NASCER DO DIA

Gary McParland
Fotografia de Gary McParland

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Acorda todos os dias muito cedo. Faz o menos barulho possível enquanto trata da higiene pessoal e de tomar o pequeno-almoço. Há pessoas a dormir e a necessitar do trabalho profundo dos sonhos.

Quando abre a janela do quarto, espreita sempre com muito interesse: a adivinhação da luz ou da falta dela (conforme a época do ano), o estado do tempo, o cenário com que a rua se apresenta, tudo o impressiona como se em cada manhã nascesse outra vez.

Porque se levanta cedo? Tem pressa de ir para o trabalho?

Na verdade, não trabalha já. É um aposentado. Mas dá-se pressa de assistir ao nascer do dia.

Ao longo da sua já considerável vida, sempre o alvorecer (devota grande amor a essa palavra e a outras praticamente sinónimas, como alba, alvorada, aurora, arrebol, dilúculo), dizíamos, sempre o alvorecer lhe pareceu o truque de magia mais extraordinário do universo.

Sai para o terraço com uma chávena de café nas mãos, imaculadamente vestido, impecavelmente penteado e entrega-se à contemplação. A essa hora o cheiro das folhas molhadas pelo orvalho ou pela chuva, o sopro meigo e frio do vento nas árvores, o curto saltitar dos pássaros entre as telhas ou no quintal, o perfume misturado da murta, da terra e do café são como dádivas intraduzíveis.

Um pouco antes de o horizonte ser atingido de lés a lés pela labareda do sol, diverte-o a confusão de linhas esbranquiçadas que os aviões deixam à sua passagem. São traços gelatinosos, translúcidos, como aqueles que os pachorrentos caracóis desenham no cimento.

Vive com o filho, a nora e quatro netos. Ninguém em casa compreende este ritual. Ver a luz nascer, ainda que no inverno, sobretudo quando a cama tanto apetece, não é coisa de somenos importância.

Espera-se uma vida inteira pelo prazer de combinar estas coisas todas. Não há aqui qualquer toque de religião ou de poesia. Um homem em certo momento da sua vida prescinde de tudo. Menos de si.

O JARDIM AMARELO

Ulrike Eisenmann
Fotografia de Ulrike Eisenmann

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É um terreno de cinco hectares e meio, com socalcos e linhas imperfeitas, onde, consoante a época do ano, amarelam áleas de mimosas e gingko bilobas, renques de bordos e sibipirunas, canteiros de dálias e de hibiscos, talhões de calêndulas e de astromélias, vasos com lantanas e zínias, bacias de plástico e bidões com lírios e orquídeas, onde medram em latas e vasilhas amolgadas gerberas e jacintos, monturos de cravos-de-tunes e girassóis, mas também (a esmo, como numa charneca) toda a espécie de matos, com as suas pétalas garridas, giestas e solidago, funcho e bocas-de-leão e muitas outras plantas e flores, inumeráveis arbustos e árvores cor de gema, ou de açafrão, ou de fogo, cuja bênção maior é a dissimular semana atrás de semana, mês após mês, ao longo do ano, o velho edifício da cadeia.

Vêm aqui muitos visitantes espreitar o bosquedo. Admiram-no para lá de camadas sucessivas de rede e arame farpado, interrompidas aqui e além por pequenas torres de vigia e canos de metralhadora.

A quem aqui vem um velhote desocupado conta sempre a mesma história.

– Do jardim trata um assassino. Acontece que o tipo uma vez matou a mulher, que era muito bonita e muito jovem ainda, convencido de que ela o traía. Tudo maluqueira da cabeça dele. Foi condenado a prisão perpétua e aqui vive desde há muito, sentenciado à sombra mais escura, ao ódio mais frio, à tristeza mais silenciosa.

O cicerone é dado a palavras elegantes.

– Esse imenso terreno tem sido revolvido a enxada e a picareta. Olhem, é o seu trabalho de Hércules. O tipo odeia a cor. Porque o amarelo, como todos sabemos é a bandeira dos loucos.

Os visitantes ficam impressionados com a obsessão do criminoso.

– Este fogo espalhado por toda a parte que veem não é, como seríamos levados a pensar um modo de o assassino se iluminar, aquecer ou de se exprimir.

Quem escuta estas palavras vizinhas da poesia não pode deixar de franzir o sobrolho.

– Pelo contrário, todo este chão de labaredas é o seu inferno. Acreditem: sem piedade ou arrependimento, é aí que o desgraçado perpetuamente se vai imolando.

O FABRICANTE DE VIOLINOS

Israel Fichman_repairman
Fotografia de Israel Fichman

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para a Céu

Ruggero Montefforti foi batizado no dia 22 de novembro de 1925, com apenas três dias de idade, na pequena igreja medieval de Santa Cecília, em Chizzola, localidade alpina pertencente à comuna de Ala, na região de Trentino-Alto Ádige. A sua morte prematura era um dado adquirido no seio familiar, pelo que a devoção à santa mártir de Roma, padroeira da música sacra, prosperou.

No princípio da adolescência, Montefforti trocou Ala por Cremona, para ingressar na oficina de um tio materno, Gianluca d’ Oglio, reputado luthier, de quem aprendeu quase tudo o que sabe em matéria de fabrico de instrumentos de cordas, escolha de madeiras, perícia no desenho e no corte, firmeza no desbaste e no polimento, domínio de soluções e vernizes, tempos e técnicas de secagem, apuro auditivo.

Casou no final da Grande Guerra com Stefania Pasquarelli, três anos mais nova, de quem teve catorze filhos, todos natimortos. Enviuvou aos quarenta e dois, justamente aquando do último parto da mulher.

Quase centenário, mantinha o porte cavalheiresco. Todos os dias de manhã passeava pelas margens do rio Pó, impecavelmente trajado de fato, colete e gravata. Encontrava-se com os amigos no Bar Ai Portici, onde lhe serviam um café acabado de fazer e o seu torrone de amêndoa, nozes e avelãs. Perdeu a conta aos violinos, violoncelos, baixos, violas de gamba, violões, tiorbas, guitarras, alaúdes, harpas, liras, até balalaicas, cítaras e pianos em que trabalhou, toda uma floresta cantante, que intérpretes famosos, como Jordi Savall, Anne-Sophie Mutter e Christina Pluhar usam, guardam e têm entre os seus bens mais preciosos.

Na manhã do seu octogésimo quarto aniversário, o senhor Montefforti sentiu uma espécie de chamamento. Dias depois, na companhia de um sobrinho-bisneto, viajou até à terra natal. Visitou os lugarejos que a memória lhe devolvia ainda nítidos. Depois seguiu viagem para o Vale de Fiemme, em direção à floresta de Paneveggio. Aí, no coração do Trentino, sentiu como na infância o frio das Dolomitas, o rosto fustigado pelo vento gélido, os pulmões abertos pela corrente sem mácula de milhões de espruces ondulando. Veio por eles, pela madeira prodigiosa destes abetos vermelhos, que desde Stradivari enche as bancadas de todos os artesãos de Cremona.

Ruggero Montefforti soube sempre que a escolha das árvores deve ser meticulosa. As melhores têm delicados anéis concêntricos, finas fibras elásticas, pequenos canais linfáticos ressoantes. Devem ser cortadas nos meses que antecedem o solstício de inverno, evitando a abundância de seiva. “Só a mais perfeita das árvores pode oferecer ao liutaio mais experimentado o instrumento que há de servir para glória e génio do maior dos artistas” reza o credo da guilda a que pertencia.

Durante anos, sem se apressar, o velho Montefforti quartejou os troncos de abeto e de bordo trazidos do norte, avaliou-lhes com inusitado escrúpulo a humidade e a porosidade (acariciava as pequenas tábuas saídas do corte, levava-as ao nariz, encostava-as ao ouvido, enquanto se punha indagativamente a tamborilar nelas). Depois, com gestos calculados e com a ajuda de um compasso fez curvar e contracurvar a ponta certeira do lápis sobre cartão. Farto de imitar Giuseppe Fiorini, Leandro Bisiach, Annibale Fagnola, Ansaldo Poggi, Montefforti esmerava-se na criação de um novo molde, original, ousado, único. Este exercício levou-lhe semanas. A seguir, apertadas as tábuas nos pequenos tornos, serviu-se de um velhíssimo serrote de cabo, usou tupias e fresas, aplicou à superfície rugosa plainas e goivas, aplacou arestas e veios escuros com grosas e lixas, tingiu a alvura lenhosa com trinchas e pincéis. Quando aplicou à madeira uma mistura de claras de ovo, mel e goma arábica (de molde a suturar os orifícios mais minúsculos), já alguns dos seus amigos diletos lhe anteviam o fim, tal era o seu definhamento.

Em que gastava ele o tempo?

Na construção de um violino. Não de um violino, mas do violino, do derradeiro, do mais primoroso, da sua obra-prima, de um legado por excelência.

Com dedos trementes, Ruggero Montefforti ia conferindo uma e outra e outra noites a maciez do tampo, a robustez do braço, a firmeza do cavalete, a acuidade do afinador e da cravelha, a respiração do arco, o equilíbrio e harmonia das cordas. Comovia-o profundamente a sensação de que naquele corpo repousava em simultâneo uma grande angústia e uma grande paz, um movimento de irreprimível sensualidade e um apelo à mais pura das castidades. Era um violino belo, muito belo, maravilhoso. Com dentes trementes Montefforti pôs-se a tangê-lo: do fundo da madeira transformada (tornada música sublime), repercutiu todo o sentido da sua vida longeva. Sentiu saradas as mágoas longínquas, a dor da vasta descendência que a natureza e o destino lhe sonegaram, a tristeza e a saudade da vida desvivida. Se de outro modo não podia deixar quem por si falasse, deixava um violino que por si era uma forma de falar. Chamou-lhe Rinascita.

No primeiro dia de janeiro, sobraçando um estojo, dirigiu-se à Piazza del Comune, onde confraternizou com os amigos. Depois encaminhou-se sozinho para a catedral. Aí, diante da alta torre que assinala o poder de Cremona, fez ressoar a majestade da sua criação. Olhos emudecidos puderam contemplar e ouvir a veemência com que Ruggero Montefforti agradecia a todos, a Deus, a Santa Cecília, a Stefania, a Cremona, à sua terra natal, aos amigos e inimigos, tudo quanto foi. Era, de facto, um renascimento.

Pediu que entregassem “o seu último filho” na Piazza Gugliemo Marconi, no museu onde muitos outros dos seus trabalhos repousavam já como referências absolutas da lutherie. Tinha 94 anos. Morreu a tempo de evitar a grande peste dos nossos dias. Dificilmente se poderia imaginar uma mise en scène mais soberba.

PRODÍGIO DE NATAL

Sandro Botticelli, A Natividade Mística (1500)

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No alto de uma colina, fora do perímetro da vila, escorraçadas pelas muralhas pedregosas do grande castelo mandado erguer por Fernando, rei de Leão, restam de pé – ainda que votadas ao abandono dos homens (sem teto, portas, vidros ou vitrais, sem espécie alguma de madeiras, soalho, mobílias, figuras de santos, anjos ou pombas sacramentadas, sem dignidade eclesiástica ou profana) – as paredes vazias, românicas, da igreja de São João Extramuros.

São um escombro.

No outono, as neblinas passam o umbral e o pórtico escancarado, sem mirar a arquivolta, perpassam nos interstícios de granito, revoluteiam no interior frio e silencioso, saem por onde outrora existiram um caixotim, um travejamento sólido de pinheiro ou de carvalho, onde telhas poisavam, apertando-se umas sobre as outras; defenestram-se depois as neblinas pelo olho aberto das frestas nuas e se alguém ali contempla o espetáculo daquela solidão, vê-las-á errar novamente pelos ermos da colina, perguntando “Onde está a gente deste lugar?”, “Como permitiram tão descuidada ruína?”, “Porque matam outra vez João Batista, senão decapitando-o, envenenando-o de desgosto?”

Marzagão é longe.

Na primavera os pomares acendem-se de uma alvura comovente, capaz de arrancar aos poetas mais empedernidos e citadinos exclamativos versos de admiração. O castelo e a desmoronada igrejinha adquirem uma feição simpática. De quando em vez vêm aqui um fotógrafo, um historiador, uma jornalista. Lá se mostra de novo ao país o perdimento, o estado escandaloso do que bem podia ser uma atração turística, a vileza do assim se achar tão desconservado o património comum.

Mas as primaveras voam com as retornadas andorinhas.

Depressa as estações circulam, vai-se o verão, voltam as neblinas de outubro, as bátegas de novembro, o silêncio. Pouca é a necessidade de aqui virem os de cá, menor a dos forasteiros, nenhuma a dos homens do poder. Dir-se-ia, de resto, que não podem o vento, a chuva, a neve, o sincelo, o gelo, estragar mais do que já fizeram no curso do tempo. O que aqui ficou é o dente obstinado na boca de um velho, é só um restar de memória, um travo da piedade de antanho, uma minudência mais no quotidiano de uma província toda ela ameaçada de morrer.

Não há mal que não encontre uma surpreendente continuação.

Sucede que um automóvel furtivo veio pela mesma estrada por onde outros não vieram. Enganou-se numa saída da autoestrada e depois deixou-se ir. Conduzia-o um estrangeiro, um curioso, um homem de longe. Ia, vinha, voltava à direita, parava, engrenava a marcha à ré, volvia à esquerda, prosseguia. Aqui, ali, além, disparava a máquina fotográfica, tirava apontamentos, fazia rasuras num caderno confuso, desenhava a trouxe-mouxe às vezes uma torre, esquemas, ideias e tudo muito circundado de círculos e setas.

Era um argumentista.

Sucede que parou o carro nesta mesma linha de paralelepípedos onde ficou a nossa anterior indignação. Imobilizado o veículo, subiu o homem ao castelo, flanou pelas ruelas tortuosas que sobem para os torreões, deslumbrou-se com a paisagem aberta e ampla, alongando-se infinitamente até ao azul cada vez mais ténue das montanhas de Alijó, do Pinhão, de São João da Pesqueira, de Vila Nova de Foz Coa, de Torre de Moncorvo, de Vila Flor ou Alfândega da Fé, sabe-se lá até onde mais. Opostamente à cidade, onde se vê gente e não se enxerga pessoas, ali observava toda uma humanidade sem lobrigar vivalma.

Quem procura uma coisa e outra coisa encontra não é propriamente um descobridor.

Chama-lhe serendipidade ou serendipismo o dicionário e podia chamar-lhe o que quisesse, contando a salvaguarda da felicidade de se achar uma coisa a bem e com tempo. O homem municiou-se das anotações que quis, foi e voltou. Consigo trouxe gente. Primeiro a que devia desbravar caminho: o realizador, o diretor e assistentes de fotografia, a malta do dinheiro. Depois condutores de camiões, técnicos disto e daquilo, engenheiros de som, cenógrafos e costureiras, aderecistas, maquilhadores, o elenco.

Durante semanas a magia do cinema embusteou, capeou, disfarçou.

Completaram-se as paredes, vieram carpinteiros para as vigas, assentou-se o telhado, colocaram-se quícios e madeira em todos os portais, puseram vidros nas aberturas, fez-se o assoalhamento e a mobilação, impôs-se um altar no transepto, vieram figuras (duas, em particular, mostrando o grande pregador anacoreta batizando Jesus no rio Jordão), vieram castiçais, panos, paramentos, a Bíblia. Mas tudo de madeira prensada, de gesso, barro e alumínio, tudo plástico e de cartão, tudo de empréstimo, frágil e de fazer de conta.

As filmagens fizeram-se.

Simulou-se uma grande batalha medieval, com reis e exércitos inimigos, amores, ódios e insídias, gente leal e pérfida, aristocratas opressores e oprimidos camponeses. Iam captando as câmaras o incompatível mundo da ficção. Durante semanas foi um ramerrame de “atenção”, “ação”, “corta”, um dinumerar de “takes”, um sem-fim de transeuntes desejando autógrafos, um desfilar de forças de autoridade, um entra-e-sai de secretários de estado, vereadores, cónegos, presidentes deste e daquele instituto obscuro, de notáveis do ramo hoteleiro, de representantes da confederação á e da escola superior bê, da cooperativa agá, do grémio capa, das empresas xis, ípsilon e zê.

Depois foram-se todos embora.

Levantaram ferros e contraplacados, confiscaram o recheio de aluguer, esvaziaram o espaço até voltarem (ao seu estado de esqueleto) as paredes descarnadas. Regressou o silêncio ao cimo da colina, voltou o inverno a invadir sem oposição os frios destroços de granito da igreja abandonada. Bom seria que o aspeto íntegro dos grandes planos feitos pelos operadores de câmara correspondesse à verdade. Quem olhava o pobre templo devolvido à sua decadência não podia impedir-se de muito lamentar. “Porque não vêm cá os tipos de Lisboa?”, “Como não ver isto?”, “A que se deve tamanho desprezo?”, “Antes nos governassem os estrangeiros?”

Um facto insólito deve ser acrescentado.

A partir dos idos de dezembro, dia de Santa Luzia, sucederam-se em Marzagão relatos de vozes e misteriosos sons noturnos: choros, imprecações, relinchos e galopes. “Os mortos acordaram” espalhava-se, “Despertou-os o bulício das gravações cinematográficas”, “As almas estão ressentidas, por causa das estelas funerárias partidas, por causa das tumbas esventradas”, “Deus castiga quem assim deixou a sua casa ao prejuízo dos séculos”.

Como sabemos, as aldeias são férteis em cenas imaginativas.

Dizem na noite de Natal, crescendo para lá e para cá das muralhas do grande castelo ermo, se escutaram cânticos, que coros altíssimos, a coberto da escuridão, faziam ressoar nas pedras frias. Dizem que uma grande claridade riscou o céu e que, súbita, dentro da igreja arruinada de São João Batista, deflagrou uma luz maravilhosa, como um incêndio, e que por entre as sombras das grandes árvores em volta passos e silhuetas de pessoas e animais subiam na sua direção.