Little mother, pequena mãe, pequeña madre, petite mére
Foto: Dorothea Lange

 

A garota segurava ao colo uma criança de ano e meio, dois no máximo. Os circunstantes olhavam-nas com um misto de curiosidade e falta dela.

–Então, e os vossos pais?

A garota, frágil como todas as garotas, amparando (sem se queixar, com mil cuidados) a criancinha que abria grandes olhos negros por cima do círculo da chupeta cor de rosa, nada respondeu.

– Devem ser ciganas.

– São romenas!

– É o mesmo!

– Tens fome, pequenina?

A garota recuou. Não gostava que fizessem perguntas à bebé. Muito menos que lhe tocassem no rosto.

– O melhor em todo o caso seria chamar alguém.

– Já chamaram!

– Ah sim? E quem chamaram?

– A GNR, penso eu.

– Muito bem.

Sem pestanejar, dando às vezes um jeito no embrulho que apertava (para lhe corrigir a posição, ou mitigar o esforço da coluna), a garota não desarmou. Que os chinelos de pano, a roupa sórdida, os cabelos desgrenhados não iludissem. Ali ninguém tocava na sua bebé.  Ninguém lha tirava!

– Que meninas tão amorosas!

– Dói a alma só de olhar a pequenita de chucha na boca!

– Dizem que para aí estão há dois ou três dias…

– Ao deus-dará?

– Sim!

– E alimentam-se de quê?

– Eu sei lá! De esmolas…

Mas a guarda não vinha e as pessoas, que remédio, iam à sua vida! A garota, não perdeu tempo. Ágil e forte, como todas as mães verdadeiras ou improvisadas deste mundo, desapareceu levando no regaço a pequenita.

Para onde? De que viviam? Sozinhas? E como foram ali parar? As mais das vezes, já se sabe, perguntamos por perguntar.

Anúncios