Captura de ecrã 2019-03-31, às 16.47.11

para a Céu

Na cidade de Quioto, no antiquíssimo bairro de Higashyama, numa das casas mais humildes, próxima do templo de Kyomizudera, vive o senhor Nakata.

É um artesão legítimo e completo. Os turistas gostariam de o tornar uma atração fotográfica, ao lado das aprendizas de gueixa (as maiko) e das casas de chá. Mas o senhor Nakata, como manda a boa tradição nipónica, gosta do silêncio e da sombra, prefere o seu trabalho livre das perguntas incómodas e do olhar indiscreto dos forasteiros.

A oficina fica nas traseiras da casa. Um pequeno caminho condu-lo todas as manhãs de uma à outra e devolve-o à noitinha ao ponto de partida. É uma viagem curta, mas suficiente. O ar frio das neves ou o ar morno da primavera são-lhe igualmente maravilhosos. Os telhados recurvos do templo e a fronde rosada das cerejeiras ao fundo despertam-lhe o mesmo agradecimento que a água das fontes e o perfume do musgo do jardim.

O senhor Nakata descalça-se sempre ao entrar e permanece imóvel algum tempo, até que a visão se acostume à penumbra. Aproveita esses minutos para escrever poesia.

Escreve-a de memória, às vezes repetindo-a nos monólogos, esforçando-se por usar a palavra certa no lugar certo. É, além do trabalho manual e da poesia, cultor da sopa de miso e dos banhos de água gelada, da filosofia budista (wabi-sabi) e da obediência samurai. Acredita que cada trabalho que fizer será mais perfeito do que o anterior e que mil anos não chegariam para que se atingisse a perfeição. Mil e um anos, sim!

Ninguém sabe a idade certa deste homem. Dito de outro modo, ninguém sabe quantos anos faltam para se sentir preparado para morrer.

O senhor Nakata é paciente, laborioso e apaixonado. Depois de compor o seu poema (como quem apara uma folha de bonsai ou lhe extirpa uma erva), escolhe o papel, o couro, o molde, as linhas com que há de coser mais um caderno. Cose-os tão devagar como cose uns aos outros os três versos dos haiku. Para quê apressar o amor se pode nele morar e não noutro sítio?

Uma vez, depois da guerra, vieram dizer-lhe que o filho tinha sido encontrado morto num poço. O senhor Nakata manuseava a sovela, à luz escassa de uma lâmpada.  Na sua mesa via-se uma coleção de tesouras, facas, réguas, linhas, um esmeril, giz, pilhas de papel, tiras de couro de boi e de cordeiro. O cheiro das colas impregnara todo o espaço. Os visitantes afogueavam-se, dobravam-se numa mesura fúnebre, emocionados com a tragédia. Esperavam não matar o vizinho, já então velho e atingido por várias desgraças.

Sem se mexer, sem um esgar de surpresa, o senhor Nakata escutou a notícia. Aos poucos afastaram-se às arrecuas todos os que ali foram levar-lha.

O caderno que sustinha nas mãos era esmerado, impolutamente branco, cosido com precisão. Faltava-lhe o resguardo em pele com que deveria fechar-se. Era imperioso que o papel pudesse contar com essa capa de tecido animal para permanecer no tempo, para assegurar ao futuro proprietário o prazer máximo de uma escrita lenta e longeva. Aquele caderno não seria apenas mais um objeto, mas o objeto de que alguém jamais prescindiria. Diriam «Foi este o caderno que Nakata cosia quando lhe deram a notícia da morte do filho!»

O artesão prosseguiu com a sovela, abrindo um a um os equidistantes buracos da sua dor. Depois, até que a noite sobreviesse, tapá-los-ia com orgulho como quem prende a si um destino ou uma missão na terra. Cada trabalho que fizer será mais perfeito do que o anterior. Mil anos não chegarão para que atinja a perfeição. Desejá-lo em cada dia, isso sim!

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