Jeffrey Van Daele
Fotografia: Jeffrey Van Daele

 

para o João Dinis, como presente de aniversário

 

Era uma vez um rapazinho que vivia numa aldeia com poucos habitantes, numa das encostas de uma grande montanha. Aí todos se conheciam pelo nome e sabiam todos os costumes uns dos outros, porque as pessoas tinham tempo umas para as outras.

Esse rapazinho chamava-se Tobias. Tinha acabado de fazer sete anos, quando o pai lhe pediu para o acompanhar na guarda do grande rebanho. Um rebanho é uma família de ovelhas ou de cabras, às vezes de ovelhas e de cabras misturadas. Os rebanhos são valiosos, por isso precisam de ser guardados. À noite dormem em casotas de pedra ou de madeira, fechados entre portas seguras. Mas durante o dia é preciso levá-los aos melhores prados, muitas vezes distantes, para que possam comer.

O pai de Tobias era pastor. Foi ensinado a cuidar das reses, a conduzi-las por planícies, vales e montes. Aprendeu desde muito novo a aproveitar o leite das cabras e a lã das ovelhas. Com o leite fazia-se um queijo maravilhoso, muito fresco, que forasteiros de terras às vezes longínquas vinham comprar.

Diziam “Não há queijo como este!” e todos na aldeia sentiam um grande orgulho ao escutar estas palavras. E, por ouvi-las muitas vezes, as gentes da serra percebiam que o seu trabalho era reconhecido e que certas coisas só se conseguem pelo muito amor que lhes temos.

Da lã tosquiada às ovelhas fazia-se agasalhos para o inverno. Quando a neve cobria os telhados das casas e a torre da igreja, deixando brancos os campos e as pequenas estradas solitárias, nada aconchegava tanto como as peúgas, os gorros, as mantinhas, os casacos feitos desse tecido grosseiro.

Tobias tinha muitos amigos. Moravam todos muito perto, porque as casas da aldeia tinham sido construídas juntas, porta com porta, usando escuras lâminas de pedra sobrepostas. Olhadas de longe, à noite, com as suas lareiras e candeias acesas, essas casas de xisto assemelhavam-se a um presépio.

Desde há muito que os aldeões sabiam que nas encostas de uma montanha se vive entre perigos e dificuldades e que para vencê-los, para resistirem, todos precisam de se apoiar e ajudar.

Havia aldeões que trabalhavam a terra: deles se esperava o centeio para se fazer o pão, batatas e a hortaliça para a sopa, e a forragem para o gado. Havia outros que cuidavam das abelhas e que, por essa razão, se chamavam de apicultores: quando iam aos cortiços retirar o mel e a própole, tinham de usar luvas e uma fatiota de colmo e estamenha, que as crianças achavam engraçada. Na aldeia havia também quem cuidasse dos sapatos, quem costurasse os vestidos e as calças, quem tratasse das forjas e dos ferros, quem moesse a farinha, quem fabricasse as mesas e as cadeiras, quem ensinasse na escola. Todos trabalhavam para si e para as suas famílias e para que nada faltasse aos demais.

Uma vez por mês, a aldeia era visitada pelos almocreves. Os almocreves eram comerciantes, gente que ia de terra em terra, com as suas mulas, para vender e para comprar. Faziam-no desde tempos muito recuados, subindo e descendo a montanha, ao longo de estreitos caminhos, cheios de paciência e sem pressa, levando não só mercadorias e ensinamentos, como notícias e lendas que muito impressionavam quem os esperava.

Quando os almocreves paravam no adro da igreja, formava-se uma multidão. De dentro dos alforges, dos sacos de lona, dos caixotins, dos bornais de couro saía um pouco de tudo: brinquedos, latas de sardinha, frascos com óleo de rícino, parafina, torcidas para candeias, bacalhau curado, caramelos, café, açúcar, frutos secos, tudo.

A chegada destes mercadores à aldeia era uma grande festa. Sobretudo para as crianças. Elas viam com espanto que no mundo se iam inventando coisas, coisas que os antepassados jamais puderam imaginar que pudessem ser inventadas: aparelhos de ouvir notícias, lampiões leves e seguros, esferográficas que dispensavam o uso da pena e do tinteiro, máquinas de somar, livros sobre os astros, revistas de moda.

“Ah, se o meu pai visse isto!”, suspirava um velho, coberto de cãs. “O mundo está a mudar, a mudar muito depressa. Aonde iremos parar?”

Tobias gostava da sua aldeia. Os seus amigos, a sua família, a sua alegria, pertenciam àquela paisagem. Ali tudo era calmo e pachorrento. As novidades vindas de outras aldeias e cidades pareciam-lhe irreais e desnecessárias. O mundo cabia todo nesse redondo que os seus olhos avistavam a toda a volta de si. Para quê cobiçar o que para lá desse horizonte existia?

Porém, uma madrugada, no início da primavera, aconteceu algo de que há muito se não falava.

Tobias acordou como de costume muito cedo. Um vizinho conversava com o pai, descrevia-lhe um problema, lamentava-se e pedia conselho. O rebanho comunitário tinha sido atacado.

Era costume, naquela altura do ano, os aldeões juntarem todos os seus animais num rebanho só e ir apenas um pastor guiá-lo até aos melhores pastios. Assim, os homens da aldeia ficavam livres para se dedicarem a outro tipo de trabalhos. Um único pastor, acompanhado por dois ou três cães adultos, podia apascentar centenas de cabeças de gado.

Mas havia agora um problema.

Quando nessa madrugada se preparava para empurrar as pesadas trancas do cancelo que mantinha fechado o curral, o vizinho reparou em manchas de sangue na pelagem de algumas ovelhas. Contou-as. Faltava uma. Na véspera, sucedera o mesmo. O pai de Tobias escutou palavras preocupantes.

– Os lobos estão a atacar-nos o rebanho: andam por perto, conhecem os nossos passos, atacarão de novo.

– Sabes o que precisamos de fazer…

– Sim! Vamos chamar os outros!

O pai de Tobias foi buscar o cajado. Encaminhou-se de seguida para a pequena praça, onde se juntaram todos os homens adultos e mancebos. Então, subindo os degraus do cruzeiro, um deles falou.

– Vizinhos, um lobo faz mossa, atacando o rebanho, apanhando desprevenido um cordeirinho. Uma alcateia, porém, pode atacar-nos a nós, a um dos nossos. Enquanto não formos capazes de a apanhar ou afugentar, estaremos à sua mercê!

Concordaram que era preciso fazer uma busca e enfrentá-la. Uma alcateia é uma família de lobos. Todos devem saber que estes animais são antigos, inteligentes e organizados. Em grupo, são capazes de caçar presas do tamanho de vacas, veados ou cavalos.

As névoas iam-se esfarrapando com a algazarra. Os homens, servindo-se de paus, enxadas, foices, machados e forquilhas, dividiram-se em dois grandes grupos: um foi para norte, outro para sul. Batiam em tambores e panelas, gritavam, urravam, faziam o maior barulho que pudessem.

O objetivo era espantar as feras com o alarido e fazê-las sair do esconderijo. Assustadas, estas saltar-lhes-iam ao caminho. Depois, os homens, munidos das suas armas, brandindo tochas, convergindo uns para os outros, haveriam de as empurrar para o fojo que ficava no alto de um penhasco.

Os fojos eram armadilhas gigantescas, feitas de muros altos de pedra, que se apertavam mais e mais, um contra o outro, como um grande V maiúsculo: impelidos para esse lugar, os lobos ficavam encurralados e, sentindo o espaço a afunilar-se, corriam mais depressa até caírem no extremo no abismo. Não podiam escapar.

Tobias queria participar nessa aventura, mas o pai proibiu-o.

– Filho, tens sete anos. Precisas de compreender que o nosso lugar no mundo é muito frágil.

– O que quer isso dizer, pai? 

– És uma criança. A obrigação dos pais é defender os filhos a todo o custo! Ficarás em casa, com a tua mãe. Enquanto não nos livrarmos deste mal, ninguém está a salvo em lado nenhum nesta aldeia.

Quando o dia clareou, não se falava de outra coisa.

Com o coração aos pulos, morto de curiosidade, espicaçado pela narrativa que construíam os seus amigos, o rapazinho deixou-os logo que pôde. Enveredou, então, por um carreiro apertado, subiu a encosta e afastou-se cada vez mais. Conhecia tão bem aqueles caminhos!

Numa cumeeira pôs-se a ver e a escutar. Nada alcançava com os olhos, mas às vezes, numa viração, conseguia ouvir muito ao longe, muito além, o ruído dos homens. Que pena não poder estar entre eles. Gostava tanto de observar um lobo!

Caminhou sem destino. Sentia a brisa a passar nas grandes penedias, fazendo baloiçar as urzes pregadas no granito, desalinhando-lhe as farripas do cabelo.

Aqui e acolá, no meio do musgo seco, através das fissuras nas pedras, seguiam carreiros de formigas. Uma joaninha, fechando as asas, poisou na sua mão. Mais à frente, viu a toca de um grilo. Cortou uma palhinha e pôs-se de cócoras a remexê-la dentro do buraquito, enquanto repetia uma quadra cantarolada que soava a oração. Em breve o animalzinho assomou. Tobias, ao invés dos seus amigos, não gostava de colecionar grilos em caixas de fósforos e de os prender em casotas. Preferia que vivessem nas suas pequeninas luras, comendo livremente a sua serradela e a sua alface.

 “Este é um lugar maravilhoso”, pensou. “Não há no mundo outro onde mais gostasse de viver”.

Tobias aproximou-se, entretanto, de um carvalhal. Havia muito que ali não entrava. Apanharia bugalhos, algum ramo em forma de ípsilon para preparar uma fisga. Talvez avistasse algum ninho de gaio, ou algum esquilo. Ah, se os seus amigos soubessem de ovinhos novos!

Depois, sem querer, viu um tronco humedecido com fungos e líquenes a toda a volta. Achou bizarras as formas dos pequenos cogumelos saindo da madeira. Sabia que alguns deles eram malcheirosos e venenosos, por isso não lhes tocaria com as mãos, mas com algum graveto. De gatas, começou a procurá-lo no chão coberto de folhas.

Quando reergueu os olhos, viu à sua frente, a não mais do que dez passos de distância, um lobo.

Ficou paralisado pelo terror. Durante um bom pedaço, com o coração aos pulos, com imensa vontade de chorar, não foi capaz de nada. O animal também não se mexeu. Os olhos amarelos pareciam estudá-lo. Apenas as orelhas felpudas, fitadas, se moviam lentamente.

Para grande surpresa sua, daí a pouco, vindos dalgum esconderijo, soltando pequenos latidos, surgiram três cachorrinhos. O pelo (acastanhado, basto, mais escuro sobre os olhos e o focinho e no dorso) era enternecedor.

Tobias viu então a extremosa mãe lamber-lhes a nuca. As crias deram pela sua presença, principiaram a caminhar na sua direção. A loba rosnou, arreganhando os dentes. Os lobinhos recuaram.

Sem um gesto, mantendo os joelhos no chão, o rapazinho sentia a coragem renascer dentro si. Disse baixinho “Não vos faço mal”, “Não vos faço mal”. As crias, curiosas, recomeçaram o movimento. Se a mãe franzia o focinho e lhes mostrava os dentes, interrompiam-se. Mas logo em seguida, faceiros, abanando a cauda, davam mais dois passos. Por fim, alcançaram-no.

Depois de o farejarem, puseram-se a mordiscá-lo. Os dentes mal afiados e a língua tonta procuravam-lhe os braços e as mãos, mordiam-no como alguém que desafia outro para a brincadeira.

Por instinto, achando-lhes muita graça, Tobias principiou a fazer-lhes cócegas na nuca e na barriga. Eles, em resposta, deitavam-se com as patas para cima e davam cambalhotas.

A loba, ao cabo de algum tempo, veio também fariscá-lo. Depois, tranquilizada, sentou-se.

Era bom poder contar com alguém para ajudar a cuidar dos seus filhotes. Tobias mal podia acreditar que a seu lado repousasse uma fera tão temida.

Ao serão, enquanto ceavam, o pai declarou.

– Amanhã vamos para a outra banda. O lobo não apareceu hoje. Mas amanhã sentirá fome e terá de se mostrar.

A mãe perguntou.

– Falas como quem espera um lobo só. Como sabes que se trata de um e não de muitos?

– Uma alcateia não se esconde. Acredito que se trate apenas de um. Penso que seja uma loba e que tenha dado à luz há poucos meses. Só uma loba mãe tem a coragem de desafiar os nossos cães e a esperteza de os enganar.

– Os lobos são animais malditos. Sempre ouvi dizer que matam por gosto e não por necessidade.

– Tens razão, mulher. Os lobos são parentes do diabo.

Tobias sentiu um arrepio e uma grande tristeza.

Nessa noite, não conseguiu dormir. Na sua cabeça misturavam-se as frases do pai e da mãe e as suas próprias frases. Sentia preocupação pelas ovelhas, mas também pela loba e pelas crias. “Como é difícil perceber o que é certo e o que é errado”, pensava. “Era tão bom se todos conseguíssemos viver juntos e em paz”.

Enquanto nisto cismava, teve uma ideia.

Dormiam todos ainda, quando o rapaz subiu a serra. Levava consigo o lampião do pai para se alumiar no caminho. Ia com pressa.

O farfalhar das árvores, os estalidos no chão, o choro das aves de rapina, soavam-lhe horrivelmente. Sentia presenças nas sombras, olhos malignos espreitando da escuridão. Era enorme o receio, mas não podia voltar para trás: se o fizesse, se se acobardasse, os homens iriam chegar, descobririam a toca dos lobinhos, matá-los-iam a eles e à progenitora e ele já nada poderia fazer.

Só a custo reconhecia o percurso do dia anterior. Mas tão assustador era agora o caminho, tão duro o que tinha de fazer, tão incerto o resultado da sua ideia que as lágrimas lhe andavam muito perto dos olhos e o coração da boca. Melhor era não perder tempo com medos e morder os lábios. Tobias falava alto, discutia consigo próprio, era como se uma grande onda de ânimo lhe viesse dessas palavras ditas a si mesmo. Por fim avistou o carvalhal, sombrio e sinistro. Penetrar nele era como saltar para dentro de um poço. Mais do que nunca, afligia-o o pavor de que a luz se apagasse. Balançou levemente  o lampião. Sentiu a oscilação do petróleo e o rebrilhar da chama.

Então, Tobias entrou, avançou até uma pequena clareira e, como alguém que tivesse decidido bem o que fazer, começou a juntar pequenos paus e folhas secas. Formou uma pilha e acendeu um fósforo. Soprou até que a labareda principiou a crescer. Juntou mais lenha e, animado por esta, multiplicou as fogueiras. Aos poucos, no meio do carvalhal, nasceu uma claridade vermelha. Não se via vivalma.

Depois, batendo numa panela, o rapazinho começou a gritar. “Arre, lobo!”, “Arre, lobo”, “Arre, lobo!”

Horas depois, já o dia nascera havia muito, um grupo de homens espantou-se de ver montículos de cinzas e carvalhos chamuscados num bosque remoto. Viram até uma espécie de toca, acoitada no meio de fetos e troncos apodrecidos. Alguém, com razão, considerou.

– Se eu fosse lobo, era aqui que me escondia…

Acenderam uma tocha e, pelo sim pelo não, apontaram uma estaca afiada para a boca do covil. Lançaram-lhe lume, mas estava vazio. Lá dentro, lobo nenhum.

10.04.2020