNTO

Foto: Przemyslaw Chola

Viu a jovem instrutora de fitness a discursar diante de uma multidão apoteótica. A beleza do corpo aliada à bela escolha de palavras e, sobretudo, à forma bela como unia os seus gestos repletos de graciosidade e de sinceridade desconcertou-o.

Sempre imaginara as pessoas intelectuais como rostos cavados e cinzentos, corpos curvados e bamboleantes. E sempre olhara as pessoas que cultivam o corpo como cérebros ocos e fúteis. A jovem deixou-o desgraçadamente preso. Ele, um homem do poder, pensou imediatamente em colher o dia.

Quando ao cabo de alguns dias de ensaio, lhe dirigiu sem pudor um convite, ela recusou-o. Ele recompôs-se da desfeita, concitou os nervos a um leque de frases ambíguas, de promessa e de ameaça, e insistiu. A jovem voltou a rechaçá-lo, enojada. Tinha marido, tinha princípios, tinha a juventude. Ele, velho porco, na qualidade de dirigente do partido, de pai de família e de avô, de líder carismático, deveria ter juízo, deveria acima de tudo ter respeito.

O assunto foi sempre um não-assunto. Quando a despediram do ginásio e quando, com muita pena, prescindiram dos serviços do marido no escritório de advogados, também foi um não-assunto. Os não-assuntos são, de resto, terríveis no nosso país, onde tudo o que vem à boca não passa de saliva e às vezes um pouco de raiva, também.