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Com perplexidade, com profunda desilusão, assisti ao debate entre os candidatos à Junta de Freguesia de Arões S. Romão na Fafe TV, decorrido na passada quarta-feira: durante uma hora vi um deserto de ideias, desorientado por uma miserável perceção do que é Arões S. Romão e, pior, condenando-a ao servilismo em relação à Câmara Municipal, que sempre trouxe à vila migalhas e não foi capaz, até hoje, de descentralizar nela um dos seus serviços ou de lhe reconhecer, de facto, o estatuto de vila.

Também não percebi se os candidatos têm orgulho em pertencer à vila, ou se pelo contrário lhe negam essa qualidade (tanto disseram que Arões S. Romão é uma grande terra, como a reduziram a uma freguesia subsidiária de Arões Santa Cristina). De resto, esclareçam: o que significa “Ir da Portela a Arões?” A Portela não é Arões?

Não gostei das hesitações. Menos ainda das insinuações. Detestei a falta de ideias concretas. Não chega dizer que se quer grandeza, desenvolvimento, recuperar tempo perdido. É preciso explicar como se vai conseguir tudo isso, sob pena de nos arriscarmos a transformar o mandato de 2021-2025 num fracasso igual ao que Cláudia Castro nos ofereceu nos últimos quatro anos.

O que se disse sobre reivindicar um maior orçamento? Nada!

Quem assistiu às assembleias de freguesia nos mandatos de 2009-2013 e 2013-2017 ouviu-me dizer, repetidamente, que precisamos de triplicar o valor anual vindo da Câmara.

Precisamos de mais funcionários no terreno (não no balcão de atendimento). O que se disse sobre o tema? Nada.

Precisamos de ligar os passeios da Portela às Teixeiras e entrar no miolo da freguesia. Precisamos de lombas e sinalética luminosa nas passadeiras. Precisamos de alargar estradas (urge fazê-lo em relação ao Nó). Qual dos candidatos tocou no assunto? Nenhum.

Precisamos de retomar as iniciativas culturais, abandonadas escandalosa e vergonhosamente por Cláudia Castro. Teatro, cinema, espetáculos musicais, feiras temáticas, literatura. Quem se prontificou a defender esta importante faceta da cidadania? Ninguém.

Assisti ao debate sem entusiasmo de espécie alguma. Lá voltou a quimera do Pavilhão Gimnodesportivo, a pouquidão do “parque da vila”, a ideia (aliás urgente) de um segundo terminal de multibanco. Lá se trouxe à colação a bizarria da sede da Junta (que não pertence à Junta), mas não se partilhou qualquer intenção de se construir uma nova sede de raiz. Não se disse uma palavra sobre o descuidado estado da Igreja Românica (esse tesouro tão maltratado, tão ignorado, tão vilmente esquecido pela Autarquia).

E, por fim, o “abusivamente”.

Explico:

Carlos Rui Abreu introduzia a questão dos “limites de freguesia” e deu a Joel Fernandes o ensejo de brilhar. Explicava que o tema foi alvo de crítica acesa por parte dos socialistas aronenses, indignados com o colega de Arões Santa Cristina. Joel Fernandes apressou-se a corrigir que houve “um texto a circular por aí”. O jornalista lembrou que “escrito e publicado num espaço de socialistas aronenses”. Joel Fernandes defendeu-se que “abusivamente”.

Eu e o engenheiro Joel Fernandes fomos colegas de Executivo de Junta durante 10 anos (2007-2017). Com toda a honestidade, considero-o um técnico excelente, capaz e criativo. Porém, separa-nos um mar de diferenças no que toca à coragem política.

Nunca estive preso a nada e ninguém. Escrevo e penso agora como pensei e escrevi sempre: com liberdade e sem mordaças, grilhetas ou cordas. Não preciso de pedir licença a chefes ou chefinhos, nem de garantir o “politicamente correto” para parecer bem e manter relações cordiais com quem quer que seja. Por isso, aquele “abusivamente” afastou-me ainda mais do ex-colega de Junta, a quem (repito) reconheço grandes qualidades, mas não a da coragem política.

A questão dos limites de freguesia é complexa. Não chega dizer, como o afirmou o candidato do PSD, que “vamos recuperar o que é nosso”. É preciso muito mais do que isso. Enquanto Secretário de Junta trabalhei incansavelmente pela correção do gravíssimo erro cometido pelo Instituto Geográfico Português (IGP), que sonegou parcelas imensas de território a Arões S. Romão: se algum dos candidatos à Junta leu já o relatório dos Censos 2021 terá reparado neste espantoso facto: Arões São Romão aumentou em apenas 9 os seus habitantes no período de 2011-2021! Eis a prova do roubo!

A questão dos limites de freguesia levou-me a escrever e a publicar no blogue “PS Arões”, no passado dia 9 de abril um texto, que aparentemente ganhou asas e mereceu o repúdio de toda a gente civilizada de Fafe. As pessoas civilizadas de Fafe, nomeadamente as que lideram o Partido Socialista, não gostaram que se protestasse contra um roubo. Aconselharam inclusive a que me calasse! Não é bonito que digamos verdades, que nos queixemos e que ponhamos em causa o bom nome dos impecáveis autarcas que tomam como seu o que não lhe pertencem!

Aparentemente o lugar da publicação – um blogue que eu criei, administrei e usei em prol do partido, nomeadamente na campanha autárquica de há quatro anos (quando era socialista e concorria contra pessoas que na época não eram socialistas, mas que hoje são socialistas) – tornou-me um abusador.

Quando Carlos Rui Abreu introduziu o tema, Joel Fernandes poderia ter dito simplesmente “O texto tem uma assinatura, deve perguntar à pessoa que o assinou o que quis dizer com o que escreveu”. Ou poderia, como o fez em relação a várias questões feitas sobre a incompetente equipa de Cláudia Castro (candidata que Joel Fernandes mal disfarçadamente apoiou em 2017 e de cuja lista recebe pelo menos o Tesoureiro Óscar Samuel Costa e várias outras figuras), ter dito “Não me sinto capaz de responder”.

Mas não. Joel Fernandes, desconsiderando o mérito do texto, que o teve, demarcou-se. E ao tê-lo feito provou ser um “candidato do sistema, conivente com as chefias partidárias, para quem os assuntos delicados se resolvem com uma vassoura. Em setembro de 2017 (no auge da campanha eleitoral), o mesmo engenheiro Joel Fernandes mostrou deslealdade comigo, quando fez publicar um boletim de Junta onde compilou e atribuiu ao mérito exclusivo de Cláudia Castro o que não lhe cabia em sorte ou direito. Foi um favor à amiga, contra o colega.

Esta agora foi, portanto, a segunda vez.

Terei de explicar que “abusador” é, antes de mais o aparelho partidário que se serve das pessoas e, depois de servido, as cospe como pevides.

Publiquei um texto com a legitimidade que me conferia o ter participado numa lista partidária do Partido Socialista e ter trabalhado (forte e feio) numa campanha eleitoral de que não ouvi até hoje (das cúpulas) um único obrigado.

“Abusivamente” é sem dúvida o advérbio que Joel Fernandes e a sua equipa deveriam usar para se referirem ao facto de (apenas quatro anos volvidos) terem despido à pressa as camisolas do Fafe Sempre e terem vestido as do Partido Socialista. Não reconheço ao Sr. engenheiro, nem a ninguém da sua equipa, qualquer estatuto ou poder identitário especial no tocante ao socialismo.

Eu sou socialista, escrevo onde, quando e como quero, E isso basta-me.

2 thoughts on ““ABUSIVAMENTE”

  1. Muito bem dito, lamento imenso… mas tens toda razão em tudo o que dizes. É pena em política, seja qual a cor, colocar os interesses superiores à frente dos interresses da nossa terra! Foi por isso que me afastei… Enquanto os boys de Fafe fizerem dos candidatos às juntas, objectos para chegarem ao único objetivo que é aganriarem votos para eles próprios! Depois das eleições ganhas tudo se esquece e o exemplo maior foi o vergonhoso acordo para governar Arões, e depois deu no que deu! Mas ainda mas vergonhoso é a mesma pessoa que promoveu esse acordo agora parecer o salvador de Arões, onde tudo se vai executar, onde agora sim se vai dar importância à Vila! Esperamos só que o povo não se deixe enganar. Quanto ao texto repudiado, estou a 100% de acor com o mesmo, está na hora de deixar de lado o politicamente correto!
    Abraço

    1. Venho-me afastando da política local e sentindo cada vez falta de referências ideológicas. Como sabes, entrei na vida partidária num tempo em que sonhava para Arões serviços e melhorias que pudessem beneficiar-nos a todos. Achava eu (com vinte e poucos anos) que depois do Centro de Saúde, do Lar, das duas escolas primárias, do Centro, era a vez de pormos de parte as rivalidades partidárias, conseguirmos uma biblioteca, apostarmos no desporto (não só no futebol, mas também no futebol), darmos à Igreja Românica o restauro merecido e necessário, obtermos licença para o funcionamento de um posto dos CTT, de termos bombeiros, etc.

      O tempo desenganou-me. José Ribeiro, então Presidente da Câmara, acusou-me em público de ser “um bairrista” e de ter uma “visão saloia” das coisas, por querer “duplicar recursos já existentes no Concelho” (cito de cor). Disse muitas vezes que “o Arões S. Romão ser vila não significa nada” e que “é uma freguesia como as outras”. Raul Cunha virou-nos as costas. A dada altura percebi que ninguém na Câmara e ninguém na Assembleia Municipal pondera sequer destacar a nossa freguesia das outras, confortando-a com um orçamento capaz.

      E, sim, tens razão: a solução Cláudia-Zeca revelou-se incapaz, incompetente e paralisante. Trabalhei com ambos e até isso me incomoda. Deixei de conhecer as pessoas.

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