A FOME

Fotografia de Simone Miotto sobre a seca
Fotografia de Simone Miotto

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“A fome veio para ficar” disse o padre Paolo Gentile, pondo os olhos muito longe, nos vitrais, na pomba do Espírito Santo, nos olhos atordoados dos apóstolos.

Na aldeia, os ricos tinham-se tornado remediados, os remediados pobres, os pobres em gente miserável. Tudo por culpa da chuva, da chuva que não havia modos de cair, dos campos transformados em camas de pó, das árvores secas, dos rios vazios… Tudo por culpa da ganância, dos açambarcadores poderosos, dos cruéis monopolistas que impunham os preços. Do pouco faziam muito e o muito do pouco engordava-os. Os monopolistas açambarcadores eram os únicos a dar-se bem com a fome, a lucrar com ela, a compreender verdadeiramente as homílias do padre. Eram os únicos a manter a contradição: por isso, tornavam-se mais intocavelmente inumanos, iguais aos próprios santos para onde Paolo Gentile dirigia o olhar cismoso e condoído.

Havia pessoas a precisar de massa, de arroz, ovos, carne, azeite, pessoas que pouco tempos antes doavam com facilidade massa, arroz, ovos, carne e azeite. Não se percebia bem como tinham tropeçado na desgraça, como tão depressa, tão meticulosamente, tão à vontade as havia castigado o destino.

O padre erguia ambos os braços em grandes gestos apelativos, lembrava Cristo, circumpunha exemplos pródigos de amor e de solidariedade pelo próximo. Repetia a máxima de São Columba de que “A roda da fortuna mexe tantas vezes e tão depressa que ninguém está a salvo do seu cirandar cruel”. Contudo as esmolas eram iguais à terra gretada. Tocavam-lhes as mãos e logo desapareciam em farrapos polvorentos, grãos irrisórias de coisa nenhuma.

Em Sant’Angelo, a carestia foi enorme nesse tempo. Cozinhava-se algum peixe com algas uma vez por dia e não raro desenterrava-se tubérculos e raízes de arbustos. Usava-se ervas bravas e folhas de urtiga para suprir a falta de fruta e hortaliça. Os afortunadas que as encontrassem podiam apanhar bagas e amoras, se o sol as não havia crestado. E com elas almoçam ou jantavam.

No início do outono, o céu encheu-se de ódio e cobriu toda a ilha com nimbos. A chuva mergulhou sobre Forio, Casamicciola Terme, Ischia, Piano Liguori, Serrana Fontana, enxurrando em simultâneo terrenos agrícolas, veredas, baldios, canteiros e jardins. O ocre, o almagre, o grés, o amarelo do capim extenuado, transformaram-se em feios espelhos de água barrenta. Os silos, onde os agiotas guardavam com mil olhos e dez mil canos de espingarda o caviloso recheio de sua avarícia, não puderam impedir que a tempestade e o aluvião entrassem pelas frinchas, pelas janelas, pelos telhados varridos e encarquilhados, pelos umbrais sem porta.

De modo que então, sim, tudo se perdeu. E a fome, único poder legitimado, assenhoreou-se das almas cristãs como uma praga bíblica, como uma verdade, como uma paga violenta e irrespondível, com nenhuma, com toda a razão…

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UM EXPLORADOR

Pierre Pellegrini
Fotografia de Pierre Pellegrini

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Durante a noite Emerenciano Castanheira voava. O corpo descobria-se livre e leve, abria os braços e punha-se a subir e a esvoaçar à volta da casa, cada vez mais depressa, cada vez mais alto, cada vez mais amplamente, em círculos, como um pássaro enlouquecido.

Era um sonho recorrente. Emerenciano via-se a encostar a escada de eucalipto à parede nascente, junto ao limoeiro, a trepar por ela até ao telhado, como se fosse limpar uma chaminé, e depois, empoleirado sobre uma das empenas, contemplado o casario ao redor, acontecia exatamente o que se disse atrás: Emerenciano batia os braços e voava.

A vertigem da ascensão compensava-a a vista: tudo tão pormenorizado, tão realista, tão coerente que não podia ser senão verdade: o defeito das telhas, a casota do cão lá em baixo, e o animalzinho com as patas de fora, os grandes postes de eletricidade com ninhos de cegonhas, a torre piramidal da igreja que afinal se parecia um quadrado cortado por um enorme X entre os ângulos, a copa dos grandes choupos e as veias averdiscadas dos arroios pelo meio da terra ocre, tudo coerente, realista, pormenorizado, até chegar ao branco das nuvens e aí se perder de susto, na confusão láctea do nevoeiro.

Quando despertava, Emerenciano Castanheiro sentia-se muito bem-disposto. Orgulhoso até. No final destes seus voos oníricos, a vida parecia-lhe outra, mais divina, mais sabedora de coisas indiscretas (nos sonhos, a sua visão de ave atingia amores clandestinos de mulheres casadas com moços da tropa, negócios proibidos de candongueiros de café e cigarros, roubos nos alambiques e nos lagares de azeite, até as lágrimas que as mulheres camponesas engoliam, quando triplamente vergadas pela condição de género, do trabalho, de mães pobres). Do alto apanha-se tudo e os braços valentes e os olhos acutilantes de que Emerenciano Castanheira dispunha eram armas nada despiciendas. Numa palavra, sentia-se um explorador.

Admitamos que um felizardo, também. Quantos de nós não gostaríamos de, no despudor dos sonhos, ampliada pela lente destes voos, termos da vida e da vizinhança uma visão tão certa?

Felizmente, Emerenciano era ajuizado e discretíssimo. As palavras precisam de um travão e ele sabia-o. O que à sua cabeça vinha na sua cabeça ficava. Era melhor assim. Muito melhor!

Quantos de nós não gostaríamos de um tal poder?

OS TRASGOS

Wally - woodworking
Fotografia de Wally Senders

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Pelas mãos do filólogo e professor universitário João de Castro Assis passam páginas de um autor seiscentista totalmente desconhecido de nós, de seu nome Anastácio Paim de Noronha, autor da monografia que o académico vem estudando, anotando e convertendo em grafia atual.

O nome do livro, impresso em Madrid, no ano da providência de MDCXXVIII, leva por título o seguinte dizer: RELAÇÃO DOS ESTRANHOS CASOS, OCORRIDOS NAS PROVÍNCIAS DO MINHO, TRÁS-OS MONTES E BEIRAS, NOS TEMPOS DE AGORA DE ANTANHO, MANDADOS JUNTAR PELOS ILUSTRÍSSIMOS, NOBILÍSSIMOS, CONDES DO VIMIOSO, DOM LUÍS DE PORTUGAL E DOM AFONSO DE PORTUGAL, SEU FILHO.

É um cartapácio imenso, repleto de humor e de fantasia, plausivelmente decalcados do JARDÍN DE FLORES CURIOSAS do leonês Antonio de Torquemada. Um dos curiosos relatos nele compilados reproduzimo-los nós de seguida:

«Nos começos do governo do rei Dom Manuel, nosso senhor, sucedeu a certo tanoeiro que na comarca de Montes Longos vivia, conhecido tanto pelo muito de abastado que tinha quanto pelo muito de avarento que era, que lhe fossem à fazenda e lhe furtassem umas determinadas moedas de ouro, bons cruzados de lei, que ele tinha bem contadas no interior de uma bolsa de couro, guardada em sítio de sua casa onde ninguém, por mais que se pusesse a argueirar, podia facilmente descobrir.

Logo desconfiou o da tanoaria que lhas surripiara algum dos moços que consigo dividiam o mester e que mantinha de costume mal assalariados. Deram-lhe as horas por dormir o sometimento de lhes armar cilada, a fim de retear o larápio e o surpreender e o entregar à justiça.

O que fez o astuto mesteiral?

Escondeu no chão da oficina, em esconsos que ele bem conhecia, alguns dos solarosos cruzados de ouro que possuía, de modo a que dessem com eles os moços e aquele que acostumado ao mau costume da rapina lhos gualdripasse e ele, como anzol à enguia, o apanhasse no exato ámen-jesus.

Vai daí pôs-se com bons modos a pedir:

– Fulano, traz-me isto de tal parte, sicrano vai-me por aquilo ali, beltrano chega-me a plaina e o formão, fulano passa daí o argolame que quero cintar as ripas e acabar esta pipa…

E iam os serventes muito depressa direitos ao que lhes pedia o mestre. Até que um dos quais muito se espantou em certo lugar da oficina e largou em grandes brados:

– Venha aqui depressa, mestre, que vejo nascer da terra tanto ouro que vosmecê nem com mãos ambas o poderá segurar.

E era em boa verdade grande o prodígio: ajuntavam-se tantas peças naquele bocado, como desse nele a magia e se multiplicassem infinitamente os cruzados sotopostos na terra escura pelo bendito tanoeiro. Mas assim que lhes tocava ele com os dedos trémulos, logo a ilusão se esfumava como quando caminhamos nós pela vereda de um sonho. E assim se passando as coisas foram todos tomados de um grande susto.

Tempos mais tarde, sempre artificioso e não querendo retrautar o que consigo mesmo ajustara, o dito tanoeiro pediu a outro servente que lhe fosse à mesa da cozinha e lhe trouxesse o vinho, a boroa e o tanheiro do toucinho que estavam sobre o bancal, dizendo que era ocasião boa para merendarem todos e que muito convinha a todos saciarem-se do aperto da sede e da fome.

Estranhou o moço da repentina liberalidade do somítico patrão, sem suspeitar que na mesa, muito acercado do pão, estaria à vista desarmada um medalhão de ouro lavrado com sua corrente, o qual valeria uma fortuna das grandes.

Foi o ajudante à cozinha e não tardou a regressar, lívido como cal, e querendo falar não podia senão gaguejar, dizendo ter visto na dita cozinha bancos a movimentarem-se sozinhos e dois presuntos graúdos mexerem-se no ar, sem que humano braço ou boca de alimária lhes pegasse.

– Zombas comigo, trapaceiro maldito!

– Pois se o mestre não acredita, vá e veja com os seus próprios olhos!

Foi o tanoeiro ver, levando à retaguarda, pelo sim pelo não, e com súbito receio, a mesurada dos serventes e a findar a comitiva uma serviçal que ali viera por fora, a mando da patroa, buscar uma metade de meia canada de vinho para a ceia.

Não se viu coisa de incomum natureza, a não ser que o pesado medalhão de ouro havia sumido de seu poiso anterior, não se divisando a que nova paragem fora ir ter.

Foi o inocente mancebo entregue ao corregedor, que no entanto por meio nenhum foi capaz de o fazer confessar, nem de modo algum deu com o ouro roubado.

– Pagarás pela grande avania que fazes a teu mestre.

– Senhor corregedor, grande diabo mora naquela casa, que ouro aparece do chão e ouro no chão desaparece…

E o moço contou ao atónito corregedor tudo o que sabia e se passava naquela dita casa. Mandou o corregedor um oficial de justiça confirmar da boca dos outros moços o que havia de se confirmar, e confirmou-o. E da boca do mestre tanoeiro escutou o corregedor em pessoa que eram liornas tudo o que diziam os trapaceiros ajudantes, acrescentando que o seu ouro, pratarias e fazenda lhos roubavam de amiúde em sua casa, e que aquilo seria decerto manha concertada entre eles.

Não tinha o tanoeiro terminadas estas palavras, quando para se limpar do abundante suor que lhe corria da tez tirou da algibeira o lenço da mão e passando-o nas faces logo se descobriram, mal embuçadas no pano grosso, rebrilhando, as fartas correntes do medalhão extraviado.

Zurziu o corregedor o atarantado tanoeiro com ditos ásperos, atribuindo à sua maldade e supina avareza a invenção de todos os furtos de que se lastimava e ameaçando com termos furibundos mandar açoitá-lo publicamente, se continuasse a proferir tais e tão graves doestos, para melhor exemplo dar aos argentários e difamadores.

Correu depois a soada espantosa de que naquela casa, fosse na oficina, fosse nos quartos, nas despensas, nos desvãos, nas escadas de pedra, à luz do dia ou a horas mortas, viam ser arrastada toda a sorte de objetos, móveis e alfaias, levados a direito pelo chão, como investidas de um touro, ou cabriolando pelo ar, como volteaduras de uma mosca. Dizia quem isto o pôde saber que rolavam pelos tabuados incontáveis moedas flamejantes, acordando que dormia ou atraindo mais e mais a sandice do tanoeiro, pois que as buscava apanhar e logo elas lhe ardiam entre os dedos como pequenos tições saídos dalguma forja infernal.

E por causa destas coisas chamaram um cura, o qual lhes bateu à porta e inteirado de tudo quanto se disse reconheceu, persignando-se com muitas mesuras e solenidade, que aquilo era obra por certo de uns trasgos e fez o que tinha de ser feito, esconjurando-os. A partir de então, cessaram as trebelhadas manias de que se dá notícia aqui, livrando-se a casa das almas más que nela habitavam e emendando-se aquele dito mestre tanoeiro de seu vício nefasto.»

Espera-se para o ano que vem a republicação do dito livro, com a chancela de uma das escassas editoras que por cá não esqueceram ainda o que sejam bons livros, i.e., dos que devam durar uma mão cheia de séculos, sem escaparate, crítica literária ou prefácio do eminentíssimo escritor – minuscófilo – vhm.

O DESERTO É UM BOM LUGAR

Dunas, deserto, Marrocos, areia vermelha
Fotografia de Jörg Peter

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O beduíno Nasser Yubanim atravessa uma vez mais aquilo a que chamam erg, dunas avermelhadas e escaldantes, paredes duras de areia cantante e perfumada, em cujo dorso o vento se contorce como uma serpente. Custa-lhe imaginar que possa existir no mundo outra paisagem tão bela e tão próxima de Deus, exceto nos oásis à noite, quando o som da água e as estrelas por cima da copa das palmeiras se entendem, uma com as outras, como as palavras meditadas no Corão.

Disseram-lhe uma vez que existem tantas estrelas como grãos de areia na Terra. Duvida que possa haver no universo o que quer que seja em número maior do que estes minúsculos pedaços de rocha erodida. Leva os pés cansados e ardentes. A cáfila segue-o atrás de si como segue ele o seu destino: de uma casbá para outra casbá, adiante, sem perguntas.

Também lhe dizem que noutras paragens do mundo há gente ociosa, gente que descansa ao sol, que brinca na água, que se diverte com a fútil alegria da riqueza e do poder. É algo em que dificilmente pode crer.

Na sua cabeça sobra apenas lugar para o coração e no coração manda somente a sua cabeça limpa e sincrética: nascemos para uma jornada de transformação e transformamo-nos caminhando em direção a Deus. O deserto é uma provação, mas é um bom sítio para se conquistar a simpatia e o respeito de Alá. O beduíno Nasser Yubanim não dá ouvidos a quem lhe assegura que há lugares onde caberiam cem mil oásis juntos. Para que quereria Deus esbanjar o Paraíso?

Não, este é o lugar perfeito para se ser perfeito. Por isso, as sandálias exasperam-me, a sede agasta-me, o ronco insano destas paredes movediças atormenta-me. Os escorpiões e criaturas rastejantes afugentam-me, o sol e o vento mordem-me e açoitam-me, mas estou na direção certa. Nada pode existir mais belo e mais nobre do que caminhar assim, sem despojos, nem ilusões.

É um homem simples, sem dúvida. E como ser-se na verdade de outro modo? Que adianta dissipar o tempo, adiando-o?

MILAGRES DE NATAL

Homem Velho
Fotografia de Pete Linforth

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para a Elsa, para a Marta, para a Catarina

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Meter lenha na fornalha era, em todo o caso, o melhor que tinha a fazer. Enquanto os filhos discutiam, o ancião enfiava gravetos e cavacos pela portinhola do fogão e dava um jeito às costas para que quando o calorzinho as encontrasse as pudesse aquecer com outro cuidado.

Mas o que discutiam os filhos?

Justamente o que fazer consigo. E não era fácil. Viviam todos em lugares muito separados entre si, cada qual com a sua ranchada de miúdos, cada um a contas com a vidinha respetiva. E deve fazer-se bem as contas, oh se se deve! Falecida e enterrada a mãe, estando todos ali reunidos, a oportunidade era de ouro.

Quem tomaria conta do velho?

Nenhum dos oito rapazes, nem sequer a rapariga mostrou interesse, paciência ou disponibilidade para ficar com ele ou levá-lo para longe.

O velhote escutava absorto. Era mister que se começasse com os preparativos da Quadra: a casa precisava de ser limpa; ele mesmo iria com a tesoura da poda cortar os ramos de gilbardeira e fazer com eles a vassoura e varrer com ela a fuligem incrustada nas telhas. Era tempo de lavar com sabão as panelas de ferro, tirar do sal as peças de carne, tirar do serrim as uvas guardadas em setembro, tirar das arcas o linho e as pratas. Era mister que se preparasse o presépio e os quartos e essa comprida mesa onde se haveria de sentar a multidão de filhos, noras e netos que haveriam de partilhar a noite de Consoada.

O frio punha-lhe os ouvidos em riste: a gritaria batia-lhe nos tímpanos como lâminas de gelo. Porque discutiam aqueles rapazes? Aquela moça tão boa, tão igual à mãe, tão parecida com essa mulher que em quase três das quatro partes do século foi a sua?

Em todo o caso, o melhor era manter vivo o lume, esquecer as misérias do mundo, trazer de volta os gestos de antigamente – aqueles de que se alimenta genuinamente um homem. As costas e os pés esquentados são um consolo para o qual não existem palavras…

Sim, quem tomaria conta do velho?

Verdade seja dita: já poucos hoje acreditam em milagres de Natal.

O FABRICANTE DE VIOLINOS

Israel Fichman_repairman
Fotografia de Israel Fichman

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para a Céu

Ruggero Montefforti foi batizado no dia 22 de novembro de 1925, com apenas três dias de idade, na pequena igreja medieval de Santa Cecília, em Chizzola, localidade alpina pertencente à comuna de Ala, na região de Trentino-Alto Ádige. A sua morte prematura era um dado adquirido no seio familiar, pelo que a devoção à santa mártir de Roma, padroeira da música sacra, prosperou.

No princípio da adolescência, Montefforti trocou Ala por Cremona, para ingressar na oficina de um tio materno, Gianluca d’ Oglio, reputado luthier, de quem aprendeu quase tudo o que sabe em matéria de fabrico de instrumentos de cordas, escolha de madeiras, perícia no desenho e no corte, firmeza no desbaste e no polimento, domínio de soluções e vernizes, tempos e técnicas de secagem, apuro auditivo.

Casou no final da Grande Guerra com Stefania Pasquarelli, três anos mais nova, de quem teve catorze filhos, todos natimortos. Enviuvou aos quarenta e dois, justamente aquando do último parto da mulher.

Quase centenário, mantinha o porte cavalheiresco. Todos os dias de manhã passeava pelas margens do rio Pó, impecavelmente trajado de fato, colete e gravata. Encontrava-se com os amigos no Bar Ai Portici, onde lhe serviam um café acabado de fazer e o seu torrone de amêndoa, nozes e avelãs. Perdeu a conta aos violinos, violoncelos, baixos, violas de gamba, violões, tiorbas, guitarras, alaúdes, harpas, liras, até balalaicas, cítaras e pianos em que trabalhou, toda uma floresta cantante, que intérpretes famosos, como Jordi Savall, Anne-Sophie Mutter e Christina Pluhar usam, guardam e têm entre os seus bens mais preciosos.

Na manhã do seu octogésimo quarto aniversário, o senhor Montefforti sentiu uma espécie de chamamento. Dias depois, na companhia de um sobrinho-bisneto, viajou até à terra natal. Visitou os lugarejos que a memória lhe devolvia ainda nítidos. Depois seguiu viagem para o Vale de Fiemme, em direção à floresta de Paneveggio. Aí, no coração do Trentino, sentiu como na infância o frio das Dolomitas, o rosto fustigado pelo vento gélido, os pulmões abertos pela corrente sem mácula de milhões de espruces ondulando. Veio por eles, pela madeira prodigiosa destes abetos vermelhos, que desde Stradivari enche as bancadas de todos os artesãos de Cremona.

Ruggero Montefforti soube sempre que a escolha das árvores deve ser meticulosa. As melhores têm delicados anéis concêntricos, finas fibras elásticas, pequenos canais linfáticos ressoantes. Devem ser cortadas nos meses que antecedem o solstício de inverno, evitando a abundância de seiva. “Só a mais perfeita das árvores pode oferecer ao liutaio mais experimentado o instrumento que há de servir para glória e génio do maior dos artistas” reza o credo da guilda a que pertencia.

Durante anos, sem se apressar, o velho Montefforti quartejou os troncos de abeto e de bordo trazidos do norte, avaliou-lhes com inusitado escrúpulo a humidade e a porosidade (acariciava as pequenas tábuas saídas do corte, levava-as ao nariz, encostava-as ao ouvido, enquanto se punha indagativamente a tamborilar nelas). Depois, com gestos calculados e com a ajuda de um compasso fez curvar e contracurvar a ponta certeira do lápis sobre cartão. Farto de imitar Giuseppe Fiorini, Leandro Bisiach, Annibale Fagnola, Ansaldo Poggi, Montefforti esmerava-se na criação de um novo molde, original, ousado, único. Este exercício levou-lhe semanas. A seguir, apertadas as tábuas nos pequenos tornos, serviu-se de um velhíssimo serrote de cabo, usou tupias e fresas, fez deslizar sobre a superfície rugosa plainas e goivas, aplacou arestas e veios escuros com grosas e lixas, tingiu a alvura lenhosa com trinchas e pincéis. Quando aplicou à madeira uma mistura de claras de ovo, mel e goma arábica (de molde a suturar os orifícios mais minúsculos), já alguns dos seus amigos diletos lhe anteviam o fim, tal era o seu definhamento.

Em que gastava ele o tempo?

Na construção de um violino. Não de um violino, mas do violino, do derradeiro, do mais primoroso, da sua obra-prima, de um legado por excelência.

Com dedos trementes, Ruggero Montefforti ia conferindo uma e outra e outra noites a maciez do tampo, a robustez do braço, a firmeza do cavalete, a acuidade do afinador e da cravelha, a respiração do arco, o equilíbrio e harmonia das cordas. Comovia-o profundamente a sensação de que naquele corpo repousava em simultâneo uma grande angústia e uma grande paz, um movimento de irreprimível sensualidade e um apelo à mais pura das castidades. Era um violino belo, muito belo, maravilhoso. Com dentes trementes Montefforti pôs-se a tangê-lo: do fundo da madeira transformada (tornada música sublime), repercutiu todo o sentido da sua vida longeva. Sentiu saradas as mágoas longínquas, a dor da vasta descendência que a natureza e o destino lhe sonegaram, a tristeza e a saudade da vida desvivida. Se de outro modo não podia deixar quem por si falasse, deixava um violino que por si era uma forma de falar. Chamou-lhe Rinascita.

No primeiro dia de janeiro, sobraçando um estojo, dirigiu-se à Piazza del Comune, onde confraternizou com os amigos. Depois encaminhou-se sozinho para a catedral. Aí, diante da alta torre que assinala o poder de Cremona, fez ressoar a majestade da sua criação. Olhos emudecidos puderam contemplar e ouvir a veemência com que Ruggero Montefforti agradecia a todos, a Deus, a Santa Cecília, a Stefania, a Cremona, à sua terra natal, aos amigos e inimigos, tudo quanto foi. Era, de facto, um renascimento.

Pediu que entregassem “o seu último filho” na Piazza Gugliemo Marconi, no museu onde muitos outros dos seus trabalhos repousavam já como referências absolutas da lutherie. Tinha 94 anos. Morreu a tempo de evitar a grande peste dos nossos dias. Dificilmente se poderia imaginar uma mise en scène mais soberba.