OS PEQUENOS GESTOS

OS PEQUENOS GESTOS

Os pequenos gestos são os que prefiro. Sei-o desde sempre, mas gosto de o lembrar. Fecho a porta do carro, caminho sem destino, vou considerando devagar as diferentes perspetivas da cidade, as casas, as pessoas, as cores, os cubos de pedra no chão, os sítios de que gosto mais e gosto menos. O ar frio trespassa-me por inteiro corpo e alma, aragem de Outono, lavada, repleta de memórias, estímulos que se agarram a mim, intensos e inexplicáveis…

Cismando nesta coisa que é estar-se vivo, passo e repasso pelas mesmas ruas, mãos nos bolsos, o olhar aceso, registando mentalmente movimentos, impulsos, ideias, até me deixar arrebatar de súbito, num canto qualquer, pelo aroma sublime do pão acabado de cozer, o mais puro e poético dos cheiros! Aroma extraordinário! Ocorre-me com um sorriso provável o quanto eu queria ser padeiro naquela idade em que todas as outras crianças queriam ser doutores, mecânicos e bailarinas.

Itinerário de escritor. Alimentado pelo impulso do pão, da memória e do frio, mergulho nas palavras. Junto-lhes o sabor do café, e sobre o tampo da mesa destapo a parker, entre todas a mais fiel das canetas, disparando-a como um raio sobre a brancura das folhas, plasmando de riscos e correções o papel, umas atrás das outras letras, frases tresmalhadas, pequenos versos, apontamentos incertos, rascunhos de literatura. Sinto vontade de escrever, de saciar essa fome que não se explica, mas que não raro tortura!

Fantasio sobre a cidade, sobre os pequenos gestos, sobre os meus sentidos da estação, destapados, desentorpecidos, julgando captar as coisas, os objetos, os estímulos como numa primeira vez! Repito para mim que Os pequenos gestos são os que prefiro. Sei-o desde sempre, mas gosto de o lembrar. Fecho a porta do carro, caminho sem destino, vou considerando devagar as diferentes perspetivas da cidade, as casas, as pessoas, as cores, os cubos de pedra no chão, os sítios de que gosto mais e gosto menos.

Os pequenos gestos nunca são pequenos! São tudo! Gestos como escrever uma carta no impulso da amizade, gestos como observar a quantidade de ternura de um pai ou de uma mãe a tomar o filho pela mão, gestos como avaliar o calor que se concentra num abraço ou num beijo, ou saborear intensamente os minúsculos rituais que nos cercam e que por capricho se tornam invisíveis, rituais como tomar café e limpar os grãos de açúcar derramados em torno da chávena, rituais como saborear a suavidade do sol, aí pelo meio da tarde, nestes últimos dias de novembro.

Talvez me lamente por tê-los ignorado tanto tempo, por me haver parecido a vida um escombro, ou um puzzle de peças soltas, ou esse vazio onde todos os triunfos e conquistas não silenciam a falta de algo, a dor de algo, a urgência de algo…

Reentro no carro, fecho a porta. Com o caderno em cima do volante e antes de regressar a casa, assento em letra miúda e pausada: O ar frio trespassa-me por inteiro corpo e alma, aragem de Outono, lavada, repleta de memórias, estímulos que se agarram a mim, intensos e inexplicáveis…

Ao cruzar o cinto, com a chave na ignição, transmudado, em paz, prometo-me apreciar melhor os instantes únicos do tempo, os pequenos flagrantes de um quotidiano tantas vezes baço e estúpido, instantes como abrir um presente ou escutar a água, apertar os atacadores ou sentir o afago de uma mão no rosto, segurar até esta velha parker, que comigo vem dividindo a luz e as sombras de existirmos ambos, assim, um para o outro.

In DOS MAUS E BONS PECADOS (Opera Omnia, 2007)

NÁPOLES

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Fotografia: Peter H.

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O calor morde impiedosamente. Na laguna a poente da cidade, os pombos proporcionam um espetáculo invulgar, abrindo e fechando as asas dentro de água, num modo de peixes desesperados. De resto, não se vê um único gato nos jardins ou nas varandas. Só os trabalhadores da construção civil aguentam firmes no posto, embrulhados numa nuvem de pó e sentindo dentro do capacete o suor gotejar como uma fonte.

Nesta altura do ano, o asfalto (repleto de excreções e de gordura) fede. Fedem as caixas das sarjetas, às quais assoma o bafo pestilento das esgotos. Fede o lixo abandonado, acumulado, fermentado um pouco por toda a parte.

Drusiana Abbagnano caminha à pressa. O seu trajeto: sair da Chiesa del Gesù Nuovo e abrigar-se no claustro do Complesso Monumentale di Santa Chiara, pouco mais de duzentos metros. Apesar de curta, a sua jornada faz-se num palco ababelado, onde turistas de todo o mundo se atropelam e atordoam, iguais a uma cainça.

Aqui, nas imediações do Vesúvio, todos os ângulos parecem formidáveis.

Drusiana é uma monja. Estuda e ora, trabalha e presta assistência no Ospedale degli Incurabili. Na sua cela poisam livros incontáveis de História Medieval. Por exemplo, os Historiarum Libri Quinque de Rudolfo, o Glabro. Interessa-lhe conhecer, sentir o pasmo das almas viajantes, que se descobrem ingenuamente próximas tanto do passado como do futuro. Se a Idade Média é a imensa madrugada, durante a qual a Cristandade ergueu as suas paredes vetustas, o porvir é a manifestação de um propósito. E se estudar as origens da sua fé, amar a música gregoriana, reaprender Agostinho, Tomás de Aquino, Francisco e Clara de Assis constitui para si um deleite imenso (uma imersão em sabedoria e paz), apenas nas obras e no trabalho se realiza. Os outros são a prova de que Deus nos fez nascer incompletos e ignorantes. E, por isso, lhes devota a vida.

Mas este calor, esta sujidade maligna, esta confusão da cidade vendendo-se aos forasteiros perturbam-na.

Tem pressa, sim, procura a quietude, a frescura, o som revigorante da água que sai dos repuxos e corre nos canaletes, através da relva e da murta, ao longo dos arcos e das lajes rebrilhantes e sombrias.

Esse refúgio é o seu paraíso na Terra. Nele (privilégio imenso) ciranda muitas vezes sozinha. Ouve o sapatear das suas próprias sandálias, o canto das rolas-coleiras, o murmúrio das palavras que sempre recita a meia voz dos livros santos.

Peripatética é esta freira clarissa: ensina e aprende, caminhando sempre; a ninguém mais ensina, a si sim, dando voltas ao pátio do convento e repetindo os cânticos fraternos da sua ordem.

Às vezes a chuva vem. Chega de supetão. A monja escuta-a e observa-a, poderosa, abluente, caindo sobre a pátina urbana como uma graça infinita do Senhor!

Em Nápoles, a chuva não é despicienda ou arbitrária: Deus serve-se dela e do pó, como da tinta e do papel se servem os homens. Depois da chuva todas as coisas se parecem humildes e reabilitadas, como depois de um perdão.

Mas hoje o calor é imenso. Insuportável.

Não lhe pertencem, ainda assim, os pensamentos de Drusiana.

Pensa, isso sim, na velha senhora, de aspeto débil e pálido, que lhe estendeu as mãos esta manhã e lhe disse “Adeus”. “Onde estão os teus filhos?” perguntou. Como é seu hábito, a monja repete num modo recitativo as palavras em que medita. Escuta e repete, repete e cisma:

“A ‘o cane viecchio tutte quante lle scarpesano ‘a coda”.

Já em muitas ocasiões, no leito de morte de outros doentes, sentiu a mesma vivíssima impressão de amor. Têm talvez a mesma idade, histórias diferentíssimas e, por fim, quem sabe o mesmo destino.

Drusiana pensa na expressão bela, pungente, quase feliz, que a anciã juntou no fim de tudo, como um chiste:

“‘A vecchiaia è carogna, ma pe’ chi nun’ n’ce arriva è vriogne.”

Nós, que entendemos algum dialeto napolitano, traduziremos ambos os provérbios: “Ao cão velho todos pisam a cauda” e “A velhice é uma podridão, mas vergonhoso é não chegar lá”.

Dia de calor insuportável, sem dúvida. Igual a um grande inseto mordendo sem piedade. Todos aqui conhecem a dureza deste aferroar. Em Nápoles até as pedras gemem debaixo do sol.

Também elas cismam e repetem velhos pensamentos dolorosos. Dificilmente traduzíveis.

PÁRAIC O’REILLY

Patou Ricard
Fotografia de Patou Ricard (Pixabay)

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Dezembro verte uma fina camada de vidro sobre as casas. Em toda a parte doem os nós dos dedos e os ossos. Páraic levanta as golas do sobretudo e sai da taberna. Na Irlanda, a lua cheia é neste mês uma presença transfiguradora: os telhados e chaminés húmidos das aldeias, os bosques e rios atafulhados de velhas divindades mágicas, os promontórios cheios de espuma lá em baixo, tudo para onde o nosso olhar se dirige espelha uma majestade que as palavras não sabem dizer, tal como acontece nos sonhos. Páraic vê nessa iluminação (e em nenhum outro lugar mais do que nela) a presença antiga e visceral de Deus. Não o entendem.

Desde que abandonou o mosteiro (porque foi monge este Páraic O’Reilly), escreve, bebe e às vezes ensina. É vagamente o que se imagina ser um poeta e sem dúvida o homem mais só em todo o condado de Clare nesta noite solsticial de vinte e três, ou vinte e quatro.

Emborcado o último gole da última cerveja em Killarney, toma a resolução. Vem caminhando perpendicularmente ao bojo negro da Catedral de Santa Maria, onde os coros locais ensaiam já, ou ainda, cânticos de louvor ao que nasceu e ao que há de nascer nesta data. Páraic mete-se no carro e arranca para norte. São duas horas e meia, a andar bem, mas vale a pena.

Aqui viveu a infância, aqui vive ainda a melhor parte de si. Páraic sente o formidável cheiro do mar misturado com o do campo. Ardem-lhe os olhos, a garganta também dá sinal de si. Não será por muito tempo. Encontra-se pertíssimo das falésias de Moher. A meia-noite não tarda. Calculou com minúcia cada etapa da viagem. Abandona o automóvel num estradão, espiado somente pelo olhar atónito das corujas, e avança em passo firme até ao extremo do penhasco onde ergueram a Torre O’Brien.

O revérbero lunar nas águas do Atlântico hipnotiza-o. A beleza das coisas não pode provar senão a magnificência do Senhor. Os homens deviam contemplá-la assim, amá-la sem limites ou subterfúgios. De nada serve rezar se não se compreende o encantamento da perfeição divina. Desde que abandonou a condição de monge, foi-lhe ministrada por completo a lição mais dolorosa da sua vida: os caminhos do Senhor são, não apenas insondáveis, como sobretudo paradoxais. É um eremita, um pária, e conhece melhor do que ninguém o significado da busca de redenção, agora que passou à vida secular e se sente odiado por toda a gente.

Lá ao fundo as ondas fosforejam, o vento glaciar empurra-o, todos os seus sentidos o impelem a seguir em frente. Liscannor oferece passagens excecionais para o outro mundo: um passo avante e será um salto, duzentos metros de voo e o fim de todo o seu suplício.

Mas é, então, sugado para o âmago de um círculo de fogo. À sua volta, à meia-noite em ponto, uma claridade terrena acende-se como por milagre. São fogueiras altas, deflagrando desde as escarpas de Doolin, a norte, até aos promontórios de Baile an tSéipil, a sul. Páraic ouve, de chofre, um cântico levantar-se, nascido na garganta de centenas de mulheres que ali de súbito, será um prodígio, surgem do meio das trevas, vindas do nada.

É uma festa pagã, um ritual de que ouvira falar uma vez há muito, mas em que não acreditara. Talvez em honra de Dagda (deusa da sabedoria), ou de Fand (deusa do mar), ou de Tan Hill (deusa do fogo), ou de Arianrhod (deusa do lar), ou quem sabe de Aine de Knockaine (fada do amor e da fertilidade). A vozearia multiplica-se com o rufar de tambores e guizos e ululantes saudações ao inverno que chega.

As mulheres dançam frenéticas, percorrem o manto esverdeado do litoral e atiram os braços à lua cheia. Depressa engolem na sua roda Páraic, apertam-no contra os seios e as coxas, beijam e acariciam-no. Trazem-no de volta à vida para que nelas produza a vida. Esta, insuflado por uma espécie de êxtase orgíaco, cumpre. Cumpre com todas as suas obrigações, não sabe como, nem com quem. Dizem que nessa noite gera setenta filhos.

Evidentemente que as lendas mentem. Do sémen de Páraic O’Reilly vêm ao mundo, quem sabe, sete, três, um filho, talvez nenhum. Setenta, juram por cá.

E que diferença faz?

UM PEDREIRO

Fernando Silveira
Fotografia de Fernando Silveira

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Era um pedreiro quase analfabeto, originário de uma das aldeias mais recônditas de França, daquelas que vemos poisadas como ninhos de grifos nos píncaros das montanhas. No entanto, as suas mãos cortavam, cinzelavam e ornavam os blocos de granito com a prodigiosa sabedoria com que os autores escrevem tratados.

A catedral precisava de obras, por isso, de mãos como as suas. Subiu a um lugar tão alto que nele não se podia caminhar sem o poderoso mal das vertigens. Ficava no campanário, acima do vigamento e dos sinos. Aí, mal disfarçada por teias de aranha, lia-se a seguinte inscrição:

LUCIUSC RECTOR FABRICAE
ANNUS DOMINI MCLXIII

Não compreendeu o que dificilmente podia ler. Também pouco diziam as duas linhas abertas com o escopro. Nelas apenas o nome daquele que no passado conduziu os trabalhos de construção do imponente e maravilhoso templo – outro montês e iletrado, a quem o tempo destruiu o rasto.

“VEM”

Kerry Moore
Fotografia de Kerry Moore

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Acordava e logo se vestia à pressa, saindo de casa com uma maçã nas mãos, tirada a correr do saco com as poucas compras que abandonara no dia anterior sobre a mesa.

Entrava esbaforido num dos elevadores da empresa, a esbarrar-se nas pessoas e nas portas, e se lhe perguntavam porque não acordava mais cedo e não procurava acalmar-se, dava respostas vagas e mal tingidas no som. Parecia alheado e talvez um pouco lunático.

Uma manhã chegou atrasado ao trabalho.

Abriu devagar a porta do pequeno gabinete onde passava grande parte do tempo e avaliou, a transbordar de fastio, o andaime de pastas de arquivo e a frota de dispositivos eletrónicos à sua espera. Na penumbra, todo o pequeno espaço esmagava como uma cela.

Na viagem de metro para cá reparara num jovem casal.

Cada um apertava a mão do outro e trocavam olhares de uma leveza e de uma doçura quase ingénua, como as primeiras tardes de primavera. O rapaz confidenciava-lhe coisas que a faziam sorrir e ela, disponível e cheia de beleza, aceitava-as como uma dádiva.

No interior da última gaveta, voltada do avesso, soterrada em papel, estava uma moldura. Pô-la à sua frente e, com espanto, deu-se conta de que lhe doía ainda algo antigo e profundo. Esbanjara a saúde, o amor e a maior parte dos sonhos.

Uma mulher de longos cabelos avermelhados e pequenas efélides, sob olhos muito azuis, dizia “Vem”. Sentado na cadeira do costume (com rancor, sem ânimo de espécie alguma, sentindo grilhetas nos pés), ele não ia a lado nenhum.

FESTA DE SÃO NICOLAU

Jan Steen, A Festa de São Nicolau, c. 1663-1665
Jan Steen, A Festa de São Nicolau, c. 1663-1665

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Saskia observa o quadro uma vez mais.

É um prazer que guarda desde a infância. Todos os anos no dia do santo patrono, cumpre o ritual de se passear pelos corredores do Rijksmuseum, de abrir para o passado esta janela imensa que Jan Steen pintou, de se intrometer na cena familiar da noite de São Nicolau, de se divertir com o ar choroso do garoto malcomportado (também ao seu irmão mais novo trouxe “Pedro Negro” certa vez carvões em lugar de presentes), o ritual de se enternecer com a alegria dos rostos de outrora, ávidos como ela de vida, embora felizes. Saskia contempla a obra-prima, procurando nela adivinhar o bom aroma do gengibre, as ondas de calor da casa, o som que as velhas senhoras fariam para animar as crianças.

Mais do que uma visão, mais do que um retrato de época, é todo um aconchego o que ali se guarda. Saskia sente, nos minutos preciosos que reserva todos os anos no dia 6 de dezembro, uma espécie de labareda a vibrar dentro de si. É um despertar, como quando as ruas gélidas da cidade vão dar a café animado. Como quando escuta jazz e as suas mãos retomam um desvelo saudoso por Aiden, o seu marido há quase três décadas.

Quando abandona o Rijks, gosta de sentir na pele o ar frio de Amesterdão. Sente-se de um modo muito particular rejuvenescida. O dia de São Nicolau é o prenúncio do Natal que aí vem. Apetece-lhe patinar, pôr-se ao lume numa velha cozinha, preparar doçarias. Aiden deixou de se importar com estas tolices momentâneas.

Acha-lhes piada. Somente isso.

O ACORDEONISTA

Viktor Cherkasov, acordeonista
Fotografia de Viktor Cherkasov

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Depois da guerra, regressou a casa. A História conta-nos muito acerca dos maus regressos, desses que a literatura (desde Agamémnon) sabe escorripichar e que a psiquiatria aproveita cada vez melhor. Regressou sem um tostão, sem uma cicatriz visível, sem uma memória acolhedora, sabendo já – no momento em que desceu o derradeiro passo do portaló maldito – que a namorada o havia substituído.

Gusmán era bom rapaz, com a sorte dos bons rapazes: passaram meses até que assentasse, anos até que descobrisse uma vocação, décadas até ser capaz de pronunciar o nome da grande puta. Quando o fez, a fama de acordeonista rivalizava com a de ladrãozeco e ambas com a de bêbedo.

Como conseguia ele equilibrar-se nos três apodos era coisa que não espantava.

Talvez fazendo intervalos. Talvez caindo nas três desgraças como se cai por umas escadas com gosto, masoquistamente. Talvez segurando a alma nas artes de tocar, furtar e beber como se segura num tripé uma panela de ferro, sem amor, e apenas por necessidade absoluta de manter-se de pé de alguma forma.

Uma noite, no botequim onde o encontravam invariavelmente a guarda, as amantes e os guapos de Buenos Aires ouviram-no tocar maravilhosa, impecável, imaculadamente entre outras o Oblivion e o Adiós Toniño. Dir-se-ia que o próprio Astor Piazzolla teclava ali os botões e agitava os foles, a música saía bela e visceral do salão, cheia de um sentimento que o lustre e os vidros e os cristais fazer repercutir, como se todos, os rostos, objetos, as lâminas embainhadas esperassem ainda um pouco mais e depois mais nada.

Encontraram-no morto a meio da manhã, apunhalado, com um sorriso subtil nascido no jogo de contorção dos lábios.

Também isso não era coisa de espantar.

«APRESENTAÇÃO DE EUTRAPELIA DE JOÃO RICARDO LOPES», POR PAULA MORAIS

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«APRESENTAÇÃO DE EUTRAPELIA(1) DE JOÃO RICARDO LOPES», POR PAULA MORAIS

Aquando da publicação de O Moscardo e outras histórias, tive oportunidade de referir que João Ricardo Lopes é a simbiose entre o poeta e o professor, fazendo lembrar outro grande mestre da poesia, também ele professor: António Gedeão. Ambos desenvolveram essa capacidade de viver num mundo intermédio, entre o onírico e a realidade, o mundo “sensível e o inteligível” – como designou Platão (2) ao mundo a que chamamos real e ao das ideias, equivalente ao céu em termos religiosos -, de trazer para a poesia as pequenas coisas do quotidiano e, a partir delas, buscar a eterna resiliência humana e aceitar que tudo (alegria/dor, felicidade/infelicidade, vida/morte, entre outros) é a vida e ela é feita de sonhos, de outras formas de captar o real.

Outro grande poeta, Eugénio de Andrade, no poema “Matéria Solar”, efetua uma breve reflexão sobre o seu material de escrita – as palavras – inquirindo um interlocutor virtual sobre “Que fizeste das palavras?”, “Que lhes dirás, quando/te perguntarem pelas minúsculas/sementes que te confiaram?” (3). É, precisamente, para fazer germinar essas sementes (frágeis, preciosas e, por vezes, efémeras) que os poetas as entretecem com a página em branco (em formato físico ou digital) de forma a interpretarem o mundo, o ser humano, o real observado ou imaginado, muito embora sempre de uma perspetiva pessoal. Como salienta Rudolf Arnheim: «The human mind receives, shapes, and interprets its image of the outer world with all its conscious and unconscious powers» (4).

O mais recente livro de poesia de João Ricardo Lopes é um ótimo exemplo desse processo de rememoração da vida, do mundo, convertido em palavras partilhadas com o leitor, dessa necessidade de prestar contas a um credor mudo, mas sempre presente: as palavras. Por isso, em “A vida das palavras” (5), um dos poemas que faz parte de Eutrapelia, efetua-se um pequeno périplo por um conjunto de palavras “esquecidas”, mas “tão sonoras ainda” para concluir que “as palavras nascem, vivem e morrem”; no entanto, o sujeito poético constata também que elas ressurgem de forma inusitada, daí o poema finalizar com a interrogação retórica “quem diria que ressuscitam?”

Assim, ao longo de cinquenta poemas, o leitor é convidado a acompanhar as palavras numa viagem pluridimensional: misto de sensações – ora visuais, ora auditivas, ora táteis, ora olfativas – e de memórias intelectualizadas de situações, espaços, músicas, objetos artísticos e pessoas; num regresso ao universo da infância, ao contacto com a terra e os antepassados numa espécie de reviver pueril e incrédulo do Eu, numa tentativa de resgatar as coisas simples e aparentemente negligenciáveis do esquecimento. Esse olhar as coisas com a visão da criança acabada de descobrir o esplendor, positivo ou negativo do mundo (à semelhança de Alberto Caeiro), é desde logo destacado nas duas epígrafes com que inicia a obra: uma de Emily Dickinson, a outra de Jacques Prévert.

Em ambas, o elemento comum é o pássaro, esse animal que partilha terra e ar, que esmorece se aprisionado; visto, em algumas culturas, como um emissário dos deuses, noutras como a voz do infortúnio, do amor infeliz, da ânsia pela liberdade. No caso da primeira epígrafe, realça-se o seu papel simbólico, ele representa a imaginação, a liberdade, a ausência de fronteiras, o sonho e, em última instância, a própria poesia. No segundo, o Eu deseja não parar de cantar para que os pássaros o conduzam até climas mais luminosos (“Yellower climes”) e associa esse ser volátil ao coração da criança. São, precisamente, esses alguns dos tópoi (já explorados noutras obras do autor) que subjazem à construção dos poemas de Eutrapelia: a luz e o seu impacto (“aquilo de que mais gosto/é desta luz”, “e então subitamente o sol”, “abafadores do sol”, “a luz cai mais justa”, “a luz periclitante”, “iluminados pelo assombro/dessa luz”, “interior da própria luz”, “relâmpagos” e “trovões”, “vestir um poema com sol”, “a luz límpida de Creta”, “a luz do sol”, “lâmpadas”, “sol a pique”, “a frontalidade da luz”, “o sol escorre aí”, “luz acesa”, “interior da luz”, “clareiras de luz”, “luz madura de cereal”, “luz limpa e cálida de junho”, “a luz caía”), o maravilhamento com o mundo e o colorido das flores (veja-se, por exemplo, “Allegro”, “Solstício em Creta, palácio de Cnossos”, “Tremezzo”, “Rosas vermelhas, agapantos azuis”, “Gerberas”), a persistência da concretude e da acidez de algumas vivências simbolizadas na “pedra” (“voam como pedradas”, “pedra imprecisa”, “pedra talhada”/“rocha”, “pedras”, “o branco das pedras”, “degraus de granito”, “a pedra que no poço cai”, “pedras do lagar”, “coração da pedra”), o mundo da infância associado à casa e aos avós (“O cheiro da terra”, “Noutro tempo”, “O outono acena mais perto”, “Sabão Marselha”, “Casa dos avós”), a importância da arte na construção da visão de mundo do Eu (“Sevilha, inverno de 93”, “Carnaval e quaresma, segundo Bruegel”, “Duomo, Milão”, “Pavana, Ravel”, “Natural History Museum, Londres”, “Tomas Tranströmer”, entre outros).

O primeiro poema da obra surge como uma espécie de metatexto, de texto programático, em que se explora o fazer poético do autor, a forma como ideais e palavras se vão concatenar para erigir um universo poético ao qual o autor regressa ao fim de quase uma década. Nele destacam-se os elementos fulcrais da sua visão de mundo, elencam-se os itens de que mais gosta e que perpassarão todos os poemas: “a luz”, “a voz”, a “fúria do vento”, a “memória”, as pequenas tarefas de um quotidiano longínquo e pueril (“os antigos sábados/em que esfregávamos o soalho da casa”) e a consciência da plenitude, da harmonia, da inclusão num todo de que se é uma parte: “éramos servos humildes/de uma causa maior/e nos sentíamos tranquilos/e asseados” (6). Já o último, “Prodígios”, permite encerrar essa viagem pelo universo das sensações, da simbiose entre natureza e ser humano, pelo campo das possibilidades (como a tripla repetição da expressão “é possível” deixa bem evidente). Numa sucessão de metáforas visuais (o vento a ser arado, decomposto em diversos elementos do planeta Terra; a lágrima constituída pela “subtil viração de certas tardes de inverno”, por exemplo), no apelo a diversas sensações (a audição – “ouvir o coração das pedras palpitar” -, a visão – “conhecer o mundo no desenho confuso dos dedos” -, a tátil/visual – “acordar para o fogo” -, a tátil/auditiva – “dormir sobre as águas”), na alternância contínua entre o presente e o passado, o leitor descobre um “mundo subitamente interrompido”, um prodígio, mas plenamente amado pelo “avô”.

A mediar um e outro, aparecem os restantes poemas, o material palpável da construção do universo poético do livro, aquele que correspondeu à captação da informação através dos sentidos, a sua intelectualização e posterior transformação em nova informação, isto é, visão do mundo (7).

Visão transfiguradora, à semelhança de Cesário Verde, dos surrealistas; união entre musicalidade e símbolo como Camilo Pessanha, num trazer para a poesia os efeitos cinematográficos da dança entre os quatro elementos primordiais (água, ar, fogo e terra) bem evidente em “Trovoada”; na captação desse fenómeno natural como uma espécie de dança luminosa, ao som de uma orquestra dominada pela percussão e pelo piano, conduzidos pela batuta da chuva, numa brincadeira luminosa encabeçada pelos relâmpagos que permitirá salvar o “nós” no momento derradeiro, evidenciado pela tripla repetição de “ao menos isso”.

ao menos isso,
ao menos isso,
os relâmpagos chafurdando
no espaço,
alegrando a noite,
os trovões percutindo
nos gonzos das portas,
o cheiro da terra seca
que os dedos da chuva
levantam.
ao menos isso,
saber algo acordado
em nós e para nós,
como um vibrato ao piano
que alguém toca
a horas tardias,
mesmo a tempo de nos salvar. (8)

Eutrapelia, mais do que um brincar ameno com as palavras e as situações, um procurar ridicularizar sorrateiramente determinados comportamentos/situações, é uma reflexão subtil, límpida e frágil sobre a forma como o Eu se constrói/reconstrói a partir da memória e da recuperação do olhar inocente e ingénuo da criança que um dia foi. É a procura de um sujeito pensante uno e coerente, feito da diversidade das sensações, das memórias e das aprendizagens (daí a referência à música e ao cinema – “Concerto de Aranjuez”, “Coltrane”, “Pérotin”, “Eleni Karaindrou”, “Cine Paradiso, Giuseppe Tornatore, Enio Morricone”) – aos museus e às obras de arte (“Caravaggio”, “Bosch”, “Duomo”, “Rijksmuseum”, “Rothko”), aos escritores nomeados ou detetáveis a partir de certos versos (“Anna Akhmátova”, Sophia de Mello Breyner e o poema “Ressurgiremos”, “Saramago”, Shakespeare e o “Falstaff”, “Hesíodo”), dos diálogos estabelecidos com um Tu interior ao poema ou um Vós (símbolo do leitor) que conduz à criação de um universo poético onde vida e morte são encarados como dois lados inseparáveis de uma mesma realidade, onde a fragilidade das coisas simples é evidente pela sua não valorização ou perda de memória. Fernando Catroga considera que “recordar é em si mesmo um ato de alteridade. Ninguém se recorda exclusivamente de si mesmo, e a exigência de fidelidade, que é inerente à recordação, incita ao testemunho do outro” (9). João Ricardo Lopes enfatiza, no poema que dá nome ao livro, “Eutrapelia”, que são as recordações dos pequenos-nada do quotidiano que permitem à humanidade superar a dor e o desalento.

Eutrapelia

quando os dias forem
demasiado pesados, repetitivos, atrozes,
talvez possas recordar-te
do magnífico jarro amarelo
que renasce todos os anos
no quinhão mais sombrio do quintal,
ou das palavras sábias de Epicuro,
ou das palavras santas de Agostinho,
e amar a beleza de outro modo,
ou conhecê-la para além
das formas, das cores, do senso-comum,
medindo-a não já pela intensidade
e espalhafato,
mas pelo bem que te faz. (10)

A valorização do quotidiano perpassa grande parte dos poemas, razão pela qual em “Arte de furtar” a reflexão sobre o objetivo do furto recai não sobre aspetos materiais e sim sobre o “lugar que nos serve de refúgio”, constituído das “pequenas dádivas” da existência.

o que furtaríamos nós se pudéssemos,
se acaso nos fosse concedido o dom da invisibilidade
e o poder de atravessar com o roubo
as paredes mais impenetráveis?

que espécie de ouro poderia sobrepor-se ao mel,
às pequenas dádivas que colhemos nos dias comuns,
ao lugar que nos serve de refúgio
quando em volta as monstruosidades do tempo
tomaram posse do nosso chão?

qual poderia ser agora a arte de furtar,
a boa boca de que sairiam as sábias sentenças?

e o poema? em que bolso, leitor,
o levarás? (11)

Este poema funciona, deste modo, não só como um relembrar a importância das coisas simples da existência humana, as “pequenas dádivas” da “vida comum”, como as denomina o poeta, que rapidamente são roubadas pelas “monstruosidades do tempo” que “tomaram posse do nosso chão”, mas também como uma transferência de responsabilidade para o leitor, enfatizada pela sucessão de interrogações retóricas. Se Eugénio de Andrade interpelava o poeta sobre o uso que deu às palavras, João Ricardo Lopes questiona o leitor sobre “e o poema? em que bolso, leitor/o levarás?”. No entanto, a responsabilidade do autor enquanto construtor de mundos, agente ativo da cultura e da mudança de mentalidades não é esquecida. Por isso mesmo, em “Poiein”, o autor rememora os gregos e a forma como entendiam a poesia – ela deveria ser sempre a apologia da vida, da positividade e nunca dos conflitos, dos medos e das angústias -, contrapõe as palavras de Juan de la Cruz e destaca que a poesia é sempre (como se torna evidente em momentos históricos em que impera a mordaça e a censura (12)) uma arma, uma luz intensa, algo abrasivo e incómodo a confrontar o comum dos mortais e a instigá-lo a proceder à mudança.

vestir um poema com sol
é o que fazem os gregos desde o começo,
celebrar a vida
e nunca o dissídio de psyche e phren,
nunca o fantasma de Pátroclo
que confessa a Aquiles
a tortura do silêncio

o poema é para eles
uma coisa veemente, pulsante, viva,
incapaz de soçobrar no tempo
ou de ser vencida
pelo pó

às palavras de um poema
chamará Juan de la Cruz séculos mais tarde
lâmpadas de fogo entre as cavernas profundas
do sentido

concordamos, em suma, neste ponto –
nada queima como a poesia quando queima (13)

Porto, 13 de novembro de 2021,
Paula Fernanda da Silva Morais

Notas:

1. LOPES, João Ricardo – Eutrapelia, Fafe: Labirinto, 2021.

2. PLATÃO – A República (intr., trad. e notas de Maria Helena da Rocha Pereira), 7.ª ed., Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.

3. ANDRADE, Eugénio de – “Matéria Solar” (1980) in Poesia, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2000, pág. 328.

4. ARNHEIM, Rudolf – Art and Visual Perception – A psychologiy of the creative eye (The new version), Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1974, pág. 461.

5. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 39.

6. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 9.

7. Arnheim esclarece que o ser humano constrói a imagem do mundo «(…)absorbing information through senses and processing and transforming it internelly» (ARNHEIM, Rudolf – Art and Visual Perception – A psychologiy of the creative eye (The new version), Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1974, pág. 411).

8. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 18.

9. CATROGA, Fernando – “Memória e História” in PESAVENTO, Sandra Jatahy (org.), Fronteiras do Milênio, Porto Alegre, RS: UFRGS, 2001, pág. 45.

10. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 27

11. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., pág. 42.

12. FANHA, José (org. e apresentação) – De Palavra Em Punho – Antologia Poética da Resistência. De Fernando Pessoa ao 25 de Abril, Porto: Campo de Letras, 2004, pág. 10: “Foi um tempo [o do Estado Novo] em que reinou a mordaça mais do que o silêncio e em que toda a palavra era mais perigosa do que pólvora. Por isso mesmo esse tempo encontrou na poesia o seu incêndio mais urgente. Era preciso levantar alto a palavra. Usá-la como rastilho. Viver de palavra em punho.”

13. LOPES, João Ricardo – Op. Cit., 21.

APRESENTAÇÃO DE EUTRAPELIA NA FLÂNEUR (PORTO)

Teve lugar, ontem à tarde, a apresentação do meu último livro na Livraria Flâneur, no Porto. Senti uma grande alegria por ter reencontrado velhos amigos e por ter podido conhecer novos amigos. Se a poesia for azo para que as pessoas se conheçam e convirjam num olhar diferente sobre o mundo, então valerá ainda mais a pena. Literalmente.

A conversa em torno de Eutrapelia contou com uma recensão notável de Paula Morais, professora e amiga a quem agradeço sobremaneira o cuidado, a gentileza, o carinho enorme, tidos com os 50 poemas do livro, que visitou com acuidade, amplitude e sensibilidade exemplares. Senti-me verdadeiramente privilegiado. Muito obrigado, Paula!

No outro lado da mesa, em representação da editora Labirinto, a poeta e tradutora Sara F. Costa, que pude finalmente conhecer, emprestou a sua visão analítica e poética subtileza à leitura de Eutrapelia, transformando o espaço num momento de diálogo que muito me tocou. Também a ela quero muito agradecer, porque o que dois poetas veem juntos é uma dádiva inestimável.

A todas e todos os que estiveram na Flâneur, sem exceção (família, amigos, colegas), estendo o meu agradecimento, que não é senão o meu modo de dizer (citando Camilo Pessanha) “Que a jornada é maior indo sozinho”: acompanhado por todos, senti-me acalentado, em casa, feliz! Não pode ser maior a satisfação de um autor do que essa, a de ser lido, compreendido, (citando agora Joan Margarit) “culminado”!