Carnaval,
Foto: Stefan Nielsen

Todos os anos tem lugar na noite de véspera de Carnaval um dos eventos mais importantes da nossa cidade. Histriões escolhidos a dedo, entre as famílias de renome (as abastadas e as falidas), convergem ao salão nobre de um dos nossos palácios para mostrarem o quanto a boa sociedade sabe rir-se de si mesma.

Banqueiros do monopólio, churchills de cachimbo e relógio de bolso, marilyns de vestido levantadiço, einsteins de cabelo eletrizado, gueixas e jogadores de futebol, papas e afrodites de túnica branca (com a sua fíbula de ouro), quixotes e sanchos barrigudos, pares venezianos emplumados, o baile é um catálogo profuso de máscaras e trajes.

Ao contrário dos foliões labregos de rua, aqui impera o charme e o bom gosto: nada de insultos ao poder, nenhuma insinuação de cariz sexual, menos ainda provocações ao juízo corrupto ou ao patronato explorador.

– Este baile melhora de ano para ano – diz com gosto imenso, por entre fumaças de boquilha, Teodora Burmester, uma das sócias fundadoras desta tradição.

– Completamente de acordo, minha querida. Completamente… – anui, com ademane, Bernardo de Souto Avelar, professor universitário. – Isto é o Entrudo, no melhor sentido que lhe dá o meu querido Bakhtin! Uma rebeldia!

Serpentinas e champanhe, música de Brahms e Corradini (misturada com jazz, salsa e até algum pop rock), frases polidas e politicamente corretas, leques e charutos. É um acontecimento na nossa cidade. O veneno da má-língua aqui não entra. Aqui leva-se o fingimento muito a sério.

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