Richard Bland
Foto: Richard Bland

 

– Aqui tem o seu troco, senhor.

– Não, não. Guarde-o para si. Faça o favor!

Era um punhado de cêntimos. A rapariga agradeceu e recolheu-os sem entusiasmo.

– Você é muito generoso, Gustavo!

O cavalheiro balançou o copo de conhaque, visivelmente envaidecido. Disse apenas:

– É uma questão educacional. Fui ensinado a obsequiar aqueles que me servem.

Cortou com os dentes a ponta de um charuto e principiou a procurar nos bolsos.

– Como lhe estava a dizer, Gustavo, o meu filho mais velho trocou inesperadamente a filial de Aberdeen pela de Vancouver. Tão impulsivo aquele rapaz!

– Ah, sim?

O cavalheiro fez estalar um no outro, como se tocasse castanholas, os dedos médio e polegar. Outra rapariga aproximou-se.

– O mais novo vive agora no Dubai. Veja só que há menos de um mês tinha ido para Melbourne. Foi tudo de repente…

Num gesto interruptor, que poderia entender-se como «Só um momento!», o cavalheiro inclinou-se para a funcionária e sussurrou entre outras a palavra «lume». Ela retirou-se depois de ter esboçado ao de leve com a cabeça o meneio de anuência.

– Muito me apraz. E o Bernardo? Como anda ele?

A mulher deslizou uma mão repleta de anéis pelo cabelo loiro, encarando-o com um sorriso.

– Ora, Gustavo. Você quer lá saber do meu marido… Não finja interessar-se por aquele traste!

A primeira das raparigas poisou uma caixa de fósforos na mão do cavalheiro, que a observou com ar desconfiado.

– Sabe, Gustavo: sonhei consigo uma noite destas…

O cavalheiro deitou-lhe uma mirada, enquanto, sem sucesso, desperdiçando um atrás de outro os pequenos paus encerados, se esforçava por incinerar as folhas de tabaco, que mastigava com sorvos veementes.

– Olhe, Gustavo, sonhei que os nossos dedos se encontravam debaixo dos lençóis e que você me puxava para si, como fazia antigamente…

– Maldição!

A mulher estremeceu, surpreendida pelo vozeirão. Do lado de dentro das vidraças, uma terceira funcionária, que acompanhou sem querer a cena, soltou uma risada.

–Maldição! Que estupidez: queimei-me!

– O meu filho mais novo é tão parecido consigo. Imagine só que…

– Menina, faça o favor!

A funcionária divertida, entretanto recomposta, acercou-se do empresário Gustavo Herédia para se inteirar do pedido. Este, que molhava o dedo chamuscado com saliva, devolveu a caixa de fósforos e pediu por favor (disse «por favor» num tom desprovido de qualquer cortesia) um isqueiro.

A rapariga não sabia se tinham um isqueiro. Toda a cafetaria trabalhava há meses só com equipamentos elétricos. A caixa de fósforos fora já «uma sorte» ter sido encontrada numa gaveta.

– Veja só, Gustavo. As modernices só nos arranjam complicações…

O cavalheiro bebericou o conhaque, fazendo arquear as sobrancelhas espessas num modo que podia ser lido como de dúvida em relação à qualidade do que bebia.

Canteiros de margaridas comuns ornavam o pátio. A esplanada não era sequer grande. Ocupava o terraço da parte sul do complexo desportivo. Podia ouvir-se nela, por exemplo, o tap-tapdas bolas e o alvoroço dos atletas no corte de ténis ali perto.

– Lembra-se daquela vez em que viajámos os dois para Genebra? Oh, foi um fim de semana tão bonito, Gustavo!

– Sim.

A primeira das raparigas informou que possuíam apenas um velho isqueiro-acendedor de fogão. Se o cavalheiro estivesse interessado, podia servir-se dele à vontade. O homem viu-se com o comprido objeto de plástico amarelo, a lançar chamar irregulares sobre o charuto. A boca amargava-lhe já e a irritação mal a conseguia dominar.

– Bem… – disse a mulher. – O que tenho estado a tentar dizer-lhe neste tempo todo, Gustavo, é que…

– Raios me partam! Raios me partam!

A mulher assustou-se. O cavalheiro vociferava, dando murros na mesa. O canhão do isqueiro mal usado hesitava na chama. Canhestramente, o cavalheiro apertara sem sucesso o canhão ignitivo que, de um momento para o outro, decidiu disparar uma comprida bola de fogo, abrindo-lhe uma cratera na gravata.

Cheio de raiva, o empresário levantou-se, descompôs a funcionária, reclamou do serviço, do mau conhaque, do cheirete das flores, do atravancado das mesas.

– Calma, Gustavo. Calma! – repetia, nervosamente, a mulher de cabelo loiro. Depois de várias tentativas, não achou mais palavras que dizer.

Todos os colóquios (podemos afiançá-lo nós que conduzimos a narrativa) têm uma forma distinta de acabar.

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