HARÍA

Haría
Foto de arquivo pessoal (2018)

 

descemos a Haría, depois de serpentearmos uma montanha onde as curvas e contracurvas nos traziam ciclistas solitários e retângulos repletos de aloé vera. as casas são tão brancas como as folhas deste caderno, branco imaculado que se estende com os muros ao campanário de uma igrejinha e ao relevo dos poços. li que chamam oásis a este povoado, porventura à conta destas palmeiras que cresceram e balançam entre jardins negros de pedra-pomes, ou, quem sabe, por causada paz que repousa com o pôr do sol nas pequenas ruas sem gente

o carro desliza no asfalto num som dormente e quase tão discreto quanto os lagartos que me garantem existirem nesta ilha e que ainda não vi e talvez não veja. uma rapariga sobe agora em sentido oposto ao nosso, por dentro de um reduto particular, calcando com dificuldade o chão feito desta rocha, tão idêntico ao cascalho que chocalha e desequilibra, mas mais mole e muito mais escuro. paramos para fotografar a vista do vilarejo. é estrangeira a rapariga, como estrangeiros somos nós, inglesa decerto, uma entre milhares. afeta o mesmo ar perplexo de quem escreve estas palavras e se atreveu a invadir uma propriedade para lhe pisar o quadrado de cinza dura ao redor dos catos

IMG_5280
Foto de arquivo pessoal (2018)

 

voltamos ao carro, retomamos a viagem, avançamos para o centro da povoação, a tarde já muito próxima da noite. impressiona a limpeza geral, o desenho arrumado das habitações de estilo colonial, o aprumo das paredes e do alcatrão, o ruído disciplinado das lojas, cafés e das casas de pasto, uma certa dúvida de que Haría exista de facto ou seja parte de um conto por contar. aqui como em toda a parte, os homens precisam do seu vinho para celebrar. vejo mesas de madeira e jarros de sangria e t-shirts brancas erguendo os braços para brindar. estamos perto do Corona, o maior dos fornos adormecidos de Lanzarote

quando nos metemos a uma das vias rápidas, perto do mar, escureceu já. as luzes do carro esforçam-se por abrir os nossos olhos ensonados. faço perguntas e tu respondes, retas infindáveis, placas toponímicas com nomes estranhos (Tabayesco, Máguez, Ye, Guinate, Guatiza, Teguise, Arrieta – eco da língua guanche), trânsito quase nenhum. digo não me importava de aqui ficar, gosto deste sossego, cheio de cosmopolita tentação, tu ris. pensas decerto que isto é um bluff. e, no entanto, falo cheio de verdade, quem sabe de premonição

Caleta de Famara, 24 de agosto de 2018

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s