Alexei Sovertkov
Foto: Alexei Sovertkov

 

Na noite de 23 de junho desse ano, o único candeeiro aceso na residência universitária era o meu. Do terceiro piso podia inteirar-me dos céus iluminados da cidade e da festa. No Porto é obrigatório divertirmo-nos na véspera de S. João. Os pátios, escadarias, becos, vãos, pracetas, avenidas enchem-se de ruído, concertinas coloridas de papel, escamas de sardinha. É obrigatório sair, conviver, algazarrar, beber até dizer basta, empunhar e esfregar alhos-porros no nariz benevolente das raparigas. A tradição diz que é a noite de solstício. Se não é a noite mais curta do ano, é a mais longa. Todos os foliões o sabem.

Quanto a mim, teimei fechar-me no quarto a estudar Linguística. De fora o mundo chegava com estrondo, cheio de vida, como uma punhalada. Podia apreciar da vidraça os telhados e as torres das igrejas por onde subia o rasto de lume dos balões. Podia avistar as inúmeras varandas apinhadas e as churrasqueiras acesas, os grupos retardatários, correndo com os martelinhos plásticos. Podia jurar que as dezenas de quartos dos estudantes se encontravam vazios. Desde o meio da tarde não avistei ninguém nos corredores, nem escutei uma única voz no interior do edifício.

Os apontamentos de Martinet pareceram-me monstruosamente enfadonhos. Sublinhava-os com um marcador fluorescente e recitava em voz alta as glosas do caderno. Estava só.

Foi nessa solidão que me dei conta das cores cada vez mais verde-negras, estranhamente semelhantes ao óxido de crómio, que afundavam o espaço e o asfixiavam. O primeiro relâmpago e o primeiro trovão confundi-os com o aparato da festa. Mas depois vieram outros. A tempestade não demorou a sacudir as janelas e a empurrar a chuva mais pródiga de vingança a que assisti em toda a minha vida.

Multiplicaram-se de um momento para o outro gritos de confusão, histéricos, perplexos. As bátegas metravalhavam sem piedade as mesas compridas nos terraços. Os fogareiros eram arrastados de qualquer maneira para debaixo das lonas. Velhos e novos apinhavam-se como podiam nos coretos e abrigos das portas. A imagem do rebuliço pareceu-me tão divertida e tão amorosa que abri a gaveta e retirei de dentro dela a minha Leica.

Apesar dos vidros embaciados e do ar saturado, a paisagem era outra agora. Dir-se-ia que bela, humana, protetora, aconchegante.

Lá ao longe, os holofotes das igrejas alumiavam o temporal. Ao perto, os postes elétricos deixavam perceber o desastre. Desci para ver melhor. Mal abri a porta dei de caras com um desses pobres que abundam, infelizmente, nas nossas cidades.

‒ Não queria assustar-te, rapaz. Desculpa-me!

‒ Não assustou. Esteja descansado!

Fiquei um instante sem saber se saía ou se o convidava a entrar. Havia sob o alcatrão uma mistura de fumo e de vapor. A máquina fotográfica estava pronta.

‒ Esta chuva. Quem podia imaginar!

O homem não respondeu. Limitou-se a encolher os ombros. Segurava numa das mãos uma maçã, na outra um saco de serapilheira. Aquela chuva parecia não ser para ele nada extraordinária.

‒ De maneira que vai ficar todo ensopado… Entre e proteja-se!

Sem uma palavra, o homem obedeceu.

Olhei a rua, uma caixa de pimentos no chão, cervejas abandonadas, gritos, gatos debaixo dos carros, fumaça. Estava constatada a falta de decência do santo. Não conseguia decidir-me a disparar o flash. Então o homem disse.

‒ Em todo o caso, estás a sentir agora um déjà vu

Com efeito, sentia que toda aquela cena me era familiar, como se nalgum elo da minha memória se tivesse acendido a impressão de que já vivera aquele momento. O homem, embora nunca o tivesse visto antes, era (podia jurá-lo) bastante familiar.

‒ Vais acabar por não fazer um único disparo com essa máquina. Os objetos não te importam. Só o sujeito que tens diante de ti é digno de nota. Não é verdade?

Os modos quase arrogantes impressionaram-me. O homem prosseguiu.

‒ Estás agora a pensar em como sair desta alhada. A rua já não é o lugar mais estranho do mundo, mas este bocado aqui, sim. Não é verdade? Estás a pensar em como aquela caixa de pimentos no chão, aquelas cervejas abandonadas, aqueles gritos, aqueles gatos escondidos debaixo dos carros, aquela fumaça em nada se comparam com o caos que reina na tua cabeça.

‒ E como pode o senhor saber tudo isto?

‒ Os Elementos de Linguística Geral de André Martinet lá em cima são a prova de que ambos nos deixámos afundar na mesma miserável solidão.

‒ Quem é você?

‒ Escolhes sempre uma saída lateral e nunca o corredor em frente… Pensas ainda em labirinto. E, no entanto, desde que nos vimos pela primeira vez há pouco sabes que somos os dois a mesma pessoa!

‒ Somos a mesma pessoa?

‒  A mesma personagem, sim! Mas não fiques muito surpreendido. Borges, que ainda não conheces, faz o mesmo no primeiro conto do Livro de Areia. Dickens, de que já te esqueceste, faz o mesmo com Ebenezer Scrooge. Dante, que estás prestes a conhecer, sonha com a sua própria alma cirandando nos círculos dos Inferno, do Purgatório e do Paraíso.

‒ E vem você mostrar-me o meu futuro, é isso? Provar alguma coisa? Que eu sou má pessoa e preciso de emendar-me?

‒ Não venho provar absolutamente nada…

O meu outro eu pôs-se a comer a maçã e de trouxa às costas saiu para a noite, sem medo do dilúvio, engolido pelo reflexo sujo das mil e uma luzes quebradas.

Com a Leica apagada nas mãos vi-o partir sem ter podido acrescentar alguma coisa. A fotografia, essa, como sucede muitas vezes com os sonhos, renasce vezes sem conta na cabeça.

 

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