BALDIOS

Baldio, Wasteland
Foto: Franziskus Pfleghart

(para Herberto Helder)

era um lugar inacessível ou quase, no meio de ervas altas, bardana e urtigas, um lugar para onde se ia às vezes, entre cablagens oxidadas e velhas betoneiras, nos arredores da cidade, um lugar para onde se ia às vezes e de onde se vinha em silêncio, iluminado às vezes pelo amarelo das flores da serralha, um lugar para onde se ia e se lia às vezes em solidão e se perfurava o espaço com o estertor das consoantes, um lugar feio, onde o fedor da urina e das fezes se misturava ao iodo fresco do rio, um lugar entre sucata, tijolos, pó de cimento, onde cresciam tufos de trevo e mostarda, onde pequenos ratos rondavam a ferrugem de contentores esquecidos, subúrbio, um lugar por onde se caminhava às vezes em silêncio entre grafitos e mastruço e poças secas de óleo industrial, um lugar onde a tristeza dos corpos amados e arrefecidos caía com esperma sobre os altos pedúnculos do dente-de-leão e da cizânia, um lugar feio, às vezes tenebroso, de onde se avistava o comércio da noite e as constelações, um esconso, para onde se levava às vezes (guardado num bolso) um pequeno poema dobrado em quatro, onde se podia sem medo juntar os lábios e dizer «Ficas toda perfumada de passar por baixo do vento que vem / do lado reluzente das laranjeiras.», um lugar onde se podia perfurar a terra com o eco saltitante das palavras, «E crepitam-me as pontas dos dedos ao supor-te no escuro.», um lugar onde se podia ler (lia-se bem ali, em voz alta, na mais lídima solidão, repercussivamente, entre as ervas altas e sucata) «Queimavas-me junto às unhas. / E a queimadura subia por antebraço e braço / ao coração sacudido», um lugar ondena própria língua se podia saber como as palavras são outra língua, um lugar ermo, de casebres arruinados e paredes sujas e portas e janelas devastadas pelo tojo, pelas silvas, pelas hortelã, «Eu ‒ perfumado / e queimado por dentro: um laço feito de odor / transposto, ar fosforescendo, uma árvore / banhada / nocturnamente.», um lugar onde o saibro e o sangue cicatrizavam debaixo do mesmo sol (às vezes escaldante), um lugar aonde se ia como se vai a um lugar de paz, um lugar onde em certas noites húmidas se deixa o revólver no outro bolso e se cisma na imprecisa beleza dos vaga-lumes sobre a terra, e se lê como se se gritasse na mais completa solidão «Tudo em mim trazido / súbito / para o meio.», um lugar feroz onde uma certa cidade por nascer parecia (como num fantascópio) ser já nascida, «Quando este saco de sangue rodava / defronte da abertura / prodigiosa.» e o poema (ou grito) se alastrasse às entranhas do próprio tempo e nos fechassem em si mesmas altas colunas verdes (outrora ervas, vinagreiras, beldroegas, beladonas) com os seus caboucos e suas gruas e seu grés, com o seu reboco e seu betão armado, com o seu aço e vidro e violentas forças compressoras, um lugar aonde se ia como se vai a um lugar de paz, um recanto, um deserto, um paraíso feroz de coisas sem sentido, onde se ia como se vai a um lugar onde ninguém saiba que existimos (e existimos mais) e o silêncio é um espesso diamante à espera de nos capturar

26.03.2015

* versos de Última Ciência

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