Sven Fennema 07
Foto: Sven Fennema

 

A última vez que alguém atravessaria os corredores era aquela. Sven procedia a uma revista final às cargas de explosivos. Assim que desse o seu ok, as entradas do edifício seriam seladas e a equipa poria em marcha a demolição. Ali, onde existia agora o antigo hospital, existiria apenas uma montanha de escombros e pó e, uma ou duas semanas mais tarde, um espaço amplo e limpo no sul da cidade para a construção de um hotel.

O engenheiro caminhava devagar, subindo e descendo degraus, empurrando portas emperradas, pondo-se de cócoras para vistoriar fios e cabos elétricos. A luz sumira-se já, tornando os gestos mais dramáticos e belos, como sempre acontece na penumbra ou numa despedida.

O capacete, as botas e o colete retrofletor esponjoso não transmitiam, contudo, a segurança a que acostumara. Em dado momento, quando o foco da sua lanterna se cruzou com o letreiro MORGUE, Sven sentiu um arrepio. Ali não havia nada: uma porta fechada, um retângulo de vidro fosco, um dístico, silêncio e mais nada. Ainda assim, uma covardia súbita impedia-o de entrar.

Ao longe, numa qualquer sala ventilada demais, provavelmente por culpa dalguma janela sem resguardo, uma porta bateu, um qualquer carrinho, maca ou estante com rodas desatou a cair, aos tropeços, por uma das muitas escadarias deste labirinto, fazendo ecoar com estardalhaço o esqueleto metálico em que se desfazia. Sven ficou paralisado.

– Olsson, estás aí? Allô?

Uma aragem gélida, inundada de mofo, passou-lhe pelo rosto, pela boca, pelo pescoço. Horrível, enjoativa, trespassante.

– Allô? Olsson?

– Sim, estou aqui!

– Conferiste o setor 3?

– Estou a fazê-lo.

Agora a escuridão era mais visível, uma presença, uma certeza. Corredor após corredor (longos e penosos,  repletos de átomos alheios e atentos), Sven via tudo, o vir do nada e o ir para o nada, o chegar de longe para longe chegar, o desaparecer do antes no depois, a matéria que teimosamente se recusava a ceder, a morrer, a extinguir-se.

– Não te esqueças de verificar os anexos subterrâneos!

– Sim, estou a descer. Vou vê-los agora.

Sven via tudo, e tudo era sem mais sentido do que caminhar, assassinando no seguinte o passo anterior, sempre assim, sempre assim, como um pensamento, um acidente, uma ilusão.

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