carpenter, carpinteiro
Foto: Hőbér Szabolcs

A luz do poente transforma todas as janelas. Huberto não o pensava, mas sentiu-o.

Ao aproximar-se da velha carpintaria encerrada, tornaram-se mais agudas as palpitações sobre a caixa cardíaca, como se o debicasse sem piedade o alfinete de um pássaro.

O vidro ainda sujo de serrim, o pedaço de sabão e o pequeno lábis rombudo no parapeito, os cavaletes e algumas tábuas ainda ao alto contra o perpianho musgoso e engrentado, o silêncio onde antes era um alarido de serras e compressores, o vazio daquele miolo (onde já não se viam homens e máquinas, mas somente as paredes de pedra e o negrume), a impressão de que ali ainda era e não era já a sua carpintaria, a chegada da noite, o trevo e as urtigas, os silvados nascidos ao redor (sufocando a memória de cinquenta anos de trabalho), estas todas impressões húmidas e sujas deixaram-no prostrado.

Permaneceu assim muito tempo, quieto, segregando uma ou outra lágrima mais incontrolada. Vinha de longe o procissionar de vozes e de cânticos em direção à igreja. Via ziguezaguear o lento das velas acesas, a mansa contrição dos fanáticos. Detestava a religião.

Depois do calor da tarde, a brisa que agora se levantava até nem lhe pareceu desagradável. Entrava pelas portas e janelas abertas da profunda alma que nele, como anéis de um carvalho, ou duma faia, ou de um ulmeiro se alargara respeitosamente. Respirou. O perfume conjugado das laranjeiras e da bergamota, das tílias e glicínias tardias, das ervas e do milho que despontava fê-lo recuar. Olhou o quarto decrescente da lua, o brilho de Vénus a um canto, o de Júpiter a outro canto do horizonte. Maio sempre fora um poema difícil de escrever: apesar de todas as coisas boas, de que valia ter vivido para chegar ali? Onde estavam todos os companheiros que consigo haviam cortado, aparado, aplainado, esculpido, pregado, colado, envernizado os melhores instantes da vida?

A morte avançava com a dissimulação de uma serpente, cruel e inequívoca.

Sentado no mesmo mocho de granito onde costumava abrir a marmita de alumínio e comer o caldo, sentia-o mais que pensava. Estava só. Era como um sonho.

 

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