King Douglas
Foto: King Douglas

 

É como um jogo de chamas e de vento este que fazem os violinos e os violoncelos, o combinado som de uns e de outros, crescente e ondulante, um labirinto de labaredas, tão vivo agora que se parece todo ele combustível, todo ele feito de lume, ardente, matéria em convulsão.

Na cabeça de Antonio Cavani, as Quattro Stagionisão sobretudo luz, luz forte, fortíssima, e por isso ensaia de olhos fechados, a batuta solta na mão direita, para que o não ofusquem o movimento dos instrumentistas ou a veemência mágica da própria música.

Entre todos os compositores, prefere os do Barroco. Entre todas as composições deste tempo, ama com um amor mais sincero e humilde esta dúzia de andamentos de Vivaldi, que lhe lembram mais que Bach, ou Pergolesi, ou Händel, a sua infância bucólica na Toscana.

Na sua opinião, escassas se lhe comparam na celebração da humanidade, tanto incendiando-a de graça juvenil como consumindo-a na depressão das suas tonalidades  elegíacas, soturnas e hiemais. Por isso, exige que esta celebração da sublimidade humana seja interpretada sem erros, no ritmo, na intensidade, na volúpia exata. Os ensaios sucedem-se, às vezes escutando somente o arco e as cordas de Margaret Duchamps, muitas vezes juntando à solista o tumulto maravilhoso da orquestra, para que uma e outra se afinem infinitamente.

Em Berlim já se diz, e isso parece impossível, que esta performance será melhor do que Karajan, que Duchamps supera Mutter, que se fará História. Calvani transcende-se, é como se as chamas do próprio sol o engolissem, um violino, vários, o violoncelo, outros violoncelos, o cravo, uma pletora de formas deslizando no devir dos quatro concertos, entre os andamentos e ao longo de todos eles, como se fosse a própria fala de Deus que assim se exprimisse, vibrando, contorcendo-se, ferindo o espaço no frenesim das cerdas contra os encordamentos, na percussão das teclas, na concentração fanática do maestro.

Cavani gesticula com uma lágrima no canto do olho. Imagina o público no intervalo de som e silêncio, a opressão das imagens que correm dentro dos olhos, a física e dolorosa simpatia dos músculos que acompanham a perfeição do momento, a alma que se liberta do mundo como nele nascesse de novo, orgástico e genesíaco recomeço este, o cardíaco entusiasmo ecoando nas paredes, no teto, na noite de Berlim, e depois «Bravo!», «Bravo!», o maestro em água, os pupilos esgotados, «Bravo!», pode a morte sobrevir, Cavani deseja-a, nem mais um minuto, que mais não pode desejar-se nesta vida e não valeria a pena ir mais além, não valeria. Mas o transe termina. É um ensaio mais apenas. O inverno pode ser esplendoroso. Quanto tempo passou? Onde estamos? Cavani respira com dificuldade. «Bravo!» diz com secura.

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