Akira Takaue
Foto: Akira Takaue

 

Quando o semáforo fez o carro parar, ele pôs-se a olhar em volta. A cidade caía já na grande penumbra de outono, engolindo as formas até ao céu ferrete entrecortado pela caixaria negra dos edifícios mais altos.

Era a sensação de ter vivido já esta experiência que o agitava.

Nesta parte da Baixa, os sinais vermelhos duram uma eternidade, mesmo ao sábado, mesmo estando a avenida quase deserta. Os olhos encontraram e detiveram-se no interior iluminado de uma lojinha vintage.

Dezenas de candeeiros em exposição, acesos, semelhantes a pequenos lustres, a ágeis medusas contorcendo-se, a candelabros e rosáceas, com os seus cristais, com os seus brilhos opacos e transparentes, com o revérbero irisado dos seus primas pendendo, fizeram-no sentir como numa imensa festa em silêncio. Era uma saudade (apesar de a palavra não o satisfazer) de antigos livros que lera, de antigos filmes que vira, de antigas casas e de noites antigas onde permanecera. Sempre gostara de lojas de candeeiros, ainda que não soubesse dizer porquê. Deslumbrava-o essa luz simétrica, dividida, multiplicada, bela, repleta de rútilos dançando nas paredes e nos espelhos. De resto, admitamos, ninguém sabe explicar muito bem as razões por que uma determinada luz o fascina ou fere, aborrece ou tranquiliza. A luz é talvez uma escolha psicanalítica.

Viu-se a si mesmo, muitos anos antes, conduzido no velho Talbot dos pais, quem sabe à mesma hora crepuscular, neste mesmo cruzamento, olhando a mesma vitrina. A memória confundia-o. Na negritude fria desse fim de tarde, aquele instante era como um aluvião de bem-estar sobre um oceano de desconhecidas e inimagináveis proporções.

O verde substituiu o encarnado. O carro arrancou. Estava atrasado para a consulta. O que quer que o médico da especialidade lhe dissesse podia esperar.

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