Mario Jean

Depois de terminada no metro a leitura do romance Samarcanda, que lhe emprestara uma colega de curso, o estudante e admirador de arte antiga Filippo Zanutti não deixou de cismar um segundo no quanto a História nos cumula de estranhos episódios, nos quais, como pela boca de uma sarjeta (ele refletia sobre o naufrágio do Titanic), se escoam peças inteiras de puzzles intricados e agora, por causa disso, indecifráveis.

«É uma lástima que assim seja» pensou.

Saiu para a Piazzale, caminhou um pouco, depois entrou, como faz todos os sábados de manhã, no quiosque das flores, escolheu, pediu e pagou. Em seguida dirigiu-se para o Cimitero Monumentale. Entre todos os lugares de Milão, este era um dos mais interessantes.

«A morte pode ter uma casa decente. E nós podemos visitá-la como hóspedes educados» explicou Zanutti uma vez à florista, que o atendia cheia de curiosidade.

Ultrapassados os portões brancos, o universitário atravessava os corredores silenciosos e caminhava pelas veredas de cascalho, entre ciprestes e formas de mármore, até se abeirar de certa lápide, onde invariavelmente depositava o ramo.

A primeira pessoa a dar-se conta foi Alda Bianchi, viúva, zeladora e vice-presidente da Associazione Amici del Monumentale, que o fez notar aos coveiros, ao pessoal da segurança e, por fim, ao padre Maximiliano Fiore.

«Mas que mal pode existir nisso?» respondeu o sacerdote.

Ainda assim, fez por esclarecer a sua própria dúvida. Encontrou o jovem de cócoras, com um sorriso alheado, dispondo as flores junto à inscrição com o nome ADINA ROSSETTI.

«Meu filho, não pude deixar de reparar no teu extraordinário empenho. A nossa querida atriz tem em ti um admirador exemplar…».

Pondo-se imediatamente de pé, Zanutti mostrou-se algo embaraçado. Não lhe apetecia dialogar, menos ainda naquele seu refúgio, menos ainda com um padre. Escolheu as palavras com cuidado.

«Os gestos não devem ser desperdiçados, nem negligenciados. Gosto de homenagear.»

«Com certeza… Adina Rossetti foi uma mulher talentosa. Dizem, também, que a mulher mais bela da sua geração… Espanta é que um jovem de agora se interesse por alguém falecido há tanto tempo!»

O estudante de arte enristou a expressão.

«O tempo não devia enganar-nos tanto, padre… O senhor sabe perfeitamente que o que viveu ainda vive, viverá para sempre se assim quisermos… A beleza, como o amor, não morre…» replicou, comovido. «De outra forma, Cristo estaria morto!»

Perplexo, surpreendido pela audácia, o padre viu-o afastar-se. «De outra forma, Cristo estaria morto!» murmurou.

Alguém que tivesse escutado estas palavras, poderia com elas, sem dúvida, escrever uma boa história.

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