Foto: Péter Aczél
Foto: Péter Aczél

O louco deteve-se diante do maravilhoso Steinway. Tocado daquele modo, qualquer um de nós sentiria a mesma comoção. Era o terceiro andamento da Sonata 14, opus 27, de Beethoven. As lágrimas principiaram a balbuciar e a pele arrepiou-se-lhe num calafrio sincero.

O pianista no centro do plano parecia tomado pelo êxtase dos mártires. Esperava que a lâmina o degolasse a qualquer instante, podia jurar que a morte lhe pesava já sobre o ombro esquerdo, respondia-lhe com movimentos alucinados, como se pudesse viver de modo absoluto a vida que restava. Enquanto as teclas pudessem devolver o génio da composição, continuaria tocando e tocando.

O louco fez deslizar a arma, quase cego. Mal podia ver com o torpor das lágrimas. E quando se preparava para golpear a vítima, o realizador disse «corta». Num gesto de contrariado autocontrolo, o louco apertou com veemência o cabo do punhal e suspirou. Houve aplausos. A equipa de produção tomou o lugar. A maquilhagem foi retocada. Na mão o peso morto do objeto. O louco escutou as últimas recomendações. Sabia (sabia-o há muito) que a mão sedenta mais cedo ou mais tarde lhe não obedeceria. Berraram «Take 2». A música encheu de novo o grande salão romântico. Uma sombra percorreu as paredes. O louco deteve-se. Respirou fundo. A sonata quebrava as últimas moléculas de paz.

Diante do piano de cauda o louco deteve-se. Como a morte podia desoprimi-lo! Exatamente como o guião ditava.

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