CRÓNICA DE UMA INVENÇÃO

Shenshen Dou
Fotografia de Shenshen Dou

 

Não reparam, acaso, nos pássaros que pairam sobre eles, protraindo e recolhendo as suas asas? Ninguém os mantém no espaço, senão O Clemente, porque é Omnividente.

 Alcorão, LXVII, 19

 

Viajar no tempo é coisa que muitos afirmam ser impossível. Afirmamos nós o contrário. Quantas outras julgadas igualmente impossíveis deixaram de o ser todos os dias, ao longo de milénios? AGORA mesmo estamos AQUI, dois segundos mais tarde percorremos a pé as ruas de Córdova, guiados pelo relato atónito de Yussuf ibn-Haroun, cronista, filho de Haroun al-Muzaffar, o mais rico comerciante de gemas e metais de todo o emirado.

As tâmaras e o açafrão, alcachofras e figos secos, mel e resinas do Oriente incensam nesta altura do ano os bazares da cidadela. O perfume serpenteia por entre eles com as notícias trazidas e levadas pelos mercadores e almocreves, vindos de todo o al-Andalus, mas também do reino fronteiro de Alfonso e de muitos outros da inimiga Cristandade. Assim foi no tempo do poderoso Abderramão, antecessor de Maomé; assim será nos dias que se seguirão, de Al-Mundhir, que nela há de governar somente por um par de anos.

Transpondo os arcos em ferradura da almedina os estrangeiros escutam a derradeira proeza de Abbas ibn-Firnas, que a voz rouca de Muça al-Jamil não cessa de lembrar. Podia um tal prodígio da humanidade ser realmente ignorado? Yussuf ibn-Haroun escuta-a também, e há de em breve (O Preservador seja louvado!) anotá-la. O texto não é indiferente à comoção geral: quantos cálamos de junco em toda a história irregular desta humanidade puderam narrar um feito tão extraordinário?

Traduzimos omitindo o acessório (pese o sentimento que nos fica de amputar a grandeza e o estilo do autor) os factos doravante narrados, sucedidos no ano de 882 (dirão dentro de portas ano 220 da Hégira) nesta poderosa capital do Islão. O nosso agradecimento ao Professor Juan Ibarra Martínez, da Universidade de Málaga, que generosamente nos facultou o texto autógrafo (desenhado com a bela caligrafia cúfica, em papel de algodão polido, com tintas pretas, vermelhas, ou ocres, e castanhas). Segurá-lo nas minhas próprias mãos é dificilmente traduzível.

[…] Começa o Livro Sagrado com estas palavras «Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso». São para toda as coisas boas e cabe-nos modificar as más em coisas boas e honrá-l’O. Escrevo estas palavras persuadido do dever de lembrar os prodígios que O Originador de Tudo opera. […] Nasci e vivo nesta cidade santa de Qurṭuba, num tempo em que os sábios acorrem de todas as partes do levante e do magreb, do setentrião e do meridião. […] Governou-a na minha juventude Abd ar-Rahman, o segundo desse nome, mas o primeiro em prosperidade, civilização e no amor que lhe devotou o nosso povo. Muhammad, seu filho, não lhe fica atrás. Não existe um só dia em que por vontade d’ O Misericordioso não se dê entre nós o prodígio de uma invenção, a descoberta de um teorema matemático, o maravilhamento e a perfeição de um novo texto filosófico ou de uma nova muwashshah. […] De todos os sábios que aqui vivem, um visita-nos com frequência no suq, esse a quem O Todo-Poderoso sobressaltou o entendimento como faz com os loucos: amiúde vemo-lo observar as favas e o coração das amêndoas com a minúcia de um avaliador de pedras preciosas; e raramente fala, pois prefere guardar todos os seus pensamentos e ditá-los a um escravo, al-Jamil, que os escreve sobre estas espantosas folhas, tanto ou mais macias que a seda, trazidas de Samarcanda (ou Maracanda, no dizer dos bizantinos). Abbas Abu al-Qasim ibn-Firnas ibn-Wirdas al-Takurini é o seu nome. Nasceu nos dias de al-Hakam, há setenta e dois anos. […] As crianças seguem-no por toda a parte, pois creem no rumor de que um dia voará sobre os céus como as aves e as estrelas. […] Muitos o receiam, acreditando nas maléficas origens do seu saber. Contudo, não temos conhecimento de que haja alguma vez procedido em púbico com rudeza para com o seu semelhante. Bem pelo contrário, sua ilécebra e bondade são conhecidas entre os doentes, a quem ministra, de acordo com os ensinamentos antigos, unguentos e xaropes à base de ásaro, eufórbio, briónia, genciana, alfavaca, melissa, centáurea, ládano, olíbano, estoraque, gengibre, açucena, costo, za’atar e lauréola, livrando-os muitas vezes da morte. […] Poucos homens terão sido mais benévolos que Abbas ibn-Firnas, que gozou sempre da proteção e da estima do nosso Emir e que entre seus pares é um homem muito considerado, amado e […] <Segue-se um passo inteiramente ilegível!> […] Asseguraram-me que muitos anos levou este homem a estudar as criaturas do céu, anotando o movimento das asas e o modo como se soldavam as penas umas às outras. Servindo-se dos ensinamentos de al-Khwarizmi e de madeira de umas canas leves e muito resistentes, vindas do império longínquo de Sin (a que chamam bambu), construiu ele o que parecia ser o esqueleto de uma mariposa. Seguidamente recobriu-o com penas de águia, usando goma das acácias (que trazem de Ifriqiya <Tunísia>) e fios de seda para as coser e entrelaçar. Para poder prendê-lo ao corpo, como se de um manto se tratasse, usou tiras sólidas de couro. […] Muitos dias se demorou neste ofício, esquecendo-se até das obrigações comuns, como comer ou dormir, interrompendo-se somente para as orações quando a elas chamava o muezim.

Yussuf ibn-Haroun é ainda bastante jovem. Permite-se escrever longos trechos sem uma pausa, atendendo a todos os detalhes, importando-se somente com a verdade, apenas com o que possa conduzir à verdade. Neste momento vemo-lo de pé, caminhando por um fresco corredor de arcos alfizados, dando para um pátio onde uma fonte antiquíssima sussurra a doçura da noite. Dirão mais tarde que com o som do alaúde, o murmurar das águas, o tilintar do ouro e a voz de uma mulher amada são os mais doces melodias que pode um homem escutar.

Lamenta que o cargo de hájibe, que tanto o honra, que as obrigações na alcáçova, as que qualquer homem almejaria, lhe roubem tantas horas, penalizando o seu ofício predileto. Refugia-se até muito tarde nesta escrita fluente que vimos estudando. Algo que transcende o seu tempo, o seu corpo e o seu espírito paira na atmosfera, como se a harmonia do cosmos e a sua própria harmonia se imbricassem e se tornassem uma só. Estamos no mês das canículas. O perfume da flor de laranjeira e das hortelãs, do tomilho e do funcho atravessando o horizonte noturno entontece-o. Espreita a cidadela dormindo sob o poderoso conforto de uma lua cheia, que as brancas almádenas recortam e lhe fazem recordar as histórias da saudosa Xerazade. Pensa na perfeição, na felicidade, em Deus. Mas também em Buthayna, na bela filha do mercador de cinábrio, cuja visita a Córdova o atormenta uma vez por ano. Nenhuma mulher se lhe compara e algo lhe diz que a bendita terra de Silves, pátria de poetas, há de nele despertar também o doce ghazal, que a ninguém confessa, que apenas de Al-Alim, O Que Tudo Sabe, não pode esconder.

«O amor e a poesia são as duas faces da mesma moeda de ouro», pensa Yussuf, depois da ablução e, de voltado para sul, orar em frente ao muro da quibla. Regressa em silêncio a um compartimento amplo, hipostilo, onde uma mesa baixa de madeira, adornado de incontáveis jaezes, ampara o apontador, o tinteiro e as suas penas. Esmera-se a apará-las, desejando que neste ritual obtenha o lucro inimaginável de possuir a mais admirada caligrafia de Córdova.

Retoma, por isso, a narração que deixou suspensa. Pretende que os factos recentes não possam ser olvidados, para benefício da pessoa que neles se fala, mas também para seu benefício e para benefício de todos os povos que se hão de seguir, e a quem possa importar a magnificência de Alá, cujo poder é admiravelmente mostrado aos homens, como se verá.

Al-Jamil narrou-me, à puridade, que o velho sábio conheceu na juventude o poeta Abu al-Hassan Ali ben Nafi, conhecido entre os de nós que falam o linguarejar da aljamia por Zyriab, que lhe contou muitas histórias dos kuffar <infiéis>, entre elas a de certo Aikarus <traduzo com rigor fonético o original, ressalvando não ter encontrado em nenhum dicionário a mesma palavra, que indubitavelmente se reporta a Ícaro>, filho de um mágico artesão, que caiu no mar depois de ser ter erguido aos céus. Não duvido que uma tal fantasia se tenha apoderado deste homem, a quem Al Muhyi, O Doador da Vida, encarregou da proeza de construir asas idênticas às que à nossa volta vemos assistir aos animais alados. […] A novidade passou de boca em boca. No vigésimo quarto dia do passado mês de Rajab, ibn-Firnas subiu a uma das torres da nossa medina, seguido por al-Jamir, que chorava e lhe implorava, invocando o nome d’ O Criador, que desistisse. Vendo que de modo nenhum o demovia da obstinada empresa a que se propunha, e considerando a idade desse homem a quem as forças parecem não querer abandonar, quis tomar o seu lugar. Nem isso aceitou. Muitos diziam que o velho escolar tinha enlouquecido e que O Todo-Poderoso o privara de razão, punindo-lhe a audácia e a teimosia. Alguns asseveram o emir se encontrava entre todos os demais. Não posso corroborá-lo. Outros que al-Jamil foi ali mesmo libertado da sua escravidão por ibn-Firnas, o que posso testemunhar […] À hora em que o sol atinge a máxima altura, depois da oração, vimos este homem despenhar-se do alto, tendo muitos de nós lançado aos céus gritos de tristeza. Como as aves do céu, que delicadamente abrem e fecham as asas e com elas vencem os abismos, como um negro abutre alcandorado, como Aikarus das histórias fantasiosas, também o velho ibn-Firnas, dando brados de alegria, abrindo e fechando os braços acorrentados por tiras de couro à máquina prodigiosa, voou de modo igual sob as cortinas do sol, ultrapassando os limites da cidade e as longas dobras do majestoso al-Wadi al-Kabir <Guadalquivir> em direção às terras onde o sol tem o seu ocaso, as terras do Garb, da longínqua e amada Xelbe, mãe de poetas, ou da lendária Al-Ushbuna <Lisboa>, construída sobre o grande oceano no fim do mundo. […] Pude reconhecer facilmente recordar as palavras sagradas do al-Qurán: «Não vos disse que conheço o mistério dos céus e da terra, assim como o que manifestais e o que ocultais?»

Yussuf sente a fome bulir-lhe nas entranhas. As mãos tombam sobre a pena com extrema fadiga. Pensa em como muitas vezes o nobre exercício de escrever se vê impedido do seu próprio voo pelas baixas necessidades do corpo. Voar é uma libertação para que faltam palavras. É a suprema alegoria que requer todo o sacrifício. Como ele próprio costuma lembrar, tê-lo-á aprendido da falsafa (dos eruditos que tão apuradamente lê e medita) que «O sábio se abstrai sem nunca se distrair». Prossegue, pois, o seu texto, vinte e oito dias decorridos do grande feito que o fascina e o impede de dormir.

Corriam os velhos e as crianças, os nobres e as mulheres, os soldados e os almoxarifes para as portas, seguindo com o dedo erguido o espantoso planar daquele que um dia chamaram de «bárbaro», por ser de origem estrangeira e possuir hábitos que estranham aos olhos vulgares. […] Nada se sabe deste Abbas ibn-Firnas, exceto que amou na sua juventude uma mulher e que esta, contra a vontade da família, o preferia a um mercador de minério (ainda seu parente e de quem se tornaria, ainda que por breves meses, mulher). A voz sempre escusada dos vilipendiadores sugere que a noite, campo onde todas as sementes germinam, os acolheu primeiro e separou depois. Não pude aclarar o nome dessa mulher. Apenas que a levaram para as terras do al-Garb, onde veio a conceber uma filha pouco tempo antes de morrer. Ibn-Firnas entregou-se inteiramente aos estudos, um dos muitos faylasuf <filósofos> que enriquecem a nossa cidade e dignificam O Omnipotente. […] Conta ele setenta e dois anos, recuperando no maristan da violenta queda em que se findou o seu voo, ao derrubar-se sobre as árvores das hortas que existem ao redor da nossa cidade. […] Al-Jamil visita-o todos os dias e, tendo embora deixado de ser seu escravo, continua a servi-lo com o mesmo amor que é de longe a maior escravidão entre os homens. Por ele soube esta mesma tarde que o nosso emir Muhammad o proíbe de repetir a façanha, tendo conhecido a sua vontade de voar de novo. E ao sabê-lo turva-se profundamente o meu ser, pois nenhum outro homem, vivo ou morto, me parece capaz de igualar a coragem do velho Abbas ibn-Firnas, o primeiro de que há notícia a ter conseguido voar, como uma ave do céu, ou um inseto, ou uma das muitas estrelas que iluminam as estradas da noite. E alegra-se o meu coração com este prodígio, com que nos revela O Infinito os insondáveis caminhos da sabedoria e do porvir, pois acredito que outros homens, guiados pela sua mão, hão tornar possível o que nesta noite não se pode divisar. E para eles redijo estas palavras. Porque todas as coisas que existem e hão de existir estão no universo, porque todas as coisas de que carecemos habitam a nossa inteligência e é nosso dever encontrá-las, porque o dever do sábio é o de iluminar os outros homens e ser iluminado pela voz da verdade. Assim o fez Abbas Abu al-Qasim ibn-Firnas ibn-Wirdas al-Takurini. E por isso o louvo e o deixo ao juízo severo do tempo!

Já o vago dilúculo assoma no orbe celeste. Exausto, todavia insuflado dessa felicidade que consola os justos, Yussuf ibn-Haroun poisa o cálamo e tomba a cabeça sobre uma almofada que ali mesmo o recebe e o conduz em sonhos a longínquas paragens, de onde vem no dorso de um cavalo a bela Buthayna, a bela filha do obscuro mercador de cinábrio, para (assim Alá o permita), se unir a si, não como a primeira do seu harém, mas como a única mulher da sua vida…

Quanto a nós, que igualmente louvamos Abbas ibn-Firnas e nos sujeitamos ao juízo rigoroso do tempo, gostamos de viajar e o fizemos nestas palavras, desenterrando dos pergaminhos em que se achavam embrulhados fragmentos de uma longa crónica com mais de onze séculos de esquecimento.

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O TÚMULO DE VULCA

Carol Leigh
Fotografia de Carol Leigh

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Visto do alto, é um telhado de quatro águas caindo para um pátio interior (o implúvio), onde neste preciso momento se encontra Vulca, a observar fascinado um grande pássaro negro a não mais do que dez palmos de distância.

É o primeiro dos oito dias da semana, dia de mercado, e Vulca aguarda visitas em casa. Como este, assistiu já a mais de meia centena de meses inaugurais do calendário etrusco, contado das neves em diante, das neves que Voltumna faz precipitar amiúde sobre Veios, cobrindo-a de uma branquidão tão bela e tão imaculada que o artista nunca deixa de se comover. Os deuses conhecem os segredos do mundo e os homens podem também intuí-los, em parte pelo menos, se não lhes faltarem a inteligência e a atenção. Tudo está à vista de todos: a natureza, mesmo as dos mortos, pode revelar-se, desde que a saibamos sentir, compreender e amar profundamente.

Vulca está intrigado.

Um pouco depois da primeira hora do dia, quando o sol atinge o zénite, vê uma revoada de corvos a descrever, em completo silêncio, círculos perfeitos no horizonte. A seguir, um deles separa-se do grupo e vem poisar na mão direita da grande estátua de terracota que virão de Vetulónia buscar. Trata-se de uma imagem em tamanho natural de Apulo, encomenda de que se ocupou nos últimos meses e onde empregou todo o seu talento indiscutível: o deus caminha em pose majestática, coberto por finas vestes que enrugam com o movimento; um pilar decorado com palmetas e um serpentar de círculos opostos e concêntricos (como esses simétricos) ergue-se do pedestal em direção ao corpo, travando-lhe o passo; longos cabelos frisados e entrançados (à maneira oriental) caem-lhe pelas costas e sobre os ombros, intersecionando-se com as pregas do manto. Na mão esquerda segura uma lira (prova de que na Etrúria se continuam os mitos gregos) e agora na mão oposta (que deveria mostrar um dedo altivo, indicador da estrada solar e das artes, e também do destino) o funéreo animal.

Vulca está ao corrente da arte dos auspícios. Sabe que o adejar, o crocitar e o olhar dos pássaros é um modo de as divindades nos ditarem mensagens, ensinamentos ou profecias, porventura inalcançáveis no seu todo. Quando a mulher, Athínia, abre uma das janelas do piso superior, a ave assusta-se, bate as asas e foge em direção ao poente. Presságio infausto, indício de que algo doloroso vai encontrar em breve na jornada da vida.

Dos dedos e dos fornos deste artesão saíram vasos e inumeráveis estatuetas, urnas cinerárias e relevos, em bronze ou barro, muitos deles representando Vanth, o demónio da morte, Carunos sovando as almas acabadas de embarcar para o reino de Aiter e de Phersipnei (outros chamar-lhes-ão Hades e Perséfone), mas jamais o fim lhe pareceu tão seu, tão cruamente exposto, ou tão certeiramente revelado como agora. Tem a certeza de que vai morrer, não um dia, mas proximamente, talvez amanhã ou daí a uma semana, quem sabe se na próxima lunação ou no ano que virá.

Tínia, divindade dos céus, ou Fébruo e Leinth, senhores da morte, ou o próprio Apulo, ou algum deus oculto, ou todos juntos, enviaram-lhe esse recado: um corvo é um sopro impossível de ignorar, ainda que sem o habitual grasnar sombrio, sobretudo se a sua pupila dilatada nos mira com a intensidade de uma pua: deve, portanto, preparar-se.

Tardam a chegar de Vetulónia.

Vulca lança mão às coisas de que sempre se serviu para trabalhar. Não pode quantificar o tempo que lhe resta, nem quer esbanjá-lo. Um pensamento acaba de o acometer: seria a sua ou a morte de Athínia a que viera anunciar o agoirento animal?

Os olhos enchem-se-lhe de lágrimas. Mais insuportável do que morrer é sobreviver a uma catástrofe, e nenhuma maior do que a de perder alguém que muito se ama.

O firmamento empalideceu.

Uma cortina álgida cresce sobre os céus da cidade, sobre os telhados de Veios, sobre a cabeça encanecida deste homem que dirá de si para si que o calendário pessoal principia com o dia inaugural de qualquer facto violento e insuportável. Pode-se começar a viver ou a morrer nesse dia, ou ambas as coisas.

Vulca desenha numa tabuinha. É um sarcófago.

Um dia, saído da terra (como Tages, a criança divina), os homens passarão a polpa dos dedos e o olhar estupefacto por este túmulo. Hão de dizer que em mil anos de história deste estranho povo da Itália nenhum outro tesouro se lhe compara. Sobre o tampo, à maneira de outros tantos túmulos etruscos, abraçam-se as figuras de Vulca e de Athínia. No meio de ambos, sobre um curto ramo de loureiro, um corvo desfere sobre nós o olhar.

No interior das suas pupilas, algo nos prende. O quê, ninguém o diz.

BIG RIP

Ben Goossens
Fotografia de Ben Goossens

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Escreve poemas durante a noite, dentro dos sonhos, na parte mais obscura do sonhar. Quando acorda, resta-lhe na cabeça e na boca (provavelmente no interior arrefecido dos olhos, também) amontoados de cinza.

Do que escreve sobra-lhe apenas isso. Não se recorda de nenhum dos poemas ditos em voz alta, poemas seus, nascidos do contraste entre o fogo e o negrume.

Sabe que lhe agradam muito esses poemas subterrâneos. Sabe-o porque desperta satisfeito e nostálgico, a desejar ir às arrecuas ao encontro da sua alma nua.

Sabe que a alma se desnudou, pois sente frio. Dói-lhe colocar, à maneira de grandes pedras, as vulgares obrigações e afazeres sobre os pensamentos mais sublimes e leves.

Não se sente frustrado. Toda a poesia, incluindo essa que arde em segredo, está destinada a ser esquecida. Se não for por conta do alarme do telemóvel, há de ser por outra coisa definitiva – a estupidez dos homens, o fim da vida na Terra, a explosão do sol, o fim da galáxia, o Big Rip.

NASCER DO DIA

Gary McParland
Fotografia de Gary McParland

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Acorda todos os dias muito cedo. Faz o menos barulho possível enquanto trata da higiene pessoal e de tomar o pequeno-almoço. Há pessoas a dormir e a necessitar do trabalho profundo dos sonhos.

Quando abre a janela do quarto, espreita sempre com muito interesse: a adivinhação da luz ou da falta dela (conforme a época do ano), o estado do tempo, o cenário com que a rua se apresenta, tudo o impressiona como se em cada manhã nascesse outra vez.

Porque se levanta cedo? Tem pressa de ir para o emprego?

Na verdade, não trabalha já. É um aposentado. Mas dá-se pressa de assistir ao nascer do dia.

Ao longo da sua já considerável vida, sempre o alvorecer (devota grande amor a essa palavra e a outras praticamente sinónimas, como alba, alvorada, aurora, arrebol, dilúculo), dizíamos, sempre o alvorecer lhe pareceu o truque de magia mais extraordinário do universo.

Sai para o terraço com uma chávena de café nas mãos, imaculadamente vestido, impecavelmente penteado e entrega-se à contemplação. A essa hora o cheiro das folhas molhadas pelo orvalho ou pela chuva, o sopro meigo e frio do vento nas árvores, o curto saltitar dos pássaros entre as telhas ou no quintal, o perfume misturado da murta, da terra e do café são como dádivas intraduzíveis.

Um pouco antes de o horizonte ser atingido de lés a lés pela labareda do sol, diverte-o a confusão de linhas esbranquiçadas que os aviões deixam à sua passagem. São traços gelatinosos, translúcidos, como aqueles que os pachorrentos caracóis desenham no cimento.

Vive com o filho, a nora e quatro netos. Ninguém em casa compreende este ritual. Ver a luz nascer, ainda que no inverno, sobretudo quando a cama tanto apetece, não é coisa de somenos importância.

Espera-se uma vida inteira pelo prazer de combinar estas coisas todas. Não há aqui qualquer toque de religião ou de poesia. Um homem em certo momento da sua vida prescinde de tudo. Menos de si.

O JARDIM AMARELO

Ulrike Eisenmann
Fotografia de Ulrike Eisenmann

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É um terreno de cinco hectares e meio, com socalcos e linhas imperfeitas, onde, consoante a época do ano, amarelam áleas de mimosas e gingko bilobas, renques de bordos e sibipirunas, canteiros de dálias e de hibiscos, talhões de calêndulas e de astromélias, vasos com lantanas e zínias, bacias de plástico e bidões com lírios e orquídeas, onde medram em latas e vasilhas amolgadas gerberas e jacintos, monturos de cravos-de-tunes e girassóis, mas também (a esmo, como numa charneca) toda a espécie de matos, com as suas pétalas garridas, giestas e solidago, funcho e bocas-de-leão e muitas outras plantas e flores, inumeráveis arbustos e árvores cor de gema, ou de açafrão, ou de fogo, cuja bênção maior é a dissimular semana atrás de semana, mês após mês, ao longo do ano, o velho edifício da cadeia.

Vêm aqui muitos visitantes espreitar o bosquedo. Admiram-no para lá de camadas sucessivas de rede e arame farpado, interrompidas aqui e além por pequenas torres de vigia e canos de metralhadora.

A quem aqui vem um velhote desocupado conta sempre a mesma história.

– Do jardim trata um assassino. Acontece que o tipo uma vez matou a mulher, que era muito bonita e muito jovem ainda, convencido de que ela o traía. Tudo maluqueira da cabeça dele. Foi condenado a prisão perpétua e aqui vive desde há muito, sentenciado à sombra mais escura, ao ódio mais frio, à tristeza mais silenciosa.

O cicerone é dado a palavras elegantes.

– Esse imenso terreno tem sido revolvido a enxada e a picareta. Olhem, é o seu trabalho de Hércules. O tipo odeia a cor. Porque o amarelo, como todos sabemos é a bandeira dos loucos.

Os visitantes ficam impressionados com a obsessão do criminoso.

– Este fogo espalhado por toda a parte que veem não é, como seríamos levados a pensar um modo de o assassino se iluminar, aquecer ou de se exprimir.

Quem escuta estas palavras vizinhas da poesia não pode deixar de franzir o sobrolho.

– Pelo contrário, todo este chão de labaredas é o seu inferno. Acreditem: sem piedade ou arrependimento, é aí que o desgraçado perpetuamente se vai imolando.

O FABRICANTE DE VIOLINOS

Israel Fichman_repairman
Fotografia de Israel Fichman

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para a Céu

Ruggero Montefforti foi batizado no dia 22 de novembro de 1925, com apenas três dias de idade, na pequena igreja medieval de Santa Cecília, em Chizzola, localidade alpina pertencente à comuna de Ala, na região de Trentino-Alto Ádige. A sua morte prematura era um dado adquirido no seio familiar, pelo que a devoção à santa mártir de Roma, padroeira da música sacra, prosperou.

No princípio da adolescência, Montefforti trocou Ala por Cremona, para ingressar na oficina de um tio materno, Gianluca d’ Oglio, reputado luthier, de quem aprendeu quase tudo o que sabe em matéria de fabrico de instrumentos de cordas, escolha de madeiras, perícia no desenho e no corte, firmeza no desbaste e no polimento, domínio de soluções e vernizes, tempos e técnicas de secagem, apuro auditivo.

Casou no final da Grande Guerra com Stefania Pasquarelli, três anos mais nova, de quem teve catorze filhos, todos natimortos. Enviuvou aos quarenta e dois, justamente aquando do último parto da mulher.

Quase centenário, mantinha o porte cavalheiresco. Todos os dias de manhã passeava pelas margens do rio Pó, impecavelmente trajado de fato, colete e gravata. Encontrava-se com os amigos no Bar Ai Portici, onde lhe serviam um café acabado de fazer e o seu torrone de amêndoa, nozes e avelãs. Perdeu a conta aos violinos, violoncelos, baixos, violas de gamba, violões, tiorbas, guitarras, alaúdes, harpas, liras, até balalaicas, cítaras e pianos em que trabalhou, toda uma floresta cantante, que intérpretes famosos, como Jordi Savall, Anne-Sophie Mutter e Christina Pluhar usam, guardam e têm entre os seus bens mais preciosos.

Na manhã do seu octogésimo quarto aniversário, o senhor Montefforti sentiu uma espécie de chamamento. Dias depois, na companhia de um sobrinho-bisneto, viajou até à terra natal. Visitou os lugarejos que a memória lhe devolvia ainda nítidos. Depois seguiu viagem para o Vale de Fiemme, em direção à floresta de Paneveggio. Aí, no coração do Trentino, sentiu como na infância o frio das Dolomitas, o rosto fustigado pelo vento gélido, os pulmões abertos pela corrente sem mácula de milhões de espruces ondulando. Veio por eles, pela madeira prodigiosa destes abetos vermelhos, que desde Stradivari enche as bancadas de todos os artesãos de Cremona.

Ruggero Montefforti soube sempre que a escolha das árvores deve ser meticulosa. As melhores têm delicados anéis concêntricos, finas fibras elásticas, pequenos canais linfáticos ressoantes. Devem ser cortadas nos meses que antecedem o solstício de inverno, evitando a abundância de seiva. “Só a mais perfeita das árvores pode oferecer ao liutaio mais experimentado o instrumento que há de servir para glória e génio do maior dos artistas” reza o credo da guilda a que pertencia.

Durante anos, sem se apressar, o velho Montefforti quartejou os troncos de abeto e de bordo trazidos do norte, avaliou-lhes com inusitado escrúpulo a humidade e a porosidade (acariciava as pequenas tábuas saídas do corte, levava-as ao nariz, encostava-as ao ouvido, enquanto se punha indagativamente a tamborilar nelas). Depois, com gestos calculados e com a ajuda de um compasso fez curvar e contracurvar a ponta certeira do lápis sobre cartão. Farto de imitar Giuseppe Fiorini, Leandro Bisiach, Annibale Fagnola, Ansaldo Poggi, Montefforti esmerava-se na criação de um novo molde, original, ousado, único. Este exercício levou-lhe semanas. A seguir, apertadas as tábuas nos pequenos tornos, serviu-se de um velhíssimo serrote de cabo, usou tupias e fresas, aplicou à superfície rugosa plainas e goivas, aplacou arestas e veios escuros com grosas e lixas, tingiu a alvura lenhosa com trinchas e pincéis. Quando aplicou à madeira uma mistura de claras de ovo, mel e goma arábica (de molde a suturar os orifícios mais minúsculos), já alguns dos seus amigos diletos lhe anteviam o fim, tal era o seu definhamento.

Em que gastava ele o tempo?

Na construção de um violino. Não de um violino, mas do violino, do derradeiro, do mais primoroso, da sua obra-prima, de um legado por excelência.

Com dedos trementes, Ruggero Montefforti ia conferindo uma e outra e outra noites a maciez do tampo, a robustez do braço, a firmeza do cavalete, a acuidade do afinador e da cravelha, a respiração do arco, o equilíbrio e harmonia das cordas. Comovia-o profundamente a sensação de que naquele corpo repousava em simultâneo uma grande angústia e uma grande paz, um movimento de irreprimível sensualidade e um apelo à mais pura das castidades. Era um violino belo, muito belo, maravilhoso. Com dentes trementes Montefforti pôs-se a tangê-lo: do fundo da madeira transformada (tornada música sublime), repercutiu todo o sentido da sua vida longeva. Sentiu saradas as mágoas longínquas, a dor da vasta descendência que a natureza e o destino lhe sonegaram, a tristeza e a saudade da vida desvivida. Se de outro modo não podia deixar quem por si falasse, deixava um violino que por si era uma forma de falar. Chamou-lhe Rinascita.

No primeiro dia de janeiro, sobraçando um estojo, dirigiu-se à Piazza del Comune, onde confraternizou com os amigos. Depois encaminhou-se sozinho para a catedral. Aí, diante da alta torre que assinala o poder de Cremona, fez ressoar a majestade da sua criação. Olhos emudecidos puderam contemplar e ouvir a veemência com que Ruggero Montefforti agradecia a todos, a Deus, a Santa Cecília, a Stefania, a Cremona, à sua terra natal, aos amigos e inimigos, tudo quanto foi. Era, de facto, um renascimento.

Pediu que entregassem “o seu último filho” na Piazza Gugliemo Marconi, no museu onde muitos outros dos seus trabalhos repousavam já como referências absolutas da lutherie. Tinha 94 anos. Morreu a tempo de evitar a grande peste dos nossos dias. Dificilmente se poderia imaginar uma mise en scène mais soberba.

PRODÍGIO DE NATAL

Sandro Botticelli, A Natividade Mística (1500)

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No alto de uma colina, fora do perímetro da vila, escorraçadas pelas muralhas pedregosas do grande castelo mandado erguer por Fernando, rei de Leão, restam de pé – ainda que votadas ao abandono dos homens (sem teto, portas, vidros ou vitrais, sem espécie alguma de madeiras, soalho, mobílias, figuras de santos, anjos ou pombas sacramentadas, sem dignidade eclesiástica ou profana) – as paredes vazias, românicas, da igreja de São João Extramuros.

São um escombro.

No outono, as neblinas passam o umbral e o pórtico escancarado, sem mirar a arquivolta, perpassam nos interstícios de granito, revoluteiam no interior frio e silencioso, saem por onde outrora existiram um caixotim, um travejamento sólido de pinheiro ou de carvalho, onde telhas poisavam, apertando-se umas sobre as outras; defenestram-se depois as neblinas pelo olho aberto das frestas nuas e se alguém ali contempla o espetáculo daquela solidão, vê-las-á errar novamente pelos ermos da colina, perguntando “Onde está a gente deste lugar?”, “Como permitiram tão descuidada ruína?”, “Porque matam outra vez João Batista, senão decapitando-o, envenenando-o de desgosto?”

Marzagão é longe.

Na primavera os pomares acendem-se de uma alvura comovente, capaz de arrancar aos poetas mais empedernidos e citadinos exclamativos versos de admiração. O castelo e a desmoronada igrejinha adquirem uma feição simpática. De quando em vez vêm aqui um fotógrafo, um historiador, uma jornalista. Lá se mostra de novo ao país o perdimento, o estado escandaloso do que bem podia ser uma atração turística, a vileza do assim se achar tão desconservado o património comum.

Mas as primaveras voam com as retornadas andorinhas.

Depressa as estações circulam, vai-se o verão, voltam as neblinas de outubro, as bátegas de novembro, o silêncio. Pouca é a necessidade de aqui virem os de cá, menor a dos forasteiros, nenhuma a dos homens do poder. Dir-se-ia, de resto, que não podem o vento, a chuva, a neve, o sincelo, o gelo, estragar mais do que já fizeram no curso do tempo. O que aqui ficou é o dente obstinado na boca de um velho, é só um restar de memória, um travo da piedade de antanho, uma minudência mais no quotidiano de uma província toda ela ameaçada de morrer.

Não há mal que não encontre uma surpreendente continuação.

Sucede que um automóvel furtivo veio pela mesma estrada por onde outros não vieram. Enganou-se numa saída da autoestrada e depois deixou-se ir. Conduzia-o um estrangeiro, um curioso, um homem de longe. Ia, vinha, voltava à direita, parava, engrenava a marcha à ré, volvia à esquerda, prosseguia. Aqui, ali, além, disparava a máquina fotográfica, tirava apontamentos, fazia rasuras num caderno confuso, desenhava a trouxe-mouxe às vezes uma torre, esquemas, ideias e tudo muito circundado de círculos e setas.

Era um argumentista.

Sucede que parou o carro nesta mesma linha de paralelepípedos onde ficou a nossa anterior indignação. Imobilizado o veículo, subiu o homem ao castelo, flanou pelas ruelas tortuosas que sobem para os torreões, deslumbrou-se com a paisagem aberta e ampla, alongando-se infinitamente até ao azul cada vez mais ténue das montanhas de Alijó, do Pinhão, de São João da Pesqueira, de Vila Nova de Foz Coa, de Torre de Moncorvo, de Vila Flor ou Alfândega da Fé, sabe-se lá até onde mais. Opostamente à cidade, onde se vê gente e não se enxerga pessoas, ali observava toda uma humanidade sem lobrigar vivalma.

Quem procura uma coisa e outra coisa encontra não é propriamente um descobridor.

Chama-lhe serendipidade ou serendipismo o dicionário e podia chamar-lhe o que quisesse, contando a salvaguarda da felicidade de se achar uma coisa a bem e com tempo. O homem municiou-se das anotações que quis, foi e voltou. Consigo trouxe gente. Primeiro a que devia desbravar caminho: o realizador, o diretor e assistentes de fotografia, a malta do dinheiro. Depois condutores de camiões, técnicos disto e daquilo, engenheiros de som, cenógrafos e costureiras, aderecistas, maquilhadores, o elenco.

Durante semanas a magia do cinema embusteou, capeou, disfarçou.

Completaram-se as paredes, vieram carpinteiros para as vigas, assentou-se o telhado, colocaram-se quícios e madeira em todos os portais, puseram vidros nas aberturas, fez-se o assoalhamento e a mobilação, impôs-se um altar no transepto, vieram figuras (duas, em particular, mostrando o grande pregador anacoreta batizando Jesus no rio Jordão), vieram castiçais, panos, paramentos, a Bíblia. Mas tudo de madeira prensada, de gesso, barro e alumínio, tudo plástico e de cartão, tudo de empréstimo, frágil e de fazer de conta.

As filmagens fizeram-se.

Simulou-se uma grande batalha medieval, com reis e exércitos inimigos, amores, ódios e insídias, gente leal e pérfida, aristocratas opressores e oprimidos camponeses. Iam captando as câmaras o incompatível mundo da ficção. Durante semanas foi um ramerrame de “atenção”, “ação”, “corta”, um dinumerar de “takes”, um sem-fim de transeuntes desejando autógrafos, um desfilar de forças de autoridade, um entra-e-sai de secretários de estado, vereadores, cónegos, presidentes deste e daquele instituto obscuro, de notáveis do ramo hoteleiro, de representantes da confederação á e da escola superior bê, da cooperativa agá, do grémio capa, das empresas xis, ípsilon e zê.

Depois foram-se todos embora.

Levantaram ferros e contraplacados, confiscaram o recheio de aluguer, esvaziaram o espaço até voltarem (ao seu estado de esqueleto) as paredes descarnadas. Regressou o silêncio ao cimo da colina, voltou o inverno a invadir sem oposição os frios destroços de granito da igreja abandonada. Bom seria que o aspeto íntegro dos grandes planos feitos pelos operadores de câmara correspondesse à verdade. Quem olhava o pobre templo devolvido à sua decadência não podia impedir-se de muito lamentar. “Porque não vêm cá os tipos de Lisboa?”, “Como não ver isto?”, “A que se deve tamanho desprezo?”, “Antes nos governassem os estrangeiros?”

Um facto insólito deve ser acrescentado.

A partir dos idos de dezembro, dia de Santa Luzia, sucederam-se em Marzagão relatos de vozes e misteriosos sons noturnos: choros, imprecações, relinchos e galopes. “Os mortos acordaram” espalhava-se, “Despertou-os o bulício das gravações cinematográficas”, “As almas estão ressentidas, por causa das estelas funerárias partidas, por causa das tumbas esventradas”, “Deus castiga quem assim deixou a sua casa ao prejuízo dos séculos”.

Como sabemos, as aldeias são férteis em cenas imaginativas.

Dizem na noite de Natal, crescendo para lá e para cá das muralhas do grande castelo ermo, se escutaram cânticos, que coros altíssimos, a coberto da escuridão, faziam ressoar nas pedras frias. Dizem que uma grande claridade riscou o céu e que, súbita, dentro da igreja arruinada de São João Batista, deflagrou uma luz maravilhosa, como um incêndio, e que por entre as sombras das grandes árvores em volta passos e silhuetas de pessoas e animais subiam na sua direção.

CIÚME

Fotografia de Assaf Lazar

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Enciumada pelo sucesso de uma sua vizinha, no que à sedução de certo homem dizia respeito, uma jovem rapariga de Teerão denuncia-a às autoridades religiosas. Em breve, tem o caminho desimpedido, o homem nos braços, o futuro todo à sua frente. Casam, têm um primeiro filho, fazem obras em casa, os anos passam, têm o segundo filho.

Uma tarde, quando os telhados principiavam a desmaiar na poalha do outono, a mulher encontra o marido de costas, em pé, com um envelope nas mãos, segurando uma fotografia. Nela vê-se uma jovem mulher lendo uma carta. Uma carta que ele mesmo escreveu muitos anos antes. É precisamente essa carta a que lhe chegou agora no correio, muito dobrada, dentro de outra carta, como um bebé no interior do ventre materno. O homem chora. Uma mulher outrora amada explica-se, explica tudo.

Desde então o homem não volta a tocar na mulher. Passa a odiá-la. Usa o silêncio para a punir do crime. E das poucas vezes que lhe dirige a palavra, trata-a por Marjan.

Marjan é o nome da sua antiga paixão.

O MOLEIRO DE SALZEDAS

Fotografia de Martin Rak

A chuva, depois do intenso tropel que protagonizou com o vento noite fora, retira-se para alguma parte onde a não vemos. Da sua passagem pela aldeia fica o enlameado dos caminhos, o ar miserável das árvores (mais ossudas e descabeladas do que nunca), fica a neblina sobre os outeiros e sobre a igreja, sobre as cercas, sobre a linha torcida do riacho, sobre os telhados tímidos das casas pequenas de pedra. Nelas, nos nichos, nas empenas, nas teias fabricadas pelos aranhiços, nos fios dos estendais, observa-se o modo como a água abundante de fim de outubro pôde deixar uma marca maravilhosa: pequenas lágrimas teimando não cair, esperando o sol que às duas por três as acende a todas. Nenhuma criança esquece a imagem das gotas aguentando-se nas cordas, cheias de luz, sem medo dos olhos gigantes que as cativam.

Conhecemos num desses domingos lentos, véspera de feriado, o velho moleiro de Salzedas. Tem tantos anos que deixou de saber contá-los, tantas histórias na cabeça que começou a misturá-las. Fala devagar, limpando muitas vezes o nariz comovido, espreitando a porta muitas vezes. Sabe o que diz. Diz que o Diabo lhe quer comprar as terras pelo preço de um palácio, mas que a ele não o enganam. O justo justo, o seu a seu dono, nada de trafulhices. Não as quer vender, mas se as vender não será ao Diabo, e se lhas vender ter ele, o Diabo em forma de pessoa, de pagar muito menos, porque o receber a mais é caminho para o inferno.

Apesar desse ar de entulho nas coisas, sempre que assim chove, a aldeia gosta de limpar-se. O solo barrento volta a secar, endireitam-se as veredas, as janelas reabrem-se para purificar o cheiro que no interior das madeiras, dos tijolos, das almas, se torna venenoso. A chuva é um modo de fazer ver melhor.

Como se chama esse velho? Ninguém ali o lembra já (como foi possível olvidá-lo?), se alguma vez o souberam. Fala devagar, assoando-se com estridência, muitas vezes. O Diabo é no fundo bom, porque a bondadosa natureza dos seres não pode extinguir-se. Devemos é procurar-lhe essa semente esquecida. O moleiro de Salzedas é de opinião que o Diabo pode ser repescado por Deus, houvesse forma de lhe obter o arrependimento. Como assim? Ele suspira. Há forma, há forma…

Quando calçamos as botas e nos dispomos a ir, tudo regressa. O fontanário, as alminhas, os muros de granito e de xisto, as cortes, o colmo empilhado, o cheiro atrevido da murta e do alecrim, da cidreira, do funcho, da hortelã, o cantar do açude, a antiquíssima azenha, os carreiros junto aos choupos. Tudo regressa aos poucos. Como fantasmas, os homens e mulheres que aqui viveram existem de novo, regressam às esquinas onde apalavram, riem ou simplesmente se despedem. Ânsias perdidas no tempo tornam-se subitamente vivas, digressionam como sonhos, doem fundo naquela parte de nós que é exatamente o ser nós.

Que o Diabo possa ser reconquistado é o propósito desse homem singular. Não lhe tem medo, espreita-o, espera-o. Põe dois pratos na mesa, dois copos, dois pedaços de broa. No dia em que o acharam morto, com um sorriso serenando-lhe a boca, de ambos os pratos se tinham servido, bebido de ambos os copos, de ambos os nacos de pão sobrado migalhas.

A chuva, depois do intenso tropel da madrugada, é como uma conversa remota que se recorda. A aldeia é sobretudo isso, um manto verbal onde cada um descobre a sua ponta, o seu retorno, a sua dor protegida. As botas pisam-na a medo. É um território sensível. Nunca sabemos o que debaixo de nós quer nascer ou renascer. A chuva é um preparo. Depois dela vem o sol e o silêncio. Nenhuma criança esquece o adulto que assim a observa, sabe-se lá de que mundo. Não esquece.