conto «Joaquín»
Foto: theo peekstok

 

Joaquín Moro faz todos os dias este percurso a pé. Sai de casa cedo, atravessa três avenidas, cruza-se com o melhor hotel da cidade (há sempre turistas a entrar nas suas portas rotativas), vê os automóveis topo de gama estacionados perto das grandes lojas, evita aos domingos os magotes de miúdos a cambalear e aos berros à saída dos bares da moda, caminha com o corpo muito direito e em silêncio, raramente cumprimentando, raramente cumprimentado, até ao porto.

Caminha em passo medido (de sua casa ao estaleiro marítimo são três quartos de hora), organizando mentalmente a sua vida, filtrando no ar os seus próprios pensamentos, tomando decisões.

Nesta zona, a paisagem é dominada por gruas gigantescas que operam a carga intercontinental. Não há casas, há barracões. Os jardins cedem lugar a terrenos baldios e cercas de arame delimitando cemitérios de âncoras e barcos de pesca desmantelados, completamente invadidos pelo óxido e pela nostálgica miséria dos poucos pescadores que ali resistem em jejuada sobrevivência. Em fundo, para lá destas ruelas feias e repletas de lixo velho nas bermas, para lá dos cartazes desbotados a anunciar espetáculos tauromáquicos de há três verões, montanhas de contentores.

Joaquín  caminha agora sem pressa, com as mãos nos bolsos do corta-vento, por causa da brisa mais forte. Gosta de ler as matrículas pintadas nos paralelepípedos metálicos empilhados, de imaginar-lhes o conteúdo, o trajeto, os dias de trânsito no oceano. Aqui pode respirar livremente. Das pequeninas coisas às maiores, o seu olhar voga com volúpia, como nos tempos de garoto. Dentro de cada uma destas caixas que os homens esvaziam e voltam a repletar há um sem-número de mercancias misturadas, mãos ajuntadas no mesmo propósito comercial, algumas coincidências talvez, para que o longe e o perto se conheçam, para que visões se fundam, culturas se fecundem. O mundo é uma casa de espanto. Joaquín puxa do maço de cigarros. Aqui as palavras aquietam-se, o casaco (como a vida) apetece-lhe mais, os olhos voltam a ver. Anota duas linhas vagarosas no bloco de apontamentos, considera com prazer que entre si e a solidão há somente o trabalho dos estivadores. E não, esta solidão não é má.

Enquanto puder há de aproveitar-se dela. Há de ouvir o som chiante das suas botas sobre os charcos ocasionais. Há de despejar-se das solicitações inúteis da boa sociedade indo para os arrabaldes, frequentando os sombrios lugares de urtigais e canas emplumadas, onde infindáveis cargueiros de pavilhões desconhecidos o esperam e o convidam a ir mais longe. Não, não morrerá aos poucos como os colegas pensionistas que à tarde o incitam às mesas de bridgee de póquer.

O cigarro está no fim. Corre uma aragem gélida. Apetece-lhe deitar lume a outro, mas não o fará. Prefere aquilo que é moderado e bom, sem excesso. Duas frases mais para apontar. «Para que a paz seja completa, tudo deve chegar a um fim. Naturalmente.»

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