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Foto: Cezar Gabriel

 

Os pensamentos mais sombrios e dementes descem sem dificuldade à ponta dos dedos. Quem o poderia ter dito é Pablo Zuñiga, que observa a cisalha como se a ele tivesse acabado de ocorrer uma ideia. O objeto é-lhe tão familiar, foi-lhe tão útil sempre que não será custoso imaginar aquela e uma outra e esta vez em que, no meio do ofício, se pusesse a considerar o apuro da lâmina sobre o seu próprio corpo.

«O melhor é nem pensar no assunto.»

E, apesar disso, pensa-o. A imagem persegue-o como uma Fúria antiga, acompanha-lhe a respiração, fá-lo ver sem o olhar o gesto de mutilar-se, invade-lhe os sonhos, onde sente a dor, o pasmo e o sangue, uma parte de si caída diante de si, e estremece, e acorda, e dá graças por tudo não passar de uma febre de uma cabeça que por muito passou já.

«O melhor é nem pensar!»

É um objeto demoníaco este. Belo e terrível como todos os que dividem a matéria e disputam o divino poder de mudar a face do mundo. Zuñiga não desbarata o seu tempo com reflexões destas, ainda que tão pouco filosóficas elas sejam. Limita-se a cesurar, cortar, amputar metal e pedra.

Não sabemos se sempre assim será. Simplesmente não sabemos.

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