Holger Droste
Foto: Holger Droste

 

Tom K. Maxwell, condutor de um camião de recolha de lixo, não pôde desviar os olhos certa noite da montra de uma conhecida marca de automóveis, onde se anunciava um novo topo de gama, descapotável, vermelho, igualzinho ao que vira em sonhos anos antes.

Sanchez, o eterno parceiro de giro, depois de se certificar que a grua depusera no ponto exato o contentor grande de plástico rígido, disse «Podes arrancar, Max!», mas a atenção do condutor continuou no vidro do stand, incapaz de decidir se via o que sonhara ou se sonhara de facto o que via.

«Arranca, tío! Está um frio de rachar!»

A cidade de Norwich, como todas as cidades à hora em que todos dormem, oferece a quem nela se passeia (não vemos porque não admitir que o trabalho de uma equipa de limpeza seja uma passeio) pensamentos singulares e boas conversas de turno.

«Sempre quis ser engenheiro» explicou, dando ao volante uma guinada mais brusca. «Ai, sim? Engenheiro de quê? Sempre pensei que tivesses falhado uma carreira no baloncesto». «Engenheiro de carros, pá!». «Mecânico, queres tu dizer?». «Não. Engenheiro. Daqueles que desenham grandes máquinas, estás a ver?».

O camião, porém, foi obrigado a parar.

Entravam agora em La Mancha, uma zona suja de bares e vidros partidos. Os pneus calcaram-nos com displicência, como quem esmaga bolotas. O colega de Tom K. saltou para o asfalto, engolido num abrir e fechar de olhos pelo seu próprio bafo. Quis verificar a conexão da grua, que com o seu braço incansável caía uma e outra vez sobre os recipientes apinhados. Entre içá-los, voltá-los do avesso, sacudi-los e pousá-los de novo decorriam sete minutos e quarenta e cinco segundos.

Maxwell, ao comando agora de um painel com pequenas alavancas e botões, comprovou-o pelo espelho retrovisor. Os giros da noite são tranquilos. Para se manter atento, precisa de pormenores novos. Nessa noite havia um vapor a subir do chão como nos filmes noir de que gosta tanto. Além de engenheiro, jogador, segurança em boates e falcatrueiro num negócio de cerveja artesanal, podia ter sido um poeta vagabundo, como certas personagens dos livros que lê.

«Aquele descapotável estava nos meus sonhos há anos!». «Falas de quê?». «A bomba que vimos há pouco…». «O que tem?». «Eu desenhei-o, meu!». «Tu desenhaste-o?». «Tinha-o na minha cabeça há anos, acredites ou não!». «Arranca mas é, tío!».

O ar desinteressado, anafado, tolhido de frio, do espanhol, irritava Maxwell. A espécie humana pode ser tão ignorante. «Às vezes eu sonho coisas, vejo-as antes de acontecerem, meu! Percebes?». «Hombre, nos sonhos todos somos cegos…». «Essa é boa. Eu vejo coisas. Distintamente. E muito antes de se tornarem realidade!». «Prego a fundo, tío. Temos mais de meio setor por fazer!»

Nós, que assistimos a este diálogo, seremos benevolentes. Há pessoas com o dom errado. Nem por isso deixaremos de acreditar nelas.

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