Claude Brazeau
Foto: Claude Brazeau

 

Em cima da mesa, William Wimblot tinha as cascas da laranja que acabara de comer. A sua disposição, em hélice, misturada com aparas de queijo de cabra, migalhas de broa, e com o copo vazio e sujo de vinho, dava-lhe a sensação de uma pequena convulsão no universo.

«O que é mais perdurável: o caos ou a ordem?»

O senhor Wimblot gostava de pensar que os seus pensamentos entravam na matéria negra do nada como a lâmina de uma charrua na terra. Dedicava-se a rabiscar ideias, anotando-as e compilando-as um pouco ad hoc em sebentas de escola. Quase nunca as voltava a ver, porque lhe incomodava a sensação de ler algo seu, mas nunca desistia desse ofício, porque lhe dava prazer indagar sobre o tempo e o espaço da sua vida.

No dia anterior chegara à conclusão que o Homem (escrevia sempre a palavra Homem com maiúscula) «é uma espécie de nó bastante complicada, difícil, se não mesmo impossível de desatar, depois do Bem e do Mal, em milénios de recíproca miscigenação, se terem nele encordoado com toda a força».

Gostava de metáforas. Preferia as mais inusitadas. Adorava alegorias. As científico-religiosas, em especial. Já por uma ou duas vezes comparara o evoluir da nossa espécie com o movimento silencioso dos seus ervilhais, tão extraordinário de resto quanto o dobrar da matéria em grandes ondas gravitacionais. Na sua cabeça, as abóboras, as galáxias, os tratados de Heidegger, a compaixão, a voz da soprano que canta a In Trutina de Carl Orff eram o mesmo. «Existir é a potência de iludir o antes com o depois, como se antes e depois não fossem o mesmo.»

A frase, dita numa quermesse diante do abade e de outros lavradores da Cornualha, causou sensação, granjeando-lhe reputação duvidosa nos dois terrenos onde semeava a sua paciência: no das beterrabas (onde o viam como um intelectual) e no das ideias (onde o desprezavam como o vilão de galochas, que era em todo o caso). Não é fácil, admitamo-lo, ser-se um homem do campo, das ciências e das letras.

Wimblot mirava sem o ver o perpianho das paredes, as alfaias penduradas do teto de madeira, o lume que preguiçava na laje da lareira. Sentia-se embalado pelo vento forte a fustigar no pátio as sombras aguçadas da noite, acalentado pelo bom Syrah que cultivava na terra mais agreste de Redruth, distraído pela beleza caligráfica do aparo de ouro sobre o papel.

«O que é mais perdurável: o caos ou a ordem?»

Não sabia. Talvez Deus não permitisse que se soubesse. Talvez não houvesse resposta. E, no entanto, ela faria toda a diferença: ela explicaria toda a História, justificaria toda a Filosofia. Ao passo que sem ela talvez nada fosse afinal sério e verdadeiro, talvez tudo não passasse de uma brincadeira.

«E andamos nós nisto desde sempre!»

Wimblot sentia a acidez distender-se do estômago à boca. Era hora de ir dormir. O cansaço é uma bênção. «Sempre foi o que fizemos: dormir» repetia o amável homem, quando, apagando de supetão o gasómetro, como quem fazia (num truque de ilusionismo) desaparecer todo um grande problema.

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