Jackson Carvalho
Foto: Jackson Carvalho

A partir da meia-noite, os cruzamentos do bairro de Biccoca, em Milão,  enchem-se com estas presenças femininas, ou efeminadas, exóticas, negociantes do amor breve, muitas vezes vazio, de quem dele não foi capaz de prescindir e pelo qual está disposto cem euros, duzentos, quinhentos, mais, conforme, porque elas o exigem e o exigem os e as clientes, é um negócio, afinadas as contas, como os outros.

Há muitos artistas dispostos a tudo em nome do renome, pela fama internacional, pelo cosmopolitismo. Esta que aqui passou agora mesmo, maquilhada, perfumada, acetinada, vestida escandalosamente, é filha de pai libanês e mãe colombiana. E, por isso, leva Yussuf no apelido e Andreína no nome que lhe é mais próprio. E, por isso, é um bom exemplo do aforismo de que pequeno é o mundo, às vezes basta uma cama, um banco traseiro do automóvel, um vão de escadas, o linguarejar babélico de um e de outra, de outra e de um, e o mundo ou os mundos juntam-se, culturas tão distintas, o mesmo propósito, os mesmos gemidos, elogios, êxtase e catarse, foi bom, foi ótimo, és fantástica, tu também, até à próxima, arrivaderci, e depois é outro cliente, que a noite é uma criança ainda, isto em todo o bairro, em todos os cruzamentos, Andreína Yussuf é uma entre pares, uma entre muitas, belas e exuberantes, Milão está delas repleta até ao nascer do sol.

Mas também no setor terciário, o dos serviços, há quem se canse da dureza da vida, e uma noite, outra, tantas mais, há quem pense com saudade no tempo de antes, naquele que é sempre puro, mesmo se já então chafurdávamos em promiscuidade, hipocrisia e vileza, em devassidão e imoralidade, em pecados que se pareceram afinal com pecadilhos, pequenas falhas, coisas normais de gente que é gente, dias de experiência afinal felizes, tão diferentes do de agora.

Está Andreína caminhando com o seu salto alto em direção ao posto de trabalho, é o asfalto debruado por sulcos paralelos e folhas, há que evitar uns e outras, a prostituta vai de olhos baixos, não vá o tacão enfiar-se nos primeiros ou arrastar as segundas, olhos pensativos, olhos de quem já viveu demais e tão pouco, de quem está farto e precisa muito do que a vida não dá. É hoje que irá confessar às e aos colegas de ofício «Vou-me embora. Não suporto mais estes homens porcos, ordinários, frustrados!», e elas e eles «E o que farás?», e ela «Não sei. Alguma coisa se há de arranjar!».

Ter um nome que soe a legenda não é para todos. Há artistas que sonham com um tal prestígio e que a ele e por tudo entregariam. Esta moça tem-no e quer dele e a ele ver-se desobrigada. Procuram-na especialistas de dentro e de fora da cidade como se procura perceptora, tocam-na como uma relíquia, fornicam-na com impiedade como se, acesa a animalidade dos e das requisitantes, a queimassem da cabeça aos pés com amor, ódio e luxúria. «Vou-me embora!» dirá.

Não há lugar talvez onde se lave a memória tão fundo que não venha ela à boca uma vez por outra. Para onde vai uma madalena arrependida é o que estamos nós querendo saber, portanto.

Luigi, um universitário, espera-a com impaciência. Ele e outros dois, que consigo ocupam um Alfa Romeo vermelho vivo, cor do sangue: depredação orgíaca, fantasia criminosa, desejo irreprimível o e os levam ao encontro desta mulher transsexual, como se vê pelas peças de couro, dildos, algemas e outros utensílios que não nos atrevemos a descrever. Maltratada será se nada for feito! Caminha de olhos baixos, que o cansaço no-los traz quase sempre assim: «Vou-me embora!», «E o que farás?», «Não sei!», «Não sei!», «Não sei!».

 

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