SOPHIA

Sophia - Eduardo Gageiro
Foto: Eduardo Gageiro

 

Mergulho no dia como em mar ou seda
Dia passado comigo e com a casa
Perpassa pelo ar um gesto de asa
Apesar de tanta dor e tanta perda

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas

 

Os meus alunos reagem sempre com surpresa quando nas aulas lhes digo que “amo” este ou aquele escritor, especialmente se o dito é ou foi homem, sobretudo se o digo com a sincera entoação com que se diz (ou deve) amo. Recordo palavras deste género para com um Tomas Tranströmer, um Herberto Helder, um Salah Stétié, um Fernando Pessoa, um Tonino Guerra, um Pablo Neruda, um Federico García Lorca, um Czesław Miłosz, um Ruy Belo.

Cada vez menos acostumados à subtileza da arte e à figuração do discurso, os meus alunos perguntam à boca cheia, como quem afirma, se sou “panão”.  Ou então, pior ainda, sugerem-no com piadas de caserna.

Escuso de dizer que me incomoda a mistura de preconceito e estupidez (porque os miúdos são cada vez mais estúpidos, mesmo quando são espertíssimos), a má-criação e a ousadia, a certeza de que o futuro vem já muitíssimo comprometido a julgar pela má amostra do presente, e que a escola, em vez de se afirmar como um espaço de elevação, curiosidade e mente aberta, acolhe adolescentes torpes, atrasados e imbecis.

Vem tudo isto a propósito, ou talvez a despropósito, do meu amor (nunca disfarçado nem diminuído) por Sophia. Porque eu amo, na verdade, Sophia.

Sophia de Mello Breyner Andresen é, de resto, um nome quase religioso, que em nós entra como o rútilo do sol nas manhãs mais doces e nos acompanha pelo dia fora, desabrochando pensamentos, preenchendo-nos de reflexões, escandindo frases belíssimas que a boca repete e os olhos fixam.

Não farei aqui um panegírico (detesto louvaminhas), mas, e com a toda a genuína ingenuidade que pode um leitor de longa data aquilatar, não resisto a biografar a minha sedução pela obra da autora de A Menina do Mar, d’ A Fada Oriana, d’ O Cavaleiro da Dinamarca, das Histórias da Terra e do Mar, dos magníficos Contos Exemplares, de Coral, do Livro Sexto, de Geografia, de Navegaçõesou de Ilhas, estes últimos livros de poesia puramente solares e veementes, ressonantes, espumosos como o próprio mar que anima e inspira.

Quando, nos meses do verão passado, ouvi e reouvi a entrevista de Isabel Nery a Luís Caetano, no programa A Ronda da Noite, a pretexto da biografia que acabei por ler sobre a escritora, não pude deixar de me surpreender com o sofrimento sentido em cada revelação, em cada defeito e pecado a ela apontados, em cada linha que devolvia essa mulher à condição humana. Talvez porque, admito-o, ao longo de décadas fui fabricando a ideia de que Sophia era uma deusa, uma espécie de númen tardio do panteão grego, tão de mármore quanto Atena ou Apolo, tão misteriosa quanto Hermes ou Dioniso, e não humana já, não deste mundo de vis e covardes, e muito menos com taras como a de usar pinça para tocar em dinheiro ou de lavar o cabelo com vinho no mar.

Sophia é, mitomania particularíssima esta, a minha própria evasão para o oceano.

Quando viajo até à Foz do Porto, quando caminho pelo Passeio Alegre, quando me demoro na pérgula colorida que aí nos abre o olhar sobre o azul do céu e do mar, quando me debruço sobre as grades ferrugentas junto ao farol, quando me salpica o mesmo sal que oxida a pedra e o ferro, eu repito de olhos fechados versos como «Um dia serei eu o mar e areia, / A tudo quanto existe me hei-de unir, / E o meu sangue arrasta em cada veia / Esse abraço que um dia se há-de abrir».

Quando me dou conta da corrupção galopante que nos asfixia de alto a baixo, e nos envenena a verdade e o mérito, e nos faz desacreditar no país a que devemos a vida, a língua e o nome, revolto-me, sublinho outros versos, outro dizer e outra lucidez de Sophia, outra coragem como a que pôs em Mar Novo: «Este é o tempo / Da selva mais obscura // Até o ar azul se tornou grades / E a luz do sol se tornou impura // Esta é a noite / Densa de chacais / Pesada de amargura // Este é o tempo em que os homens renunciam.»

Quando, numa turma do básico ou do ensino secundário, me sinto impelido a citar, a exemplificar, a explicar um tropo, uma figura de estilo, ou uma sequência descritiva, um efeito de linguagem com adjetivo e nome, uma qualquer maravilha sintática e semântica, recorro invariavelmente a textos como os que Sophia compilou nos seus livros narrativos ou mesmo nas notas poéticas em prosa, como em «Caminho da Manhã» do Livro Sexto, que escutei uma vez a Eunice Muñoz na Antena 2. Porque a escrita desta mulher é, de facto (metáfora provavelmente gasta) repleta de luminosidade, esquadria e perfeição. Ensinar gramática com Sophia é diferente. É como trabalhar num laboratório com música. Ler em voz alta as suas histórias é regressar aos tempos em que o «Era uma vez» silencia miúdos birrentos e os faz comer a sopa que não querem (tem-me sucedido fazê-lo a turmas do 8.º ano e encontrar o rosto dos miúdos desviados do livro, a cismar, a ouvir meio absortos, seduzidos, esquecidos da aula, a amar Sophia à sua maneira, incertos de tudo, como se as palavras dela os hipnotizassem). Esquadrinhar os seus poemas é aventurar-nos num exercício de arquitetura clássica, com pórticos e pilares e terraços limpidamente desenhados e sem mácula.

Estudei no Porto, no Campo Alegre. Algumas vezes visitei o Jardim Botânico. Quando o fiz, pus a mão no rapaz de bronze a meio do buxo. Pensei nesse Hans pelágico, bisavô, vindo do norte da Europa. Evoquei as antigas quintas e as muitas árvores que do lugar onde hoje arqueia a Ponte da Arrábida, lá do alto, desciam até ao rio. E não há vez em que não me lembre das suas personagens ascetas ou aristocratas se me embrenho pelas ruas muito direitas da Foz e me deparo com essas janelas aximezadas onde secretamente espreitam candeeiros acesos, sofás de couro e estantes repletas de livros.

Sophia é todo um espaço mental que não sei confessar ou traduzir. A sua estatura é enorme e as raízes que dela despontam profundíssimas, porque é porventura o caso literário mais próximo de uma enorme árvore. Sophia ampara-nos aos quatro ou cinco anos e torna-se um caso sério de amor. Eu, que nunca a conheci pessoalmente, conheço-a desde as aulas de português do professor Miguel Monteiro, saudoso mestre que nos leu na bibliotecazinha do ciclo preparatório um excerto de A Noite de Natal. Nunca esqueci essa manhã.

Brevemente, no dia 6 de novembro, completar-se-á um século do seu nascimento. Haverá seguramente uma miríade de efemérides celebrativas, bustos e placas descerrados nas nossas ruas, leituras e dramatizações nos teatros nacionais, testemunhos emocionados na televisão e nos jornais. Pela minha parte, julgo tudo isso merecido. À minha maneira homenageio-a lendo-a e fazendo-a ler. Aos meus sobrinhos, pequenos ainda, ofereço já os contos maravilhosos que hão de constituir parte da sua formação e afeto literários. Conto-lhes o enamoramento de Vanina e Guidobaldo, a distração da fada boa que se equivocou, a mágica circunstância da menina que vivia com um caranguejo, um peixe e um polvo.

Talvez no futuro outros jovens leitores de agora tornem mais fácil o ensino de então. Sophia não pode faltar nas salas de aula de 2050 ou 2100 ou 2119. Nessa altura, quem sabe, estes e outras palavras afins, façam mais sentido.

Sophia, porque a amo, merece!